JULIANA CUNHA

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Meu nome é Juliana Cunha e eu mexo com palavras (coisa que em princípio ninguém deveria mexer). Este site tem um pouco do meu trabalho, espero que goste.
SOBRE MIM

Sou repórter e tradutora freelancer. Trabalhei na Folha de São Paulo [2011 - 2013], na Revista Metrópole [2007 - 2009] e no Jornal A Tarde [2002 - 2007] e fiz freelas para o Estadão, para revistas das editoras Globo, Trip, Escala, Alvinegra e Abril, para agências como Remix e Possível e para birôs como o WGSN.

Estudo Letras na USP, onde faço pesquisa sobre o escritor americano J.D. Salinger. Antes disso, estudei design e um pouco de fotografia no Senac.

Tenho um blog chamado “Já Matei Por Menos” e dois livros publicados: “Gaveta de Bolso”, lançado em 2011, e “Já Matei Por Menos”, lançado em 2013. Tenho 25 anos e moro em São Paulo.
REPORTAGENS

Algumas das minhas reportagens publicadas em jornais e revistas. Para ler basta clicar nas imagens
TRADUÇÕES

- Tradução da reportagem “O comandante ianque”, de David Grann, para a revista piauí

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- Tradução do diário de viagem da repórter indiana Rema Nagarajan para a revista piauí

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- Tradução da reportagem “Jejum de espelho”, de Megan Conner, para a Folha de São Paulo

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- Tradução do conto “Da vontade de ter pelo menos três paredes erguidas antes d’ela voltar para casa”, de Dave Eggers, para a revista Cisma

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LIVROS

Gaveta de Bolso

“Gaveta de Bolso” é um livro interativo feito em parceria com a designer Ludmila Lima, em 2011. O projeto foi publicado pela editora Prólogo em papel de alta gramatura, cantos arredondados, ilustrações manuais e puro amor e orgulho para a minha pessoa.

O livro tem fragmentos de textos e convites para que o dono o complete. Você pode baixar o PDF completo e em alta resolução ou comprar o aplicativo para iPhone na App Store. Os 800 exemplares que fizemos foram vendidos em quatro meses. Atualmente, o livro físico está esgotado, mas em breve teremos uma segunda edição com versões em inglês e português.

Todo o material está protegido sob licença BY-NC-SA da Creative Commons, o que significa que qualquer pessoa pode usá-lo livremente desde que não tenha fins lucrativos.
Já Matei por Menos

“Já Matei por Menos” é uma coletânea de crônicas e posts publicados em meu blog homônimo entre 2007 e 2012. O livro foi lançado em 2013 pela editora Lote 42 com capa feita pelo artista mineiro Laurindo Feliciano. Ele pode ser comprado no site da editora ou em livrarias.
Caruru dos paulistas

Vermelha e com um saldo de três copos d’água nos últimos cinco minutos, eu estava bem satisfeita comigo mesma. Acabara de completar duas semanas comendo apenas comida indiana, feita por indianos, na casa de indianos, sem me recusar a experimentar nada e sempre limpando o prato. Eu amo comida indiana. O desafio, claro, é a pimenta, mas eu estava vencendo o chili verde e o chili vermelho, além da pimenta-do-reino que eles nem consideram pimenta de verdade, só um gostinho a mais.

Compartilhei meu momento de vitória com meus anfitriões e eles riram. Foi aí que entendi que esse tempo todo eles tinham me servido o caruru dos paulistas.Tratantes.

“Caruru dos paulista” é como chamávamos a comida baiana levemente falsificada — com menos dendê, leite de coco e pimenta — que minha avó fazia quando recebia parentes de São Paulo em casa. Eles passavam a viagem inteira comendo essa comida café com leite. No fim da estadia, levávamos os paulistas ao restaurante Yemanjá, onde até o café deve ter um pouco de dendê, e as visitas eram convidadas a ter suas dores de barriga no avião.

Insatisfeita com o tratamento café com leite, passei a comer com amigos, nos lugares onde eles vão. Não é fácil. Tudo que eles chamam de não apimentado é apimentado e tudo que eles chamam de apimentado é intragável. Coreanos e chineses também gostam de pimenta, mas na Índia a coisa beira o fanatismo. Acordo e tem pimenta no meu chá. No café da manhã uma das atrações são os biscoitinhos com pimenta. No almoço nem se fala: tudo leva pimenta e a dona da casa come pelo menos três pimentas vermelhas assadas. Inteiras.

Estou oficialmente viciada em lassi, gajar-ka-halwa e em remédios ayurvedicos para males randômicos.

Tanto em Ahmedabad quanto em Mumbai me hospedei e saí apenas com gujaratis. São todos vegetarianos e quase ninguém bebe. Gujarati é um estado que restringe bebida alcoólica. Aqui você completa sua maioridade alcoólica aos 40 anos. É quando ganha permissão para consumir dois litros de bebida por mês. Se quiser mais, volte aos 60, quando pode beber até quatro litros por mês. Tanta disciplina para ser um dos estados com maior índice de alcoolismo no país. Por causa da cota em litros as pessoas preferem comprar bebidas com o maior teor alcoólico possível. Assim, conseguem fazer drinques em casa e repartem com os parentes mais jovens. Completar 40 anos é ver sua popularidade aumentar drasticamente.

Leite é liberado. Comer carne e ovos é mais tabu que tomar vodca adocicada embalada em garrafas que parecem d’água. As pessoas me perguntam: “Você gostade ovos?”. “Gosto. Assim, normal”. “Ah, eu vou te levar num lugar onde você pode comer ovos”. Bem-vindo ao tráfico de ovos.

Em Mumbai, recebi a tarefa de levar o garoto de 11 anos ao curso de escrita criativa. Não fazia muito sentido considerando que era eu quem segurava na mão dele na hora de atravessar a rua. No meio do caminho, ele entrou num McDonald’s e implorou por um MacFish. Dei. Agora sou uma traficante de peixe. No mesmo dia,jantamos no McDonald’s com a família inteira. Ambos comemos sanduíches vegetarianos. Coitado, teve seu horizonte de possibilidades carnívoras resumido a um MacFish. Esse com certeza vai afogar a frustração na pimenta.
Nossa Martha Stewart

Nos anos 90, eu tinha um vizinha que fazia de tudo: uma dessas pessoas que fazem de tudo. Ela era dona de casa e os filhos dela pareciam muito mais ricos que a gente do tanto que ela fazia de tudo, decorava tudo, arrumava tudo. Minha mãe também fazia bastante coisa, é preciso dizer. Ainda hoje ela estofa as próprias cadeiras, cortando tecido, costurando e grampeando com aquele grampeador de cortina com o qual minha irmã já grampeou a barriga. Na época que ela não tinha barriga.

Mas essa vizinha era realmente um fenômeno na incrível arte do fazer de tudo. Ela era mãe de dois amigos meus: um menino e uma menina. Nossas relações se estremeceram no dia que ela nos dedurou – a mim e a minha irmã – por conta de uma bagunça tremenda que nós fizemos. Nós e os outros marginais do prédio, todos orquestrados pela minha irmã, que era tipo gangue das garotas way of life.

Não sei o que deu na pivetada naquele dia, mas a gente — se incomoda se eu ficar mudando de nós para a gente o tempo todo no meio do texto? — colocou terra em baldes de água e saiu tacando o terror (e a terra) pelos 15 andares de escada do prédio. Não sei o que deu na gente naquele dia, nunca entendi. Não era vontade de vandalizar, não. Era alguma outra coisa.

Pensando nesse dia, eu realmente acho apropriado o termo legal para criança: incapaz. Porque é isso mesmo, vai dizer? Um dia eu peguei o prato de ração da Laika, enfiei ovos, farinha, açúcar e fiquei viajando que eu era tipo uma super criadora de rações, tipo uma chef dos cachorros. E isso durou umas boas horas, até meu pai sair do cochilo eterno dele e perguntar wtf. Eu já tinha uns dez, 11 anos.

No dia do ataque às escadas do prédio, minha irmã deu um jeito de se safar justo quando o porteiro nos pegou no flagra. Ela me levou junto. Chegamos em casa, tomamos banho, ficamos bonitinhas vendo TV com a empregada. Os outros marginais foram obrigados a lavar a escada inteira. No dia seguinte, tia Mireide — era o nome da vizinha fazedora —, nos dedurou pra minha mãe. Ficamos um mês de castigo.

Acho que foi durante o nosso asilo na Sibéria que tia Mireide começou a fazer cestas de café da manhã. Vivíamos então a grande explosão das cestas de café da manhã. Não sei se a moda atingiu todas as regiões e classes sociais da mesma maneira, mas na minha classe e na minha cidade você era uma pessoa muito legal se desse uma cesta dessas de aniversário. Ainda hoje simpatizo com a proposta: uma espécie de café de hotel delivery.

Rapidamente, as cestas de tia Mireide começaram a ser disputadas do tanto que ela caprichava. Se tinha uma geleia, tinha que ter um laço ou alguma parada enfeitando a geleia. Isso em cada um dos milhares de itens da cesta. Tia Mireide passou a ganhar mais que o marido, que eu não lembro o que fazia. Ela era nosso exemplo de mulher empreendedora. Nossa Martha Stewart.

Ela morreu de câncer quando a moda das cestas passou.
Dano imaterial

Um medo de infância: que roubassem o carrinho de compras da minha mãe ainda dentro do mercado, quando ela se ausentava por muitos minutos, ficando a metros de distância da caça. A exclusão de itens na boca do caixa — alguns deles contrabandeados por mim — já havia me ensinado que até o extinto momento da sacolinha plástica as compras não eram tecnicamente nossas e que, se o carrinho fosse roubado por outro cliente, não haveria prejuízo.

Não haveria prejuízo em tese. O prejuízo era óbvio e sorria para mim. Veja todos esses pais solteiros, moças universitárias que dividem apartamento, peruas preguiçoas soltas por aí. Essas pessoas dariam dois dedos do pé e andariam eternamente mancando para ter acesso ao carrinho da minha mãe, com todas as escolhas calculadas que ela havia feito durante duas horas de idas e vindas pelos corredores do mercado.

O mercado está cheio de barca furada, de promoção que não compensa, de produto perto da data de validade, de elevado teor de sódio, de melão podre por dentro, de detergente diluído. Com movimentos coreografados, minha mãe conseguia reunir em um único carrinho tudo o que qualquer pessoa de bem poderia querer para aquele mês.

Ela sabia, por exemplo, que os publicitários organizavam tudo do jeito errado, de propósito para a gente comprar errado e depois ter que voltar para comprar certo. Sabia que os iogurtes da frente já haviam sido tirados e colocados na geladeira muitas vezes, era melhor pegar os de trás. Era meio óbvio que eu precisava defender o carrinho, ficar ali parada com armaduras imaginárias feito uma doida enquanto minha mãe gritava que era para ficar perto dela.

Aos 11 Harry Potter já havia desviado minha atenção do carrinho para Hogwarts. Ser órfão era legal e eu já não dava muita trela para as escolhas da minha mãe. Afinal, que tipo de pessoa compraria xampu para cabelo normal com tantas opções no mercado? Só ela. Eu jamais compraria um xampu que não prometesse me proteger de pelo menos três perigos dessa vida. Até hoje não compro.

Quando saí de casa, sete anos depois, gastei um quarto do meu borderô em um ferro de passar cor de rosa que nem vapor tinha. Era meu primeiro mercado. Minha mãe deu risada. Tenho esse ferro até hoje, questão de honra.

A cada roupa que eu manchava por usar o sabão errado ela dava risada. Já roubei alguns carrinhos de compra desde então. Tenho preferência declarada por moças magrinhas, de cabelo normal, curto, 30 e poucos anos, muitas sardas brigando por espaço em um nariz minúsculo.
Clint Eastwood

Minha tática no trânsito é como a minha tática na vida: sem capacete, sem luvas, sem sequer luzinhas piscando na bicicleta, deixo claro para a sociedade que se me tocar eu caio, estribucho no chão e, com alguma sorte, morro.

Temo pelos ciclistas muito profissionais. Com roupas de mulher gato e computador de bordo, eles parecem saber o que fazem. Acho perigoso isso, vai que alguém acredita. Frequentemente vejo os carros acreditarem: “ele sabe o que faz”, “esse é macaco velho”. E dá-lhe fina.

Acredito que minha aparência temerária afaste de mim os motoristas mais ou menos humanos, aqueles que até topam fazer o mal, mas também não fazem tanta questão assim. Aqueles que querem só dar uma fechadinha. Comigo não tem fechadinha.

Não tenho muito medo de ficar com rugas, a não ser que elas se organizem no meu rosto daquele jeito Clint Eastwood que supõe experiência. Também não tenho muito medo de engordar desde que as tortas de chocolate se abstenham de tomar aquela aparência flácida de quem um dia foi músculo. Ou de plástico bolha, vai saber.

Às vezes a minha casa me dá um pouco de desespero: somos todos muito muito brancos, muito muito magros. Não sei dizer se somos tão brancos nem tão magros quanto eu enxergo.
CONTEÚDO PARA INTERNET

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FOTOS

Fotógrafa amadora orgulhosa demais para não mostrar algumas das fotos que tirei
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