O professor e os cupins

Quando conheci Albergaria, em 2005, tinha acabado de sair da casa de minha mãe. Estava encantada com a ideia de ter uma casa. Ele ficava muito preocupado com isso. Achava que era importante não se fixar tão cedo, não ter um apego à casa. Antes de tudo, era importante não “juntar papel”. “Quando você junta papel, minha filha, aí que você não vai embora mesmo. Fica lá, lambendo os papéis”.

Como se fossem os papéis que o prendiam a Bahia.

Era 2008 quando minha casa no 2 de Julho, repleta de papéis, sofreu uma infestação de cupins. Albergaria me ensinou a lidar com os meus cupins do jeito que ele lidava com os dele. “Você compra umas estantes de ferro e deixa todas a um palmo da parede. Na minha casa fica tudo em estante de ferro, roupa, livro. Ao redor, os cupins fodem com tudo, mas não conseguem alcançar as estantes”.

O problema, dizia ele, era se você se descuidava e deixava um livro mal posicionado na prateleira, de modo a tocar a parede. Se fizesse isso, o livro funcionava como uma ponte e os cupins invadiam a estante de ferro.

Fui lidando com os cupins como me foi ensinado até o dia em que os bichos corroeram uma das portas, que despencou, e aproveitei a deixa para fugir de Salvador.

Quando soube da morte do professor, fiquei muito triste e me peguei pensando se a questão não seria que os cupins dele finalmente aprenderam um jeito de fazer a ponte até as estantes. Ou se foi ele que cansou de manter aquele palmo de distância entre o que há muito já infestava a casa.

PS: Aqui está um vídeo em que o professor aparece em casa, cheio de papéis cuidadosamente posicionados.

Bandeira 2

Nada marcado de hoje pra hoje vai ser bom pra você. Ser um pouco inacessível é uma virtude esquecida. Morar longe do metrô, numa ladeira. Idealmente, você mora a vinte minutos do metrô, num prédio de subida sem garagem. A caminhada é agradável, árvores formam sombras engraçadas pela calçada, os músculos da panturrilha repuxam um pouco nesse ângulo. Alternativamente, podemos trocar a ladeira por Santo André. Fica acertado que você mora em Santo André, bem na frente do ponto do fretado.

É preciso erguer algum tipo de proteção entre você e a ansiedade dos outros. Uma barricada absolutamente permeável, não me entenda mal. Você ainda precisa negociar alimentos com o outro lado, e água, jornais estrangeiros, às vezes uma conversa. Nada que uma internet pré-paga e um gato que precisa ser alimentado em Jaçanã não resolvam.

Nessa primeira etapa, seu sucesso será medido pela quantidade de “Ah, não, nada, agora já foi” que você escutar. Quanto mais “Ah, não, nada”, melhor.

Favor não confundir com uma torre, uma coisa assim mais principesca. Não resolve, e te coloca na mira de um outro tipo de ansiedade — fora o risco de você simplesmente não valer a viagem.

Fruta Gogoia

Em determinado momento convencionou-se que toda festa dos meus amigos de humanas termina tocando “Gal a todo vapor”. É ótimo porque, além de ser um ritual muito humanas.jpg, ajuda gente como eu, que sempre se pergunta se está incomodando, se o dono da casa já quer dormir, a ter paz de espírito. Virou um parabéns fora de época. Fica na sua, pega outra cerveja. Quando Gal berrar que é uma fruta gogoia você começa a agilizar o táxi.

Piano

Essas pessoas que fazem as coisas, que fazem todas as coisas, eu fico pensando se elas não gostam de alguém e ficam distraídas no trabalho, se não mudam de ideias, se não estão em vias de fazer o que iam fazer e daí lembram que piano é tão bonito, a gente devia aprender piano.

Reboladinha higiênica

Ano passado, perdi um amigo quando ficou claro que sair com ele significava passar sete horas com ele. Foi um dos meus primeiros amigos em São Paulo. Me ensinou a dizer que não gosto de poesia na Avenida Paulista. Depois a coisa avançou para não gosto de teatro, de crianças, de bichos, de água. Outro dia pensei em criar o Sem Parar das ONGs. Você compraria um broche que faria contribuições automáticas com as ONGs passantes de modo que elas não te cercassem com os pedágios de pedestres. Só ele daria risada disso.

Felipe me ensinou a usar o metrô sem causar distúrbios na sociedade, a minimizar o impacto da minha existência. Na catraca, me ensinou a reboladinha higiênica — com um lépido movimento de quadril, evitamos germes. Éramos amigos desde o Orkut, quando ele e a namorada tinham as melhores comunidades. No Orkut, as piores pessoas entravam na comunidade “Sou legal, não estou te dando mole”. As medianas entravam na “Não sou legal, estou te dando mole”, mas só Felipe elevaria o nível do debate fundando a comunidade “Sou mole, não estou te dando legal”.

Felipe prestava um vestibular diferente a cada dois anos, depois largava. Ia para Minas, voltava para São Paulo, mudava para Piracicaba. Eu achava bonito que nada na vida dele era constante, só a Jéssica. Eu adorava ele, mas sete horas…

Calculo que meu prazo de validade seja 2025. Depois disso vai ficar difícil conviver.

Encontrar as pessoas parece um sacrifício cada vez maior. Aquela meia hora antes de sair de casa e encontrar um outro ser humano.

Em eventos sociais, desenvolvi a estratégia de levar sempre o Jorge a tiracolo. Jorge é um tímido do tipo que teme o silêncio. Basta uma pessoa externa se aproximar que ele desata a falar e falar. É uma conversa surreal, estilo “redação tema livre” — assuntos desconexos se seguem, unidos apenas pela desinteressância. Em geral, a pessoa se aborrece e vai embora, sem notar que não dei um pio, agradecida por eu não ter somado linhas àquela balbúrdia.

Inserir novas pessoas na vida. Cuidar da postura diante delas. Aceitar o fato de que um dia ruim não é um dia ruim. Um dia ruim só é um dia ruim se adicionamos frequência. Para quem pouco se vê, para essas relações semestrais, cada dia tem o peso de um diagnóstico.

Dormir acompanhada.

Lidar com pessoas com as quais a própria permanência da relação não está garantida. Nenhuma está, dirão os explicadinhos. Mas algumas estão, ficamos com elas.

Para lá

Outra opção é deixar para lá. Deixar para lá sempre me parece uma boa opção. Não confunda com desistir. Deixar para lá é diferente de desistir. Tem mais a ver com um esvaziamento calculado do desejo. Desiste-se quando há desejo, mas não ânimo, ou condições. Deixar para lá exige um ânimo imenso para apagar o fogo.

Deixar para lá é mais difícil que conseguir, é o caminho inverso do conseguir. É conseguir para dentro. É se transformar na pessoa que não mais quer aquilo. Pense naquilo que você quer: é difícil não querer aquilo. Quem deixou para lá conseguiu, senão a coisa, ao menos ser a pessoa que sacode os ombros para a coisa.

Em defesa do taxista

Fico passada com esses relatos sobre absurdinhos que o taxista falou e com a solidariedade imediata com que esses comentários costumam ser recebidos. Coitados dos esquerdistas de classe média tendo que lidar com pobres que, veja a pachorra, não reproduzem a sua sensibilidade de classe, não leram os mesmos textos do Sakamoto que você leu (embora até o Sakamuito tenha um textinho complicado sobre “ser mais reaça que o taxista”. Dica: você já é mais reaça que o taxista. Seja iluminado o quanto quiser, se houver uma revolução, aposto mais fichas que o taxista homofóbico estará do lado certo do que eu ou você).

É de um classicismo (na acepção ruim da coisa) fodido. Vocês querem lidar com o Pobre Ideal, com o pobre que concorda contigo, que é agradecido por tudo de maravilhoso que vem acontecendo para ele, que repete a sua estética (mas não muito, sabe seu lugar), que mora na casinha de cal e usa a sainha de chita, que é digno, humilde e trabalhador.

Seu taxista fez comentários bizarros? Aposto que o médico também fez, assim como o professor, o chefe, o contador e, olha só, você. Mas claro que se a pecha de reaça desagradável tinha que sobrar para uma categoria, era de calhar que sobrasse para uma categoria de pobres com a qual você se vê preso num cubículo de quando e quando, e tem que ouvir ela falar um pouco.

Falar em comentário de taxista é como falar em cantada de pedreiro: as chances de você ter razão usando um termo (ou uma lógica) dessas são, tipo, nulas. Meça o alvo da sua indignação, parça.

Raisa

A garota mais bonita da minha sala do ginásio continua sendo a garota mais bonita de alguma sala e hoje faz ioga de casal com o namorado sarado. Poses atléticas se apoiando em músculos que a maioria de nós não possui, geolocation de resorts no Nordeste. Minha melhor amiga do primário é médica e noiva e tem o mesmo cabelo desde a alfa. Quando estávamos na quarta série, a revista das Chiquititas resolveu dar uma forcinha na criação de relações obsessivas entre as meninas e lançou um colar da amizade de brinde. Você partia o colar e dava a outra metade para sua melhor amiga. Por meses Larissa andava com oito pingentes na pulseira. A metade dela ficou comigo, que tinha uma franja errada e era a única da sala que já tinha feito recuperação. Desde então às vezes me sinto alvo de um amor imerecido e me encolho um pouco na cadeira.

Um dia minha avó estava bêbada e eu a ensinei a usar o IRC. Minha avó palestrou sobre Foucault a um ritmo freneticamente lento numa performance que por anos seria lembrada no canal #socialismo. O Scoop entrava lá. Houve esse momento na história da internet em que minha avó e o criador do Scoop Script debateram Foucault. Hoje eu estou um pouco bêbada e gripada e achei que isso devia ser registrado.

Meu melhor amigo do Partido colecionava medalhas soviéticas compradas na Benedito Calixto e dormia num quarto que parecia um acampamento estudantil permanente. Sempre tinha gente estranha hospedada por lá, gente que ele não sabia explicar de onde vinha ou quando ia. A primeira vez que vim a São Paulo foi para um curso de formação marxista na Serra da Cantareira, depois montei guarda no quarto dele e fiquei por uma semana. Às vezes, distraída na rua, ainda tenho relances daquela São Paulo que ele me apresentou: grande, cinza, misteriosa, a UJS numa esquina, a UEE na outra, um prédio ocupado mais adiante. Ele tinha uma namorada que eu detestava porque sempre interrompia nossas conversas nas noites de contagem de votos dos congressos. Meu melhor argumento contra ela é que tinha o mesmo nome da mulher do Gorbachev: Raisa. Hoje eu adoro a Raisa. No fim adoro qualquer pessoa com quem possa dizer que tenho uma história.

Havia uma segurança calma de que os vínculos e histórias viriam sempre, viriam com alguma regularidade. Eu adorava conhecer pessoas com as quais não simpatizava e fantasiar com o dia que certamente chegaria, o dia em que virariam novas Raisas. A garçonete que me dispensa um tratamento burocrático no restaurante da esquina, a menina do trabalho que olha o bloquinho enquanto me fala o essencial. Estão todas fadadas a se transformar em novas Raisas. Elas não sabem disso, não tenho pressa em informá-las.

De um jeito ou de outro os vínculos ainda vêm, mas a calma, ela foi embora. É fácil querer chamar essa calma de juventude, ou de ingenuidade. Hoje vamos chamá-la apenas de confiança, sim?

dormindo no sofá

o problema daquela etapa
em que enterramos o amor antigo
mas um novo não vingou
é que me pego te repetindo o nome por puro hábito
por ter um afeto sem objeto
vagando em círculos e voltando para dormir onde já conhece
revisito o amor e recorro na rotina
como quando vamos à igreja por turismo
e nos flagramos crentes por um instante
como quando, passeando no museu, vemos um sofá
e é preciso faixa amarela e alarme
para a bunda sozinha mesma não sentar
ali está um sofá onde não se deve sentar
e anos de aprendizado sobre a função de um sofá precisam ser momentaneamente esquecidos
substituídos por uma sabedoria funda de que há no mundo sofás de sentar
e sofás de olhar
há qualquer coisa numa cadeira que impõe um gesto
que fraqueja os joelhos e encomenda varizes
qualquer coisa num chocolate que não o permite dormir aberto
há qualquer coisa em você que requer que, com os dois olhos fechados,
um terceiro nos vigie, um pouco, o sono.

Valentina

Queria propor o nome Valentina como uma síntese da frustração das classes abastadas brasileiras. O casal que batiza a filha de Valentina sonha com princesas, mas não com qualquer uma. Sonha com uma princesa que se afaste — que os afaste — das Dianas e Grace Kellys, das Kathys e Sashas e Wanessas e Sandys que alastram pelos cartórios. Com uma princesa à brasileira, porém que reine somente sobre determinados CEPs.

Nada como o tempo para restabelecer a ordem. Não dá dois meses e nossa pequena Valentina vira Val, tal qual Valdecir e Valdirene e tudo que os pais pensavam ter superado com seu bom gosto onomástico.

Valentina é um nome bonito porque agarra pelo rabo quem correu para se afastar. Ela não está sozinha, mesmo nossas Julias, Fernandas e Carolinas no fundo são Val, somos todos Val. Bem diferentes no nome comprido, mas deliciosamente unificados na síntese, no Val.