Bye bye, so long, farewell

Imagine que estamos todos na cerimônia oficial de encerramento das atividades do Já Matei Por Menos. Este blog, que criei por volta de 2007, ainda no Blogspot, já passou por poucas e boas. Se mudou de Salvador para São Paulo junto comigo. Saiu do Blogspot para o finado A Postos, depois para um domínio próprio. Já me rendeu muito constrangimento familiar e social, especialmente em situações em que as pessoas perguntam: “Mas como é o nome do seu blog mesmo?”. Como todo blog, deve ter tido mais erros que acertos, mas ainda assim tenho muito carinho por ele.

Como sou adepta da limpeza esporádica de karma, acho que está na hora de limpar tudo isso para debaixo de algum tapete metafórico e virtual e recomeçar num outro lugar. Por isso fiz um blog novo. Ele se chama Nonada. Se você gostava do Já Matei por Menos, está convidado a conhecê-lo embora ele não seja tão parecido com o Já Matei por Menos e eu já não seja tão parecida com a pessoa que iniciou este blog.

Stay beautiful e obrigada pela leitura.

Xico Sá te abraça

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Caso se sinta incompreendida, Xico Sá te dará um abraço. Não se sinta feia, Xico Sá está aqui para te dar colo dizendo que macho que é macho não sabe a diferença entre estria e celulite. Macho que é macho liga quando promete, não enxerga rugas, é incapaz de notar que você engordou cinco quilos. O que são cinco quilos na grande ordem das coisas? O Homem de Verdade prega a imaterialidade dos cinco quilos. Com a cabeça nas grandes questões da humanidade ou na concretude do trabalho braçal, não consegue se ater a esse tipo de pequeneza.

É incrível a lista de itens cotidianos que um Homem de Verdade não enxerga, não compreende, não sabe diferenciar. Sua tolerância assume a forma de uma completa falta de percepção. Seus problemas, moça, suas inseguranças, não são fruto de processos históricos concretos, são apenas miragens. De repente você não é uma adulta que percebe o quanto a sociedade é exigente com você (especificamente com você) e que se frustra diante disso: você é uma criança, moça, uma criança boba vendo chifre em cabeça de cavalo. Tudo que você precisa é de um Homem de Verdade para lhe assegurar que seus fantasmas não existem, pois ele não pode vê-los. A lente da razão não pode vê-los, moça, por isso deixe de bobagem, deixe que seu homem te diga com que se preocupar, deixe que ele te separe por grupinhos e que te dê apelidos no diminutivo como “boterinha”, caso você seja gorda, ou “prozaquinha”, caso faça um gênero doidinha.

Xico Sá entende as mulheres. Xico Sá infantiliza as mulheres ao assumir a posição do homem que as entende. Porque é difícil entendê-las. Entender quem não sabe se expressar é uma arte que uns poucos homens sensíveis dominam. Precisamos desses porta-vozes para traduzir o que sentimos. Somos mulheres, somos só sentimento, não elaboramos as coisas, ou elaboramos mal. Precisamos de homens sensíveis que peguem nossos sentimentos confusos e transformem em conceitos inteligíveis, em regras de conduta. Precisamos que esses mesmos homens nos digam quais dos nossos sentimentos são legítimos e quais são paranoia.

Xico Sá pensa os gêneros como coisas tão separadas que, segundo ele, homens (de verdade) simplesmente não conseguem enxergar dados concretos expostos pelas mulheres. Homem que é Homem não vê celulite. A celulite é um dado da realidade. Pode ser fotografada, apalpada, tem aparência e textura definidas, tem classificação médica. É um depósito de gordura e tecido fibroso que provoca irregularidades na pele que o reveste. A celulite é ainda uma construção publicitária: surgiu enquanto problema na França, no começo da década de 1970, ápice do movimento feminista. Surgiu para lembrar as mulheres que você não deve tentar melhorar o mundo quando não consegue sequer melhorar sua bunda. Olhe para o seu próprio rabo. Lembre daquele provérbio que diz: quando pensar em mudar o mundo, dê uma volta em sua própria casa. Quando pensar em mudar o mundo, torne-se um neurótico enclausurado.

Celulites são furinhos, estrias são listrinhas. Muitos homens têm estrias já que elas são um rompimento das fibras elásticas que pode acontecer, por exemplo, durante um crescimento repentino na puberdade. Poucos homens têm celulite, é uma questão hormonal. Celulite é uma mesquinharia. Espíritos elevados não enxergam algo tão pequeno. Eu achava que em 2014 um homem normal era aquele que sabia exatamente o que era uma celulite, conseguia enxergá-la perfeitamente e lidava com sua existência do mesmo modo como eu venho lidando com os pelos nas narinas dos meus namorados desde que passei a ter namorados (e que eles passaram a ter pelos nas narinas). Eu não preciso glorificar o pelo na narina. Não preciso negar sua existência, tampouco dizer que nunca reparei. Não preciso dizer que não sei a diferença entre um pelo e um cravo. Homem nenhum vai me dar um biscoito e dizer que nunca encontrou uma mulher tão legal na vida caso eu diga algo assim. Eu lido com esses pelos. Eles permanecerão lá quer eu os ache nojentos ou lindos. Por isso eu não preciso achá-los nojentos. Nem lindos. E nunca me ocorreu que um homem pudesse ser desmerecido pelo que traz dentro do nariz. Porque eu fui ensinada a enxergar homens como pessoas, não como objetos. Isso não é um mérito meu, nem da minha educação familiar específica. Eu não enxergo homens como pessoas porque sou bacana, um espírito livre. Eu enxergo homens como pessoas porque isso é fruto do percurso que fizemos até aqui enquanto sociedade.

Homens que enchem a boca para dizer que adoram celulite, que curtem uns pelos, são idiotas condescendentes. O cerne do problema é justamente você achar que deve ter e expressar opinião sobre cada aspecto do corpo de uma outra pessoa. Melhor: de uma categoria de pessoas. Você não tem que opinar sobre isso. Se você tem uma preferência específica sobre um aspecto do corpo da mulher com quem está se relacionando, exponha isso para ela. Se tem várias preferências específicas, exponha isso ao seu analista. Mas não opine sobre como mulheres em geral deveriam manter seus pelos, ou sobre a relação que elas deveriam estabelecer com suas celulites. E não tente convencer um grupo de pessoas de que suas inseguranças formadas por décadas de discurso publicitário opressor são frescura ou futilidade. Fique na sua.

Não enxergar as coisas, não saber a diferença entre elas, não ligar para elas, nada disso é empatia, nada disso é mérito. E não é a empatia de um grupo historicamente privilegiado que vai impulsionar mudança alguma. Não é minha empatia pelos negros que reduz o racismo. Não é minha bondade ao “abrir mão de privilégios” que faz o bondinho da história andar. Não foram textos na internet ensinando o opressor a maneirar que nos trouxeram até aqui. Apoiar grupos minoritários é importante (e, em última análise, a única posição possível), mas sem a falsa ideia de que são os privilegiados que concedem algo aos demais. Podemos até nos esforçar para apoiar o oprimido, mas como sociedade o movimento é sempre na direção de manter o privilégio.

Tenho achado muito engraçados uns textos recentes sobre “como homens podem ajudar o feminismo” (spoiler: não podem). Uma das dicas costuma ser: “abrindo mão de seus privilégios”. Ninguém abre mão de privilégio. Ninguém quer ou mesmo pode fazer isso. Um privilégio histórico não é aquele ⅓ do apartamento de papai que você considera abdicar em favor do irmãozinho desajustado. Eu não abro mão de nenhum dos meus privilégios como branca: são os negros que vêm arrancando esses privilégios de mim, como tem que ser. Me ressinto quando vejo meus privilégios serem arrancados, fecho a mãozinha. Se fico caladinha é porque uma das conquistas do movimento negro foi fazer com que a exposição desse ressentimento fizesse de mim uma idiota no meu meio social. Eu posso perder coisas com isso, amigos, trabalhos. Então fico calada. Um dia, homens como Xico Sá também acharão melhor ficar na deles. Mas hoje não. Hoje eles são amigos das mulheres e expoentes da ala feminismo de boteco da imprensa brasileira. Posam entre as pernas de uma gostosa enquanto te asseguram que vai dar tudo certo, moça, inclusive aquele seu rolo com o demente que não vê celulite.

Aparelhos que se renovam

Diante do horror daquela foto do suposto assaltante preso ao poste com uma trava de bicicleta no Rio de Janeiro, lembrei de um conto de Machado de Assis chamado “Pai contra mãe” em que ele pontua o caráter estrutural da escravidão e suas consequências em todos os aspectos da vida social brasileira.

Logo no começo do conto, ele fala dos aparelhos e ofícios que entraram em desuso com a abolição, mas a foto do jovem acorrentado mostra que embora os aparelhos tenham entrado em desuso eles continuam sim muito úteis, tanto que estamos até adaptando outros objetos para cobrir esse filão de mercado. Machado também chama atenção para o fato de que a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e o cruel. Não é mais ou menos isso que os nossos amigos têm dito sobre esse episódio nos elevadores e redes sociais da vida? Mas por ser Machado de Assis e não um blogueiro opinativo ocupado com a onde de calor, com a filha de Woody Allen e com o jovem negro ao mesmo tempo, ele deu um passo além das nossas timelines e apontou para o jogo de contradições que não permite identificar uma [ou uma só] vítima na história. Por isso o nome do conto é pai contra mãe e nossos amigos que pedem a cabeça do jovem talvez sejam o pai, mas quem somos nós?

“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras”. [+]

[Pai contra mãe, Machado de Assis]

Beijo de novela

Verdade, ter dois homens se beijando na novela é um primeiro passo. Mas um primeiro passo rumo a quê? Rumo ao projeto de inclusão de quem e por quem? Em que termos essa inclusão se dará? O problema crucial dessas inclusões televisivas empreendidas pelas novelas da Globo é o achatamento das diferenças. Quando é tolerado na televisão, o diferente passa a ser igual. É assim que temos pessoas de todas as etnias, origens, rendas, religiões e até nacionalidades representadas em novelas, mas pensando exatamente como a classe dominante brasileira (ainda que seus pensamentos costumem ser uma mímese rasteira e simplificada dos pensamentos da classe dominante brasileira, que é para ficar mais “realista”, pontuada aqui e acolá por uma excentricidade desimportante só para dar uma cor local).

Os gays que se beijam na novela são dois atores heterossexuais, brancos, lindos, magros, discretos, masculinizados, ricos, cisgêneros que dão uma bitoquinha chocha e assexuada. Nada disso ajuda a lidar com as diferenças, só passa uma impressão infantilizada de que a discriminação é um capricho fruto de ignorância e que pode ser resolvida com Powerpoints e panfletos explicativos, e não um posicionamento político violento de manutenção de privilégios historicamente adquiridos.

A dificuldade em lidar com o diferente reside justamente no fato de que ele não é como a gente, é fruto de outra experiência pessoal, de outra experiência histórica, tem outros anseios, outro código moral, outras necessidades, insiste em pensar, agir, consumir, se relacionar, produzir cultura, se vestir, falar, votar, transar e criar os filhos de modo diferente do nosso. Produtos culturais que vendem a ideia de igualdade e homogeneidade não estão ensinando a sociedade maior a respeitar o diferente, estão ensinando o diferente a se moldar de um jeito que ele possa ocupar um espacinho delimitado na sociedade maior, que faz um grande estardalhaço para mostrar como é boa de alma por recebê-lo no quarto de hóspedes da vida em sociedade.

Troque seu beijo de novela por um beijinho no ombro e seja gay (ou gordo, ou pobre, ou negro, ou estrangeiro, ou nordestino, ou deficiente físico, ou do terreiro) em seus próprios termos.

Voltem para o armário

Li um artigo sobre como os blogs de moda estilo “blogueira de moda”, “look do dia” estavam ficando datados e sendo progressivamente substituídos por outros modelos como o blog de mãe (em que uma moça fala sobre o universo da maternidade bacana); o blog de Amélia (em que a moça fala sobre como arrumar a casa para uma festa, como servir uma mesa da forma correta, como redecorar 30 vezes o mesmo cômodo) e o blog de ginástica (blogueira fitness, um fenômeno que ganhou projeção muito mais rápido do que as blogueiras de moda jamais sonharam).

Esperta, diz o artigo, é a blogueira que fizer um mexidão e combinar isso tudo. Ou seja, esperta é a moça que permanecer com um pé na moda (terreno seguro e já explorado) enquanto aproveita para adquirir uma família e tonificar os músculos nas horas vagas.

O artigo não problematizava muito a questão, apenas constatava que as pessoas estão perdendo o interesse pelo esquema “look do dia” e que posts mais voltados para casa, família e estilo de vida têm feito sucesso. Isso talvez se deva a um envelhecimento do público que lê esses blogs ou das blogueiras em si (eu tenho essa teoria de que rico “envelhece” cedo. Rico aos 25 já tem casa definitiva, já casou ou está em vias de. Rico casa, para começo de conversa. Depois tem filho. O filho acarreta em mil processos que rendem posts, essas coisas). Uma “pessoa de humanas” comum não vê sua vida mudar tão drasticamente ainda na faixa dos 20, um rico já é outra pessoa, toda uma nova fase.

A perspectiva de ver a internet tomada por mesas de jantar, rituais familiares estapafúrdios e bebês me deixou um pouco saudosista dos fotologs e dos tempos áureos (2009?) das blogueiras de moda.

Falamos tanto em selfies este ano que eu não pude evitar pensar nas fotologgers que povoaram minha adolescência, mais especificamente na Marimoon, que é a única que eu ainda tenho notícias. Quase todas as matérias sobre a Marimoon no começo dos anos 2000 chochavam a garota por tirar muitas fotos dela mesma e por se “expor desnecessariamente na internet”. Hoje, cada um dos leitores e editores dessas matérias tem um Instagram (um fotolog moderno e menos criativo) e posta fotos com um geolocalizador que indica exatamente onde a pessoa está, onde ela mora. A expressão “eu sei onde você mora” como sinal de ameaça nunca fez tanto (e tão pouco) sentido: todos sabem onde todos moram.

As fotologgers foram (em certa medida e com um intervalo temporal considerável em termos de internet) substituídas pelas blogueiras de moda. As fotologgers eram incrivelmente mais legais do que as blogueiras de moda! Claro que não eram o modelo mais edificante que poderíamos ter, mas ainda era um fenômeno interessante. Para voltar à Marimoon, ela era uma menina normal, amplamente zuada na internet por motivos idiotas como ter nariz grande, ser vegetariana que usa bota de couro e se expor demais e que ainda assim fazia o que queria, costurava as próprias roupas, tirava fotos loucas. Hoje ela continua fazendo as mesmas coisas, nem aí para quem acha que ela não tem idade para usar aquelas roupas ou para ter aquele cabelo. Uma coisa que a idade me ensinou é que a consistência traz respeito.

Daí vieram as blogueiras de moda. Um retrocesso significativo pois trouxeram um apelo financeiro que não existia (eu pelo menos não sentia) em relação ao fotolog. O foco do fotolog era ser gatinho e descolado, não era usar a marca tal, frequentar lugares caros, tirar fotos em que sua casa de rico acidentalmente aparecesse no fundo. Mesmo quando havia um apelo de consumo, era por itens baratinhos da 25 de Março/Galeria do Rock (chora, Salvador).

Apesar do retrocesso, os blogs de moda eram melhores do que essa vibe mãe/esposa/maratonista que começa a dar o ar da graça. Porque o foco pelo menos era na garota em si, no ego dela, nas roupas dela (mas em algum nível ainda trazia um olhar para si, um empoderar-se, ainda que fosse um empoderamento do mais raso, que é o empoderamento através da beleza e do dinheiro). Porque é menos ameaçador ser interpelada a comprar sapatos do que a se encaixar em todo um modelo de vida coxinha e, francamente, muito chato. Porque o que se configura no horizonte é uma possibilidade da influência negativa desses blogs deixar de ser restrita ao armário e invadir a casa inteira. Uma casa chata, correta e muito, muito família.

É bom possuir

Uma das coisas mais deliciosas de se estudar literatura (ou apenas de ser um leitor atento) é pensar a obra de um autor como um sistema em vez de ler cada texto isoladamente. Ver os diálogos entre os textos, as retomadas dos temas, como o autor retrabalha imagens de um livro no outro.

Hoje o Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector, replicou no Facebook um post de anos atrás, de um blog da piauí sobre manuscritos (bem piauí ter um blog somente sobre manuscritos). O post traz um papel com a letra de Clarice escrevendo um trecho que acabou sendo cortado do livro “A Hora da Estrela”. O trecho diz: “Macabéa não sabia como se defender da vida numa grande cidade. Ela que tinha um sonho impossível: o de um dia possuir uma árvore. Que árvore, que nada: não havia nem grama sob os seus pés”.

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A árvore que Macabéa não teve lembra um dos meus contos favoritos de Clarice, “A Menor Mulher do Mundo”, em que Pequena Flor, a dita menor mulher do mundo, mora numa árvore para se proteger dos perigos trazidos por sua baixa estatura (no fim, árvores não são úteis apenas contra os perigos da cidade grande). Um dia, o pesquisador francês que está tomando notas de seus hábitos pergunta se ela gosta de ter uma árvore. Ela diz que sim e ele conclui o que já sabia: que “é bom possuir”, ou seja, que Pequena Flor é como “todos nós”, que “gosta de possuir”. Em uma frase tão simples e tão brutal ele iguala a experiência humana até da menor mulher do mundo:

“Pequena Flor respondeu-lhe que ‘sim’. Que era muito bom ter uma árvore para morar, sua, sua mesmo. Pois — e isso ela não disse, mas seus olhos se tornaram tão escuros que o disseram — pois é bom possuir, é bom possuir, é bom possuir”.

Sinceridade de classe

Há uns meses eu escrevi aqui no blog sobre duas figuras que, para mim, são muito mais pit bulls do elitismo do que os “colunistas de direita” que todo mundo conhece e identifica nesses termos, como Pondé ou Reinaldo Azevedo. Não coincidentemente, as duas figuras que eu havia citado eram mulheres — Nina Horta e Danuza Leão. De lá para cá, Danuza saiu da Folha, mas foi de certo modo substituída por Tati Bernardi.

Tati Bernardi é a nova Danuza. Os estilos são diferentes: Danuza trabalhava uma vibe senhora de família abastada que dá dicas aos mortais. Já Tati tenta chamar o leitor para o seu lado, convidando-o a se identificar com os absurdos que ela fala, que são naturalizados e vistos como “sinceridade”, “prontofalei”. Tati faz um trabalho ideológico muito mais bem feito que o de Pondé já que ideologia boa é ideologia naturalizada, que passa como senso comum. O próprio “nome artístico” que ela escolheu já colabora nesse projeto: enquanto Danuza escrevia olhando para baixo, Tati quer ser chamada pelo apelido, é nossa igual.

Quando digo que não coincidentemente todas essas figuras são mulheres é porque cabe à mulher, de quem não se espera um discurso de poder, fazer esse trabalho ideológico de formiguinha, construindo o pensamento conservador nas ações diárias. Não foi isso que Tati fez desde sua primeira coluna, quando tentou convencer as outras mulheres de que somos mesmo invejosas e fúteis e que a única possibilidade de discordância desse estereótipo é a hipocrisia?

A coluna de Tati Bernardi é a coluna de um homem, só que assinada por uma mulher. Esse é o papel dessa moça no jornal (e na sociedade): ela serve para veicular a opinião média masculina na voz de uma mulher, legitimando tudo que os homens pensam sobre as mulheres, sobre si mesmos, sobre o mundo. A coluna dela não faz sentido se analisada individualmente: ela compõe a base para que os colunistas homens brilhem, tanto os colunistas homens de direita, com seu machismo chique e refinado, cheio de referências intelectualizadas; quanto os colunistas homens de esquerda, com seu machismo cordial e “deixa disso”.

O leitor do jornal tem acesso à opinião dos colunistas de direita que acham que toda mulher é puta, à opinião dos colunistas de esquerda, sempre queixosos de que a sensibilidade tenha mudado e já exista quem questione a pureza de intenções desses “homens que gostam de mulheres”, e à opinião de, veja só, um exemplar da raça que vem a público confirmar as expectativas de todos e dar a real sobre O Que São As Mulheres e o que Elas Pensam da Vida.

O que uma mulher como Tati ganha? Reconhecimento? Ser vista como igual pelos colunistas homens de direita ou de esquerda? Claro que não. Tudo que ela ganha é um certificado de que ela não é chata. Ela sim é uma mulher sincera e engraçadinha.

Chama atenção a insistência em chamar mulheres de chatas. Chata aparentemente é tudo que uma pessoa feita para o entretenimento não devia ser. Mas algumas (e cada vez mais) são: veja se o colunista de esquerda, aquele mesmo que ama as mulheres, não tem todas as razões do mundo para se afundar na melancolia.

Esta semana, Tati nos presenteou com um texto em que critica jovens do meio “artístico” e editorial — roteiristas, publicitários, jornalistas, escritores — que trabalham de graça. Segundo ela, a culpa do mercado ser do jeito que é certamente é dessas pessoas.

Que tal usarmos a máxima “don’t blame the victim” em relação a esse texto que todos estão compartilhando como se fosse a expressão máxima da sinceridade? De quem é a culpa das relações de trabalho precárias no meio “artístico” e editorial? Na minha simplória opinião, a culpa é dos órgãos fiscalizadores das relações de trabalho (ministério, delegacias), que não cumprem seu papel; dos sindicatos inoperantes e dos trabalhadores mais experientes e estabelecidos que, em vez de se organizarem ou darem um mínimo de suporte moral aos iniciantes, simplesmente os tratam como “inexperientes e deslumbrados”.

Para essa senhora “madura”, a culpa é dos trabalhadores (opa, a classe média não gosta de se enxergar assim) que estão começando a engatinhar em um mercado viciado onde o sujeito passa de voluntário à freela fixo, faz uma breve e gloriosa estadia na CLT e — logo que começa a ganhar um salário mais razoável — é lançado pro pjotinha.

Claro, a culpa só podia ser do trabalhador. Se você for pensar bem a culpa da escravidão também era do negro. Sabia que durante o Brasil Colônia os escravos eram maioria? E nem assim revidavam? Quer dizer, eram muito otários mesmo…

Nem passa pela cabeça dessa moça que o poder real de mudar a situação esteja com os órgãos de fiscalização do trabalho (cadê a visita semestral aos jornais, revistas e agências de publicidade?); com os sindicatos e com os veteranos que, além de maduros, deviam arrumar um tempo para serem organizados e com um pinguinho de consciência de classe.

Do jeito que está, a única forma de um iniciante se inserir nesse mercado é aceitando trabalhar de graça ou em esquemas degradantes. Aliás, será que essa longa fase de voluntariado também não é um filtro para garantir que o meio “artístico” e editorial basicamente só tenha pessoas com origem na classe média? Será que isso explica em parte o notório branqueamento desses setores? Não, acho que não, acho que é mesmo tudo culpa de jovens de 20 anos deslumbrados por uma cadeira de design.

Almoço de firma

Hoje eu tive que almoçar na região da Paulista e fiquei enfeitiçada pelos diversos papos de firma ao meu redor. O Papo de Firma e o Almoço de Firma são duas entidades que me fazem evitar a todo custo almoçar na rua durante a semana, sobretudo em locais com Alta Concentração de Firmas.

O esquema é assim: dá a hora do almoço e os funcionários saem em bandos de cinco, seis, sete (?) pessoas, todas elas rumo ao restaurante mais detestável que seus salários possam pagar. Quando se vêem diante dos pratinhos, percebem que não têm porra nenhuma para falar umas com as outras e iniciam o Papo de Firma. Os tópicos variam entre a incompetência do supervisor, o suposto colega que não trabalha, eventuais bullyings com o vegetariano da mesa e as injustiças da vida. Em vez de fazerem uma greve, pedem um pudim.

O Almoço de Firma é uma das coisas que me fazem urrar de alegria por não ter um emprego. Confesso que essa alegria se abala um pouco quando vocês ganham o décimo terceiro salário e o Panetone da Firma, mas ela volta assim que surgem as primeiras fotos do Amigo Secreto.

Kalpan está 97% sortudo

Eu tenho esse amigo que é até bastante prolixo em e-mails, mas cuja única atualização no Facebook vem de um aplicativo chamado Luck Daily que te diz sua sorte do dia em porcentagens. Hoje, por exemplo, eu posso até estar estudando de madrugada, mas é reconfortante saber que, lá na Índia, Kalpan está 97% sortudo. Esse é seu melhor índice nas últimas semanas, embora seja justo acrescentar que Kalpan tem conseguido manter sua sorte sempre acima dos 80%.

Não sei dizer se meus dias são improdutivos ou se estou constantemente superestimando minha capacidade de trabalho. A impressão é de que estou sempre dois passos atrás do calendário e já meio ofegante enquanto ele passeia serelepe, pulando quadradinhos como quem caminha apenas pelas pedras pretas da calçada.

Meu ano se resume a uma sucessão de ótimas oportunidades que aparecem, me deixam alegrinha e depois somem sem dar muita satisfação. Me sinto uma dessas moças de seriados que surtam porque “ele não ligou no dia seguinte”. Sendo que ele, no caso, são as minhas oportunidades na vida. Os convites desconversados, as coisas que ficaram no ar. Aprendi com seriados que devo me importar se alguém liga no dia seguinte. Ainda não me vi em uma situação em que isso se aplicasse, mas talvez agora seja o caso.

O repórter apegado

O repórter apegado é uma figura digna de pena dentro do ambiente da redação. A vontade das pessoas é dizer para ele: “tá se achando artista? Vai virar escritor”, numa fúria digna daqueles usuários de transporte público que se irritam quando alguém reclama do calor ou da falta de espaço. “Quer ventinho? Vai de táxi”. A tréplica mais evidente é que, bem, eu até iria, mas me faltam certas condições.

O repórter apegado briga por vírgulas e chora porque a ordem de uma frase foi alterada de forma pouco lisonjeira. Alguns tremem quando um parágrafo inteiro é amputado (o que acontece simplesmente o tempo todo). Quando um amigo elogia seu artigo, o repórter apegado faz questão de ressaltar exatamente que frases e estruturas foram alteradas para pior em relação ao original. O amigo geralmente se arrepende do elogio e vai buscar um café. Uma vez, soube de um repórter apegado que abordou uma senhora lendo o jornal no metrô para esclarecê-la sobre a injustiça de certas alterações sintáticas. A moça disse que só estava lendo o horóscopo na página ao lado e mudou de lugar. Em seus sonhos mais audaciosos, o repórter apegado invade a redação logo após o fechamento e encomenda trocas para a gráfica: altera linhas finas, muda todo o direcionamento da matéria.

O comportamento certamente é mais comum em jovens, mas não sei dizer se com o tempo as pessoas ficam mais cínicas, mais evoluídas ou apenas tentam outra profissão. Talvez fiquem cínicas, evoluídas e virem editoras.

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