Ela também era míope

Existe essa Cidade onde que ninguém é autorizado a ser solteiro. Se você não tem um par, te mandam a um Hotel onde você tem 45 dias para encontrar alguém. Se não conseguir, te transformam em um animal da sua escolha. Cachorros são os mais escolhidos, por isso há tantos deles no mundo.

Para escapar desse destino, os solteiros têm duas opções: a primeira é fugir para a Floresta e se juntar a um grupo de solitários. A segunda é caçar esses fugitivos para aumentar sua estadia no Hotel. A cada solitário capturado, você ganha um dia adicional.

O protagonista de “The Lobster” (Yorgos Lanthimos, 2015), David (Colin Farrell), é um homem de uns quarenta e tantos que, após ter sido trocado pela mulher, vai parar nesse Hotel junto com seu irmão, um ex-solteiro transformado em border collie.

A princípio, a ideia do filme parece apenas engraçadinha. Uma espécie de queixume solteiro sobre a obrigatoriedade de ter um par transformado em ficção. Mas é mais do que isso.

Existe no filme uma centralidade do corpo da qual nem os solitários conseguem escapar. Dentro e fora do Hotel, os casais se formam com base em afinidades indiscutíveis, a maior parte delas físicas, como ter uma voz bonita, mancar, ser míope ou sofrer de sangramentos nasais. É o oposto daquele verso de Corneille, “o amor cria igualdades, não as procura”.

(Julien cita esse verso em “O Vermelho e o Negro” e li justo quando estava pensando em escrever sobre esse filme).

Na apresentação que os novatos fazem em seu primeiro dia no Hotel, as pessoas são instadas a declarar qual seria sua característica mais marcante, mas mesmo fora desse ritual institucional elas próprias recorrem a descrições fisicas desnecessárias como na cena em que John (Ben Whishaw) convida David para dar uma volta com ele e Robert (John C. Reilly) e imediatamente informa o número do quarto de cada um deles e sua respectiva característica (mancar, gaguejar), como se isso fosse parte fundamental de qualquer apresentação, e como se reduzir-se a esse tipo de característica fosse a coisa mais normal a se fazer.

Não confiando em outras formas de vínculo, os personagens se voltam a semelhanças físicas (na verdade, a defeitos físicos, a corpos que funcionam de modo semelhante). O nariz dele sangra e o meu também, isso assegura que temos algo em comum e torna a tarefa de buscar alguém uma mera empreitada de reconhecimento. Não deixa de ser uma cena de anagnosis irônica aquela em que a moça do sangramento nasal vê o nariz de John sangrando e faz uma cara de “então é isso”. Na cena seguinte, são um casal.

É como uma versão burocratizada daquele poema de Manuel Bandeira que diz “deixa o teu corpo entender-se com outro corpo / porque os corpos se entendem, mas as almas não”. Só que aqui os corpos não se entendem, eles apenas se agrupam de modo antierótico, como no sexo mecânico entre David e a mulher sem sentimentos em que ela incorpora a violência institucional do Hotel (o gesto da arrumadeira que levanta a saia e rebola sobre David apenas para despertar nele uma urgência física em buscar alguém) ao sexo do casal, deixando claro que seu o repertório de experiências se limita aos procedimentos do Hotel (algo que já tinha ficado aparente na cena da jacuzzi, quando ela imita literalmente o teatro do Hotel sobre o engasgo com a azeitona).

Há varias cenas em que os personagens se voltam ao corpo como garantia de verdade. A arrumadeira do Hotel usa o tempo que os homens levam para ficarem excitados como prova de que andaram se masturbando. Na Cidade, os guardas analisam os pés e as mãos de uma senhora desacompanhada para concluir que ela é uma solitária que vaga pela Floresta. Enciumado, David busca lentes de contato nos olhos de seu rival para saber se ele não é um míope disfarçado. Em uma conversa com a mulher do cabelo bonito, David diz que seu pai não era careca e que se ele ficar careca, pode fazer um transplante capilar. Ela responde que transplantes não funcionam e que genética não assegura nada. “Você não tem como comprar um bom cabelo, ou você nasce com ele ou não nasce”.

Parece haver aí uma crença numa verdade do corpo que é alheia a artifícios, o que é curioso numa sociedade tão regulada. Me lembrou uma notícia que li recentemente sobre um aplicativo de paquera que media seus batimentos cardíacos ao ver a foto de uma pessoa e te avisava se a sua reação àquela foto foi positiva, neutra, negativa ou super excitada. Achei triste a pessoa precisar de um aplicativo e de uma resposta física mensurável para saber se gostou ou não de uma foto de perfil, mas, pensando bem, é uma coisa que temos feito bastante, nos voltado ao corpo como se ele soubesse de coisas que nós não sabemos, como se fosse uma instância separada de nós.

Essa crença na verdade do corpo surge ainda nas roupas. No Hotel, todos os homens e todas as mulheres usam as mesmas roupas. Você chega no salão e lá estão vinte mulheres no mesmo vestido, vinte homens no mesmo blazer. Não há espaço para contornar o corpo com a personalidade ou com a habilidade.

Ainda que vários personagens pareçam notar o ridículo ou a violência das regras do Hotel e da Cidade, nenhum deles confronta a ideia de um “parceiro adequado” (suitable partner), nem a ideia de que essa adequação seria física. Até a escolha de animal feita pelo protagonista, e que explica o título do filme, é física. David escolhe ser uma lagosta porque lagostas vivem até cem anos, têm sangue azul como os aristocratas e permanecem férteis durante a vida toda. Além disso, moram na água, e ele nada bem.

A história mais triste talvez seja a de John, um sujeito mandado para o Hotel seis dias após a morte de sua mulher, que era “muito bonita e também mancava”. John passou a mancar depois de um ataque de lobos. Trocada pelo marido por uma mulher que tinha pós-graduação (enquanto ela própria tinha apenas a graduação), a mãe de John foi mandada ao Hotel, mas não arranjou ninguém, então virou um lobo de zoológico. O filho, então com 19 anos, sentia muita saudade e resolveu entrar na jaula dos lobos para abraçar a mãe.

John não encontra no Hotel nenhuma mulher manca. Ele até pensa ter visto uma, mas ela estava apenas com um o tornozelo lesionado e voltaria a andar normalmente em poucos dias. Então ele resolve se aproximar da mulher cujo nariz está sempre sangrando. Para isso, bate o próprio nariz na parede da piscina para fingir que os dois têm algo em comum. O truque funciona. Agora basta se mutilar desse jeito para o resto da vida.

David também não tem muita sorte: nenhuma das mulheres do Hotel usa óculos. Ele ensaia aproximações com a mulher do nariz que sangra e com a do cabelo bonito, mas a conversa não vai para frente. Uma outra moça, que está sempre comendo biscoitos, tenta abordá-lo e é repelida. Ela então se joga da janela. David aproveita esse momento para se aproximar da mulher sem sentimentos, com quem ele não tem nada em comum, mas gosta de mulheres de cabelo curto. Chega junto dela e diz que é inconveniente ter alguém berrando assim. Ela não o escuta e diz para conversarem em outro momento.

Mais tarde, a mulher sem sentimentos está numa banheira de hidromassagem. Ele pede para acompanhá-la. É então que ela finge um engasgo com uma azeitona para ver se ele tentaria salvá-la. Em uma das noites no Hotel, os funcionários fazem um teatrinho para mostrar os riscos da solidão. Um homem janta sozinho e morre engasgado. Em seguida, o mesmo homem janta acompanhado e é salvo do engasgo pela mulher. David entende que está sendo testado, até porque a farsa da mulher é uma citação literal do teatrinho do Hotel. Ele fica imóvel na piscina, com um ar entediado. Ela então se recompõe e eles se tornam um casal.

Ao contrário da mulher dos sangramentos nasais, que acredita na farsa de John, a mulher sem sentimentos desconfia de que David na verdade tenha sentimentos. O teste é brutal: ela mata o irmão dele aos chutes, depois vai acordá-lo para contar o que aconteceu. Ele até tenta fingir que não sentiu o golpe, mas não funciona e ela resolve entregá-lo à direção do Hotel. Fingir uma semelhança só para conseguir um relacionamento é uma infração passível de punição: te transformam no animal que ninguém quer ser. Que animal seria esse, não sabemos.

David consegue fugir do Hotel e se vinga da mulher sem sentimentos colocando-a na sala de transformações, onde ela será transformada num animal que também não é revelado. É só então que conhecemos a voz em off que narra o filme: uma das solitárias que vaga pela Floresta e que, logo saberemos, também é míope.

Ao chegar na Floresta, David é recebido pela líder dos solitários (Léa Seydoux), que lhe explica as regras do jogo e lhe dá um abraço desajeitado e sem convicção. As regras são um oposto simétrico das regras do Hotel. Se lá tudo era feito de modo a estimular que os hóspedes encontrassem um par, aqui qualquer indício de flerte é proibido e só se toca música eletrônica em discmans para não haver risco de parzinhos. Mas os solitários não substituem o vínculo amoroso por um vínculo social mais amplo. Pelo contrário: demonstrações de solidariedade são proibidas. Não há espírito de grupo, está mais para um bando de indivíduos que anda junto, mas cada um cava sua própria cova e não espere que alguém sequer te transporte até lá.

Assim como no Hotel, transgressões recebem punições físicas. Assim como no Hotel, não há espaço para situações mal definidas e todos falam com excessivo didatismo e exatidão. Ou você calça 44 ou calça 45, não tem 44/2. Ou é heterossexual ou é gay, não há uma opção bissexual.

Os solitários não são uma resistência, ou mesmo um grupo rebelde. Eles não parecem se colocar como uma alternativa ao par Hotel/Cidade. São apenas um grupo de fugitivos que é, inclusive, incorporado ao jogo do Hotel através das caçadas. O Hotel não parece temer os solitários, eles são parte do esquema, não uma opção a ele.

A única ação coletiva e organizada dos solitários que não visa estritamente a sobrevivência é um ato terrorista. Eles invadem o Hotel, tomam os casais como reféns e desmascaram o relacionamento deles. A invasão não visa salvar as pessoas que estão em seus dias finais e ainda não encontraram alguém, ou aquelas que estão na sala de transformação. Também não visa tomar o Hotel de assalto e mudar as regras do jogo. Tudo que eles fazem é ir até lá desmascarar a mentira dos casais sem colocar nenhum caminho alternativo àquela mentira.

David chega ao iate onde John e a mulher dos sangramentos moram com uma filha adotiva e conta para ela sobre as pancadas que ele vem tomando para fazer com que o nariz sangre. É expulso do iate, mas é previsível que depois disso o relacionamento fracasse. No quarto dos gerentes do Hotel, a líder dos solitários amarra a mulher e diz ao homem que ele pode dar um tiro nela para se salvar. Ele de fato dá o tiro, mas a arma não está carregada.

Um dia, a mulher míope e voz em off do filme (Rachel Weisz) ajuda David a escapar de Robert, que está caçando solteiros em seus últimos dias no Hotel. Para distraí-lo, David fala das vantagens de ser solitário, de como é permitido se masturbar, ficar sozinho, ouvir música, caminhar. A míope então consegue sedá-lo e pede um coelho como pagamento pelo favor.

O pedido de pagamento é uma forma de deixar claro que aquele ato não significa um laço entre os dois, mas o laço se forma do mesmo jeito. Eles começam um flerte e desenvolvem um conjunto de códigos gestuais para se comunicarem na frente dos outros. É engraçado notar que esse sistema, como prevê frases completas, é cheio de lugares comuns. Não são conversas, são mensagens, e lembram muito o tipo de frase que os casais recém formados dizem no Hotel quando anunciam sua união.

A líder dos solitários enfim descobre o romance entre os dois míopes e resolve punir a mulher, levando-a a uma clínica na Cidade onde ela é cegada. A desculpa é que estão levando-a para operar a miopia, mas para os fins desse romance, operar a miopia já seria o bastante para acabar com o vínculo entre eles. Quando descobre o que aconteceu, a mulher míope não se revolta contra as regras dos solitários ou contra aquele ato de violência. Ela só diz que poderiam ter punido a ele, não a ela.

A mutilação da míope não é feita na Floresta, de modo bárbaro, mas sim na Cidade, por um médico. É uma punição institucional, não uma agressão de bando. Também é interessante notar que para cada infração existe uma punição diferente. Se dois solitários se beijam, a punição é ter a boca cortada com uma navalha. Mas a infração entre os míopes está antes nos olhares e no código gestual do que no contato físico. Os gregos diziam que o amor entra pelos olhos.

No fim, David consegue matar a líder dos solitários, mas seu interesse pela ex-míope já não é o mesmo agora que eles não têm nada em comum. Ele pergunta se ela sabe tocar piano ou falar alemão, mas não consegue achar uma nova característica que os una.

Eles então fogem para a Cidade, onde David decide se cegar. Na cena final, os dois sentam em um restaurante e ele pede para ver algumas partes do corpo dela pela última vez. Não são partes erotizadas. Ele pede, por exemplo, que ela mostre os cotovelos, um de cada vez, de modo ritualístico. Ela pergunta se ele deseja ver a barriga dela, mas ele diz que lembra bem da barriga. Em seguida, David pega uma faca e vai ao banheiro para se mutilar. Tudo muito contido, tudo muito civilizado, mas pelo menos eles aceitam fabricar uma semelhança. 

 

 

 

Festa em piscina vazia

Uma família do Morumbi leva uma vida de conflitos apaziguados até que a filha da empregada entre em cena. ​Lançado em 2015, Que Horas Ela Volta? é uma espécie de fábula lulista perfeita. No filme, uma empregada que dorme no serviço e vive à sombra dos patrões começa a questionar a ordem das coisas quando sua filha passa no vestibular.

Val (Regina Casé) parece perfeitamente conformada com a vida numa casa com piscina no Morumbi. Empregada há quase vinte anos, ela viu Fabinho (Michel Joelsas), filho dos patrões Barbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli), crescer enquanto sua própria filha, Jéssica (Camila Márdila), era criada em Pernambuco por uma mulher chamada Sandra, que ninguém sabe se é parente ou babá da menina. O pai, embora mencionado, parece ter uma atuação secundária o bastante para ser desprezada.

A casa é grande e conta com a ajuda de empregados eventuais, como um zelador e uma faxineira. A função de Val é mais do que cuidar da casa, é atender a qualquer mínima demanda dos patrões, incapazes de pegar um copo d’água na geladeira.

A família vive num mundo em que a riqueza independe do trabalho. A renda do casal vem da herança do marido, um pintor precocemente “aposentado”. Segundo ele próprio, foi reconhecido rápido demais, o que lhe estragou o talento. A mulher trabalha com algo relacionado a moda, embora nunca apareça trabalhando e sua atividade seja posta de maneira bastante genérica.

Na única cena relacionada a trabalho, ela aparece dando uma entrevista para a televisão em que o que é ressaltado é seu estilo de vida, não seu trabalho. Na entrevista, pedem que Barbara defina o que é estilo. Ela diz que estilo é ser você mesmo. Esse é um bom resumo para a profissão de Barbara, e dos ricos improdutivos em geral. Algumas vezes são pintores, noutras trabalham com moda, mas sua verdadeira atividade é ser eles mesmos e ganhar algum em cima disso, seja simbolicamente ou fazendo o dinheiro girar entre outros ricos em ciclos relacionais estéreis.

Ainda que se dedique a uma atividade presumivelmente decorativa, Barbara é a única pessoa de ação na casa. A única que precisa ou se sente impelida a fazer algo para manter sua posição, seja através de festas, entrevistas ou corridas na esteira. Já os homens da casa se entregam ao lazer sem disfarces, quando não sucumbem ao tédio.

O esquema doméstico é tão bem estruturado que os conflitos parecem invisíveis. Essa invisibilidade é possibilitada por Val, que parece ter as regras do jogo entranhadas numa espécie de segunda natureza. Para não dizer que ela nunca cruza a linha da hierarquia, sozinha, no banheiro da patroa, experimenta um creme. Passa no braço algo que provavelmente é destinado ao rosto e faz uma cara de prazer e estranhamento.

A paz doméstica depende ainda da ingenuidade infantil de Val. No aniversário da patroa, por exemplo, ela compra um jogo de café para dar de presente a Barbara. A patroa recebe o presente com displicência e cuida para que fique “reservado para uma ocasião especial”. O tom usado é teatral e condescendente, como se falasse a uma criança. Mais do que isso: como se estivesse enganando uma criança na frente de outro adulto e fizesse questão de piscar para o adulto enquanto fala. O outro adulto, no caso, é a jornalista que está na sala, uma pessoa que, embora não pareça ser da mesma classe de Barbara, pelo menos é considerada como igual para os fins desse diálogo.

Qualquer adulto com um mínimo de traquejo teria compreendido a mensagem. A patroa detestou o presente, não considera aquele jogo de café digno de sua casa e espera nunca mais vê-lo. Val, no entanto, cai na conversa da ocasião especial e tenta usar o presente numa festa da casa. É repreendida no ato. Ainda assim, sua reação é antes de incompreensão que de humilhação ou raiva. Na sua generosidade simples, Val é um retrato perfeito da pureza popular que habitava o imaginário intelectual brasileiro até a década de 1980.

Mas a infantilização não é apenas de Val. Os patrões, sobretudo os homens, também são infantilizados. Val trata Fabinho como a um filho, retirados da equação todos os conflitos de uma relação mãe e filho. Sua rotina de adolescente difere muito pouco da rotina de criança. São os mesmos amigos, a mesma piscina como eixo central da vida. Fora uma camiseta de banda de rock, não há em Fabinho nenhum sinal de puberdade, algo que fica mais aparente com o surgimento de Jéssica. Postos lado a lado, os dois jovens da mesma idade parecem ter muitos anos entre eles.

Carlos também recebe, de certo modo, um tratamento de filho, com a empregada indo ao pé de sua cama para acordá-lo, por exemplo. O clima de conflito, ainda que velado, é mais aparente com Barbara. Aos homens cabe uma posição de quem está acima das miudezas domésticas e sequer repara nelas.

Um recurso que o filme explora bastante é o humor do subalterno. Quando Carlos vai à cozinha buscar um guaraná, Val o “repreende” dizendo: “o que o senhor está procurando na minha geladeira?”. O que ela quer dizer é “por que o senhor não me diz o que quer e eu te sirvo?”, mas isso é colocado como uma declaração de posse da geladeira. Ao estilo das piadas em que um homem chama sua mulher de “patroa”, brincamos com o que está longe de ser real.

Algo semelhante aparece na relação entre Val e os amigos de Fabinho, em quem ela finge dar broncas e ordens, sempre com um afeto maternal e um humor de quem reconhece seu lugar mesmo quando está aparentemente impondo autoridade.

A infantilização dos homens da casa culmina numa castração dos mesmo. Não há em Carlos ou em Fabinho uma faísca de pulsão sexual. Essa dessexualização parece ser parte fruto dessa infantilização, parte fruto da segurança modorrenta de gerações de vida ganha.

Mesmo a investida em Jéssica empreendida por Carlos parece assexual e desajeitada, antes uma imitação de como age um homem naquelas circunstâncias do que um movimento real. O que ele sente de fato parece ser uma atração instintiva pelo primeiro sopro de vida que surge naquela casa talvez desde sempre, algo que ele tenta elaborar primeiro numa insinuação cafajeste e adúltera, depois em um pedido de casamento patético e deslocado que cheira a pedido de socorro.

Val não tem vida pessoal. Mesmo os outros empregados —a diarista e o zelador da casa, a empregada da vizinha— parecem ter alguma vida pessoal. Val, não. Quando sai para o forró com a amiga, a outra encontra um par, ela permanece sozinha.

Os conflitos saem do armário quando Jéssica chega ao Morumbi. Do nada, a menina, que não falava com a mãe há três anos, decide se mudar para São Paulo para prestar vestibular na USP. Após um arranjo com a patroa, que sequer lembrava que Val tinha uma filha, Jéssica é recebida na casa. É a própria menina, no caminho do aeroporto, que anuncia que aquilo não vai dar certo.

Aparentemente, Jéssica não estava inteirada sobre condições de trabalho da mãe, e a pintava como mais rica do que ela de fato era. Essa frustração com a condição real da mãe nunca é superada e está na base de boa parte dos conflitos. De certo modo, a revolta de Jéssica é menos com as injustiças da relação patrão/empregado do que com a sua condição de filha da empregada.

Tudo que em Val era ingenuidade, em Jéssica vira cinismo. Ela parte de uma estratégia de literalidade republicana, fingindo não perceber a discrepância entre aquilo que é dito e aquilo que é presumido. Se dizem a Jéssica que ela é hóspede da casa, a resposta dela será “então é aqui no quarto de hóspedes que eu vou ficar?”. Se dizem que ela é igual, que sua mãe é da família, que a casa é também dela, é assim que ela vai agir, forçando a mãe a finalmente demonstrar um entendimento adulto e a patroa a lhe confinar ao espaço delimitado onde Val restringiu-se “por conta própria”.

Ao explicar as regras do jogo à filha, ao explicar, por exemplo, que, quando Eles oferecem algo que é Deles é porque têm certeza de que A Gente não vai aceitar, Val é obrigada a explicitar um esquema de coisas que foi se constituindo “naturalmente”. Essa explicação não é o bastante para que ela se volte contra o que ela própria está dizendo. Pelo contrário, Val defende o esquema de coisas que lhe possibilitou levar a vida, mas a partir daí ela já não tem a chance de tratar como natural um conjunto de regras completamente artificial.

Quando Val diz para Jéssica que ela parece ter vindo de Marte, essa é a melhor definição para a personagem. O problema de Jéssica é que ela parece ter sido criada em Marte. Em que parte de Pernambuco um ser humano de 18 anos precisa ter sido criado para ser tão alheio ao sistema de classes brasileiro? Que lugar de Pernambuco pode dar origem a uma filha de empregada doméstica que não compreende o universo da mãe?

A estratégia de Jéssica não é partir de uma posição de questionamento do poder, mas sim de uma posição de incompreensão do poder. Jéssica age como um elemento externo, uma enviada especial, uma correspondente internacional infiltrada numa casa brasileira.

Não existe um brasileiro vivente com dificuldades em entender Val, seus pensamentos, seu modo de vida, seu esquema de trabalho ou o que a levou a internalizar as regras do jogo. Ao agir como se não entendesse as coisas, Jéssica obriga os personagens ao seu redor a serem despudoradamente claros.

Esse recurso, embora interessante, dá ao filme um tom excessivamente didático, que soa cansativo em cenas como aquela em que Fabinho e Jéssica molham os pés na piscina. Pouco antes, Jéssica havia entrado na piscina, jogada pelos amigos de Fabinho. Logo após o episódio, Barbara decide trocar toda a água da piscina alegando ter visto um rato por ali. Fabinho conta a história do rato para Jéssica, que diz com todas as letras: “eu acho que o rato sou eu”. Fabinho desconversa e segue seu teatro de menino ingênuo.

O embate entre Val e Jéssica dá a entender que tudo que falta a Val é uma postura mais altiva. Fosse ela mais confiante, se impusesse mais e aquele esquema doméstico nunca teria se armado. Falta a Jéssica a consciência de que ela é fruto das vitórias da geração de Val, e de que o patrão ganha poder em contextos em que o trabalho vale menos, como valia na época em que Val entrou naquela casa.

Enquanto a geração de Val elegeu Lula e possibilitou que sua filha não fosse doméstica, Jéssica integra a geração por ora derrotada. A geração que não foi capaz de superar o lulismo, viu o programa de “disputar o governo por dentro” ruir e agora assistirá a política de redistribuição de renda via ação assistencial do Estado ser rapidamente achatada pela crise. No momento em que Que Horas Ela Volta? foi lançado, o trabalho doméstico já tinha voltado a crescer no Brasil, após anos de retração.

A escolha de Regina Casé para o papel de Val parece acertada na medida em que a atriz é uma figura símbolo da conciliação que marca a Era Lula. Lula é uma figura da conciliação, um sujeito que bebia um uísque com os patrões da fábrica e uma cachaça com os operários, um presidente que tentou promover um ganha-ganha, um governo onde os ricos nunca lucraram tanto e os pobres nunca apanharam tão pouco, algo de que ele se orgulha ainda hoje, em discursos recentes.

A diretora do filme, Anna Muylaert, disse que se inspirou em O Som ao Redor para fazer esse filme quando, na verdade, ela fez o caminho oposto. O Som ao Redor é uma crítica do lulismo feita a partir da esquerda. Que Horas Ela Volta? é uma celebração deslocada do lulismo numa época em que ele já ruiu enquanto projeto.

Os conflitos da história se dão apenas entre as mulheres. A posição dos homens é tão garantida que eles não precisam se rebaixar a negociar com a filha da empregada os limites da relação. Quem faz isso é exclusivamente a patroa, assim como é somente ela quem precisa competir com a empregada pelo amor do filho.

Até a disputa pelo “sorvete de Fabinho” é uma disputa entre Jéssica e Barbara. O próprio Fabinho dorme o sono tranquilo dos que sabem que, de um jeito ou de outro, seu sorvete será assegurado.

A escolha de Jéssica pela USP é interessante. Tida como a melhor universidade do país, a USP é das poucas instituições públicas que não trabalha com sistema de cotas nem aceita ENEM, dois fatores que prejudicam, um bocado intencionalmente, o ingresso de pobres e de pessoas de fora do estado de São Paulo.

Se por um lado a escolha da USP rompe com a literalidade da fábula lulista uma vez que cotas e financiamentos estudantis em universidades privadas foram os dois grandes meios pelos quais os governos petistas conseguiram assegurar a entrada de uma massa de pessoas sem nenhum antecedente familiar de estudo universitário no ensino superior, por outro essa escolha enaltece um elemento importante tanto para a personagem quanto para o filme: a ideia do mérito.

O curso que Jéssica escolheu, Arquitetura, é um dos mais elitistas, com aulas em tempo integral e concorrência feroz, ingredientes importantes para o bolo meritocrático.

A possibilidade de Jéssica cursar essa universidade é questionada a todo momento. Tão logo a expectativa é posta, a mãe diz que não vai dar tempo porque já passou o período de inscrição. A menina explica que já se inscreveu pela internet. A cada nova pessoa que é informada sobre o projeto, surgem mais questionamentos. Se a escola dela era boa, por que Arquitetura, se ela sabe desenhar. Mesmo depois do vestibular, quando Jéssica faz uma quantidade impressionante de pontos, Barbara faz questão de lembrar que aquela foi só a primeira fase do processo seletivo. O mundo está constantemente exigindo as credenciais de Jéssica, que são recebidas ora com espanto, ora com descrença.

Parte importante dessas credenciais é mostrar seus conhecimentos arquitetônicos, quase sempre voltados para os marcos modernistas do país, como o edifício Copan, sonho de coabitação entre as classes, e o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, erguidos pelos arquitetos comunistas Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. Só que, no contexto do filme, esses símbolos modernistas são esvaziados de seu sentido original e representam tão somente uma forma pela qual a menina pobre demonstra circular bem pelos assuntos da elite. Desse modo, Copan, FAU e até o prédio da Sudene —única menção ao Estado no filme— viram mero repertório da pobre talentosa rumo ao seu projeto de ascensão individual e meritocrática.

Um diálogo que reforça a impressão de que o interesse de Jéssica em arquitetura é seletivo e instrumentalista é aquele em que, passando de ônibus com sua mãe pelo Largo da Batata, Val lhe fala sobre a reforma recente da praça e como aquilo, em sua opinião, prejudicou o uso popular daquele espaço. Diante desse comentário, nem traço da empolgação que a moça apresenta para comentar prédios famosos e mostrar que “entendeu” a decoração da casa dos ricos.

Já da parte de Fabinho, não sabemos sequer o curso que ele escolheu, assim como, mais tarde, não saberemos que raios ele vai estudar na Austrália. Mesmo diante do fracasso do garoto no vestibular, Val diz: “Ficou nervoso, né? Sabia de tudo.”

Barbara, por sua vez, diz que o filho pode estudar mais no ano seguinte. Essa sutil repreensão é mal recebida. Fabinho compara sua mãe a Val, para quem sua inteligência é um dado a priori e incontestável mesmo diante do baixo rendimento (vale ressaltar que o garoto não foi apenas reprovado em um processo que é de fato concorrido, ele fez uma pontuação notavelmente baixa).

O que Fabinho vai estudar de fato não importa. Seu futuro com uma profissão meramente cosmética ou fortemente baseada em relações pessoais parece assegurado. Sua postura anti-intelectual e alheia ao estudo encarna ainda a cobrança decrescente de que os ricos brasileiros apresentem pelo menos um verniz de erudição.

(Eu diria que hoje as únicas coisas capazes de atrapalhar as credenciais de um rico brasileiro entre seus pares seriam não falar “inglês fluente” e não ter passado seis meses em qualquer país estrangeiro fazendo rigorosamente qualquer coisa, incluindo nada. Para todo o resto há perdão automático. Digamos que a ida de Fabinho à Austrália já cumpre tudo que se espera dele.)

É somente com a notícia de que Jéssica fez muito mais pontos do que Fabinho e, ao contrário dele, passou na primeira fase do vestibular, que Val passa a ver sua filha como algo além de um problema a ser resolvido. A partir daí, ela passa a estar definitivamente do lado da filha, assim como os afetos do público tendem a mudar, migrando de Val para Jéssica. Os laços entre Barbara e Fabinho também parecem subitamente fortalecidos.

É depois dessa notícia que Val tem sua cena de consagração em uma piscina vazia, onde ela entra para molhar os pés. A cena é bastante triste: é noite, a casa está vazia, ela está inteiramente vestida (a camiseta que usa é de um time de futebol americano, presumivelmente uma roupa velha de Fabinho) com uma água que não chega aos joelhos, fazendo um teatro de subversão para agradar a filha.

No fim, Fabinho vai para a Austrália e Val se demite para cuidar de Jéssica e de seu neto, que está em Pernambuco, com a mesma Sandra que criou sua filha, completando um ciclo de maternidades terceirizadas. O plano da ex-doméstica é virar empreendedora: quer ser massagista ou vender potinhos de crochê. A imagem do pobre empreendedor já havia sido sugerida antes: o primeiro apartamento que Jéssica e Val decidem alugar era um salão de beleza doméstico, com cores estranhas e aspecto deslocado.

O filme não idealiza os laços de solidariedade na periferia. Ao contrário de Casa Grande e na esteira de filmes como Branco Sai, Preto Fica, Muylaert fala de uma periferia dominada pelo individualismo e pelos contratos, como fica evidente no diálogo com o proprietário da primeira casa que elas tentam alugar.

O projeto de Jéssica também é individual. Seu incômodo não parece ser com a opressão de classe ou com o trabalho doméstico em si, mas com a falta de meritocracia e com o lugar que ela ocupa na ordem das coisas. Não busca soluções coletivas nem se enxerga como “vanguarda”. Seu modelo não é o das cartilhas da velha esquerda, é exemplar. Eu vou por aqui, se vocês vêm também me é indiferente. Não perde tempo tentando “educar” ou convencer a mãe ou os outros trabalhadores. Quando Val comunica que se demitiu, a pergunta é: “e agora, vai fazer o quê?”, no singular, cada um responsável por si. A resposta: “eu dou meu jeito.”

A conciliação encontrada no fim do filme é afetiva e familiar, com a família como núcleo de suporte e ajuda mútua. Num mundo sem solidariedade de classe, sobram os vínculos regressivos. As personagens se voltam para um projeto de família e tentam construir algum tipo de afetividade a partir daí. Jéssica chama Val de mainha pela primeira vez quando ela se propõe a cuidar do neto. O arranjo familiar parece ser a melhor chance das personagens, sobretudo de Jéssica, conquistarem seu objetivo de realização pessoal.

Na última cena do filme, mãe e filha tomam café pela primeira vez na casa nova. Val exibe seu famoso jogo de xícaras, presente desprezado que ela apresenta à filha como “roubo”. O suposto furto é festejado. Assim como soube agradar os patrões, Val agora sabe como agradar a filha, com entradas em piscinas vazias e roubos do que a patroa não quis. Sobre o jogo de xícaras, a ex-doméstica diz: “é tudo diferente, o preto no branco, o branco no preto. Que nem tu. Moderno”. No segundo seguinte e sem que tenhamos acesso a quem trocou as xícaras e os pires, já está tudo preto no preto, branco no branco.

PS: Fiz esse texto para apresentar no meu grupo de estudos na USP. Depois disso, incorporei alguns comentários dos colegas. O nome do grupo é Formas Culturais e Sociais Contemporâneas.

Perfeitamente bem

Existem basicamente duas formas de superar a lembrança de alguém. Uma é pelo método da extração, a outra pelo método da incorporação. Na extração, naturalmente, você tenta retirar os resquícios da pessoa. Um livro pela casa, um filme que viram, um lugar. É muito útil quando o lugar é sua própria casa porque casas e bairros, você perceberá no processo, são extremamente descartáveis. Pode ser exaustivo no caso de histórias mais longas e antieconômico se aplicado a sucessões de histórias curtas, portanto eu sugeriria que você se mantivesse nas médias. O importante aqui é que a técnica é reconhecida e funciona perfeitamente bem.

O método da incorporação é mais curioso e, num primeiro momento, talvez soe pouco intuitivo. Uma vez tendo falhado em ser o que a outra pessoa queria, o neurótico pode se concentrar em ser a outra pessoa. Despudoradamente, você passa a fagocitar tudo que te interesse no outro de modo que aquilo passe a ser você e, ao ser você, deixe de te interessar. Não é exatamente esquecer, é banalizar. Essa é uma técnica menos reconhecida pela comunidade científica, mas que também funciona perfeitamente bem.

Greyhounds são mais velozes

Escolher um cachorro é escolher também as perguntas que você vai responder pelos próximos doze anos. Ele só parece bravo, o focinho é assim mesmo, até dois anos eles destroem bastante, depois melhora, parece mágica, essa é a raça que deu origem ao pit bull, mas são bonzinhos, as coisas ficam tranquilas quando o ser humano se mete menos, quando falta o ar você aperta assim, na base do nariz, esse é o golden, labradores têm pelo curto, tem uns seis anos, é difícil saber, no verão a gente tosa, as patinhas ficam para fora mesmo, ele parece um pato, deve ter algo de cocker nessa mistura, pouca gente tem poodle hoje em dia.

Gosto de responder: a comida é liberada, chegam a 80 quilômetros por hora, sim, muito dóceis.

Incomoda: tem pouco pelo, mas cachorro é cachorro, ele mora em apartamento, passeia duas vezes ao dia, eu trabalho fora, ele fica bem sozinho (inventário dos seres vivos que ficam bem sozinhos: betas, alguns gatos), eu sei quando meu cão está com frio, na verdade, greyhounds são os cachorros mais velozes.

Perto da ação

Hoje eu mandei um email para um ex-professor tirando uma dúvida sobre parâmetro pro-drop. Parâmetro pro-drop: em algumas línguas, você tem como suprimir um pronome quando ele pode ser inferido no contexto, em outras não. No português: sim. Inglês: não. Inglês: cada vez mais sim, por conta de aloprações dos falantes. Português: cada vez mais não, também por conta de aloprações dos falantes, que vão abandonando o uso de casos verbais inteiros.

Discutimos um pouco por email, ele foi mais simpático do que eu me lembrava em sala de aula, encerrou frases com kkk. Ele estava certo, eu errada, mas ele encerrava com kkk.

Um mês antes, mandei um email para um outro professor, tentando lembrar o nome do linguista que falou sobre como, antes de abrir a boca, o falante precisa esquecer que tudo já foi dito. Tudo já foi dito: você esquece, por isso fala. O conhecimento pleno encerraria qualquer possibilidade de diálogo. Ele não me respondeu, nem consegui lembrar sozinha.

Outro dia um amigo postou uma citação que dizia: “não saber do que se fala é uma grande vantagem, da qual não se deve abusar”, ao que eu respondi que éramos jornalistas justamente para ampliarmos nossa cota disso aí. É uma das coisas que vou sentir falta no jornalismo, quando ele terminar pra mim, mas hoje não saberia dizer se isso realmente me importa ou se é apenas um ambiente viciante para mim.

Aquilo que Seinfeld diz sobre homens em volta de um sujeito consertando o carro, fazendo algum trabalho manual. Eles querem ajudar? Querem fazer? Não, eles só querem estar ali, perto da ação. Por muito tempo eu olhei com incompreensão para jornalistas que faziam carreira em atividades francamente abestalhadas. Não podiam fazer algo menos estressante? Mais bem pago? Menos inseguro? Sem plantão? Eles não estavam fazendo nada que valesse a pindaíba dessa atividade, por que continuar? Porque querem estar perto da ação, seria minha resposta atual.

Mistress America, Frances Ha

Não sei exatamente por que assisto a todos os filmes de Noah Baumbach se o único realmente bom é A Lula e a Baleia. Fora ele, tenho alguma afeição por Frances Ha e acho os outros medíocres, mas é de Deus.

O mais recente, Mistress America, é uma espécie de continuação de Frances Ha. As personagens são outras, mas ele segue na proposta de mostrar problemas em uma relação entre duas garotas. Na verdade, o que menos importa é serem duas garotas. Ambos os filmes são sobre a dificuldade de estabelecer vínculos num mundo de relações fugidias. Só que em vez de se voltar para namoros, casamentos, aquilo que todo mundo já sabe que azeda, ele lança esse mesmo olhar da fragmentação para as relações que ainda vemos como sólidas. Em Frances Ha, a amizade. Em Mistress America, uma tentativa de família.

Frances é uma aspirante a dançarina que enxerga a melhor amiga e roommate, Sophie, como uma espécie de reserva afetiva em uma Nova Iorque fria e hipisterizada em que as relações são comodificadas até o talo. Aguentem uma análise FFLCH porque é o que a casa tem pra servir.

A comodificação surge em diversos pontos do filme. Frances e o namorado terminam durante uma negociação sobre aluguéis e gatos. Ele quer morar com ela, mas não como um projeto romântico: quer ter alguém para dividir o valor e o cuidado com os dois gatos que deseja comprar, e que trata como mercadoria o tempo todo. Já ela quer renovar o contrato de aluguel com a melhor amiga. Os dois rompem em um diálogo em que ela se oferece para pagar por um dos gatos e ressalta que o valor de mercado dele vai ficar prejudicado sendo um “solteiro com dois gatos”. Depois, numa conversa com a amiga, Frances avalia o ex em termos de performance, quantidade de sexo obtido, repetição.

O rompimento com o namorado não é nem um pouco traumático porque a relação real de Frances é com Sophie. É para ela que Frances pede “me conte a história da gente” (uma história em que as duas são bem sucedidas, têm amantes e não maridos e são invejadas por todos), é com ela que divide a vida.

Na maior parte das cenas entre as duas, Frances está de corpo presente enquanto Sophie está com a atenção dividida. Enquanto Frances lê alto para a amiga, Sophie fica no celular. Enquanto Frances faz basicamente qualquer coisa física e presente, Sophie abre uma janela para fora dali. Em dado momento, Frances reclama disso, com algum humor. A amiga responde: meu celular não deixa a louça na pia por semanas.

Num ambiente de trabalho competitivo e precarizado —aos 27 ela ainda está tentando numa profissão em que a validade dos corpos é baixa—, num contexto em que relações amorosas duram (e significam) cada vez menos, parece muito esperto da parte de Frances depositar sua lealdade na amizade, um laço aparentemente menos perecível que os demais.

Um pouco mais bem-sucedida do que a amiga —ela é editora-assistente numa grande editora— Sophie, tem outros planos e, pouco depois do fim do namoro de Frances, avisa que quer se mudar para outro apartamento, com outras pessoas, num lugar que a amiga não pode pagar. O aviso é feito no metrô e Sophie precisa dar resposta sobre o apartamento no mesmo dia. Ela nem se incomoda em fingir que as coisas são de outro modo: os argumentos fornecidos são “o apartamento é ótimo”, “é a rua onde eu sempre quis morar”.  A própria Frances não consegue externar descontentamento afetivo com a situação. Os argumentos que ela usa não são “mas somos amigas, mas você está me trocando por um apartamento”. Ela apenas diz que a amiga precisa arcar com o aluguel das duas até o fim do contrato. Não há espaço para uma exigência afetiva, só para exigências contratuais. Como diz um amigo meu, hoje em dia é tudo os indivíduos, os contratos e vambora. O contrato das duas, no caso, não é renovado.

De um turno, Frances fica sem casa (ela não pode bancar o apartamento sozinha), sem namorado e sem amiga, já que Sophie não apenas muda de casa como desaparece de cena, deixando claro o aspecto circunstancial da relação. A amizade das duas era relativamente longa: tinham feito faculdade juntas, moravam juntas. Mas circunstâncias também podem ser longas.

No apartamento vazio, a falta de Sophie ganha uma dimensão material. O único protesto de Frances depois da separação também se dá materialmente: liga para reclamar que ela levou embora uma chaleira que as duas compraram juntas. “We bought it together, remember?”. É o vínculo que tem pra hoje.

A perda de Sophie é seguida de uma busca pelas coisas perdidas: os elos, o lar. Frances vai morar no quarto menor do apartamento de dois garotos ricos. Basta uma noite boa, um jantar em que ela própria faz todo o esforço afetivo, cozinha, dança e tenta agradar, pra Frances se encantar com a idea de uma amizade de sitcom. Quando Sophie finalmente reaparece para um breve encontro entre um compromisso e outro, acha a casa de Frances muito autoconsciente. Ela rebate dizendo que é tudo ótimo e que ela e os roommates possuem a tal amizade de sitcom.

Não tem uma tentativa de contato humano no filme que não seja mediada pelo dinheiro e pelo consumo de experiências. Num jantar com um dos amigos ricos, Frances quer pagar a conta, mas o restaurante só aceita cartão de crédito: “Não tenho cartão de crédito, não sou uma pessoa de verdade”.

No fim, Sophie troca sua carreira por um noivo rico, Frances ajusta suas expectativas e aceita um emprego de escritório na companhia de dança, que ela concilia com alguns trabalhos como coreógrafa. Vai morar sozinha num apartamento muito longe do Soho de Sophie e continua considerando a amiga como a “sua pessoa”.

Baumbach poderia contar essa história como uma história de amor, de casal, mas as pessoas facilmente achariam que o problema está na fragilidade do desejo, em como “hoje em dia temos opções demais e fica difícil escolher”, em como o ser humano “não foi feito” para estabelecer um vínculo amoroso de longo prazo. Optando pela amizade, ele retira esses fatores e respostas prontas, embora ainda é possível jogar tudo na conta da dinâmica da metrópole ou em sei lá que justificativa as pessoas dão para a falência das relações hoje em dia. Me parece claro que dinheiro e trabalho exerçam uma função central no filme, assim como nos nossos problemas contemporâneos para manter e estabelecer vínculos. A amizade não é nem pode ser um tipo de relação isento dos problemas de todas as outras relações que estabelecemos. Se somos descartáveis e descartados no amor e no trabalho, por que não seríamos na amizade?

A resposta de Frances Ha é: podemos sim, e somos.

Algumas pessoas (meus amigos) enxergam o fim do filme como um ajuste saudável de expectativas por parte de Frances. Eu acho que profissionalmente pode ser: ela aceitou o emprego de escritório na companhia de dança, entreviu que podia ser uma boa coreógrafa, ainda que dificilmente seja a coreógrafa do table-book que todos invejam, não caiu numa narrativa de que quanto você descobrir o que *realmente nasceu para fazer*, o céu será o limite. Mas do ponto de vista das relações pessoais, o ajuste parece violento: ela permanece sozinha, os amigos continuam sendo aqueles péssimos amigos de sempre, Sophie parece ser a Sophie de sempre.

A cena final em que ela mede o próprio tamanho no batente do novo apartamento e tenta encaixar o próprio nome no interfone (não funciona, daí a abreviação para Frances Ha) me parece uma cena em que ela se redimensiona e abraça a solidão. A cara de contentamento, no entanto, aponta para uma mitologia contemporânea da pessoa que se basta, uma lógica que não me agrada muito. Não tenho nenhuma solução melhor para oferecer a Frances, mas queria que ela demonstrasse algum tipo de saudável insatisfação com o que lhe é oferecido.

Já em Mistress America temos essa caloura de faculdade aspirante a escritora típica Pessoa Boa de filme que se veste, age e fala como A Menina Legal Que Na Primeira Cena Você Sabe Que É Legal. E temos Greta Gerwig num papel de Pessoa de Sucesso. Mas é a Greta Gerwig, então não dá para cair no papel. Só quem cai é a escritora, que na verdade é a espécie de vilã do filme.

Tracy, a escritora, e Brooke, a Mistress America, se conhecem por sugestão dos pais delas, que por sua vez mal se conhecem, mas vão se casar. Ambas parecem maravilhadas com a ideia de um vínculo familiar, de ter uma irmã. Mas Brooke é obcecada por sua autoimagem. E Tracy é a escritora que transita pelo mundo usando as outras pessoas como material.

Brooke não fez faculdade e vive de uma sobreposição de subempregos: como professora de spinning numa academia, decoradora, dando aulas de matemática para uma criança, fazendo o que aparecer enquanto tenta embalar essa precariedade triste numa aura descolada. O restaurante que ela quer abrir reflete esse modo errático. Ela quer que pareça o lugar onde você gostaria de ter ido na sua infância, quer que seja acolhedor, familiar (um familiar armado, já que não é o restaurante onde você foi na sua infância, e sim onde queria ter ido numa outra infância, muito melhor). Mas também quer que seja uma série de coisas: que sirva comida, que agregue, que as pessoas possam ir trabalhar, e conversar, e apenas estar, e quem sabe pode ter um espaço pra isso, praquilo e praquilo outro. Brooke passou a vida colecionando pratos “sem saber por que” e espera que o restaurante possa ser a coisa que vai sintetizar e dar sentido a tudo que ela passou a vida juntando sem saber por quê.

O restaurante, claro, não vai pra frente (ter um restaurante é como ter um filho viciado em drogas, diz seu ex-namorado rico). Brooke depende do dinheiro do namorado rico (outro) para montar o negócio, e ele termina com ela. O casamento de seu pai com a mãe de Tracy também desanda e, do nada, ela e a meia-irmã não são nada uma da outra. Aquela relação na qual ela depositava uma expectativa de ser uma coisa menos circunstancial e volúvel que as demais vai ter que se estabelecer no mesmo grau de precariedade de todas as outras porque dependia da relação entre os pais delas, que era por sua vez volúvel. Nada na vida de Brooke tem um lastro. Tudo depende de relações (inclusive a vida financeira dela, que depende de namorados) fragilizadas.

Tracy escreve sobre Brooke no dia seguinte ao primeiro encontro das duas. Pinta a meia-irmã como uma espécie de super-heroína novaiorquina um pouco utilitarista e que não reconhece seu lugar no mundo. Brooke lê o texto e, claro, não gosta. Acha injusto ser resumida àquilo. Acha injusto que a irmã tenha escrito sobre ela e que o tenha feito depois de 01 noite juntas. Tracy tenta explicar que a personagem não é exatamente a irmã, é ficção. Argumenta que escreveu sobre coisas que as duas viveram. Brooke solta duas frases maravilhosas: “é, mas essa ficção está cheia de coisas que não aconteceram bem assim”. E: “você é uma pessoa muito pior do que parece à primeira vista”.

As duas acusações são verdadeiras e o texto da irmã, a propósito, é um amontoado de clichês.

Permanência do objeto

Antes de esquecer alguém é útil esquecer o conceito de permanência do objeto, passar a agir como uma criança para quem uma pessoa com um lençol na cara simplesmente deixou de existir. Muito cedo a criança decide puxar o lençol e a brincadeira funciona apenas como encenação, uma piada da criança com os tempos em que desejos eram contidos com barreiras de lençol. Mas não puxe o lençol. Você, com as suas mãozinhas.

Antes de começar a levantar às seis é útil esquecer o conceito de vida social. As pessoas apinhadas na rua durante sua volta para casa talvez esperem ônibus para lugares distantes. Você ouviu algo sobre o engarrafamento nesse horário ser tão intenso que elas não têm outra opção senão esperar os búfalos passarem.

Você não. Você faz cálculos como: se de Campos Elísios eu ia a pé para a Santa Cecília, dali para a Bela Vista são só dez minutos a mais. Para a Paulista são mais dez e até a Estados Unidos é agradável descer a Augusta então já estamos em Pinheiros e os sapatos comprados há dois meses parecem tão rotos quanto todos os outros.

Antes de cortar o cabelo é útil esquecer o conceito de liberdade individual. Entregar-se com muita resignação a uma pessoa que está certa de saber o que é melhor para você, como disfarçar o recuo do seu queixo, o formato um pouco errado da testa que eu não tinha reparado, mas agora que você falou. Você senta, balbucia qualquer coisa e se acalma na certeza de não estar sendo ouvido, na certeza de que o profissional diante da cadeira já calculou o corte perfeito e, gato escaldado, sabe que ninguém pede o que de fato quer.

Você sai muito feliz, com metade do cabelo que tinha num formato imprevisto. O queixo, a testa, parecem todos nos mesmos lugares, mas o ombro está exposto e você foi agraciado com menos uma decisão.

Você, o mesmo

Não pode ter filho para dar um sentido pra sua vida triste. Não pode buscar uma outra pessoa. Não pode buscar religião, trabalho, sei lá. Melhor dizendo, até pode, mas não para dar sentido à sua vida triste. Tem que buscar (é bom que busque) o filho, o amor e a religião por um desejo daquelas coisas em si —quem deseja as coisas em si? Sua própria existência tem que vir com um anexo de sentido, é uma vida que se explica por si mesma, uma autoestima que se cria no vácuo e se retroalimenta. Não pode se preocupar com a opinião alheia. Você, essa estrutura hermética e autossuficiente. Quando você fala, é importante que seja o mesmo diante de qualquer pessoa. Qualquer pessoa ali na frente: você, o mesmo. Passa mãe, irmão, patrão, você o mesmo. E fica como um falar sozinho já que o da frente não importa.

Desculpa por hoje

Vou embora em seis meses.

Naquele ponto em que você começa a decorar pequenos tiques da pessoa, como um jeito solene de alongar os músculos do rosto antes de beber água antes de colocar o aparelho de apneia antes de esticar o braço para o lado no travesseiro e te chamar para deitar ali num gesto um pouco burocrático, quase um flanelinha indicando onde estacionar a cabeça.

Vou embora em seis meses.

Espero que seja feliz e que dê tudo certo, quero que faça o que for melhor pra você.

(exceto que quero que faça o que for melhor pra você num raio de duas baldeações de metrô da minha casa. Vejo coisas maravilhosas pra você em Itaquera).

Já no primeiro mês, ele cai sete metros escalando uma rocha. Está prestes a passar a corda pelo próximo mosquetão quando, no pior momento possível, pimba.

I’ve always wanted to say ‘go there, break a leg’ in a context in which the other person could actually end up breaking a leg.

Internação, cirurgia, pinos, placas de titânio que você pode ficar tranquilo que não apitam no detector de metal do aeroporto, pizza no saguão asséptico, a mãe que chora ao telefone. Do quarto, ouvimos passeatas da direita, fazemos piadas sobre xixi no papagaio, o artefato plástico que acaba virando vaso de flores.

— É maravilhoso que eles contratem nutricionistas e façam questionários pra depois servir torrada, geleia e suco industrializado.

— E em porções tão pequenas.

A doença é conservadora. O médico quer saber o que sou dele. Sou de uma ONG que acompanha estrangeiros desamparados em hospitais.

Seis semanas depois, tirar os pinos. O moço da administração de leitos quer saber a filiação do paciente. Moço, era bonitinho, chamei pra jantar, as coisas correm bem, não sei o nome do pai.

Luis.

Uma dança de gestos que vai ficando um pouco mais coordenada. A chave de braço disfarçada de abraço que te dá quando quer dormir mais meia hora, o ponto do filme em que é preciso mudar o cachorro de lado pra não doer o pescoço.

There is no such a thing as romantic experience; there are romantic memories, and there is the desire of romance —that is all. Our most fiery moments of ecstasy are merely shadows of what somewhere else we have felt, or of what we long some day to feel. Strangely enough, what comes of all this is a curious mixture of ardor and indifference. I myself would sacrifice everything for a new experience, and I know there is no such thing as a new experience at all.

Cinco anos de Brasil e pronuncia todas as palavras com x como se fosse equis. Chama tênis de sapatilha. Não acha graça do verso de Drummond “eu também já fui brasileiro, moreno como vocês”.

Fala um português tão bom que, quando calha de cometer um erro, demoro a entender, por bobo que seja, porque não o espero.

Vinte e cinco anos de Estados Unidos e não viu um só filme com Marilyn Monroe, Audrey Hepburn ou Doris Days. Não identifica piadas com The Sound of Music. Nunca viu um musical.

Mesmo agora seu pé continua inchado e com essa cicatriz você até parece uma criança exposta. Podemos te chamar de Édipo, o de pés inchados.

Ela é dançarina quando saio pro trabalho às sete da manhã. Um lado da cama é roubado, passo a dormir no outro mesmo sozinha, para ressentimento geral do cachorro. Ideias de pautas que damos um ao outro, a comunhão possível entre repórteres.

Sinto tantas coisas boas por você. Agora, por exemplo, só um contentamento por você existir em algum ponto da cidade. Da última vez que te vi você estava cheio de sono, mas foi muito obediente quando te pedi para se virar para mim um pouco, pra eu mexer no seu rosto antes de levantar. Você virou de um jeito que só posso usar a palavra obediente. Foi engraçado, e me deu uma onda de carinho.

Não sou boa de apresentar pessoas. Os únicos amigos que o conheceram o fizeram porque estavam hospedados na minha casa, ou moravam comigo, ou chegaram na hora errada. Para os outros, era minha Odette. (cheguei a falar isso a ele. A piada sobre Odette, as coisas horríveis que eu sou capaz de falar para uma pessoa).

Um Natal que antecipa separações, cada um na sua Bahia e um elefante na sala: não pretende voltar para mim depois das férias.

(um ano antes, o que eu fazia? trocava mensagens com um paquera virtual que passava o Natal na casa dos pais, em Santa Maria da Feira. O cocker spaniel Che caia na piscina na noite do dia 24 e morria congelado, incapaz de nadar pra fora dela).

Estou com saudades suas. Ridículo ter que terminar com você para me dar conta disso, mas pelo jeito eu sou um pouco ridículo. Não sei qual era a barreira que eu tinha, mas depois de umas 24 horas de alívio, o que tenho sentido é perda estúpida, arrependimento. Eu gosto de você, gosto de como você pensa e fala, seu humor e snort-laugh (que me agradou desde o nosso primeiro encontro), sua cara de surface-antipatia; fiquei um tempão agora olhando todas as fotos disponíveis de você nas redes, como um creep de internet. Não sei por que de repente vem essa vontade de estar longe, porque o resto do tempo me sinto tão bem com você. E, bom, não sei como é possível oscilar de um extremo para outro desse jeito, mas o que sinto agora é que quero te namorar, não quero outra coisa.

Não sei se você quer, agora. Se não, vou entender. Não vou gostar, vou achar triste, mas talvez até melhor, ou pelo menos mais sensato. Tenho medo de muita coisa. Sobretudo de te magoar mais do que já te magoei com minha repentina paranoid-making frieza, porque não a entendo, não sei de onde vem. E, como todos sabemos, eu vou embora —talvez fique até maio agora, porque parece que meu livro sai um mês mais tarde, mas vou embora— e tenho medo de te magoar à toa por uma coisa por força temporária. Ou, bom, de me magoar. Sentindo o que senti essa semana, também fiquei com medo do meu attachment a você, se faria sentido aumentá-lo, aumentando a possibilidade de all-around mágoa quando eu for embora, se continuássemos até lá.

É muito medo e muita neurose e dúvida. A única clareza que tive ao longo da semana é que não gosto de não estar com você. Queria ter mais clareza. Acho justo você querer mais. Sei que gosto de você e que a relação que tínhamos é sem duvida a melhor que já tive em muitos sentidos. Mas eu também tenho medo de minha própria capacidade de ficar distante assim do nada. E bom, a verdade é que ela não é uma total novidade pra mim.

Quando eu tinha seis anos, ganhei um porquinho-da-índia. Que dor de coração me dava porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão! Levava ele prá sala, pra os lugares mais bonitos mais limpinhos. Ele não gostava, queria era estar debaixo do fogão. Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas… O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

Modesto boletim de perdas de um relacionamento breve: um ventilador, um guarda-chuva e duas biografias do lado dele. Um paletó, outro guarda-chuva (esse em melhor estado) e Um Copo de Cólera do meu.

— Fui escalar e encontrei o Jorge lá, junto com o cara que estava fazendo a minha segurança no dia da queda. A minha narrativa da queda estava errada esse tempo todo! Descobri quando perguntei pra eles o que viram. Me dei conta de que o cara, Luiz, apesar de não ter a culpa exatamente, podia ter evitado o acidente se fosse mais experiente. Estou um pouco perturbado porque me dei conta de que eu estava confiando minha vida em gente que eu sequer conhecia.

— Mas isso é parte da beleza da escalada, não? Aquilo que me falou sobre desconhecidos fazerem as vias e você basicamente confiar que fizeram direito.

— As vias tudo bem, mas não dá para fazer uma escalada perigosa como aquela com um desconhecido inexperiente. Eu não estava apreciando os riscos corretamente.

Como sou uma pessoa especialíssima, um artigo raro e delicado, ele terminou comigo duas vezes em um mês, uma por chat de Facebook após dias me tratando com burocracia enquanto eu viajava para uma pauta, outra por email, do saguão do aeroporto, antes de embarcar para o Natal. Na véspera, dividimos um ceviche que mal dava pra um, tomamos pisco sour e mezcal. No dia seguinte, acordei com ele me olhando como se eu fosse pouco menos do que uma total estranha. Suponho que se eu não fosse tão querida podia ter recebido um saco de bosta por Sedex à guisa de despedida.

É engraçado pensar em como nos recuperamos dessas coisas —englobando nessas coisas desde namoros breves desses que a gente se sente um Pedro da Maia rebaixado por não superar em dois tempos até histórias sérias e longas, dessas que não sei se terei—, e numa velocidade impressionante, mesmo os mais lentos entre nós. Outro dia morreu uma funcionária do jornal, uma espécie de datilógrafa faz-tudo. Em seu obituário, constava que ela permaneceu solteira a vida toda, fiel a um amor desencontrado da juventude. Bullshitagem. Ela apenas se afeiçoou esteticamente à solidão, à ideia de uma datilógrafa de jornal que não consegue virar a página.

Por outro lado, também é verdade que não nos recuperamos. Fitzgerald em The Crack-Up: A man does not recover from such jolts —he becomes a different person, and, eventually, the new person finds new things to care about.

Ele não falava de amor, mas de como, na faculdade, teve de abandonar o projeto de ser um homem que manda em homens para ser um mero escritor. Since that day I have not been able to fire a bad servant, and I am astonished and impressed by people who can.

Nada temos a temer, exceto as palavras. Os gestos ainda não são gravados e arquivados. Sobre eles, a interpretação é mais arredia, a memória, mais piedosa. E somos repórteres. Eu sempre digo: sai da frente com esse infográfico. Se você não conseguiu me explicar algo em palavras, não é um desenho que irá salvar.

Se você não fala as coisas, é como se elas não tivessem ocorrido. Um gesto precisa que alguém venha por cima e fixe o sentido dele. Senão ele parece falar por si, mas só por uma semana. São as palavras que vão criando os sentimentos. Você fala “eu gosto de você” e isso passa a existir, é um verbo performativo. Ou o contrário: fala “eu gosto de você” e aquilo não se sustenta, a frase te soa capenga. Mas é preciso dizer, soltar as palavras no frio da conversa para ver se elas solidificam ou esfarelam; um pouco como fazer vidro. Ninguém vai dizer que é fácil pegar as palavras, crias suas, e atirar nesse mundo sem saber o que serão delas.

(em jornalismo, temos um termo interessante: chama-se legenda para cego. legenda para cego é quando o redator faz uma legenda que descreve a foto, em vez de adicionar informações a ela. há uma foto de uma mulher no parque, sentada num banco e a legenda diz: mulher no parque, sentada num banco, em vez de informar quem é a dita cuja, quantos anos ela teria, que parque seria esse, o que estaria fazendo ali sentada, porque tiramos essa foto. mas a descrição não é reprodução, é decifração, e eu particularmente adoro legenda para cego. existem duas modalidades de declaração amorosa, a legenda para cego e a fabricação de vidro).

Actually we did not have the feelings we said we had until we spoke them —at least, I didn’t; to phrase them was to invent them and own them. We whipped our strangeness and newness into a froth that resembled love, and we dared not play too long with it, talk too much of it, or it would flatten and fizzle away.

Desculpa por hoje. Não queria estar repetindo já essa coisa de ficar de repente distante e frio. Por trás tem algumas das mesmas razões. Mas a verdade é que tem outra coisa também, que é que acho que não posso retribuir o que você disse sentir por mim. Eu mencionei motivos racionais, mas me parece que aquilo talvez não devesse ser tão racional, e que a minha própria busca por desculpas significa alguma coisa. Sinceramente não sei como posso oscilar tão dramaticamente como você tem visto, mas não me parece justo com você, e também me parece que talvez eu precise aceitar essa inconstância como sinal de que não vai dar certo entre nós. Não queria me precipitar, nem queria terminar com você por email, mas também não queria te deixar no limbo que nem da última vez —por ainda mais tempo, já que vou estar fora durante três semanas. Me sinto terrível tendo pedido para você voltar comigo só para terminar pouco depois. Acho você especial e não podia não tentar de novo; realmente achava que podia funcionar, e passei momentos muito bons com você nesse tempo. Mas acho que eu não sinto o que precisaria sentir para a gente continuar. Desculpe-me de novo por te fazer passar por tudo isso.

— Não sei de que cor são seus olhos. Almir Guineto tem um samba que ele fez numa mesa de bar, pra fugir de uma saia justa. Ele sempre passava a mesma cantada, dizia pras moças que elas tinham uns olhos lindos. Um dia, uma mais esperta fechou o olho na hora e perguntou: mas de que cor são meus olhos? Os seus não dá pra saber, mesmo abertos não dá pra saber.

— Prometo não te colocar numa situação em que seja crucial saber a cor dos meus olhos.

— Se te perco na praia e saio te descrevendo, é a primeira coisa que perguntam.

Ambar.

Almir Guineto não pensou numa resposta pronta para essa cor.

Bianca, Nanni Moretti. C’è un uomo che ti pensa ancora, lo capisci questo? A conversa na rede em que falamos de ex-namorados, a impressão de que, de um jeito ou de outro, ele sempre sai por cima das situações. A moça que ficava na janela e escrevia sobre cavalos. Foi ela quem terminou e ainda assim é ela quem “continua tendo problemas”. A que tenta lhe cooptar os amigos e questiona o motivo do término três anos depois do ocorrido. “E, poxa, foi um namoro de um ano”.

O que tenho a depor de minha parte? O namorado de adolescência, os virtuais, o que teve leucemia e muito cedo perdeu a conexão com o real, o que hoje é amigo tão próximo que virou minha família, o que me dispensou em dois meses por mensagem de texto quando eu achava que tinha encontrado a minha pessoa. Numa revista semanal, Contardo Calligaris dizia: a gente devia se divorciar por WhatsApp. A descrição não é proposição, é constatação.

Aquela cena em que Michele diz pra Bianca: não vamos começar nada porque um dia, quando eu já estiver tranquilo, eu estarei aqui no terraço, apenas aqui no terraço, você vai se aproximar de mim, vou te sentir solene, vai começar a dizer “precisamos conversar, acho que não está dando certo”.

No começo, “eu gosto de você” significa “eu gosto de você”. Passados uns meses, “eu gosto de você” significa “eu não te amo” e até evitamos dizer.

Você pode tentar remendar isso com um olhar mais penetrante, com uma pausa dramática antes de “gosto”, mas leia de novo o que eu disse sobre gestos.

Um prazo assim estimula neuroses e as nossas preenchem com folga os três quarteirões que nos separam. Mas é também um alívio: você tem uma duração definida, é mais fácil escrever dentro da retranca. O que você quer que signifique? Você quer fazer uma história bonita, mas quer levantar rápido depois. Philip Roth diz que nada de mal pode acontecer a um escritor, tudo é material. Mas muita coisa pode acontecer a dois.

Defeitos: obcecado pelo próprio corpo. Se fosse possível, eu preferiria não ouvir de novo o quanto todo mundo te acha mais novo do que você realmente é. Isentão que acha que não é isentão apenas se faz de isentão para ter mais credibilidade. Se relaciona com os assuntos como se fossem apenas notícias. Faz uma doação generosa para a caixinha dos porteiros e fica conferindo se os vizinhos seguiram O Exemplo. Toma aqui o seu troféu por não se expor em redes sociais. Tem um cheiro bom que se prova intransferível para superfícies como travesseiros e roupas —isso depõe contra alguém que não se dá ao mundo, que retém as coisas.

Qualidades: Não faz aquela cara de aparição da Virgem que alguns homens fazem diante da nudez feminina. É possível deixar celulares desbloqueados e computadores sem senha por perto. Gosta de cachorros e plantas, embora prefira não cuidar deles. Poucos amigos, discreto como nunca serei, nenhuma necessidade de encher a vida de figurantes, nenhuma necessidade de fingir saber o que não sabe, não falha em reconhecer responsabilidades. Inteligente, razoavelmente engraçado e constrangedoramente bonito.

As a teenager, I started to grab that it was relatively easy for people to recognize my qualities or even to like me, but something on me (or something I lack) would prevent them to go any further. There is something on me that wouldn’t allow them to take the next step —which is not a step anymore, it’s more of a fall. I know that I may sound both pretentious and victimist for saying that is not hard for people to like and admire me, and yet I’m somehow beyond being loved, but I don’t care about how I sound. I just don’t want you to doubt your own capacity to love just because you couldn’t love me. Nobody could, sweetpie. I’m kind of a shadow zone for other people’s affections.

Tem gostos interessantes por serem indistintos. Não dá para saber exatamente do que ele gosta porque não usa seus consumos culturais como marcadores de personalidade. (que tipo de pessoa é esse?). Eu diria que ele gostou de Out of Sheer Rage, de Geoff Dyer, mas não me sinto confortável dizendo que ele goste especificamente de um autor, ou do que quer que seja.

Está sempre se perguntando será que a Ju vai continuar saindo comigo se eu tirar a barba, será que a Ju vai continuar gostando de mim depois de ler meu livro. Até concluir que sim e isso deixar de importar.

Estando com uma pessoa bonita, é difícil saber o que é sua projeção romântica e o que está no objeto. O que é afeto e o que é fria constatação de fatos. É bonito ver um homem forte sentado na sua cama —lendo, engolindo comprimidos misteriosos, procurando o repelente entre os sapatos.

Tem rugas ao redor dos olhos que não consigo identificar de onde vêm. Rugas são rastros de movimentos, mas as dele saem do cantinho do olho, ali onde se alojam as remelas, e partem como ligeiros sulcos até a maçã do rosto. Que movimento é preciso fazer para marcar a pele desse modo? Peço que faça expressões com a cara, mas não consigo descobrir.

Mora há cinco anos num estado de impermanência, num duplex mobiliado com talheres de cabo plástico corroído e móveis de madeirinha clara e aspecto de escritório. Na casa dele, as coisas nunca estão diretamente sobre um móvel, é sempre um paninho e só então os objetos. É paninho, relógio, panhinho, escova de cabelo. Um cuidado de tia um pouco destoante do quadro geral. Para não dizer que nunca escalei nada, escalamos da sala ao quarto do duplex com uma corda. Não sei se fiz por gosto ou pela história, mas a gente raramente sabe.

Num futuro, tudo será você

A lavadora nova encolheu duas blusas de lã num processo que encolheu também a casa, que virou apartamento e ganhou paredes finas, uma separação muito sutil entre mim e o vizinho, entre todos os vizinhos, entre a rua inteira.

É a primeira vez que moro num desses prédios novos, com lazer completo e portão duplo de gaiolinha. A maior diferença entre isso e uma casa é a trabalheira que dá para sair.

Fora isso, apenas todo o resto. A falta de solidez, a impressão de que uma briga de casal pode pôr tudo a baixo, a necessidade de contenção. Cada compra e cada gesto precisa ser pensado, ou periga não caber no cômodo.

Enquanto uma casa dá trabalho —trabalho físico, braçal—, um apartamento pequeno é trabalhoso no sentido de que exige uma ponderação constante. É como se o apartamento, por pequeno que seja, estivesse em todo lugar e é preciso tê-lo em mente o tempo todo.

Morar em uma casa é sentir-se resistência por nada que seja, à ideia de que cabemos em qualquer lugar. Morar num prédio assim é se sentir em expansão, se ver replicado pela cidade, sentir que num futuro próximo tudo será você.