One Trick Pony

Tenho muito apego a um filme que o Paul Simon lançou em 1980 chamado One Trick Pony. Era uma época em que ele estava em seu terceiro disco pós rompimento com o Art Garfunkel e tinha se saído claramente melhor do que o coleguinha no campo musical, com Paul Simon (1972), There Goes Rhymin’ Simon (1973) e com o lindíssimo Still Crazy After All These Years (1975).

Mesmo assim, havia uma preocupação com a longevidade do folk que eles faziam, e o Garfunkel vinha se precavendo com uma carreira paralela aparentemente frutífera no cinema. Ele tinha feito Catch-22 (1970) e Carnal Knowledge (1971), enquanto o nosso Paul só era escalado pra ser ridicularizado como nêmesis do Woody Allen em Annie Hall (1977).

Critério de elenco: chama aí qualquer filho da puta mais baixo do que eu.

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Invejosos somos muitos, mas o Paul recolheu-se em sua dor de cotovelo e escreveu um filme inteiro, acompanhado de um álbum homônimo com as letras mais tocantes que se tem notícia. As músicas (até mais do que o filme) contam a história de um cantor cujo único sucesso data de dez anos atrás, mas que continua insistindo na banda, nas viagens, nas novas canções, tudo isso enquanto se apresenta em lugares cada vez menores, para audiências cada vez mais apáticas, e deixa a esposa cada vez mais insatisfeita com suas ausências em casa. 

O filme é uma sequência de perdas para o lado do protagonista, Jonah. A mulher pede o divórcio. A carreira está em situação de abrir shows de bandinhas estilo B-52 e um produtor odiosamente pragmático interpretado pelo Lou Reed tenta desfigurar sua música para transformá-la no roquinho mela cueca da vez. De um lado, a banda de cinco caras com quem ele viaja pelo país representa a totalidade de suas amizades. De outro, Jonah também é patrão desses caras… 

O enredo está longe de ser autobiográfico, mas a personalidade e o jeitinho da criatura são cópia fiel do criador. Jonah é uma espécie de Paul Simon do mundo invertido. De um mundo no qual Paul Simon não tivesse dado certo e saísse por aí sendo adoravelmente loser.  

A atmosfera das cenas com o filhinho, Matty, lembram Kramer vs. Kramer (1979), que havia saído no ano anterior. Só que o roteiro é fragmentário demais. Parece antes uma colagem de momentos significativos da história do protagonista do que uma narrativa hollywoodiana coesa. É claramente um filme escrito por um músico, com longas sequências musicais, partes que mais parecem videoclipes ou gravações de show e cenas de quatro minutos nas quais músicos leem críticas destruindo seu trabalho e elogiando o de bandas que eles desprezam. 

A música é tão importante para entender a história do filme que o disco foi lançado alguns meses antes do longa, para que todo mundo chegasse ao cinema conhecendo as canções. O resultado estético é interessante, mas as pessoas não gostaram da proposta. Em uma entrevista à BBC, o Paul diz que o longa é mais um estudo de personagem do que uma história desenvolvida, e que talvez a coisa não tenha funcionado muito bem pra gente de fora da bolha musical.  

O disco se saiu melhor — ao menos na época do lançamento. Entrou no top 20 americano, vendeu mais de 500 mil cópias. O single “Late in the evening” foi nomeado ao Grammy. Hoje, no entanto, acho que é um disco meio menosprezado, a despeito de ter algumas das letras mais lindas que eu conheço.

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O disco tem “Nobody”, com todas aquelas metáforas telúricas e sensuais. Pelo menos eu acho versos como “when I’m rising like a flood / who feels the pounding in my blood” incrivelmente sensuais. 

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Tem “One-Trick Pony”, sobre um pônei de circo que só sabe fazer um único truque, mas que foi abençoado por essa limitação. De tanto repetir seu único truque, o pônei conseguiu dominá-lo com total perfeição, enquanto o eu-lírico da música precisa de todo um repertório de truques para atingir resultados bem inferiores. “He makes it / Look so easy, it looks so clean / He moves like God’s immaculate machine/ He makes me / Think about, all these extra moves I’ve made / And all this herky-jerky motion / And the bag of tricks it takes / To get me through my working day”. 

No filme, o Jonah é chefe, motorista e empresário da própria banda. Ou seja, está mais para o eu-lírico invejoso do que para o pônei em questão. Mas também há uma autoironia amargurada desse Paul Simon que estava justamente tentando se diversificar, lançando-se a uma carreira cinematográfica totalmente incerta aos 39 anos de idade. Que sentia que já não podia apenas cantar (e compor, e tocar 72 instrumentos, e produzir…)

Pessoalmente, é uma música que ressoa bastante em mim. Nessa impressão de que eu poderia desenvolver melhor o truque único da escrita caso não cedesse tanto ao multitarefismo das contas a pagar.

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Seja como for… O disco tem “God Bless the Absentee”, com aquela metáfora de abandono parental que se traduz em um filho que ainda não precisa do pai por ter “os ossos molinhos”. “My son don’t need me yet / His bones are soft / He flies a silver airplane / He wears a golden cross”. Essa mesma faixa tem uma passagem absurda que consegue ser ao mesmo tempo objetificante, sensual e terna ao dizer: “I miss my woman so / I miss my bed / I miss those soft places I used to lay my head”.

Eu me pergunto de onde ele tira essas imagens, e por que elas funcionam tão lindamente na minha cabeça…

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Tem “That’s Why God Made the Movies”, com a contradição entre a melodia animada e uma letra irônica e triste sobre um recém-nascido que nasce tão pronto quanto Atenas e parte do hospital sozinho, já que a mãe morre no parto. “When I was born / My mother died / She said, ‘Bye bye, baby, bye bye’ / I said, ‘Where you goin? / I’m just born’ / She said, ‘I’ll only be gone for a while’ / My mother loved to leave in style”. 

No filme, a mulher do protagonista insiste para que ele cresça e abandone sonhos juvenis de se tornar um Elvis Presley da vida. Nas músicas, ele se retrata como um órfão delirante que pede para ser alimentado e acarinhado por uma amante que aceite ser substituta daquela figura materna perdida. E a gente acha simpático porque antes ouvir essa proposta arrombada na voz do Paul Simon do que na sala de casa.

“Say you will! Say you will! / Say you’ll take me to your lovin’ breast / Say you’ll nourish me / With your tenderness / The way the ladies sometimes do / Say you won’t! Say you won’t! / Say you won’t leave me for no other man / Say you’ll love me just the way I am”.

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Tem “All Because of You”… “It’s all because of you / It’s all because you wouldn’t say, I do”. 

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E tem “Oh, Marion”, uma nova versão para a mesma melodia, dessa vez com um eu-lírico de hábitos propositadamente impensados e arredio a sentimentos que se pergunta o que, afinal, teria dado errado em seu casamento.

“Oh, Marion / I think I’m in trouble here / I should’ve believed you / When I heard you saying it / The only time / That love is an easy game / Is when two other people / Are playing it”.

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Por fim, o disco tem “Jonah”: a música que une o protagonista do filme ao profeta recalcitrante da Torah. Na narrativa bíblica, Jonas é incumbido por Deus da tarefa de ir até Nínive — capital do Império Assírio — para informar seus habitantes de que a cidade seria destruída caso eles continuassem em pecado. Mas, em vez de cumprir sua tarefa, Jonas simplesmente embarca em uma viagem na direção oposta, ignorando a encomenda divina.

Incapaz de lidar com o ghosting, Yahweh cria uma tempestade tão grande sobre o barco de Jonas que a tripulação começa a rezar para tudo quanto é deus, pedindo clemência. Jonas se faz de desentendido o quanto pode. Só quando não tem mais jeito é que confessa seu pecado aos marinheiros e pede para ser jogado ao mar, na tentativa de se entregar à morte e quem sabe salvar os demais. Yahweh então envia um peixe gigante, capaz de engolir o profeta teimoso e golfá-lo na costa de Nínive, onde ele finalmente divulga sua profecia. 

Paul Simon “corrige” a história bíblica ao dizer que Jonas não foi engolido por baleia alguma, e sim por uma música. “They say, ‘Jonah, he was swallowed by a whale’ / But I say there’s no truth to that tale / I know Jonah / He was swallowed by a song”.

Então seria uma música, e não uma baleia, que assumiria a dupla função de salvar o protagonista e de corrigir sua rota. É justamente essa música que toca na cena final de One Trick Pony, quando Jonah inventa uma mentirinha qualquer pra entrar no estúdio e resgatar sua música dilacerada pelo malvado Lou Reed.

Após tanta insistência, tanta volta pelo vazio, Jonah finalmente consegue desapegar da ideia de encontrar mais uma pepita de ouro, de fazer mais uma música que atinja as paradas de sucesso. “No one gives their dreams away too lightly / They hold them tightly / Warm against cold / One more year of traveling ‘round this circuit / Then you can work it into gold”.

Ele aceita que talvez nunca mais alcance a fama que conheceu brevemente na juventude, mas não se descaracterizará tentando retornar a um topo ilusório. Ele vai atirar o rolo da música feito uma bola de boliche e destruí-la em sua forma física para salvá-la nem que seja na essência, no campo das ideias. 

Jonah começa o filme com um sonho que ele enxerga como único. No entanto, aprende que esse sonho precisava ser resumido à essência. Ele queria 1. voltar a fazer sucesso 2. com sua música. No fim, se contenta só com a parte final do sonho: aquela que não inclui o sucesso, mas que preserva a sua música.

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“Here’s to all the boys who came along / Carrying soft guitars in cardboard cases / All night long / And do you wonder where those boys have gone? / Do you wonder where those boys have gone?”.

Boa noite, boa sorte

Força de vontade é um recurso finito: não desperdice a sua tentando sair do Twitter por uma questão de princípios. Espere que mais esta rede social complete seu ciclo de degradação, transformando-se em um fantasma de si mesma. Aconteceu com o Tumblr, com o Flickr e com Facebook — pra citar três elefantes brancos que continuam respirando em algum canto escuro da internet. Ainda rendem dinheiro, é o que ouço dizer. Parece que andam inclusive cheias, mas quem circula por essas bandas à noite prefere guardar o relógio no bolso.

A aquisição do Twitter por Elon Musk deve radicalizar o penoso processo de descaracterização da plataforma, em curso desde 20161. Isso representa uma perda relevante porque o Twitter ainda é uma faísca de vida da única internet que realmente interessa: a internet dos blogs. A internet ARTE que operou entre 1999 e 2013, e que tinha como espinha dorsal o feed RSS. Ela nasceu quando a Netscape inventou essa maravilha e morreu quando a odiosa Google sufocou sua derradeira obra de arte — o Google Reader.

O RSS é um desses protocolos simples e geniais, tão abundantes na era da internet utópica. A ideia é permitir que o usuário reúna todos os sites que lhe interessam em um único lugar. Funciona como uma espécie de caixa de e-mails que você abre e — tcharan! — visualiza todas as atualizações dos sites que você escolheu. Que você selecionou. Organizadas de forma cronológica ou segmentadas em pastas temáticas que você mesmo definiu. Sem hierarquização feita por algoritmos, sem enfiar coisa que você não assinou no meio, sem pegadinha do mallandro.

Em uma época anterior ao conceito de notificação, o atrativo do RSS era saber quando seus sites favoritos postavam algo novo sem ter de abrir uma aba do navegador, digitar http://www e ficar apertando F5, tal como faziam os incas, maias e astecas.

Usar um agregador de RSS te tornava o leitor mais atualizado do rolê — e também o mais voraz, já que assim ficava fácil acompanhar uma grande quantidade de sites e selecionar o que queria ler de cada um deles. Fácil buscar, organizar, salvar, guardar pra depois, excluir, adicionar, enviar aos amigos. Você não precisava de um algoritmo selecionando as coisas “por você” se estava tudo ali, tão fácil de fazer você mesmo, do seu jeito. Do único jeito certo.

O agregador de RSS gerou o ambiente propício à criação & consumo de todo tipo de conteúdo, inclusive dos mais esquisitos e menos comerciais. Esse novo modo de espalhar e de receber textos criou um novo comportamento de leitura, e novos escritores e leitores se formaram no caldo nutritivo do RSS.

Ler tinha se tornado mais fácil, e o mesmo valia para ser lido. O autor só precisava chamar a atenção do leitor uma única vez. Uma única vez e aquele leitor seria seu para todo o sempre, ou pelo menos até que ele voluntariamente te excluísse de sua lista. Isso é bem diferente do simba safári das redes sociais, onde todo “produtor de conteúdo”2 é um attention whore caçando na unha migalhas de atenção de seus próprios seguidores.

Deus criou o RSS sem nenhum defeito. Porém, entre 2005 e 2007 a Google quebrou a banca, elevando essa tecnologia ao status de ARTE. O Google Reader era ARTE. Com ele surgiu a possibilidade de seguir o agregador de feed de outras pessoas e ver o que elas haviam lido e recomendado.

Pense em um tópico pelo qual você se interessa, porém não o bastante pra ficar seguindo 72 sites em 3 línguas até achar o crème de la crème daquela rebimboca da parafuseta específica. Com o Google Reader, bastava encontrar um nerd daquele nicho que tivesse um gosto parecido com o seu e seguir esse cara. Pronto: agora você podia ungir seus próprios curadores de conteúdo, fazer uma pipoca e ler apenas o que eles haviam pré-selecionado pra você. O que mais o ser humano poderia querer?

Uma característica decisiva da internet ARTE é que ela oferecia modos saudáveis e socialmente úteis de exercer o pecado da vanitas. Era delicioso ficar conhecido por escrever bem, ou por ler em quantidade. E quando digo “conhecido” eu quero dizer conhecido por um número bem modesto de pessoas. Gosto de pensar que o meu blog — o Já Matei Por Menos, lançado em 2004 —, estava entre os mais lidos da categoria blog pessoal freestyle de raiz, e eu nunca superei o marco dos 2 mil acessos diários. Para que mais? Eram duas mil pessoas lendo e interagindo com os meus textos de maneira regular através dos anos. Era um luxo absoluto.

Escrever nos maiores jornais e revistas do país não me rendeu esse luxo. Ter um fanzine, uma coluna de rádio, redes sociais com dezenas de milhares de seguidores, uma newsletter com seis mil inscritos: nada disso somado me rendeu algo comparável ao nível de leitura, feedback e diálogo de ter um blog na era do RSS.

Tudo corria bem, até que a Google quebrou as pernas do Reader para perseguir seus sonhos dantescos de dominação do mercado de redes sociais. Com isso, a humanidade meio que esqueceu a arte da fabricação do vidro, e o RSS tornou-se limitado a uma seita de nerds velhos vivendo em uma montanha. Hoje em dia, há várias opções de agregadores de RSS: Feedly, NewsBlur, Inoreader, The Old Reader, Feeder. Algum deles é quentinho e gostoso de usar? Nope. Vários deles começam a implementar inteligência artificial e seleção por algoritmos de jeitos pouco católicos? Yep. Mas, por enquanto, certamente são opções melhores do que dormir na chuva.

A ostracização do RSS é o grande drama da internet dos blogs. É este o grande velório que vale as nossas lágrimas. Mas derrotas há muitas, especialmente para nós.

Embora o RSS seja a chave explicativa do nascimento e morte da boa internet, as redes sociais foram um complemento simpático quando ele ainda estava em cena. E por muito tempo o Twitter foi a melhor de todas as redes.

As redes sociais cumpriam o papel de agregador meia sola para pessoas que não eram nativas o suficiente para usarem RSS, e ofereciam opções mais dinâmicas de interação para o resto de nós. Com o Google Reader fora de cena, elas sustentaram a distribuição dos blogs por um tempo, até começarem a adotar a medidas progressivamente draconianas que hoje simplesmente impedem que qualquer conteúdo que não seja produzido sob medida para algoritmos tenha alguma visibilidade.

A internet dos algoritmos define o que será produzido e consumido por todos os usuários, inclusive por quem nunca ganhou nem nunca ganhará um centavo com isso. Define tema, formato, linguagem, tempo, duração… Absolutamente tudo, e de modo cada vez mais detalhado. Mesmo os usuários mais amadores e menos escolados nos meandros dessa internet distópica sabem que postar no horário X é o mesmo que não postar, e que selfies geram mais engajamento não apenas porque as pessoas gostam de selfies, mas porque o algoritmo faz com que esse tipo de foto chegue a mais gente.

Esta é uma internet que castra qualquer conteúdo diversificado. Tudo está fadado a se tornar a mesma coisa. Pior do que se tornar: a já nascer a mesma coisa. As exceções são cada vez mais raras — e menos duradouras.

Para estar nesta internet é necessário fazer cada vez mais concessões e investimentos financeiros. É preciso mendigar que o leitor curta, assine, compartilhe, ative as notificações, comente, te dê uma procuração em três vias e transfira todos os bens para o seu nome.

Simplesmente não vale a pena escrever nesta internet. Os textos não chegam, ninguém lê, é uma experiência triste. E sabe o que é mais triste? As pessoas querem ler. “As pessoas” é um termo forte, mas algumas pessoas querem. O brasileiro subverteu o Facebook, instituindo o gênero TEXTÃO DE FACE. Até o Instagram a gente está lotando de texto. Contra tudo e contra todos, a gente gosta sim de texto. E quem vem dessa subcultura muito específica da internet dos blogs é gente que quer ser lida. Eu sou essa pessoa. Eu comecei a escrever aos 14 anos pregando meus textos no banheiro da escola, de frente pro vaso sanitário. Porque eu queria ser lida.

Sinto que essa não é uma questão para boa parte dos escritores por aí. Dos professores, dos jornalistas, e mesmo dos escritores de ficção. Sinto que pra eles não ser lido soa até vantajoso, porque o que eles querem é ocupar um certo lugar, circular por certos espaços, obter certo prestígio para o qual é necessário escrever, porém não é necessário ser lido. Fica até mais fácil conseguir essas coisas se ninguém te lê. Ninguém te lê, por isso mesmo todo mundo pressupõe que você é ótimo, afinal, está recebendo a chancela do veículo X, da editora Y, da universidade Z.

The only thing that matters is the writing itself: everything else is literature.

Except it’s quite the opposite.

Para quem ainda alimenta a vaidade trágica de ser lido, o Twitter é uma chance mínima de espalhar textos.

Será que já era?

Tem as newsletters, o Substack — ouço dizerem as vozes da minha cabeça.

Tem por um tempo. Tem de forma precária, trabalhosa, provisória e cada vez mais caralhosamente cara.

Tapa buracos

Às vezes eu digo “tchau” e o meu marido escuta “eu te amo”, por isso responde “eu também”, em vez de me dar um “tchau” de volta.

Mas quando outras pessoas dizem “tchau”, ele nunca confunde com “eu te amo”.

Sabe por que isso acontece?

Porque boa parte do nosso entendimento é construída por INFERÊNCIA.

Em uma conversa, a gente não realmente escuta todos os fonemas que as pessoas pronunciam. Em uma leitura, não realmente lemos (nem muito menos entendemos) todas as palavras do texto. Sobretudo nas leituras/escutas mais apressadas, a gente só tenta pegar o mínimo possível e resolve o restante com inferências.

Inferir nada mais é do que completar lacunas de um texto.

Isso vale tanto para lacunas deixadas propositadamente pelo autor quanto por lacunas criadas por falta de clareza do texto, por desconhecimento do leitor ou por algum erro na transmissão.

Se a gente não consegue entender direito um pedaço de uma fala, a gente vai lá e infere o que teria sido dito.

Isso é feito o tempo todo, não só com palavras.

Estou tão acostumada às pessoas serem simpáticas com o meu cachorro que quando ele vai cumprimentar alguém e a pessoa faz um gesto defensivo ou de rejeição, eu demoro uns bons segundos para entender que aquilo não foi um carinho.

Sabe por que isso acontece?

Porque boa parte das nossas inferências são feitas por EXPECTATIVA.

Meu marido já espera que eu diga “eu te amo” pra ele, por isso tem mais chances de ouvir qualquer coisa saindo da minha boca e escutar “eu te amo”.

Eu já espero que as pessoas sejam massa com o meu cachorro, por isso tendo a interpretar qualquer gesto em direção a ele como sendo amigável.

Quando não é o caso, minha cabeça dá um tilt momentâneo até se ajustar a essa nova realidade.

Nos dois casos que citei, as inferências são perfeitamente lógicas porque a expectativa do receptor da mensagem está baseada na FREQUÊNCIA.

Como é frequente que eu diga “eu te amo” pro Júlio, o cérebro dele escuta uma palavra mal pronunciada qualquer e decodifica como “eu te amo”. Como é frequente que as pessoas sejam fofas com o Palito, o meu cérebro pega um empurrãozinho qualquer que um desalmado deu nele e enxerga como um carinho.

No primeiro exemplo que eu usei (tchau/eu te amo), a inferência ocorreu por um problema na transmissão da mensagem.

O Júlio não conseguiu escutar o que eu realmente disse e tentou inferir o que teria sido pelo contexto + expectativas em relação ao emissor.

O segundo exemplo que eu usei foi uma cena em que o meu cachorro faz festa para um desconhecido na rua e a pessoa empurra ele de leve, num gesto de irritação.

Esse exemplo é bem diferente do primeiro — e não só porque um se refere a palavras e o outro a gestos. No caso do cachorro, não há nenhum problema na transmissão da mensagem: eu enxerguei a cena perfeitamente. O problema está na minha decodificação.

Basicamente, o meu cérebro interpretou a cena antes de analisá-la. Quando a análise finalmente foi feita e o cérebro entendeu que ela não correspondia à interpretação inicial, aí ele deu um pequeno tilt.

É provável que gestos de rejeição sejam bem mais frequentes do que eu imagino. Minha expectativa de que o Palito será sempre bem recebido é tão grande que o meu cérebro nem deve se dar ao trabalho de analisar cada gesto de cada estranho que interage com ele: na maioria das vezes, ele deve se contentar com a inferência.

Tanto no exemplo do tchau quanto no exemplo do cachorro, a gente precisa entender que a inferência é feita pelo RECEPTOR da mensagem.

Uma coisa inferida NÃO está no texto. Pelo menos não de forma explícita e indubitável.

Se você me disser: “Juliana, eu te odeio”, eu não posso inferir que você me odeia. Neste caso, o seu ódio estaria expresso com todas as letras.

Para que eu infira que você me odeia, você precisaria dizer algo diferente de “eu te odeio”, mas que eu pudesse interpretar como sendo equivalente a “eu te odeio” com base no contexto e na minha expectativa em relação a você (uma expectativa que — se estiver tudo certo com o meu psicológico — vai ter a ver com as minhas experiências prévias contigo e com a probabilidade de você dizer algo assim).

A inferência é a base da leitura. Sem ela, mal dá para ler qualquer coisa, quiçá ler direito.

Quando ensino aos meus alunos de primeiro ano como ler um texto acadêmico, vejo que a primeira dificuldade deles é a recusa em fazer inferências.

Eles querem ser leitores totais. Querem entender todo o texto. Querem ser uma espécie de Funes, o memorioso, e empreender uma leitura do texto que seja igual ao texto si.

Mas a leitura do texto não pode ser o texto.

Quanto mais repertório (e criatividade) a gente tem, mais complexas e abundantes são as nossas inferências.

Quanto mais experiência acumulamos com o emissor e com o contexto de produção de um texto, mais fácil fica essa tarefa.

Mas um leitor competente não é um mero tapador de buracos.

Para ler direito, a pessoa precisa ter sempre em mente que os buracos foram tapados.

Por ela.

Com diferentes materiais.

Marcelo Sá

Talvez você não conheça Marcelo Hoog de Sá, mas se assistiu a algum filme decente em Salvador nos últimos 20 anos, deve ter sido no cinema dele. Marcelo era sócio do Circuito Sala de Arte: uma pequena rede de cinemas que é basicamente a única opção na cidade fora dos multiplex.

Ele era uma festa de ser humano. Por causa dele, os cinemas eram sempre lindos e coloridos, o bolo era bom, o café era bom, tudo tinha que ser especialmente bonito e cheiroso. Penso nele como um hedonista mão aberta, porque o prazer tinha que ser em cada detalhe, e não bastava que fosse terminasse nele próprio.

Ele era um empresário, mas note que por décadas a Sala de Arte não tinha concorrência. Ou você via aqueles filmes ali ou simplesmente não via, então, a festa do ambiente não era tanto um diferencial de mercado — era mais um diferencial da pessoa do Marcelo.

A gente se conheceu quando eu tinha 16 anos e colava fanzines clandestinamente nos banheiros do cinema dele. Era o Filosofia Privada: o fanzine que comecei a publicar no colegial, sempre colado em cabines de banheiro, de frente pro vaso sanitário. O nosso mote era “um coletivo de escritores que sabe o seu lugar”, mas se a gente soubesse mesmo não diria que éramos escritores, pra começo de conversa.

Sem se importar com a contravenção, ele nos chamou na sala dele, deu permissão para fazermos o que já fazíamos, disse que a gente tinha que mudar isso e aquilo pra deixar o fanzine lindo e que nada a ver um papel colado na porta do banheiro sem proteção higiênica, por isso instalou bolsinhas de acrílico em todas as cabines. Por que isso? Éramos eu e o Fernando, meu namorado. Dois adolescentes desconhecidos e toda a falta de jeito do mundo.

A gente passou a ir ao cinema de graça e ele disse que conhecia um menino que tinha tinha tinha que escrever com a gente, embora achasse que o menino nem escrever escrevia. O menino em questão era Tuti Minervino e foi a primeira pessoa que eu conheci e instintivamente já soube de cara que era um artista.

Por anos a gente encontrava o Marcelo quase todo fim de semana, almoçando no Nirá ou no Grão de Arroz ou no Saúde na Panela. Ele fazia piadas sexuais com o pai do Fê na fila do almoço, depois sentava na nossa mesa e dizia coisas como “eu achava que estava triste, mas não estava triste, estava só sem dinheiro”. Era uma pessoa agradável de encontrar, de conversar, de pensar junto, que achava que os filmes deviam ser bons, o pão de queijo devia ser quente e que de cada canto dos lugares devia sair um cheiro maravilhoso. Se esse tipo de pessoa não é fundamental, então eu não sei qual seria.

Conselho aos vivos

A não ser que o modo de disposição dos seus restos mortais seja uma questão absolutamente crucial, evite tecer comentários sobre o assunto. A não ser que você realmente faça questão de ser cremado, enterrado, atirado no oceano ou transformado em  diamante, evite falar esse tipo de coisa ao léu.

Um defeito recorrente dos vivos é falar demais e emitir opiniões categóricas sobre assuntos que, na verdade, não estamos nem aí. Talvez eu mesma já tenha dito que quero ser enterrada ou cremada, submersa ou picotada, homenageada ou esquecida. Posso ter dito que quero ficar em Jacobina, onde minha mãe nasceu, ou no Campo Santo de Salvador, onde estão os meus avós, que quero estar vestida de vampiro num caixão rosa-choque. É possível que tenha dito coisas diferentes a pessoas diferentes. Com algum otimismo, terei dito coisas diferentes a uma mesma pessoa, evitando ao menos a disputa de versões.

Um morto querido pode tudo, mas note que é justamente por poder tudo que convém não abusar do poder. O problema dos desejos para a morte é que eles costumam ser feitos de modo excessivamente casual, por pessoas destituídas de qualquer poder por estarem vivas e em perfeita saúde. Uma pessoa sem poder é, por definição, uma pessoa irresponsável. É alguém que pode pedir mundos e fundos justamente por não ter nem a obrigação, nem os meios de viabilizar isso tudo.

Uma pessoa saudável dizendo que quer ser enterrada numa roda de samba com a presença da velha guarda da Portela é como uma criança dizendo que quer ser astronauta. No dia seguinte, eis a sua tarefa: levá-la ao espaço.

Se Chico Buarque quer ser enterrado na beira de um chapadão, eu espero que ele ao menos confira a possibilidade jurídica da empreitada.

Capitão Fantástico é um filme sobre um casal extremamente autoritário tanto em vida (pai) quanto em morte (mãe). Pedir para ser venerada em um ritual viking, cremada em uma praia e ter suas cinzas atiradas em uma latrina é a coisa mais pretensiosa e antibudista do mundo. O verdadeiro desapego consiste em dizer: façam o que der, o que precisarem, o que for ajudar a seguir em frente.

Com alguma sorte, o batismo terá sido o primeiro ato de poder dos pais e o enterro o último ato de poder dos filhos.

Desejos negativos parecem fáceis de resolver, mas acabam sendo igualmente penosos. Você pode dizer que não quer uma cerimônia religiosa e gerar problemas de interpretação do que, afinal, seria uma cerimônia não religiosa. Pode ser mais direto e vetar a presença de padres etc, mas eis que a Tia Cláudia não soube do veto e convidou um pastor amigo dela que você nunca viu na vida. O pastor Santos era inclusive boa pessoa. Desmarcou um programa bem mais interessante para acompanhar sua Tia Cláudia no enterro de um desconhecido. Chegando lá, calhou de falar uma ou duas palavras. É possível que tenha citado um salmo. Agora, faz dois meses que sua mãe e Tia Cláudia estão de relações rompidas, e seu pai tem certeza de que vão todos para o inferno por terem desrespeitado a vontade do morto.

A não ser que você acredite que o método empregado alteraria suas chances do lado de lá, talvez seja melhor deixar os detalhes com os vivos.

Ainda temos aqueles dias nos quais a mãe dele acorda atordoada porque não pudemos cremar o filho dela. Foi com muita dificuldade que a convenci de que o fato de o rabino ter ido como convidado e dito duas frases não constitui cerimônia religiosa.

Sim, ele queria ser cremado. Sim, ele não queria rabino. Na verdade, não queria sequer convidados. Não, ele nunca pensou sobre isso por mais de dois minutos. Se soubesse como foi, teria dito pra a gente desembaçar e fazer do jeito que desse. E eu acho de verdade que ele teria gostado do jeito que deu.

Eu queria contar pra ele que a mãe dele imprimiu fotos com um trecho de wish you were here e que ficou cafona que só a peste. Queria contar que na foto em questão ele está usando aquele relógio do Freud e que justo na hora do flash o Freud pensou em sexo. Queria contar quais das paqueras dele estavam presentes e como elas reagiram. Queria contar cada pequena cena constrangedora. Que a tia dele foi de chinelo. Que o pai ficava repetindo todos os bordões da família. Que o cabelo dele estava arrumado de um jeito ridículo. Que na volta a melhor amiga dele só parou de chorar quando ofereceu uma descrição detalhada do pinto de um outro amigo, e que o melhor amigo dele prometeu que aprenderia a tocar a summertime sadness no piano em homenagem a ele. Que no dia seguinte ele já tinha virado a Clarice Lispector e começaram a espalhar uma citação do Baal Shem Tov como sendo dele.

Que história. Um dia um judeu confuso manda uma citação de um rabino para os amigos como mensagem de Natal. Anos depois, o judeu morre e sua tia compartilha a mensagem em cartões funerários, como sendo de seu sobrinho.

“Ai de nós, o mundo está cheio de incríveis luzes e maravilhas e o homem as encobre de si com as suas mãozinhas.”

Um dos dias mais legais foi quando fomos visitar o túmulo do Houdini no Queens. Houdini e a esposa dele, Bess, encomendaram a própria lápide ainda em vida, no cemitério judaico Machpelah. Deixaram tudo pronto, só a data de morte por preencher. Houdini, como sabemos, terminou em Machpelah bem antes do esperado. Foi morto por um fã que acreditou demais no truque. Por alguém que o achava invencível de verdade. Foi morto, de certa forma, pelo próprio talento em iludir. Bess teve mais sorte: morreu 17 anos depois, mas nunca chegou a Machpelah. Sua lápide do Queens encontra-se vazia e com a data de morte ainda por preencher. Em vez disso, a família preferiu enterrá-la em um cemitério católico bem longe dali.

As pessoas acham essa história triste. Nem Houdini, nem Bess davam muita bola pra religião. Eles construíram a própria lápide. Queriam ficar juntos. Ela nunca foi católica de verdade, ele nunca foi realmente judeu.

É difícil discordar que o ato da família tenha sido autoritário, mas triste eu não acho que seja. Lá em Machpelah, Bess continua viva e já completou invejáveis 145 anos. Lá em Machpelah, foi ela quem escapou.

Parar de falar

Em Como pensar mais sobre sexo, Alain de Botton descreve a maturação do indivíduo nas sociedades ocidentais como um processo no qual o corpo — tão louvado, naturalizado e acarinhado quando somos bebês — vai se tornando progressivamente ostracizado. No começo são os órgãos sexuais que passam a sofrer interdito, em seguida as nádegas, as pernas, o torso e, antes mesmo da puberdade, parece que somente o rosto e as mãos continuam exibíveis e tocáveis. É como se a criança nascesse com um corpo social (no sentido de que usa o corpo inteiro para se socializar) que a cada ano sofresse pequenas mutilações, até transformar-se em pouco mais do que uma face social. 

Para compensar a grande perda do corpo, essa face é dotada de uma língua: um conjunto de oito músculos carentes de ossos e articulações que formam uma estrutura semelhante à de uma tromba de elefante ou tentáculo de polvo. São os únicos músculos do corpo que não dependem em nada do esqueleto e eles são capazes de comprimir-se e estender-se em acrobacias impossíveis usadas para emitir todo tipo de opinião desnecessária nas mais de 6.500 línguas humanas que vigoram na Terra. 

No último ano e bolinha, a gente perdeu metade dessa face quando poderíamos ter simplesmente guardado essa língua. O vírus sai basicamente da saliva, e a saliva sai basicamente da fala. O quão mais simples as coisas teriam sido se a gente tivesse parado de falar, e não de fazer todo o resto?

Um homem sem poupança

(às vezes Deus protege os incautos. O texto abaixo foi escrito em 2013, perto da publicação do romance Divórcio, de Ricardo Lísias. Acabei apagando do blog em um dos meus acessos de “está tudo ruim”, mas recentemente decidi que gostava dele. Reencontrei por acaso, em um e-mail enviado a uma amiga. Não sei se era a versão final, mas Deus tem outras prioridades).

 

*

É a história de uma jornalista que se casa com um escritor. A jornalista é ambiciosa, bonita, manipuladora. Uma pessoa que negocia com o mundo — isso quando precisa negociar; em geral, ela e o mundo estão na mesma página. O escritor é o oposto disso, mas eles se casam. Não é um namoro que desemboca em casamento: é um casamento que se materializa mais ou menos do nada, embora nenhum dos personagens pareça dado a atos impensados. Poucos meses depois, o escritor encontra o diário da jornalista e descobre que ela não está contente. Descobre, na verdade, que ela o despreza. Ele surta, há um divórcio. O livro traz o escritor às voltas com sua separação, tentando se recuperar. O pilar dessa recuperação é a desconstrução da imagem da mulher. Como tantos ex, ele precisa odiá-la. O problema não pode estar nele, não pode estar no amor, tem que estar no objeto.

O enredo de Divórcio, de Ricardo Lísias, é sem dúvida interessante. A trama se dá entre esses dois personagens que vivem da escrita. Uma vive de reportar a verdade, mas é uma mentira. O outro vive de vender mentiras, mas é verdadeiro. Entre eles, um diário, esse relato que pressupõe a ausência de leitor e de apuro, uma escrita bruta, honesta, desinteressada.

A ideia de privacidade e da ausência de um leitor — uma figura frequentemente incorporada ficcionalmente na literatura moderna — reforça a credibilidade do relato, uma vez que ninguém precisa manipular um leitor que não existe. É interessante pensar nessa personagem, nessa mulher que se constitui apenas através de memórias deturpadas e de um diário; um diário usado como prova contra si mesma.

O uso de diários e outros documentos era um artifício que transmitia verossimilhança ou até um lastro de verdade para as narrativas do século 18. É frequente que os livros dessa época insiram o aparecimento de um diário, carta ou documento como estratégia para dar ao leitor a possibilidade de testemunhar de forma mais direta a experiência de um indivíduo que passou por aquilo e usa a autoridade de quem viveu os fatos para revelar seu sentido. A ideia da “evidência” e da experiência individual como garantia de sentido era forte naquela época. É dessa crença que surgem os pilares do jornalismo moderno: a ideia de que o indivíduo que “foi ao local” pode nos dizer “o que de fato aconteceu”.

Não parece coincidência que a personagem jornalista seja justamente a vítima dessa investigação, desse relato direto que é subvertido no Divórcio por um narrador extremamente manipulador que apresenta trechos cortados e editados do suposto diário de outrem para reforçar uma tese que ele já traz pronta desde a primeira página: a velha tese de que a mulher é uma oportunista dissimulada que se aproveita da nobreza de sentimentos e da paixão cega de um homem bom.

Acontece que o recurso do diário é usado em uma época em que esses elementos já não têm o peso que tinham no século 18. A crença na prova, na repórter que vai a Cannes, que entrevista Brad Pitt e por isso pode falar com propriedade, está datada. Quando esses artifícios surgem em um romance de 2011, eles aparecem em uma chave invariavelmente rebaixada.

A forma de salvar Divórcio da vala da pura maledicência de ex-marido é fazendo um gesto interpretativo vigoroso — alguns diriam forçado — no sentido de ler o protagonista Ricardo como um Bentinho e supor que uma outra instância narrativa (o autor implícito) aponta para suas limitações. Essa é a leitura que busquei fazer. Se concordo com ela, honestamente, não sei dizer.

Os defeitos atribuídos ao narrador tanto por ele mesmo quanto pelos fragmentos do diário não colocam em xeque sua autoimagem. Pelo contrário, são defeitos que corroboram com a construção de escritor comprometido com seu ofício, culto, viril, pessoa simples, despretensiosa, boa, leal e desapegada que ele parece fazer de si mesmo e que tenta vender ao leitor. Entre os defeitos listados no livro está andar demais, ler demais, não ter vivido, não ter um apartamento, nunca ter feito uma poupança, não ter um carro, não saber dirigir, comportar-se em restaurantes chiques como se estivesse no restaurante da esquina. Esse último “defeito” é interessante pois sintetiza a ideia de que Ricardo é um sujeito homogêneo, uno, igual a si mesmo, de uma cara só. Não há nele uma cisão entre pessoa pública e privada, não há nele uma capacidade (ou disponibilidade) de negociar com o meio.

Já os defeitos atribuídos à personagem feminina tanto pelo narrador quanto por seu próprio diário destroem a imagem pública que ela tão cuidadosamente procura construir. A imagem de jornalista séria, inteligente, competente, segura, simpática, bem relacionada, viajada e sensual que ela busca passar é inconciliável com a mulher arrogante, arrivista, filisteia, desesperada e cruel que surge no diário e nas acusações do narrador. O próprio ato de escrever um diário em pleno 2011, sendo ela uma pessoa que vive da escrita, mostra que a personagem reconhece e problematiza a cisão entre seu eu interior — com sentimentos nem sempre edificantes — e a face que ela apresenta publicamente. Manter um diário é reconhecer que não somos quem vendemos ser. Em uma época em que até os blogs estilo diário publicado deram lugar à versão mais pasteurizada de nós mesmos exposta no Facebook, manter um diário verdadeiramente privado é quase um ato de rebeldia.

Sua ex-mulher sabe que é mais de uma enquanto Ricardo defende ser um só. Sob essa perspectiva, o Divórcio de que trata o título pode se referir não apenas ao fim do casamento dos protagonistas mas também a essa separação radical entre os dois lados da personagem feminina, partes inconciliáveis de uma mesma pessoa, e ao choque de expectativas que o narrador tem ao descobrir esse eu privado por meio do diário. Por ser uno, Ricardo não consegue compreender a multiplicidade da mulher. Por ser coerente até em seus defeitos, não consegue compreender suas incongruências.

O leitor tem pouco acesso ao que Ricardo pensava de sua mulher antes da leitura do diário. Mesmo nas cenas que ele recorda momentos anteriores à leitura, a mulher que surge ali é indubitavelmente a mesma do diário, com os mesmos defeitos mal disfarçados em uma capa de civilidade tão fina que o leitor duvida da inteligência do narrador por não ter notado antes — ou de sua parcialidade. Incapaz de juntar os vestígios da “pessoa para quem ele disse sim”, o que ele faz é rememorar cenas do passado assegurando-se de que a mulher do diário já estava ali o tempo inteiro.

Ricardo acusa a ex-mulher de ser de algum modo oportunista, de ter se casado por interesse, embora o próprio narrador reconheça que é ela quem tem dois apartamentos e pode pagar o restaurante da Torre Eiffel, enquanto ele é um homem sem poupança. O enredo do casamento por interesse é exposto em seu ridículo em um contexto de relativa equidade de gênero e valorização do trabalho. Por ser um homem sem posses, Ricardo está convencido de que o casamento visava um interesse em seu capital simbólico como escritor relativamente bem sucedido e como intelectual. O narrador busca mostrar o quanto ele possui cultura e por isso é diferente dos demais consumidores e trabalhadores. Acontece que a forma como isso é posto termina por igualar essas experiências. A mala cheia de livros que ele traz de Buenos Aires não parece menos vulgar que a mala cheia de alfajores de um turista convencional. Na cena em que o protagonista tem uma overdose, a recitação de um rosário em latim por um de seus amigos é posta em equivalência direta à mostra do corpete empreendida por outra amiga, indicando que no fim das contas saber latim e mostrar o corpete têm exatamente a mesma finalidade para aqueles personagens:

“Éramos quatro excelentes alunos. O Léo começou a recitar um rosário de orações em latim e a [X] mostrou que estava de corpete. Os dois casais se formaram.”

Por trás da pompa de intelectual desprendido, Ricardo é um homem que viaja para destinos comerciais como Paris, Nova Iorque e Buenos Aires e que consome essas cidades ao modo de um turista qualquer; que mora em bairros de elite e come em suas padarias; que frequenta festas da intelligentsia paulistana e faz social como todo escritor que reconhece a utilidade dessas redes de relacionamento e que, por fim, escolhe se casar com uma repórter de cultura de um jornal importante, com uma mulher que entrevista Brad Pitt. Se é bastante verossímil no contexto do romance que a personagem feminina tenha se casado visando e fetichizando o capital cultural de seu marido, parece igualmente verdadeiro que Ricardo tenha se casado buscando esse mesmo capital simbólico e social. E não atrapalha o fato de ela ainda por cima ter dois apartamentos.

Desejar é uma coisa difícil, nem sempre a gente tem condições de bancar o próprio desejo. Uma das formas de realizar um desejo sem ter que bancá-lo é terceirizar o desejo, ou imaginá-lo como uma imposição externa. Ricardo terceiriza seu desejo de pertencimento para a mulher. Nada mais útil a um escritor desprendido do que uma mulher ambiciosa. Ele é uma dessas pessoas que estão sempre fazendo as coisas pelas outras. Aquele tipo que casa com festa, mora em bairros caros e vai ao restaurante da Torre Eiffel, mas sempre “arrastado”. Ele é melhor do que a vida que leva.

O enredo do casamento por interesse se complica no caso da obra de Ricardo Lísias pois tratamos aqui de uma mulher que se encontra em posição econômica superior à de seu alvo matrimonial e em situação social semelhante à dele. Mas Ricardo é do tipo de homem que se considera portador de um tesouro místico, que ele elabora vagamente como sendo seu capital cultural e seu falo. Para esse tipo de homem parece perfeitamente plausível que uma mulher com dois apartamentos se case por interesse com um homem sem poupança.

Em alguns trechos do diário, a mulher parece inconformada com a situação financeira de Ricardo: com sua falta de bens, com o fato de ele não poder pagar por determinados consumos que, na cabeça dela, constituem a vida adulta e o casamento em si. Essas insatisfações não parecem de ordem prática, e, sim, fruto de uma crença mais profunda de que ter um homem que atenda a certos requisitos financeiros faz parte do pacote casamento. Ela escreve, por exemplo: “Fui eu que paguei o restaurante da Torre Eiffel e também o Alain Ducasse. Eu posso dizer que isso é casamento?” Em outros trechos, no entanto, ela se coloca como uma mulher extremamente independente e orgulhosa de seus feitos financeiros e profissionais. Não se trata de uma mulher que queira casar com um homem rico para obter mais conforto ou distinção material, e sim de uma mulher que parece enxergar na pobreza uma diminuição do homem em si e que busca um casamento em que os papéis de gênero sejam mantidos ao menos como encenação. Em suma, trata-se de uma mulher independente, mas que quer que o marido pague a conta do restaurante da Torre Eiffel, esse símbolo fálico em forma de ponto turístico.

Em dado momento, a protagonista afirma que casou com um escritor em busca de aventura, mas que Ricardo acorda todos os dias no mesmo horário. O casamento com Ricardo era uma maneira de conciliar desejos contraditórios. Se a própria ideia de casamento traz uma noção enfadonha de segurança e estabilidade, o plano de casar com um artista vem para balancear a caretice e dar um pouco de ação. Ricardo, no entanto, frustra ambos os propósitos: não é um homem do tipo provedor sequer em pequenos atos simbólicos como pagar uma conta de restaurante, tampouco traz aventura. É um personagem que poderia trabalhar muito bem os conflitos do homem moderno, perdido em seus novos papéis, tentando estabelecer uma forma de ser masculino que esteja menos associada ao ato de prover.

Me parece importante pensar na influência do editor nesse livro. Na segunda parte do romance, a reviravolta ficcionalizante empreendida pelo narrador cheira a encomenda de editor comprada pelo autor apenas para evitar críticas (e processos). A mão do editor entra mais incontestavelmente (e de modo desastrado, na minha opinião), na contracapa do livro, onde se lê: “Casado há quatro meses, o narrador de Divórcio encontra acidentalmente o diário da esposa”. Ora, se o diário foi encontrado acidentalmente ou de propósito me parece ser um dos problemas centrais do romance. Ter um narrador que não consegue admitir nenhum ato de vilania, nem mesmo o gesto de invadir a privacidade da mulher para pegar o diário e que conta uma história tortuosa para explicar como chegou ao diário é a pista primordial de sua não confiabilidade. Fica difícil lidar com um livro cuja questão central é a parcialidade do narrador se não podemos contar sequer com a imparcialidade da orelha do livro.

Ricardo é um personagem tão incapaz de reconhecer responsabilidades que, diante do fato de que pegou o diário de uma outra pessoa e invadiu sua privacidade, pensa o seguinte: “Que tipo de pessoa deixa no caminho do homem com quem se casou há quatro meses um diário com esse conteúdo? Repeti a pergunta várias vezes. Com quem me casei?”

O que chamo de reviravolta ficcionalizante na segunda metade do livro é a súbita defesa (dentro do romance) de que o material que temos em mãos é um material ficcional sendo que até então o romance trabalhava com uma identificação completa entre personagem e autor, com a ausência de um filtro de ficção. Ou seja, havia um pacto autobiográfico na primeira metade que é subitamente quebrado na segunda parte. Isso poderia ser interessante, se não fosse mal feito nem soasse a arremedo legalista. O livro muda de projeto e essa mudança é mal arranjada.

Para piorar, tem toda aquela história de corrida meio Murakami brasileiro que não acho bem realizada. Cheira a autoajuda. A superação da dor psíquica sendo materializada na superação física do atleta é muito clichê. A imagem das “pernas fortes” simbolizando a capacidade de andar com as próprias pernas é bamba.

Por fim, gostaria de falar sobre a conta dentro do diário, imagem que considero a mais forte e bem-sucedida do livro. Ricardo encontra o diário e entra no campo da pequenez num dia em que precisa pagar uma conta que se encontra justamente entre as páginas do diário. A conta no diário rebaixa a personagem feminina, mostra que ela está no reino do comezinho, do dia de semana, das contas a pagar. Um mundo onde o nosso Ricardo só dá as caras para fazer antropologia.

Fantasma sai de cena

Talvez História de um casamento (Noah Baumbach, 2019) seja um filme sobre projeção, e talvez a mais importante delas seja aquela que o casal faz nos advogados — mas também na mãe, no filho, um no outro. É o desenlace de um casamento perfeito entre um egocêntrico e uma passivo-agressiva, nenhum deles propriamente má pessoa, porém ambos muito empenhados em terceirizar a agressividade. É uma história cheia de cenas de reconhecimento e estranhamento na qual o casal vai pouco a pouco trocando de papel. Não à toa, o marco temporal do divórcio são duas festas de Halloween. 

O filme começa com sequências nas quais cada um deles descreve o outro com o detalhamento afetuoso de quem parece se gostar. No entanto, estão na sala de um mediador de divórcio e a mulher se recusa a ler o que escreveu sobre o marido. Se cada um lesse seu papel, talvez não houvesse divórcio — exceto que àquela altura a separação já ocorreu, e os motivos estão fora daquelas cartas auto romanceada. O objetivo do mediador é que as pessoas lembrem por que se casaram, para começo de conversa. Ele acredita que, em posse dessa lembrança, serão capazes de passar por aquilo sem passar por cima um do outro. O problema é que, em um divórcio com filho no qual cada parte deseja morar em um estado diferente, um está literalmente no caminho do outro, obstaculizando esse desejo. O casal quer se enxergar como racional e civilizado, como o tipo de gente que respeita o ex mesmo na separação, mas como resolver um impasse desses sem perder o penteado? 

No começo do filme, Nicole é uma pessoa que não consegue bancar os próprios desejos. Ela está sempre triangulando e projetando. Dorme com o filho porque ele está passando por uma transição, não ela. Larga Hollywood pelo teatro e Los Angeles por Nova Iorque para satisfazer o desejo do marido, não o seu próprio (de ser uma atriz respeitada, de se afastar da mãe, de ficar com ele). Combina de não envolver advogados e descumpre o acordo primeiro porque a irmã a fez visitar vários escritórios, depois, porque uma produtora que mal conhece insiste que procure Nora, a advogada dela. Divide a terapeuta com a mãe, embora pareça reprovar a ideia. Desmarca o Halloween coletivo com o ex em cima da hora e põe a culpa na irmã e no cunhado. A própria vilanização do marido, embora não seja de todo descabida — quando é? —, parece antes uma forma de justificar o fato de que ela passou a querer outras coisas, e essas outras coisas não estão disponíveis ali (em Nova Iorque, naquele relacionamento). Ela quer o espaço que a Costa Oeste oferece. Oferece, no caso, para ela. 

O papel da advogada é autorizar Nicole a assumir o próprio desejo. Primeiro, o desejo de morar em Los Angeles. Depois, o desejo de odiar o marido. Em seguida, o desejo de que o filho seja “nosso de verdade, mas ao mesmo tempo só meu”. O processo se completa na cena do tribunal, quando as duas vestem basicamente a mesma roupa e mantém a mesma pose. Diante do juiz, os advogados expressam a agressividade que o casal gosta de imaginar que esteja fora deles. Eles representam seus clientes. Através deles, os clientes podem dizer “eu quero tudo”, enquanto de suas próprias bocas o que sai é “fique com o que quiser” (no fim, é engraçado como o sujeito que mais dizia isso se ressente porque a ex levou o sofá que originalmente já era dela). 

As duas cenas de música — nas quais Nicole canta “You Could Drive a Person Crazy” e Charlie “Being Alive” — são a incursão mais didática do filme, embora de fato sejam boas. Charlie canta que quer alguém que sente em sua cadeira, e acaba encontrando. Em grande parte, o que Nicole quer é assumir a posição do marido: ser diretora, dirigir o casal, dirigir a casa, liderar um pouco. Mas naquela relação só havia uma cadeira de diretor. Aos poucos, Nicole vai repartindo o lugar do marido entre ela mesma e o filho.

Daí vêm as cenas de estranhamento, que geralmente são de Nicole em relação a ela mesma, ou de Charlie em relação a Henry e Nicole. Desde quando ela sabe hackear um e-mail? Desde quando sabe que a locadora não podia instalar a cadeirinha? Se sabia dessa lei, talvez a coisa toda de ir para Los Angeles e só depois entrado com o divórcio tenha sido mais premeditada do que parecia. Desde quando é diretora? Desde quando é vegetariana? Esse cabelo é seu mesmo ou pintou? Desde quando o filho deixou de gostar de matemática? Desde quando quer ser ninja e não Frankenstein? Desde quando prefere sentar?

No fim, a protagonista é Nicole, porque é ela quem passa por uma transformação. O processo do marido é mais de lidar com a aceitação da derrota, com o fato de que terá de ceder o lugar. Aquilo que não cedeu para a mulher — Los Angeles, a secundarização da carreira, a direção — terá de ser cedido ao filho, o que causa uma mistura de ressentimento e admiração por parte da ex. 

Há cenas interessantes de reconhecimento, de momentos em que os personagens ou reconhecem uns aos outros ou têm revelações acerca de sua própria natureza. A mais legal é aquela entre Charlie e a sogra, quando ele chega na casa dela e ainda tem a chave da porta, mas, ao entrar, a sogra já é sogra de outro cara, e mantém com esse cara a mesma relação filial que mantinha com ele. Porque, no fim, o genro — qualquer genro — era apenas um dos meios de exercer uma relação neurótica e competitiva com as filhas. 

A cena dos peixes também é perspicaz, quando Henry entra em um prédio de escritórios com o pai e reconhece primeiro o prédio, mas Charlie diz que todos eles se parecem. Depois, entram na sala do advogado que foram visitar e Henry reconhece os peixes, mas Charlie diz que “muitos peixes se parecem”. Logo fica claro que o menino estava certo: ele já tinha ido ali porque a mãe consultou mais de uma dúzia de advogados, provavelmente para deixar o pai sem boas opções. Os prédios se parecem, os peixes se parecem e as pessoas também podem ser bem parecidas em um processo de divórcio.

Quem autoriza Charlie a cogitar que a ex tenha deliberadamente atrapalhado sua escolha de advogado é a recepcionista do escritório. Antes disso, outro advogado (Bert) já havia chamado Nicole de vaca, assim como a advogada dela chamou Charlie de escroto. Os dois sempre rebate os xingamentos. Ele não é assim, ela não faria isso. Assim como nas descrições romantizadas do começo do filme, trata-se antes de uma romantização de si do que do outro. No entanto, comentários depreciativos mal disfarçados abundam, especialmente na frente do filho. Bert diz que criminalistas vêm pessoas ruins em seus melhores momentos, enquanto advogados de divórcio vêm pessoas boas em seu pior. Mas, como disse Nicole em seu monólogo para Nora, “everything is like everything in a relationship”.

Se no primeiro encontro com Nora Nicole tinha dificuldade de sequer articular o que ela própria queria e admirava a mulher de George Harrison por ao menos ser honesta consigo mesma e admitir que era apenas a esposa, na cena final ela surge não como a mulher ou mesmo como o próprio George Harrison, mas vestida de John Lennon no Halloween de sua consagração. Já Charlie passa de Homem Invisível para ninguém, porém, com não se pode ser ninguém, tome um lençol emprestado e seja fantasma.

Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó

Submeta-se, infiel. O prazo das submissões está se encerrando. Você precisa realizar que feminismo não é sobre odiar homens. O ponto deste lide um pouco randômico é que estamos falando um português de merda, repleto de uma nova leva de anglicismos pedestres que ninguém sabe ao certo de onde veio, mas aqui vão alguns palpites leigos.

Palpites… Eles não costumam prestar nenhum serviço aos estudos linguísticos. A teoria de que o “gerundismo” teria sido uma contribuição do telemarketing, por exemplo, provavelmente veio de uma coluna do jornalista Ricardo Freire no Jornal da Tarde, em 2001. Tão difundida quanto equivocada, a tese era que o treinamento dos atendentes teria usado manuais mal traduzidos, transpondo um gerúndio excessivo — essa forma nominal é muito mais frequente na língua inglesa — para o português.

Apesar das horas que cada um de nós já passou pendurado num telemarketing e da propensão a assimilar novos aprendizados durante o sono — o sujeito te liga às 7h, você atende em estado de sonambulismo e logo pega a mania de gerúndio, tal qual um curso de línguas noturno — a maior parte dos linguistas considera improvável que o telemarketing seja o pai da criança.

“Essas construções já existiam no português, a gente sempre pôde falar que ia ‘estar fazendo’ algo. O que houve no fim do século passado foi um aumento significativo do uso, principalmente nos estratos menos letrados da sociedade. O porquê desse aumento não sabemos, mas parece que havia uma tendência geral da língua puxando para isso, e que esse era um movimento anterior à generalização dos telemarketings”, explica Marcello Modesto, professor de linguística da USP.

Se os palpites não ajudam, eles talvez divirtam. O palpite deste texto é que, nos últimos anos, o leitor brasileiro se viu cercado de más traduções. Na década passada, o mercado editorial sofreu uma rápida expansão muito mais baseada em importações do que em produção própria e que teria resultado em uma perda de qualidade nas traduções. As editoras passaram a lançar mais títulos e a toque de caixa. Paralelamente, sites como BuzzFeed e Huffington Post passaram a traduzir muitos artigos do inglês, em geral porcamente (parte das traduções é declaradamente amadora) e com um conteúdo repleto de expressões idiomáticas. A legendagem caseira de filmes e seriados virou regra, assim como a tradução de verbetes da Wikipedia, com uma qualidade que varia do excelente ao amplamente lamentável.

Isso pode ter gerado uma nova e significativa leva de anglicismos. Pessoas que nem sequer leem em inglês estão falando e escrevendo coisas como “realizar” (no sentido de perceber). Mesmo os jornais têm usado “assumir” como se fosse sinônimo de “supor”. Uma campanha recente do filme Cinquenta tons de cinza trazia uma série de cartazes dizendo “sem mais segredos”, “sem mais regras”, traduções literais que seriam mais bem transpostas como “chega de segredos”, “basta de regras”. Tem aquela franquia de casas de depilação, a “Não+Pelo”.

Ouve-se ainda endereçar (no sentido de “tratar de”). Submeter (inscrever-se. É um quinto ou sexto sentido possível da palavra em português, mas remoto). Meu ponto é que (o que estou querendo dizer é que). Você tem um ponto (o que você disse faz sentido). Icônico (significa que o sujeito é pictórico?). Acurácia (precisão. Também existe em português, mas é pouco usual). Randômico (também conhecido como aleatório). Suportar (no sentido de financiar, de aceitar ou de ser compatível. Um clássico dos aparelhos eletrônicos: de repente o celular grita que não suporta aquele carregador). Dedicado a (no sentido de função). Discutir sobre (não podemos só discutir?). Mais cedo (como em “hoje mais cedo o caboclo de Policarpo Quaresma baixou em mim”). Virtualmente (no sentido de quase sempre, quase tudo). Disputar (no sentido de discutir ou contestar). Clarificar (esclarecer). Agenda gay (reivindicações do movimento gay). Introduzir (um assunto ou pessoa). Entregar (no sentido de render no trabalho). Tipicamente (onde a frase implora por um “geralmente”). Mandatório (um obrigatório especialmente mandão). Regências como “busca por”, “pede por” (as pessoas estão pedindo).

“Hoje ouvi um aluno dizer ‘eu não pertenço a este lugar’. Estou à espera do ‘nós pertencemos juntos’”, conta Caetano Galindo, tradutor e professor de linguística da Universidade Federal do Paraná.

Erros de tradução não são nenhuma novidade, mas não se trata aqui de erros causados por um mau entendimento do inglês, e sim por uma falta de familiaridade com o português. Pressupõem um leitor com pouca leitura de textos originalmente escritos em português e que está cercado de más traduções, ou que traduz mal ao ler sozinho textos estrangeiros.

“É interessante pensar que o que possibilita essa pobreza das traduções não é necessariamente a pobreza do inglês dessas pessoas, mas sua pouca alfabetização em termos mais sofisticados, de repertório. Vejo cada vez mais casos de gente que não leu lhufas em português e que tem a sensação de que as coisas foram inventadas em inglês”, afirma Galindo.

A impressão é de que o pessoal que cumpre a função sintática de elite cultural nesta louca oração chamada Brasil está se alimentando exclusivamente de textos gringos ou de tradução porca. A maior parte das pessoas nem sabe que está usando expressões transpostas literalmente. Elas leem essas coisas no jornal, em sites profissionais, na legenda do filme baixado legalmente e assumem que isso seja português. Nesse sentido, o leitor que de fato fala inglês talvez esteja mais protegido da adesão involuntária do que quem não percebe o eco ensurdecedor da tradução. Se você lê uma frase em português e o correspondente em inglês logo se materializa na sua cabeça, as chances de ser transposição literal ou malfeita são grandes.

André Conti, editor da Todavia, acha razoável supor que o ganho de volume do mercado tenha baixado o nível médio das traduções. “O inglês não é um idioma tão difícil, e muita gente que fala bem dá de barato que a migração para a tradução será tranquila quando a questão é justamente o português, esse sim um idioma bem filho da puta e enjoado”, diz. “Há uma massificação da cultura pop via séries, memes etc. que faz com que a gente queira usar essas expressões que vemos todos os dias. Não chega a ser ruim, só um pouco caipira e afetado. Hoje em dia, no ambiente empresarial, usa-se, por exemplo, ‘performar’, no sentido de ‘esse livro performou bem’, o que me soa como a morte lenta e dolorida de tudo o que é belo, mas o que fazer?”, conclui.

Paulo Henriques Britto, poeta e professor de tradução da PUC-Rio, concorda que há uma nova leva de anglicismos no ar, mas não vê com maus olhos. “Pessoalmente, não tenho nada contra estrangeirismos, mas tendo a preferir os que realmente preenchem uma lacuna no léxico, como ‘privacidade’, ‘bullying’ e talvez ‘empoderamento’, embora seja uma palavra quase tão feia quanto ‘seborreia’, eleita pelo Luis Fernando Veríssimo como a mais feia”.

Há os estrangeirismos lexicais e os sintáticos. Os lexicais são mais comuns porque “o vocabulário é como que a pele da língua”, explica Galindo. Nessa categoria há os casos em que uma palavra estrangeira é adaptada, obedecendo inclusive às regras de formação de palavras do português (como em frilar e tuitar); aqueles em que uma palavra estrangeira é integralmente transposta sem sofrer aportuguesamento (como em download e upgrade); e aqueles em que uma palavra que já existia num mesmo campo semântico recebe um sentido diferente (como no caso de “eventualmente”, que passou a ser usada como sinônimo de “finalmente” ou de “em algum momento”). “Esse terceiro caso é o que mais incomoda, porque parece que a língua não está ganhando absolutamente nada”, opina Britto.  

Bem mais raros, os estrangeirismos sintáticos são quando estruturas gramaticais de outro idioma passam a ser incorporadas, como no uso que a preposição “sobre” vem assumindo em frases como “liderar não é sobre mandar nas pessoas”, “conviver não é sobre estar certo”, tão comum que está nos versos de “Trem-Bala”, sucesso imediato da cantora Ana Vilela. Essa estrutura simplesmente não existe no português e dói nos ouvidos só de pensar, mas vai negar que seja útil? Em português tout court teríamos que dizer algo como “liderar não é simplesmente mandar nas pessoas” e “para conviver às vezes é preciso abrir mão de estar certo”. Ou seja, teríamos que dizer algo completamente diferente. Nesse sentido, a incorporação de “é sobre” só pode ser vista como um enriquecimento da língua. O problema é que enriquecimento de língua nem sempre vem ao gosto estético do freguês.

Britto observa a adoção de outro estrangeirismo sintático: o uso de sintagmas nominais com pré-modificação complexa de uma maneira próxima ao inglês. “No português, isso me parece inaceitável, mas as pessoas têm feito mesmo em textos originalmente escritos no nosso idioma, formando coisas do tipo ‘um não muito inteligente, porém bastante simpático rapaz’”, diz.

A língua muda constantemente, eis uma verdade,  mas não seja a mudança que você não quer ver no mundo. Tão natural quanto a língua mudar é os falantes oferecerem algum tipo de resistência a essas mudanças. Grosso modo, quem impulsiona alterações linguísticas são as camadas menos escolarizadas e os jovens, enquanto as camadas mais escolarizadas só adotam as mudanças no último buraco do cinto, fazendo com que sua adesão prove a consolidação da nova regra. No caso desses anglicismos, no entanto, a mudança parece vir de cima.

“De um lado, há que reconhecer a naturalidade, a desejabilidade até, dessa flexibilidade na aceitação dos estrangeirismos. Ninguém quer ser o islandês, com sua política de barrar novas palavras importadas. Ou os franceses, com sua esquizofrenia estrangeirista. De outro lado, há que se reconhecer a gratuidade de alguns desses empréstimos, bem como sua ligação inquestionável com operações de tradução mal realizadas”, opina Galindo.

Já Britto acha que resistir é um tanto inútil. “Se um uso se generaliza, em princípio não há o que fazer. Morrerei sem dizer ‘vou estar lhe telefonando’ e, a cada vez que leio que um livro está fazendo sucesso ‘ao redor do mundo’ tenho vontade de replicar: ‘Ué, tem gente lendo nos satélites artificiais?’. Mas para a próxima geração é possível que essas formas se tornem normais; nada a fazer”, diz.

Para Modesto, coisas como ‘aplicar’ para o mestrado ou ‘fazer um ponto’ na hora de discutir talvez estejam mesmo entrando para a língua, mas e daí? Outras, como ‘compreensivo’ no sentido de ‘abrangente’, viriam do latim e importa muito pouco se estão ficando mais comuns por via do inglês. Para ele, esses empréstimos limitam-se a um grupo reduzido de falantes e se dividem entre aqueles que são realmente estranhos ao português e os que são português mesmo, embora talvez não sejam a melhor opção. Entre os estranhos estaria o uso de “em adição” no sentido de “além do mais”. Já entre os nativos estaria “baseado em Londres” no sentido de que mora ou tem sede em Londres, por exemplo. “Os que são português podem se alastrar rapidamente pela língua se os estratos menos letrados de falantes se espelharem nos estratos mais letrados, embora isso raramente aconteça. Já os amalucados provavelmente são modismos passageiros”, explica.

PS: Escrevi este artigo como uma espécie de matéria de tese no ano passado, mas acabei ficando sem lugar para publicá-lo, então, perguntei aos entrevistados se eles se incomodariam caso eu postasse aqui.

Neolatinas

Ana Martins Marques tem esse poema bonito no último em que diz que: “Entre tantas coisas/ numa separação/ é também uma língua/ que se extingue”.

Extingue e não extingue, é o diabo da coisa. Digamos que um braço dessa língua se mostre menos dialetal do que desejávamos e vá se reeditando em cômica permanência feito uma língua do pê  inédita e indecifrável só pra quem é muito inédito e transparente no mundo. Outro dê em imitações descaradas feito um italiano do latim (os sons estão lá, os sentidos estão lá e somente porque o tempo passou e as bocas são outras, que se fecham e se abrem numa cadência levemente errada, alguém se atreve a chamar de nova). Essa outra língua, a derivada, você pode dar a sorte de puxar a corda para o mais diferente e ser, sei lá, um francês. Em geral, para quem ouvia a anterior, ela pode parecer um tanto paródiaca, feito um espanhol para alguns ouvidos brasileiros. Para quem dela se encontra nativo, no entanto, costuma parecer a evolução natural da coisa, que os falantes finalmente estão falando certo. Mas você está simplesmente errado e são todas muito parecidas quando você pega a grande árvore das línguas e olha todos os outros galhos que não percorreu por limitações variadas (das suas pernas, e não das línguas).

Achar que o deprimente está no fato de que a língua vai ou no fato de que fica só mostra em que ponto da espiral do amor você se encontra. Achar que não podia ter coisa mais boba mostra sua vocação para lecionar num desses cursos sobre como ser bem resolvido (mas nunca sobre linguagem, esse filão você deixa pra lá).