Jonathan

Tenho um gosto específico por músicas de amor cantadas por mulheres que evocam não a vontade de amar ou de ser amado daquele jeito, mas sim de chutar aquela macumba. O exemplo mais claro disso provavelmente são as músicas de amor interpretadas por Nina Simone. Quando ela canta I put a spell on you, você não é convidado a se colocar na posição do emissor daquela treta, mas sim na do receptor. E você deve sentir medo.

Medo é o que deve sentir com All mine, de Beth Gibbons, com The operation, de Charlotte Gainsbourg, e medo, muito medo é o que deve sentir com praticamente qualquer música de Fiona Apple. Valentine, Sleep to dream, Shadowboxer, Jonathan. O drama é tanto que sua empatia desliza sorrateira daquela voz que canta para o receptor da mensagem. Quando menos espera você simpatiza com os ex-namorados dela, não com ela. Quando ela canta “just tolerate my little fist tugging on your forest chest” você instintivamente contrai os ombros bem de leve, em repulsa. E é fascinante para mim que uma artista como ela, que pode me fazer sentir o que ela quiser, tenha escolhido me fazer sentir repulsa por ela mesma, pelo amor dela. Repulsa e medo. E ela sabe disso tudo, como fica claro no vídeo de Not about love em que Zach Galifianakis interpreta uma espécie de superego peludo dela, ou na letra de Paper bag, em que ela diz que “I know I’m a mess he don’t wanna clean up”.

Ninguém quer limpar. Por isso que ouvir as músicas dela é uma forma inesperada de autoajuda. Você começa chafurdando na lama, mas logo adota uma postura de “deixa disso, eu vi umas fotos desse Jonathan no Google e pensei que a gente acha fácil alguém melhor para te levar a Coney Island”.

Ps: Mas por que só mulheres, vocês me perguntam. Porque mulher assusta mais. Porque o esperado de nós é a passividade, assusta quando somos ativas em nossos afetos. Mas em Creep Thom Yorke chega quase lá.

Oito semanas

É incrível como um simples ajuste na unidade de medida muda tudo na cabeça de uma pessoa com pouca noção matemática e temporal. O fato de que o Instagram lista as fotos pelo número de semanas desde que elas foram postadas me dá uma sensação muito mais concreta, ainda que melancólica, do que se passou em minha vida recente. A contabilidade do tempo em anos ou meses diz pouco, mas saber que algo aconteceu a um número x de semanas de algum modo me perturba.

Entre as minhas fotos mais felizes está uma de 109 semanas atrás em que ando de bicicleta em casa jogando bola com meu cachorro. O momento é bonito, embora meu cabelo estivesse uma lástima (penso agora que cabelos são outra boa unidade de medida, como uma ampulheta orgânica que carrego comigo, o tempo passando, caindo por entre fios que se alongam e voltam a encurtar), mas o que importa é que lembro nitidamente da minha euforia interior naquele dia por motivos que pouco se relacionavam a qualquer um daqueles elementos enquadrados. Em outra foto, essa de 112 semanas atrás — talvez meu pico de contentamento desde que possuo conta nessa rede —, exibo uma capa de “A Sentimental Journey” com o preço estampado (cinco dólares) em um dia que eu mesma embarcava em uma jornada sentimental. Legenda: “Team Mr. Yorick”.

Há oito semanas meus joelhos sorriam esfolados ao lado de um focinho de cachorro num registro que não mostra nada, a não ser um dos dias mais legais dos últimos anos. A marquinha deixada pelo asfalto áspero ainda estampa meu joelho direito. Às vezes torço para que vire uma cicatriz; às vezes acho melhor não porque cicatrizes lembram algo que aconteceu há bastante tempo e a graça que vejo nela hoje é como um lembrete algo mentiroso de que os acontecimentos estão todos frescos, que nada se estabilizou, que as coisas ainda podem mudar de cor e textura até decidirem sua forma definitiva.

Oito semanas, 112 semanas. Qual seria o número ideal (e o aceitável) de semanas para que algo realmente incrível tenha acontecido?

A colunista que mais come mosca

A coluna escrita por Tati Bernardi hoje (e sempre) é a coluna de um homem, só que assinada por uma mulher. Esse é o papel dessa moça no jornal (e na sociedade): ela serve para veicular a opinião média masculina na voz de uma mulher, legitimando assim tudo que os homens pensam sobre as mulheres, sobre si mesmos, sobre o mundo. A coluna dela não faz sentido se analisada individualmente: ela compõe a base para que os colunistas homens brilhem, tanto os colunistas homens de direita, com seu machismo chic e refinado, cheio de referências intelectualizadas; quanto os colunistas homens de esquerda, com seu machismo cordial e “deixa disso”.

O leitor do jornal tem acesso à opinião dos colunistas de direita que acham que toda mulher é puta, à opinião dos colunistas de esquerda sempre queixosos de que a sensibilidade tenha mudado e já exista quem questione a pureza de intenções desses “homens que gostam de mulheres”, e à opinião de, veja só, um exemplar da raça que vem a público confirmar as expectativas de todos e dar a real sobre O Que São As Mulheres e o que Elas Pensam da Vida.

O que uma mulher como Tati ganha? Reconhecimento? Ser vista como igual pelos colunistas homens de direita ou de esquerda? Claro que não. Tudo que ela ganha é um certificado de que ela não é chata. Ela sim é uma mulher sincera e engraçadinha.

Chama atenção a insistência em chamar mulheres de chatas. Chata aparentemente é tudo que uma pessoa feita para o entretenimento não devia ser. Mas algumas (e cada vez mais) são, veja se o colunista de esquerda, aquele mesmo que ama as mulheres, não tem todas as razões do mundo para se afundar na melancolia.

Feira Plana 2014: Kimland

No fim de semana que vem, dias 8 e 9 de março, tem Feira Plana, uma feira de fanzines e publicações independentes que acontece no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Estarei lá com uma banquinha para…

Para vender o fotolivro que produzi em parceria com Mariana Newlands! O livrinho (era para ser um fanzine, mas nossa megalomania falou alto e ficou mais para livro) tem fotos e textos meus escritos em Pyongyang e projeto gráfico dela. Está super, super bonito. Imprimimos (leia-se: estamos nesse processo de mandar para a gráfica) em papel pólen 90g, 80 páginas, todo colorido, com lombada, bilingue, editado e revisado por Luciana Lima e Flávia Stefani.

capa_Kimland_teste1

Cada exemplar vai custar R$ 30 na Feira e vou aceitar encomendas por e-mail até o começo de abril (basta escrever para julianasilvacunha@gmail.com. O frete será de R$ 10 para qualquer lugar do Brasil). Depois disso o livrinho estará à venda no site da Kaput Livros, mas o preço vai subir um pouco por conta do intermédio. Não ficou tão barato quanto eu gostaria, mas considerando que só o valor de gráfica foi de R$ 24 por exemplar, acho que está justo. Publicar independente, em baixa tiragem e com bom acabamento eleva os custos, não tem muito jeito.

Screen shot 2014-03-02 at 12.38.46 PM

Além de “Kimland”, levarei também cinco exemplares de “Amor | Pequenas Estórias”, coletânea da Confeitaria Mag organizada por Fabiane Secches com direção de arte de Thiago Thomé. O livro, também publicado de maneira independente, conta com 39 microcontos ligados pela temática amorosa com diferentes abordagens, todos eles ilustrados. Para ver uma prévia basta acessar o site confeitariamag.com/amor pelo celular. Tem texto meu e de várias pessoas queridas nesse livro como Thiago BlumenthalDaniela Arrais e Ana Luiza Gomes.

1972427_621859034552579_1525999638_n

O livrinho da Confeitaria já está esgotado, esses são os últimos cinco exemplares disponíveis. Depois teremos uma nova edição. Cada exemplar custa R$ 50.

Para terminar, minha mesinha na Feira Plana ficará perto da entrada do auditório do MIS, junto com a Lote 42, a editora que publicou o “Já Matei Por Menos”, o “Seu Azul”, o “Pintinho” e o “Manual de Sobrevivência dos Tímidos”. Eles vão vender os títulos da editora lá e também vão lançar um fanzine do site Trilhos Urbanos que custará R$ 3. Aceitaremos cartões de crédito e débito (vou pongar na maquininha de cartão da Lote 42!) e na compra de qualquer livro da Lote 42 o fanzine deles sai de graça. Se for pagar em dinheiro, tente levar trocado, por favor.

1970416_601620273245601_2132682054_n

Acho que a Feira Plana desse ano será épica, tem tantos amigos meus lançando fanzines e livros independentes todos no mesmo dia! Veja aqui todo mundo que estará lá e os detalhes do evento.

Aparelhos que se renovam

Diante do horror daquela foto do suposto assaltante preso ao poste com uma trava de bicicleta no Rio de Janeiro, lembrei de um conto de Machado de Assis chamado “Pai contra mãe” em que ele pontua o caráter estrutural da escravidão e suas consequências em todos os aspectos da vida social brasileira.

Logo no começo do conto ele fala dos aparelhos e ofícios que entraram em desuso com a abolição, mas a foto do jovem acorrentado mostra que embora os aparelhos tenham entrado em desuso eles continuam sim muito úteis, tanto que estamos até adaptando outros objetos para cobrir esse filão de mercado. Machado também chama atenção para o fato de que a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco e o cruel. Não é mais ou menos isso que os nossos amigos têm dito sobre esse episódio nos elevadores e redes sociais da vida? Mas por ser Machado de Assis e não um blogueiro opinativo ocupado com a onde de calor, com a filha de Woody Allen e com o jovem negro ao mesmo tempo, ele deu um passo além das nossas timelines e apontou para o jogo de contradições que não permite identificar uma [ou uma só] vítima na história. Por isso o nome do conto é pai contra mãe e nossos amigos que pedem a cabeça do jovem talvez sejam o pai, mas quem somos nós?

“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dous para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras”. [+]

[Pai contra mãe, Machado de Assis]

Beijo de novela

Verdade, ter dois homens se beijando na novela é um primeiro passo. Mas um primeiro passo rumo a quê? Rumo ao projeto de inclusão de quem e por quem? Em que termos essa inclusão se dará? O problema crucial dessas inclusões televisivas empreendidas pelas novelas da Globo é o achatamento das diferenças. Quando é tolerado na televisão, o diferente passa a ser igual. É assim que temos pessoas de todas as etnias, origens, rendas, religiões e até nacionalidades representadas em novelas, mas pensando exatamente como a classe dominante brasileira (ainda que seus pensamentos costumem ser uma mímese rasteira e simplificada dos pensamentos da classe dominante brasileira, que é para ficar mais “realista”, pontuada aqui e acolá por uma excentricidade desimportante só para dar uma cor local).

Os gays que se beijam na novela são dois atores heterossexuais, brancos, lindos, magros, discretos, masculinizados, ricos, cisgêneros que dão uma bitoquinha chocha e assexuada. Nada disso ajuda a lidar com as diferenças, só passa uma impressão infantilizada de que a discriminação é sempre um capricho fruto de ignorância e que pode ser resolvida com PowerPoints e panfletos explicativos e não um posicionamento político violento de manutenção de privilégios historicamente adquiridos.

A dificuldade em lidar com o diferente reside justamente no fato de que ele não é como a gente, é fruto de outra experiência pessoal, de outra experiência histórica, tem outros anseios, outro código moral, outras necessidades, insiste em pensar, agir, consumir, se relacionar, produzir cultura, se vestir, falar, votar, transar e criar os filhos de modo diferente do nosso. Produtos culturais que vendem a ideia de igualdade e homogeneidade não estão ensinando a sociedade maior a respeitar o diferente, estão ensinando o diferente a se moldar de um jeito que ele possa ocupar um espacinho delimitado na sociedade maior, que faz um grande estardalhaço para mostrar como é boa de alma por recebê-lo no quarto de hóspedes da vida em sociedade.

Troque seu beijo de novela por um beijinho no ombro e seja gay (ou gordo, ou pobre, ou negro, ou estrangeiro, ou nordestino, ou deficiente físico, ou do terreiro) em seus próprios termos.

A jardineira

Existem pais que passaram toda a infância dos filhos fazendo promessas vazias sobre uma futura viagem à Disney que nunca se concretizou ou sobre um presente caro que eles sempre quiseram, mas que ficava além das posses familiares. Dizem que isso é muito bom para a formação da criança: ensina a lidar com as frustrações, ensina que na vida nem tudo é possível.

Quando eu era criança, um ônibus bonito, de janelas grandes e banquinhos que mais pareciam bancos de parque rodava os pontos turísticos de salvador. As pessoas chamavam aquilo de jardineira. Era um ônibus especial, com uma tarifa levemente acima da tarifa convencional e um trajeto um pouco fora de mão para os moradores já que o objetivo era apresentar a cidade e não levar do ponto A ao ponto B. Eu e minha irmã sempre quisemos andar nesse ônibus. Minha mãe prometia que um dia nos levaria, mas nós crescemos, o ônibus saiu de circulação e ela nunca levou. Minha mãe me negou não uma viagem à Disney, não o carrinho de Jorge Del Salto, mas um mísero passeio em um ônibus bonito.

Isso não apenas me ensinou que nem tudo é possível como me deu uma demonstração precoce da aleatoriedade dessas impossibilidades. O universo não lhe negará apenas aquilo que está distante de seus bracinhos curtos. No mais das vezes ele lhe negará coisas extremamente simples e plausíveis, coisas que foram feitas impossíveis só de brinks. O universo não lhe negará somente o que for muito caro ou muito longe ou muito difícil, ele lhe negará também o que é barato, simples e perto apenas porque ele é grande e você é pequeno, ele é o universo e você é você.

Creio que esse ensinamento tenha me dado grandes vantagens em relação aos meus pares que aprenderam apenas que algumas coisas são muito caras e papai não pode pagar.

Hoje, quando já tenho 26 anos e achava que minha educação estava completa, minha mãe me manda um Whatsapp dizendo que está passeando de jardineira pela primeira vez e se divertindo muito. (As jardineiras voltaram a circular há alguns anos). Pois hoje eu aprendi que o universo não apenas é aleatório em suas negações como às vezes ele também é escroto e te manda mensagens avisando que aquilo que era tão simples e lhe foi negado é mesmo excelente.

linhas_kitty450x100611111131

Sem resposta

Tomei uma decisão na minha vida que é assim: eu já não respondo e-mails de desconhecidos/semi-conhecidos que obviamente não se deram o trabalho de pesquisar o assunto minimamente antes de me escrever. Isso significa que eu não respondo mais pedidos de parceria, envio de brinde e publicidade para o meu blog. As propostas são frequentemente indecentes e sempre começam com “eu leio sempre seu blog”, o que é mentira: se o cidadão tivesse lido uns três posts saberia que não tem nada de publicidade no blog, nem de parceria etc etc.

Também não respondo mais e-mails sobre dicas para freelas, a não ser que o e-mail traga uma pergunta específica que eu saiba a resposta e por acaso não tenha incluído no meu post sobre o assunto. Se a pessoa obviamente não leu o post, nunca leu nenhum outro material sobre o assunto e achou que seria super de boas alugar um estranho para tirar todas as suas dúvidas sem ter que pesquisar nada, então que vá se catar.

Outro e-mail que não respondo: “que câmera e lente você usa?”. Essa informação consta no Flickr, ao lado de cada uma das imagens.

Mais outro: proposta de trabalho indigna de ser considerada.

E outro e outro: “como é morar em São Paulo?”, “como é estudar Letras?”.

Uma boa forma de receber respostas para esse tipo de pergunta sem incomodar as pessoas é pesquisando por conta própria ou perguntando em fóruns ou na sua própria rede social. Quando a pergunta não é direcionada a uma pessoa, responde quem quer, ninguém está sendo intimado a responder. Outra opção digna é recorrer a conhecidos de verdade e ainda assim demonstrando algum respeito pelo tempo da pessoa, algo que raramente acontece nesses e-mails. Parece que o simples fato de você ter um blog ou até um Facebook te faz um balcão de informações que está ali para isso mesmo, então, tudo bem a pessoa perguntar o que quiser e depois responder com um seco “obrigada” ou, melhor ainda, simplesmente parar de responder no minuto exato em que a dúvida dela foi solucionada e você já não é útil (mais comum do que você imagina).

Passei os últimos anos respondendo religiosamente todo e-mail que me mandavam, inclusive os mais sem noção. Por que? Porque sou legal? Claro que não: respondia porque a ideia de que alguém pudesse falar mal de mim me parecia assustadora o suficiente para merecer essa resposta. Imagina se a pessoa ignorada fala para um amigo: “mas essa menina que eu lia na internet é muito mal educada, nem respondeu meu e-mail, afe”. Pois é, isso me parecia relevante. Não parece mais. Ou até parece, mas digamos que os dez minutos que economizo em uma interação social fracassada me pareçam um pouco mais relevantes.

Para completar a lista de decisões que provavelmente me tornam uma pessoa mais antipática, mas certamente evitam a úlcera, desde o ano passado não tenho mais “frenemies”. Ou melhor: ainda tenho porque essas coisas vão se acumulando e você demora a detectar/lembrar/conseguir se desapegar de todos eles, mas estou resoluta a não mais acumulá-los e meio que aindei fazendo uma limpa. Pedi desculpas sinceras a algumas pessoas que acho que prejudiquei em algum momento da vida e deletei sumariamente pessoas que me prejudicaram e nunca pediram desculpas (ou o fizeram daquele jeito “desculpa se eu…”. Desculpa + se = pior do que ficar calado). Também estou nessa vibe de deletar pessoas que nunca me fizeram mal nem eu fiz nada a elas, mas com as quais me sinto em disputa por algum motivo abstrato e idiota.

Vou tentar restabelecer vínculos com alguns poucos parentes que acho que valem a pena e abrir mão por completo dos outros. Alguns realmente são escrotos e deixa para lá, outros até que são bonzinhos, mas quando o sentimento de que alguém não tem nada a ver com você persiste por mais de cinco anos é porque isso provavelmente é verdade, então, para que apostar tanto em laços de sangue? (Minha mãe daria risada se lesse isso aqui porque até parece que eu aposto tanto, mas, sei lá, já que estou apostando tão pouco, que tal não apostar at all?).

Bem, acho que é isso. Acho que está bom por ora.

linhas_kitty450x100611111131

Macaca

Tenho um histórico de zicas e ressentimentos envolvendo o Philip Roth. Quando tomei um fora histórico, por exemplo, o carinha de quem eu gostava me deu ”O Animal Agonizante” de presente antes de ir viajar com a moça pela qual fui preterida. Um tempo depois, tentei dar “Adeus, Colombus” de presente para um paquera com o qual eu achava que estava arrasando. Você foi na minha casa buscar o livro? Pois ele também não, nunca mais vi. O rolo subiu no telhado igualzinho aquele menino judeu que ameaça pular do telhado caso a comunidade não aceite Jesus no primeiro conto do livro.

Semana passada, comecei um bazar virtual no Flickr e vendi os dois livros por R$ 10 cada. Mágoas: um dia já guardei, hoje por quaisquer R$ 10 você leva as minhas pra casa.

linhas_kitty450x100611111131

Voltem para o armário

Li um artigo sobre como os blogs de moda estilo “blogueira de moda”, “look do dia” estavam ficando datados e sendo progressivamente substituídos por outros modelos como o “blog de mãe” (em que uma moça fala sobre o universo da “maternidade legal”); o “blog de Amélia” (em que a moça fala sobre como arrumar a casa para uma festa, como servir uma mesa da forma “correta”, como redecorar 30 vezes o mesmo cômodo) e o blog de ginástica (blogueira fitness, um fenômeno que ganhou projeção muito mais rápido do que as blogueiras de moda jamais sonharam).

Esperta, diz o artigo, é a blogueira que fizer um mexidão e combinar isso tudo. Ou seja, esperta é a moça que permanecer com um pé na moda (terreno seguro e já explorado), mas aproveitar para adquirir uma família e tonificar os músculos nas horas vagas.

O artigo não problematizava muito a questão, apenas constatava que as pessoas estão perdendo o interesse no esquema “look do dia” e que posts mais voltados para casa, família etc têm feito sucesso. Isso talvez se deva a um envelhecimento do público que lê esses blogs ou das blogueiras em si (eu tenho essa teoria de que rico “envelhece” cedo. Rico aos 25 já tem casa fixa, já casou ou está em vias de. Rico casa, para começo de conversa. Depois tem filho. O filho acarreta em mil processos que rendem posts, essas coisas). Uma “pessoa de humanas” comum não vê sua vida mudar drasticamente entre os 25 e os 30, um rico já é outra pessoa, toda uma nova fase.

A perspectiva de ver a internet tomada por mesas de jantar, rituais familiares estapafúrdios e bebês me deixou um pouco saudosista dos fotologs e até dos tempos aureos (2009?) das blogueiras de moda.

Todo mundo falou tanto nas tais “selfies” em 2013 que eu não pude evitar pensar nas fotologgers que povoaram minha adolescência, mais especificamente na Marimoon, que é a única que eu ainda tenho notícias. Quase todas as matérias sobre a Marimoon no começo dos anos 2000 chochavam a garota por tirar muitas fotos dela mesma e por se “expor desnecessariamente na internet”. Hoje, cada um dos leitores e editores dessas matérias tem um Instagram (um fotolog moderno e menos criativo) e posta fotos com um geolocalizador que indica exatamente onde a pessoa está, onde ela mora. A expressão “eu sei onde você mora” como sinal de ameaça nunca fez tanto (e tão pouco sentido): todos sabem onde todos moram.

As fotologgers foram (em certa medida e com um intervalo temporal considerável em termos de internet) substituídas pelas blogueiras de moda. As fotologgers eram incrivelmente mais legais do que as blogueiras de moda! Claro que não eram o modelo mais edificante que poderíamos ter, mas ainda era um fenômeno interessante. Para voltar à Marimoon, ela era uma menina normal, amplamente zuada na internet por motivos idiotas como “nariz grande”, “vegetariana que usa bota de couro” e “você se expõe demais” e que ainda assim fazia o que queria, costurava as próprias roupas, tirava fotos loucas. Hoje ela continua fazendo as mesmas coisas, nem aí para quem acha que ela não tem idade para usar aquelas roupas ou para ter aquele cabelo.

Daí vieram as blogueiras de moda. Um retrocesso significativo pois trouxeram um apelo financeiro que não existia (eu pelo menos não sentia) em relação ao fotolog. O foco do fotolog era ser gatinho e descolado, não era usar a marca tal, frequentar lugares caros, tirar fotos em que sua casa de rico acidentalmente aparecesse no fundo. Mesmo quando havia um apelo de consumo, era por itens baratinhos da 25 de Março/Galeria do Rock (chora, Salvador).

Apesar do retrocesso, os blogs de moda eram melhores do que essa vibe mãe/esposa/maratonista que começa a dar o ar da graça. Porque o foco pelo menos era na garota em si, no ego dela, nas roupas dela (mas em algum nível ainda trazia um olhar para si, um empoderar-se, ainda que fosse um empoderamento do mais raso, que é o empoderamento através da beleza e do dinheiro). Porque é menos ameaçador ser interpelada a comprar sapatos do que a se encaixar em todo um modelo de vida coxinha e, francamente, muito chato. Porque o que se configura no horizonte é uma possibilidade da influência negativa desses blogs deixar de ser restrita ao armário e invadir a casa inteira. Uma casa chata, correta e muito, muito família.

linhas_kitty450x100611111131