O furo

Eu estava aqui pensando que uma dúvida comum das pessoas é como dar um furo bem dado e também tem muitas situações em que furam comigo e sinto que estou sendo furada por um amador de modo que convém espalhar uma certa sabedoria que trago comigo desde muito cedo a respeito de furos.

Para dar um furo bem dado é preciso cultivar o elemento surpresa. Não faça corpo mole nem comece a problematizar o horário, o lugar, a adiantar que tem saído tarde do trabalho. Você sabe que não vai, mantenha a serenidade nessa fase da combinação. Seja ponta firme, seja a pessoa mais animada do chat, agite o rolê, faça planos concretos, confirme se é no Almanara-Almanara ou no Almanara de shops, pergunte inclusive se as pessoas não querem marcar mais isso e isso.

Na véspera — desmarcar no dia eu acho pesado — atire a bomba sem relutar. Não vou porque aconteceu X. Não explique muito, apresente um X incontornável, não negocie, se ausente do chat por horas até que as pessoas internalizem a notícia. Ninguém vai desconfiar porque, afinal, você estava animadaço, não estava falando em garganta prazo dor de cabeça há uma semana. Falar em garganta prazo dor de cabeça marcar vagamente gaguejar, essa preparação de terreno do furo, aí reside o amadorismo.

Reação no mundo

Talvez eu fique com uma cicatriz muito pequena e discreta por ter prendido a mão num portão surpreendentemente pesado para sua aparência vagabunda enquanto fazia uma cena levemente ridícula indo atrás de uma pessoa de quem já tinha me despedido só pra dizer: hei, vem você comigo.

Ele parado quase no elevador. Não vou te dizer que penteava o cabelo nem que os pais a essa altura já haviam alugado seu apartamento em Londres, mas o porteiro que esmagou e depois salvou a minha mão foi o mesmo que na minha primeira visita àquele prédio me perguntou se eu tinha certeza de que queria subir naquela festa e se havia cristãos na minha família, então me diga você o quão mais legal do que isso poderia ser. A gente está tão acostumado a ser cuidado pelos objetos que no momento do esmague pensei na irresponsabilidade do portão, em como não previam que algum idiota pusesse a mão ali.

Acabávamos de descer a Consolação a pé — a rua repleta de um lixo que fazia a gente se perguntar que grande caminhão de coleta teria feito uma grande bagunça ali para muitos minutos depois lembrarmos do impeachment — depois de assistirmos a esse novo filme do Woody Allen que foi o primeiro dele onde eu não consegui enxergar nada para dentro da casca, e foi também o primeiro que eu me lembre que acabou tão abruptamente, o público expelido de uma história na que mal havia entrado um segundo depois do suspiro final da protagonista. Ele, que não lembra um só final de um só filme de Woody Allen, foi quem notou que talvez não tenha sido o filme a acabar ab-ruptamente, mas o maquinista a ligar a luz cedo demais. Achei interessante pensar nessa instância narrativa que entra ali para dizer: chega dessa merda.

É um filme sobre como é difícil esquecer alguém. Sobre fazer escolhas. Sobre como fazer um discurso de frugalidade só até juntar o bastante para fazer um discurso de como as pessoas mudam e você também não é o mesmo. É mais um filme sobre o vazio de Hollywood, mas talvez seja só um filme de uma pessoa que se propôs a fazer um por ano e esse ano foi isso, talvez no próximo. Digo isso sem nenhuma crença de que mudar a periodicidade mudaria a qualidade. Às vezes sim, às vezes nossa melhor aposta é no atacado.

Um dia antes da minha cena no portão, uma moça com quem um amigo meu teve uma história artificialmente conturbada lhe escreveu tarde da noite propondo um encontro que ele recusou por já estar de pijamas, mas se você topar um café na semana que vem. Silêncio. Como esses gestos grandiosos num cotidiano miúdo não retiram a miudeza do todo, são apenas patéticos.

Teve algo parecido na Grécia, com as estratégias de batalha, quando os aristocratas ainda recitavam aqueles poemas sobre o heroísmo individual numa época em que os gregos guerreavam não mais feito touros raivosos e isolados, mas naquele esquema de caixotinho de escudos, todos juntos formando um bloco impenetrável. Se um louco saísse da caixa e matasse um bocado, isso seria na verdade um desfavor ao grupo, que ficaria desprotegido. Não que fôssemos os touros e agora o caixotinho. Antes fôssemos o caixotinho, mas marca o teu café pra semana que vem e eventualmente arranja umas cicatrizes muito pequenas em portões inofensivos, same difference.

Entre o filme e a descida da Consolação houve um jantar que talvez valha mencionar porque foi onde falávamos de como a excitação com a Olimpíada surgiu do nada e foi embora do nada, alguém sente saudades da Olimpíada? Exceto que não surgiu do nada nem foi embora do nada: era um grande objeto que você coloca no meio da cidade e oh, retira e foi. E eu conversava sobre isso com uma pessoa enfiada em uma camiseta da Rio 2016 comprada no camelô, mas ainda com uma etiqueta de autenticidade presa a ela.

Para mim, algo semelhante vai acontecer agora. As manifestações vão sumir tão logo o elefante seja retirado da sala. As maiores manifestações das últimas décadas deram no oposto do que pediam. As pessoas sentem que não apenas não adianta se levantar como é inclusive pior se levantar. Sentem que a sua mobilização só pode ser tão grande quanto o seu poder de fixar o sentido dela na sociedade.

Naqueles dias de Rio íamos à praia quase cedo e por quinze minutos, talvez meia hora. Entrávamos na água mesmo no quase frio, um de cada vez, depois sentávamos na areia tentando adivinhar a nacionalidade das pessoas usando os estereótipos mais rasteiros porque é óbvio que um sujeito de camiseta listrada é francês e eles até podiam ser americanos, mas o cara usa calça curta. Aquela mulher jamais seria brasileira. Ela veste um conjunto caqui com um casaco rosa choque. Aqui ou você é o conjunto caqui ou o casaco rosa. O vento levava as vozes das pessoas para longe de modo que era uma adivinha sem respostas no pé da página. Somente um exercício de confirmação de preconceitos sem o inconveniente dos desmentidos.

Olhando para ele na praia até você poderia entender a graça dele para as moças: era bonito, mas logo ficaria feio. Isso o deixava ainda mais bonito. Era muito branco e trazia a pele acabada de sol e álcool e privação de sono, a cara sempre meio inchada de ressaca. Tinha sardas nos ombros e pele já fina e flácida logo abaixo do pescoço, de um jeito que poucos têm aos trinta. Tinha rugas ao redor dos olhos, também muito antes da idade, e uma espinha ou outra. Tudo nele era deslocado. Parecia além e aquém de seus anos, feio e bonito. Parecia mal tratado, uma pessoa que não se preservava. Enquanto todos se guardavam numa mesquinharia sem fim, ele se gastava. Era uma beleza que seria arruinada em cinco anos, você queria estar ali para ver.

Numa dessas manhãs, um grupo de europeus parou para observá-lo nadar, sedentos que estavam de qualquer demonstração esportiva. É uma pessoa com uma autoestima muito saudável, mas sempre um pouco surpresa de provocar reação no mundo.

Lembre sempre do bolo

Fui assaltada perto da minha casa. Estava passeando com o cachorro à noite, o último passeio do dia. Um amigo me esperava em casa assistindo a abertura da Olimpíada. A rua não estava particularmente deserta, havia uma padaria aberta a poucos metros, outros cachorros cheiravam postes. Um carro muito velho e inteiramente apagado me encurralou em um muro, um dos homens desceu e me pediu o celular. Estranhei o conceito, faz anos que não sou assaltada, mas dei imediatamente. Ninguém me machucou, só fiquei sentindo o toque repulsivo de uma mão que eu não consenti por muitas horas.

Fiquei pensando que o assalto só é possível porque o compreendemos enquanto ritual. Se eu não tivesse sido treinada para aquela situação, é possível que não entendesse o que aquele homem me falava, até porque eu nunca entendo a primeira frase que me dirigem. A primeira frase é só “tem um humano tentando estabelecer contato”. Mas se um homem num carro como aquele me para, eu já sei do que se trata, sei como proceder, sei o que ouvir. Era muito mais possível que ele me pedisse uma informação e eu desse o celular do que que ele me pedisse o celular e eu não compreendesse do que se tratava.

Do outro lado da rua, duas mulheres me prestaram algum tipo de socorro. Ligaram para a polícia, disseram que eu nunca deveria andar daquele lado da rua, que era mais deserto. O caso é: não era mais deserto, ou pelo menos não era consideravelmente mais deserto. Elas também passeavam com cachorros e senti que era muito importante para elas se convencerem e me convencerem de que os nossos comportamentos ali haviam sido diferentes. Que eu havia sido assaltada e não elas porque elas haviam procedido de um modo diferente do meu. Quando se fala em culpar a vítima, às vezes se esquece que uma parte importante desse processo é uma necessidade de se diferenciar de uma pessoa que sofreu uma violência como forma de se tranquilizar de que você mesmo não sofrerá aquela violência.

Uma mulher é espancada pelo marido e eu preciso me convencer de que ela não percebeu os sinais, de que aquele homem certamente deu provas de que faria algo assim desde o primeiro dia. Preciso me convencer de que aquela mulher era dependente financeira ou emocionalmente de jeitos que eu jamais seria. Pensar que ela pode ser uma mulher exatamente como eu e que um companheiro exatamente como o meu a espancou é aceitar uma vulnerabilidade que em geral não estamos dispostos.

Se aquele passeio com o cachorro tivesse acontecido longe da minha casa, seria mais fácil para mim. Eu poderia rotular aquela rua como perigosa e seguir minha vida em ruas automaticamente resguardadas como não perigosas. Mas é a minha própria rua e devo dizer que aquele passeio com o cachorro está longe de ser uma das situações de maior risco do meu cotidiano.

Um dia antes do assalto, eu perdi meu emprego. Um editor que sequer era meu chefe me chamou para conversar em uma mesa no meio da redação que é um cenário frequente de demissões. O homem estava constrangido porque não sabia exatamente o que me dizer. Ele não sabia me informar quais eram as queixas ao meu trabalho, não sabia apontar erros específicos. Falou algo sobre entrosamento num tom que implorava para que eu não questionasse o que era entrosamento, por que ninguém havia conversado comigo sobre isso ou que diabos de motivo é esse.

Fui para casa pensando em todas as vezes que colegas meus, individualmente ou em levas de vinte, trinta, foram demitidos e eu não fiz nada. Quando muito, mandei um e-mail oferecendo um apoio autoperformativo. Quando eu te prometo algo, o verbo prometer é performativo, ele próprio é a promessa. Dizer que promete é prometer, a fala é a ação. Já com apoiar, não funciona do mesmo modo, só nesses e-mails que eu eventualmente mandava a colegas demitidos.

Pensei especialmente em um caso recente em que eu e meus colegas compramos um bolo de despedida para uma mulher que trabalhava ali há vinte e cinco anos e que havia sido demitida pouco antes da aposentadoria. Lembrei dela, um dia antes de ir embora, treinando a menina que a substituiria. Lembrei das piadas amargas que fazia. “Estão comemorando a minha saída”. Um homem disse: “mas essa despedida está com pouca emoção, você mal chorou”. Ela respondeu que havia tomado um remedinho para não chorar. A maior parte das pessoas parecia confortável como se aquilo fosse um aniversário de firma. Um colega estava especialmente abatido, mas pegamos nossos bolos, comemos trocando olhares e cada um fechou sua matéria. Nos últimos dias, quando me pego pensando que X ou Y poderia ter sido mais solidário comigo, lembro do meu bolo e deixo pra lá.

Música na casa da gente

No ano passado, lá por dezembro, eu deixei escapar que queria ir ao Capão. Era um almoço de família, corpos jaziam inertes de dendê e sal pelos sofás de minha tia e eu disse que fazia anos que não ia ao Capão.

Um pouco por uma vontade geral, mas um pouco para me agradar, meus primos, irmã e cunhado começaram a arquitetar uma viagem que de fato fizemos, logo depois da virada do ano. Até a véspera eu achava que não iríamos, que era o tipo de coisa que se fala e não se faz. A mochila que eu preparei não era uma mochila de verdade, era uma mochila pronta para ser desfeita.

Foi uma das melhores viagens que já fiz. Eu, que sempre viajo sozinha e que de modo geral estou sempre sozinha. Ainda lembro das conversas deles, meu cunhado sofrendo com a lama na lataria de um carro que sequer era o dele, meu primo fazendo piadas enquanto nos perdíamos na estrada a caminho de cachoeiras que só recentemente haviam sido abertas ao público (a propriedade surge em toda sua falta de sentido quando penso que na Bahia, na minha casa, pessoinhas de carne e osso dessas que evaporam em setenta anos e que com alguma sorte não deixam nem o cheiro sobre a terra possuem cachoeiras de 55 metros. Não um sítio com piscina, não um filete d’água passando por uma fazenda, mas uma cachoeira de 55 metros que elas podem escolher se deixam ou não aberta ao público).

Muito se diz sobre as vantagens de uma família pequena para pessoas tímidas e introspectivas. Ainda que não me identifique com nenhum desses adjetivos (seria tão deslocado quanto falar em jornalista perfeccionista), defendo o exato oposto. Tudo que uma pessoa menos expansiva precisa é de gente para observar e se esconder. Escola grande, família grande, um lugar de trabalho apinhado de gente. Uma mesa grande em que ninguém repare se você só falou duas frases e te deixem escutar em paz.

Com minha mãe, fico pensando se ela moldou as conversas desse jeito para se adaptar a mim ou se ela ser assim me permitiu sair ilesa do jeito que sou. Quando estamos com minha irmã, elas conversam, eu ouço. Quando somos só nós duas, ela tem um jeito de conduzir diálogos fáticos e longos silêncios que não são desesperadores. Se minha mãe disser que estou meio calada é bom conferir se desmaiei.

​Eu sempre lembro dela se aproximando sensualmente da cadela da gente enquanto canta​va​ “o meu amor tem um jeito manso que é só seu”, Laika se espreguiçando gostosamente. Na sexta série, uma colega me disse que não entendia o que minha mãe falava, que era impossível saber quando ela estava de brincadeira e que as brincadeiras eram loucas e completamente sem graça. ​O jeito que ela fala é um intrincado de slogans publicitários e bordões de novela muito antigos misturados a músicas, piadas internas e as piores, piores rimas jamais concebidas.

Bom dia, flor do dia.

Bonita camisa, Fernandinho.

Vamo-nos, porém vestidos?

Ai, nêga besta, quer cesta? Não, seu Costa, quero bosta.

​Você gosta? Ah, gosta? Do cheiro de bosta?​

Já fui, Banda Mel.

Ninguém me ensinou que não era normal responder perguntas do dia a dia com músicas muito vagamente ligadas ao assunto sem nunca voltar ao tema de um jeito pragmático.

Minha mãe é uma bibliotecária que cataloga os próprios CDs como se fossem livros de uma biblioteca pública, com adesivos e códigos na lateral. Como o Chaplin em Tempos Modernos, que sai da fábrica e continua apertando parafusos, ela sai da biblioteca e continua catalogando o mundo.

No Natal, eu estava percorrendo esses discos catalogados quando minha mãe me disse: eu não lembro de música na nossa casa enquanto seu pai morava com a gente. Eu lembro de música na nossa casa enquanto meu pai morava com a gente. Me lembro, por exemplo, de um dia ter feito xixi nas calças enquanto corria para a sala porque queria pegar um trecho específico de uma música de Djavan. Lembro da fita de Unplugged, do Gil, que era a única fita oficial que tínhamos. Mas lembro de ter muito mais música no apartamento cor-de-rosa, mantido cor-de-rosa por algum capricho da proprietária que nós aprovamos duplamente por ser o apartamento da liberdade de minha mãe e pelo desconto generoso que a falta de interessados em viver num apartamento rosa nos deu.

Eu lembro de música na nossa casa e ainda assim eu não lembro de música na nossa casa enquanto seu pai morava com a gente é indizivelmente triste.

Foi justamente numa viagem à Chapada que ela e meu pai decidiram se separar. Eu fui com eles enquanto minha irmã preferiu ficar em Jacobina. Minha mãe até hoje me pergunta intrigada se eu não notei o clima terrível da viagem, mas eu só lembro do Poço Encantado e de ter esfregado a sola do tênis em cada uma das pedras de Mucugê. Minha mãe ri e diz que nunca na vida viu uma pessoa tão observadora não conseguir entender absolutamente nada.

Salvar maridos

“Tudo que eu quero é salvar maridos, me traz uns maridos para eu salvar”, diz o meu amigo Marcos, soltando Fanta pelo nariz.

Em nossos almoços, pelo menos uma pauta é repetida: Casablanca. Marcos é psicólogo e acha que gostar de Casablanca é meio caminho andado para diagnosticar um neurótico. O filme, na nossa leitura de almoço, é sobre um sujeito que prefere não viver um amor para preservar sua autoimagem.

No fim da história, Rick tem duas escolhas: pode ficar com Ilsa e conviver com o fantasma do marido perfeito, herói da Resistência, ou pode virar o joguinho e ser ele o herói, salvando a ela e o ao marido e se transformando num abnegado, num sujeito que sabe que a História é mais importante do que os afetos de três pessoinhas jogadas nesse mundo louco.

Ilsa diz: mas e você? E a gente? Rick responde com uma esperteza sem sabedoria: se você ficar comigo, vai se arrepender. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas na semana que vem e para o resto da vida.

O que ele faz é entregar a mulher que ele ama a um marido subitamente desprovido de qualquer graça. É assim que ele, um comerciante, um dono de bar, se projeta acima de um herói de guerra. Eu vejo e revejo Casablanca como um treinamento para que quando chegar minha vez — se um dia chegar minha vez — eu escolha sempre Casablanca a Paris.

Em Manhattan, Woody Allen rebaixa tudo isso quando Isaac diz “we’ll always have Paris” para a namoradinha Tracy (aquela, que nunca sabe os nomes das atrizes) em um contexto em que eles sequer tiveram Paris, sequer tiveram uma semana de pura aventura e amor romântico seguida de uma separação teatral por motivos que envolvem a chegada dos alemães e o bem do povo tcheco. Em Manhattan não há guerra, Paris, Casablanca, aliados, Resistência, tráfico de armas, música de casal ou Humphrey Bogart e Paul Henreid disputando Ingrid Bergman. Tudo que há é muito mundano, lanchonetes, supermercados, televisão, dever de casa, um Woody Allen calvo insistindo para que a namorada vá para Londres ou fique com o “little Tommy”, casais que se bagunçam apenas porque não têm nada além de seus problemas pessoais para entretê-los. Como diz o protagonista no final, “a story about people in Manhattan who are constantly creating these unnecessary, neurotic problems for themselves because it keeps them from dealing with more unsolvable, terrifying problems”. Aqui, os suspeitos de sempre são o tédio, a gratuidade da vida, as pequenas vaidades (meu livrinho, minha privacidade, se gostei ou não daquela exposição).

Eu sei exatamente o que eu queria fazer em Casablanca. Se me soltarem, como em A Rosa Púrpura do Cairo, no meio de Casablanca, eu sei exatamente o que quero fazer. Já em Manhattan, tão mais próximo, meio que tanto faz. Entre o professor desleal, a jornalista pedante, o roteirista cujo grande ato de heroísmo consiste em pedir demissão, a mulher largada — levemente superior por falar baixo e aparecer tão pouco —, e a colegial, ironicamente a única adulta do filme, praticamente tanto faz.

Se me soltarem em Manhattan, eu toco aquela gaita da Tracy e talvez procure o “little Tommy” só porque sempre quis saber que cara ele teria.

Mais sangue na pele

No ano passado eu tinha 27 anos. É estranho pensar que no ano passado eu tinha 27 anos porque hoje, veja só, eu tenho 28. Aos 27 anos me ocorreu pela primeira vez, em interações sociais com homens, que eles me consideravam uma mulher mais velha. Eu sabia que isso aconteceria um dia, mas confesso que achava que teriam a cortesia de me esperar completar 30 ou 40.

De modo geral, mais velha é uma expressão que só faz sentido em relação a um determinado referencial, mas nesse caso não é preciso referencial algum porque eu senti isso em interações com um homem de 24 e com outro de 42, de modo que mais velha nesse contexto parece ter um sentido absoluto. Talvez o seu parâmetro de mais velha não seja 27, mas qualquer que seja ele, imagino que também seja absoluto. Uma mulher não é mais velha em relação a um homem ou a outra mulher ou mesmo a algo (aprender piano, japonês, competir na Olimpíada, ter filhos), ela é mais velha, ponto.

A primeira dessas interações foi no trabalho. Em conversas com esse colega de 24, ele já tinha mencionado algumas vezes a namorada. Em mais de um contexto, ele ressaltou que ela era mais velha do que ele. Em outros, ressaltou apenas que ela era mais velha. Um dia, eu conheci a moça e soube que ela tinha 27 anos. Eu não lembro de ter namorado ninguém exatamente da mesma idade que eu e sempre achei que depois dos 20 a gente passasse a contar as diferenças por faixas de cinco em cinco. Depois dos 30, de dez em dez. Isso até os 70, quando retomaríamos a contagem de cinco em cinco para então aos 90 voltarmos àquela fase em que é completamente aceitável ignorar uma pessoa seis meses mais velha ou mais nova que a gente.

Eu sempre presto muita atenção a informações descabidas que sei sobre alguém. Por exemplo, ricos simplões que assinam com sobrenomes do meio e adiam o jantar para o dia 20, mas que de algum modo eu sempre sei de quem são filhos, onde estudaram. Ricos que estão sempre escondendo que são ricos enquanto frisam que são ricos. No caso dos ricos, eles são muito transparentes, isso você tem que conceder a eles, mas é só um exemplo de como coisas muito pequenas que você magicamente sabe sobre uma pessoa sem lembrar ao certo como ou por que geralmente dizem bastante sobre ela. No caso desse meu colega, eu não sabia quase nada sobre ele, mas sabia que a namorada era mais velha.

Na segunda interação, eu estava conversando com esse homem de 42 anos que, enquanto dava ligeiramente em cima de mim, ressaltava que não gostava de menininhas. Posteriormente, eu soube que ele teve algo com uma moça de 24 de modo que só posso imaginar que alguns homens queiram um troféu por não ficarem numa porta de buffet esperando o momento exato em que as moças completam 18.

A armadilha desse texto é que eu só posso escrevê-lo enquanto não sou mais velha. Alguns uns anos atrás, uma moça fez um vídeo em que falava sobre ser feia. O vídeo era bastante bom, feminista etc. Mas ela só pôde gravá-lo porque não era nem um pouco feia e porque tinha um namorado igualmente bonito. (Alguém podia, inclusive, estudar essa presença fantasmagórica dos namorados de youtubers mulheres). Do mesmo modo, eu só posso escrever sobre ser mais velha enquanto não sou mais velha. Enquanto comentários do tipo “mas você? velha? kkk” estiverem garantidos para mim. Depois disso, até posso, mas vai significar outra coisa e é provável que não escreva. Espero que escreva, mas é provável que não.

Eu tenho essa teoria de que você sabe que está ficando “mais velha” quando começa a ouvir elogios mais efusivos à sua aparência. Quando as pessoas, homens e mulheres, te elogiam demais, em parte surpresas por você ainda não ter entrado em decomposição, em parte por uma percepção de que te achar bonita é fruto de alguma superioridade moral da parte delas, de um certo refinamento estético e moral inatingível à maioria. Quando algumas mulheres “mais velhas” do meu trabalho são elogiadas eu por vezes tenho o ímpeto de buscar um banquinho para que o elogiador prossiga com o discurso.

Também me parece que as bonitas mais velhas são ainda mais padrão do que as bonitas mais novas. Entre as mulheres mais novas ainda é possível tolerar pequenos desleixos e esquisitices. Moças quase gordas, quase baixas, quase estranhas por vezes são consideradas bonitas. Entre as mais velhas, a tolerância só cai.

O elogio à mulher mais velha tem ainda um tom prescritivo. Quando elogiam uma jovem, eu não tenho a impressão de que o conteúdo real da conversa seja “e você, querida, devia ser como ela”. Quando elogiam uma mulher mais velha, fica implícito que com um pouco de esforço e dignidade todas deveríamos ser como ela.

Um dos raros benefícios de ser uma mulher heterossexual é justamente que os corpos dos homens são menos regulados pela publicidade, pela higiene, por tudo. E que o meu desejo é menos prescrito. Ele é reprimido, mas quase não é prescrito. Ninguém me ensinou qual o diâmetro exato de uma coxa desejável. As mulheres, quase todas, mesmo as mais inteligentes, estão tentando ser a mesma coisa, ou uma das poucas dez ou vinte coisas que é permitido ser enquanto mulher. Entre os homens, há uma gama bem maior. Há muitas formas diferentes de ser feio e de ser bonito. Sendo mulher e heterossexual, eu perco a liberdade sobre o meu corpo e essa de fato é mais essencial, mas por enquanto eu ainda tenho acesso a uma variedade maior de belezas e feiuras menos disciplinadas.

Algumas bonitas mais velhas têm uma beleza mais voltada para a elegância do que para a sensualidade. Temo que isso não indique coisas boas, não indique que aqui é possível uma redução do domínio do corpo. Acho que não é nada disso. Acho que há um jeito polido de ser bonita mais velha e ele inclui um reconhecimento de que o sexo já não é seu forte e que você está em paz com isso. Talvez o aspecto mais violento do machismo para mim seja como se exige que as mulheres passem pelas coisas em paz. Reconhecer que coisas feitas para te atingir te atinjam é de algum modo humilhante. Parte da nossa aversão a mulheres plastificadas vem daí. É um moralismo. A mulher mais velha que não abre mão de sua sexualidade docilmente cai no ridículo. As que tentam se manter na juventude porque esse na verdade parece ser o único caminho para permanecer no sexo, também caem no ridículo.

As pessoas falam bastante sobre como mulheres jovens funcionam como troféus para tantos homens mais velhos. Mas o simples fato de ser casado com uma mulher de sua própria idade confere a um homem de 50 toda uma aura de superioridade, elegância, legalzice, caráter, estabilidade, inteligência, maturidade. Ver o seu marido, da sua idade, ser considerado um cara-tão-bacana somente por permanecer com você não deve ser a coisa mais lisonjeira do mundo. Se a jovem é um troféu, a velha é uma medalha de escoteiro e as duas são objetificadas.

No carnaval, Alessandra Negrini causou comoção nas minhas redes sociais vestida de noiva num bloco da rua Augusta. Os comentários, todos elogiosos até onde vi, eram muito esclarecedores do que se espera de uma mulher mesmo nos círculos brasileiros menos (mas ainda muito) misóginos. Uma moça que eu sigo disse que ela estava maravilhosa, que estava tonificada sem estar malhada, com cara de nova sem estar preenchida, jovem sem estar menina, magra sem estar esquelética. Era uma lista realmente longa de coisas que ela estava assim sem estar assado, mas a própria lista de oposições deixava claro que ao tentar ficar assim aos 45, era quase impossível não ficar assado. Por um segundo, por aquele segundo, Alessandra Negrini estava se equilibrando em um lugar impossível. Um passo a mais e ela teria de escolher se ficava malhada ou se deixava a flacidez sobrevir, se seria velha ou preenchida, isso ou aquilo, para qual polo inevitável e indesejável penderia. Quando isso acontecesse, nós esqueceríamos Alessandra Negrini sem que ninguém pudesse dizer que desprezamos mulheres mais velhas porque naquele carnaval nós achamos Alessandra Negrini lindíssima.

Quando eu era mais nova, na verdade até outro dia, era misterioso para mim que adolescentes e pessoas de vinte e poucos fossem consideradas mais bonitas do que as de 30 ou 40. Com trinta me parecia que as pessoas tinham um domínio melhor do corpo, além de melhores maneiras, assuntos e hábitos de higiene. Mas é o tipo de coisa que talvez você só seja capaz de perceber quando perde. Há uns meses, eu estava na fila de espera do médico e tinha esse garoto muito novo e muito bonito. Olhando para ele, eu entendi que a graça das pessoas jovens, ou pelo menos a graça das pessoas jovens para mim, é que elas parecem ter mais sangue na pele. Elas ficam vermelhas espontaneamente, depois desficam, ficam de novo. Um jogo de sangue que sobe e desce com o calor, com a risada, com quase qualquer coisa. Tem um filme só sobre isso: é esse “Os Anarquistas”, com a Adèle Exarchopoulos. O filme é realmente terrível de modo que você terá duas horas para notar o que digo.

Martín

Eu era adolescente, morava em Salvador e tinha esse conhecido meio hippie (olhando para trás, todos em Salvador eram um bocado hippies, ele era mais) que te cumprimentava perguntando não como você estava ou como iam as coisas. Perguntava se você estava feliz. Ele fazia isso com um interesse desconcertante (hippie).

O Martín não é hippie e nunca esteve em Salvador. Do Brasil, só conhece o Rio e Campinas (?). Olhando para os lados, vejo que somos todos um bocado hipsters. Eu o conheci na porta de um hotel caro em Puerto Madero, que ele me informou ser uma espécie de Barra da Tijuca portenha. Eu estava hospedada ali perto, cobrindo um congresso. Martín era amigo de um amigo e fez a gentileza de me levar para um café.

Não havia nenhum café digno dele naquele bairro, de modo que cruzamos uns quinze quarteirões até um mercado em San Telmo. Pedimos café, uma medialuna e eu mal tinha começado a falar sobre como não gosto de presunto, só em Buenos Aires, quando ele disse que detestava esse imperativo de ter que ficar muito tempo nos lugares. “Eu gosto de cidades em que a gente fica na rua, não nos lugares, como se faz no Rio”. Eu não sei que Rio foi esse que apresentaram ao Martín, mas paguei por ele cruzando bairros como se fosse vielas pelos próximos dias.

O Martín se apoia em bordas de mesas onde ele não tolera passar mais do que duas horas e te pergunta: o que você vai fazer da sua vida? Não adianta rir nervoso e arriscar uma resposta monossilábica. Ele quer um relatório do CNPQ, com prazos e metas plausíveis.

Martín toca em duas bandas e traduz do português para o espanhol. Ele próprio tem um livro, que me deu no último dia (nesse dia, aliás, juro que não minto quando digo que fomos a um bar tomar a terceira saideira e tocou a música inicial de “A Grande Beleza”, umas moças quase tão boas quanto o elenco original dançando na nossa frente, um balcão lotado de bartenders que pareciam extremamente atarefados embora estivessem em superioridade numérica diante dos clientes e ao fim de muitos movimentos não tivessem um só fruto de seu trabalho para apresentar).

Diz ele que o livro é sobre o Rio. É bastante bonito. Imagens bonitas. O menino que, na ausência do pai, já não sabe se bigodes ficam acima ou abaixo do nariz. Meu espanhol não é assim grande coisa. Para falar a verdade, passei boa parte do livro sem ter certeza se alguns personagens eram homens ou mulheres (se traziam bigodes acima ou abaixo do nariz), mas posso te dizer que é bastante bonito.

Um dia, lendo no metrô, em São Paulo, cidade onde as pessoas entram nos lugares e por lá ficam, pensei em traduzir o livro. Mas é difícil traduzir um livro que você não quer ver traduzido. Eu por mim publicaria o livro do Martín em espanhol, aqui no Brasil, e ainda teria a pachorra de colocar um tradução: Juliana Cunha na capa. Diante da implausibilidade do projeto, pensei que uma alternativa seria resenhar o livro, ou deixar pra lá e resenhar o Martín.

Ela também era míope

Existe essa Cidade onde que ninguém é autorizado a ser solteiro. Se você não tem um par, te mandam a um Hotel onde você tem 45 dias para encontrar alguém. Se não conseguir, te transformam em um animal da sua escolha. Cachorros são os mais escolhidos, por isso há tantos deles no mundo.

Para escapar desse destino, os solteiros têm duas opções: a primeira é fugir para a Floresta e se juntar a um grupo de solitários. A segunda é caçar esses fugitivos para aumentar sua estadia no Hotel. A cada solitário capturado, você ganha um dia adicional.

O protagonista de “The Lobster” (Yorgos Lanthimos, 2015), David (Colin Farrell), é um homem de uns quarenta e tantos que, após ter sido trocado pela mulher, vai parar nesse Hotel junto com seu irmão, um ex-solteiro transformado em border collie.

A princípio, a ideia do filme parece apenas engraçadinha. Uma espécie de queixume solteiro sobre a obrigatoriedade de ter um par transformado em ficção. Mas é mais do que isso.

Existe no filme uma centralidade do corpo da qual nem os solitários conseguem escapar. Dentro e fora do Hotel, os casais se formam com base em afinidades indiscutíveis, a maior parte delas físicas, como ter uma voz bonita, mancar, ser míope ou sofrer de sangramentos nasais. É o oposto daquele verso de Corneille, “o amor cria igualdades, não as procura”. (Julien cita esse verso em “O Vermelho e o Negro” e li justo quando estava pensando em escrever sobre esse filme).

Na apresentação que os novatos fazem em seu primeiro dia no Hotel, as pessoas são instadas a declarar qual seria sua característica mais marcante, mas mesmo fora desse ritual institucional elas próprias recorrem a descrições fisicas desnecessárias como na cena em que John (Ben Whishaw) convida David para dar uma volta com ele e Robert (John C. Reilly) e imediatamente informa o número do quarto de cada um deles e sua respectiva característica (mancar, gaguejar), como se isso fosse parte fundamental de qualquer apresentação, e como se reduzir-se a esse tipo de característica fosse a coisa mais normal a se fazer.

Não confiando em outras formas de vínculo, os personagens se voltam a semelhanças físicas (na verdade, a defeitos físicos, a corpos que funcionam de modo semelhante). O nariz dele sangra e o meu também, isso assegura que temos algo em comum e torna a tarefa de buscar alguém uma mera empreitada de reconhecimento. Não deixa de ser uma cena de anagnosis irônica aquela em que a moça do sangramento nasal vê o nariz de John sangrando e faz uma cara de “então é isso”. Na cena seguinte, são um casal.

É como uma versão burocratizada daquele poema de Manuel Bandeira que diz “deixa o teu corpo entender-se com outro corpo / porque os corpos se entendem, mas as almas não”. Só que aqui os corpos não se entendem, eles apenas se agrupam de modo antierótico, como no sexo mecânico entre David e a mulher sem sentimentos em que ela incorpora a violência institucional do Hotel (o gesto da arrumadeira que levanta a saia e rebola sobre David apenas para despertar nele uma urgência física em buscar alguém) ao sexo do casal, deixando claro que seu o repertório de experiências se limita aos procedimentos do Hotel (algo que já tinha ficado aparente na cena da jacuzzi, quando ela imita literalmente o teatro do Hotel sobre o engasgo com a azeitona) e que o sexo aqui não é um espaço de gozo e descontrole e sim um prolongamento do controle. O desejo deixa de ser uma força contraventora e passa a ser apenas mais um fator que empurra os indivíduos para a norma.

Há varias cenas em que os personagens se voltam ao corpo como garantia de verdade. A arrumadeira do Hotel usa o tempo que os homens levam para ficarem excitados como prova de que andaram se masturbando. Na Cidade, os guardas analisam os pés e as mãos de uma senhora desacompanhada para concluir que ela é uma solitária que vaga pela Floresta. Enciumado, David busca lentes de contato nos olhos de seu rival para saber se ele não é um míope disfarçado. Em uma conversa com a mulher do cabelo bonito, David diz que seu pai não era careca e que se ele ficar careca, pode fazer um transplante capilar. Ela responde que transplantes não funcionam e que genética não assegura nada. “Você não tem como comprar um bom cabelo, ou você nasce com ele ou não nasce”.

Parece haver aí uma crença numa verdade do corpo que é imune a artifícios, o que é curioso numa sociedade tão civilizada. Me lembrou uma notícia que li recentemente sobre um aplicativo de paquera que media seus batimentos cardíacos ao ver a foto de uma pessoa e te avisava se a sua reação àquela foto foi positiva, neutra, negativa ou super excitada. Achei triste a pessoa precisar de um aplicativo e de uma resposta física mensurável para saber se gostou ou não de uma foto de perfil, mas, pensando bem, é uma coisa que temos feito bastante, nos voltado ao corpo como se ele soubesse de coisas que nós não sabemos, como se fosse uma instância separada de nós.

Essa crença na verdade do corpo surge ainda nas roupas. No Hotel, todos os homens e todas as mulheres usam as mesmas roupas. Você chega no salão e lá estão vinte mulheres no mesmo vestido, vinte homens no mesmo blazer. Não há espaço para contornar o corpo com a personalidade ou com a habilidade.

Ainda que vários personagens pareçam notar o ridículo ou a violência das regras do Hotel e da Cidade, nenhum deles confronta a ideia de um “parceiro adequado” (suitable partner), nem a ideia de que essa adequação seria física. Até a escolha de animal feita pelo protagonista, e que explica o título do filme, é física. David escolhe ser uma lagosta porque lagostas vivem até cem anos, têm sangue azul como os aristocratas e permanecem férteis durante a vida toda. Além disso, moram na água, e ele nada bem.

A história mais triste talvez seja a de John, um sujeito mandado para o Hotel seis dias após a morte de sua mulher, que era “muito bonita e também mancava”. John passou a mancar depois de um ataque de lobos. Trocada pelo marido por uma mulher que tinha pós-graduação (enquanto ela própria tinha apenas a graduação), a mãe de John foi mandada ao Hotel, mas não arranjou ninguém, por isso virou um lobo de zoológico. O filho, então com 19 anos, sentia muita saudade e resolveu entrar na jaula dos lobos para abraçar a mãe.

John não encontra no Hotel nenhuma mulher manca. Ele até pensa ter visto uma, mas ela estava apenas com um o tornozelo lesionado e voltaria a andar normalmente em poucos dias. Então ele resolve se aproximar da mulher cujo nariz está sempre sangrando. Para isso, bate o próprio nariz na parede da piscina para fingir que os dois têm algo em comum. O truque funciona. Agora basta se mutilar desse jeito para o resto da vida.

David também não tem muita sorte: nenhuma das mulheres do Hotel usa óculos. Ele ensaia aproximações com a mulher do nariz que sangra e com a do cabelo bonito, mas a conversa não vai para frente. Uma outra moça, que está sempre comendo biscoitos, tenta abordá-lo e é repelida. Ela então se joga da janela. David aproveita esse momento para se aproximar da mulher sem sentimentos, com quem ele não tem nada em comum, mas gosta de mulheres de cabelo curto. Chega junto dela e diz que é inconveniente ter alguém berrando assim. Ela não o escuta e diz para conversarem em outro momento.

Mais tarde, a mulher sem sentimentos está numa banheira de hidromassagem. Ele pede para acompanhá-la. É então que ela finge um engasgo com uma azeitona para ver se ele tentaria salvá-la. Em uma das noites no Hotel, os funcionários fazem um teatrinho para mostrar os riscos da solidão. Um homem janta sozinho e morre engasgado. Em seguida, o mesmo homem janta acompanhado e é salvo do engasgo pela mulher. David entende que está sendo testado, até porque a farsa da mulher é uma citação literal do teatrinho do Hotel. Ele fica imóvel na piscina, com um ar entediado. Ela então se recompõe e eles se tornam um casal.

Ao contrário da mulher dos sangramentos nasais, que acredita na farsa de John, a mulher sem sentimentos desconfia de que David na verdade tenha sentimentos. O teste é brutal: ela mata o irmão dele aos chutes, depois vai acordá-lo para contar o que aconteceu. Ele até tenta fingir que não sentiu o golpe, mas não funciona e ela resolve entregá-lo à direção do Hotel. Fingir uma semelhança só para conseguir um relacionamento é uma infração passível de punição: te transformam no animal que ninguém quer ser. Que animal seria esse, não sabemos.

David consegue fugir do Hotel e se vinga da mulher sem sentimentos colocando-a na sala de transformações, onde ela será transformada num animal que também não é revelado. É só então que conhecemos a voz em off que narra o filme: uma das solitárias que vaga pela Floresta e que, logo saberemos, também é míope.

Ao chegar na Floresta, David é recebido pela líder dos solitários (Léa Seydoux), que lhe explica as regras do jogo e lhe dá um abraço desajeitado e protocolar. As regras são um oposto simétrico das regras do Hotel. Se lá tudo era feito de modo a estimular que os hóspedes encontrassem um par, aqui qualquer indício de flerte é proibido e só se toca música eletrônica em discmans para não haver risco de parzinhos. Mas os solitários não substituem o vínculo amoroso por um vínculo social mais amplo. Pelo contrário: demonstrações de solidariedade são proibidas. Não há espírito de grupo, está mais para um bando de indivíduos que anda junto, mas cada um cava sua própria cova e não espere que alguém sequer te transporte até lá.

Assim como no Hotel, transgressões recebem punições físicas. Assim como no Hotel, não há espaço para situações mal definidas e todos falam com excessivo didatismo e exatidão. Ou você calça 44 ou calça 45, não tem 44/2. Ou é heterossexual ou é gay, não há uma opção bissexual.

Os solitários não são uma resistência, ou mesmo um grupo rebelde. Eles não parecem se colocar como uma alternativa ao par Hotel/Cidade. São apenas um grupo de fugitivos que é, inclusive, incorporado ao jogo do Hotel através das caçadas. O Hotel não parece temer os solitários, eles são parte do esquema, não uma opção a ele.

A única ação coletiva e organizada dos solitários que não visa estritamente a sobrevivência é um ato terrorista. Eles invadem o Hotel, tomam os casais como reféns e desmascaram o relacionamento deles. A invasão não visa salvar as pessoas que estão em seus dias finais e ainda não encontraram alguém, ou aquelas que estão na sala de transformação. Também não visa tomar o Hotel de assalto e mudar as regras do jogo. Tudo que eles fazem é ir até lá desmascarar a mentira dos casais sem criar nenhum caminho alternativo àquela mentira.

David chega ao iate onde John e a mulher dos sangramentos moram com uma filha adotiva e conta para ela sobre as pancadas que ele vem tomando para fazer com que o nariz sangre. É expulso do iate, mas é previsível que depois disso o relacionamento fracasse. No quarto dos gerentes do Hotel, a líder dos solitários amarra a mulher e diz ao homem que ele pode dar um tiro nela para se salvar. Ele de fato dá o tiro, mas a arma não está carregada.

Um dia, a mulher míope e voz em off do filme (Rachel Weisz) ajuda David a escapar de Robert, que está caçando solteiros em seus últimos dias no Hotel. Para distraí-lo, David fala das vantagens de ser solitário, de como é permitido se masturbar, ficar sozinho, ouvir música, caminhar. A míope então consegue sedá-lo e pede um coelho como pagamento pelo favor.

O pedido de pagamento é uma forma de deixar claro que aquele ato não significa um laço entre os dois, mas o laço se forma do mesmo jeito. Eles começam um flerte e desenvolvem um conjunto de códigos gestuais para se comunicarem na frente dos outros. É engraçado notar que esse sistema, como prevê frases completas, é cheio de lugares comuns. Não são conversas, são mensagens, e lembram muito o tipo de frase que os casais recém formados dizem no Hotel quando anunciam sua união.

A líder dos solitários enfim descobre o romance entre os dois míopes e resolve punir a mulher, levando-a a uma clínica na Cidade onde ela é cegada. A desculpa é que estão levando-a para operar a miopia, mas para os fins desse romance, operar a miopia já seria o bastante para acabar com o vínculo entre eles. Quando descobre o que aconteceu, a mulher míope não se revolta contra as regras dos solitários ou contra aquele ato de violência. Ela só diz que poderiam ter punido a ele, não a ela.

A mutilação da míope não é feita na Floresta, de modo bárbaro, mas sim na Cidade, por um médico. É uma punição institucional, não uma agressão de bando. Também é interessante notar que para cada infração existe uma punição diferente. Se dois solitários se beijam, a punição é ter a boca cortada com uma navalha. Mas a infração entre os míopes está antes nos olhares e no código gestual do que no contato físico. Os gregos diziam que o amor entra pelos olhos.

No fim, David consegue matar a líder dos solitários, mas seu interesse pela ex-míope já não é o mesmo agora que eles não têm nada em comum. Ele pergunta se ela sabe tocar piano ou falar alemão, mas não consegue achar uma nova característica que os una.

Eles então fogem para a Cidade, onde David decide se cegar. Na cena final, os dois sentam em um restaurante e ele pede para ver algumas partes do corpo dela pela última vez. Não são partes erotizadas. Ele pede, por exemplo, que ela mostre os cotovelos, um de cada vez, de modo ritualístico. Ela pergunta se ele deseja ver a barriga dela, mas ele diz que lembra bem da barriga. Em seguida, David pega uma faca e vai ao banheiro com a intenção de se mutilar. Tudo muito contido, tudo muito civilizado, mas pelo menos eles aceitam fabricar uma semelhança. 

 

 

 

Festa em piscina vazia

Uma família do Morumbi leva uma vida de conflitos apaziguados até que a filha da empregada entre em cena. ​Lançado em 2015, Que Horas Ela Volta? é uma espécie de fábula lulista perfeita. No filme, uma empregada que dorme no serviço e vive à sombra dos patrões começa a questionar a ordem das coisas quando sua filha passa no vestibular.

Val (Regina Casé) parece perfeitamente conformada com a vida numa casa com piscina no Morumbi. Empregada há quase vinte anos, ela viu Fabinho (Michel Joelsas), filho dos patrões Barbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli), crescer enquanto sua própria filha, Jéssica (Camila Márdila), era criada em Pernambuco por uma mulher chamada Sandra, que ninguém sabe se é parente ou babá da menina. O pai, embora mencionado, parece ter uma atuação secundária o bastante para ser desprezada.

A casa é grande e conta com a ajuda de empregados eventuais, como um zelador e uma faxineira. A função de Val é mais do que cuidar da casa, é atender a qualquer mínima demanda dos patrões, incapazes de pegar um copo d’água na geladeira.

A família vive num mundo em que a riqueza independe do trabalho. A renda do casal vem da herança do marido, um pintor precocemente “aposentado”. Segundo ele próprio, foi reconhecido rápido demais, o que lhe estragou o talento. A mulher trabalha com algo relacionado a moda, embora nunca apareça trabalhando e sua atividade seja posta de maneira bastante genérica.

Na única cena relacionada a trabalho, ela aparece dando uma entrevista para a televisão em que o que é ressaltado é seu estilo de vida, não seu trabalho. Na entrevista, pedem que Barbara defina o que é estilo. Ela diz que estilo é ser você mesmo. Esse é um bom resumo para a profissão de Barbara, e dos ricos improdutivos em geral. Algumas vezes são pintores, noutras trabalham com moda, mas sua verdadeira atividade é ser eles mesmos e ganhar algum em cima disso, seja simbolicamente ou fazendo o dinheiro girar entre outros ricos em ciclos relacionais estéreis.

Ainda que se dedique a uma atividade presumivelmente decorativa, Barbara é a única pessoa de ação na casa. A única que precisa ou se sente impelida a fazer algo para manter sua posição, seja através de festas, entrevistas ou corridas na esteira. Já os homens da casa se entregam ao lazer sem disfarces, quando não sucumbem ao tédio.

O esquema doméstico é tão bem estruturado que os conflitos parecem invisíveis. Essa invisibilidade é possibilitada por Val, que parece ter as regras do jogo entranhadas numa espécie de segunda natureza. Para não dizer que ela nunca cruza a linha da hierarquia, sozinha, no banheiro da patroa, experimenta um creme. Passa no braço algo que provavelmente é destinado ao rosto e faz uma cara de prazer e estranhamento.

A paz doméstica depende ainda da ingenuidade infantil de Val. No aniversário da patroa, por exemplo, ela compra um jogo de café para dar de presente a Barbara. A patroa recebe o presente com displicência e cuida para que fique “reservado para uma ocasião especial”. O tom usado é teatral e condescendente, como se falasse a uma criança. Mais do que isso: como se estivesse enganando uma criança na frente de outro adulto e fizesse questão de piscar para o adulto enquanto fala. O outro adulto, no caso, é a jornalista que está na sala, uma pessoa que, embora não pareça ser da mesma classe de Barbara, pelo menos é considerada como igual para os fins desse diálogo.

Qualquer adulto com um mínimo de traquejo teria compreendido a mensagem. A patroa detestou o presente, não considera aquele jogo de café digno de sua casa e espera nunca mais vê-lo. Val, no entanto, cai na conversa da ocasião especial e tenta usar o presente numa festa da casa. É repreendida no ato. Ainda assim, sua reação é antes de incompreensão que de humilhação ou raiva. Na sua generosidade simples, Val é um retrato perfeito da pureza popular que habitava o imaginário intelectual brasileiro até a década de 1980.

Mas a infantilização não é apenas de Val. Os patrões, sobretudo os homens, também são infantilizados. Val trata Fabinho como a um filho, retirados da equação todos os conflitos de uma relação mãe e filho. Sua rotina de adolescente difere muito pouco da rotina de criança. São os mesmos amigos, a mesma piscina como eixo central da vida. Fora uma camiseta de banda de rock, não há em Fabinho nenhum sinal de puberdade, algo que fica mais aparente com o surgimento de Jéssica. Postos lado a lado, os dois jovens da mesma idade parecem ter muitos anos entre eles.

Carlos também recebe, de certo modo, um tratamento de filho, com a empregada indo ao pé de sua cama para acordá-lo, por exemplo. O clima de conflito, ainda que velado, é mais aparente com Barbara. Aos homens cabe uma posição de quem está acima das miudezas domésticas e sequer repara nelas.

Um recurso que o filme explora bastante é o humor do subalterno. Quando Carlos vai à cozinha buscar um guaraná, Val o “repreende” dizendo: “o que o senhor está procurando na minha geladeira?”. O que ela quer dizer é “por que o senhor não me diz o que quer e eu te sirvo?”, mas isso é colocado como uma declaração de posse da geladeira. Ao estilo das piadas em que um homem chama sua mulher de “patroa”, brincamos com o que está longe de ser real.

Algo semelhante aparece na relação entre Val e os amigos de Fabinho, em quem ela finge dar broncas e ordens, sempre com um afeto maternal e um humor de quem reconhece seu lugar mesmo quando está aparentemente impondo autoridade.

A infantilização dos homens da casa culmina numa castração dos mesmo. Não há em Carlos ou em Fabinho uma faísca de pulsão sexual. Essa dessexualização parece ser parte fruto dessa infantilização, parte fruto da segurança modorrenta de gerações de vida ganha.

Mesmo a investida em Jéssica empreendida por Carlos parece assexual e desajeitada, antes uma imitação de como age um homem naquelas circunstâncias do que um movimento real. O que ele sente de fato parece ser uma atração instintiva pelo primeiro sopro de vida que surge naquela casa talvez desde sempre, algo que ele tenta elaborar primeiro numa insinuação cafajeste e adúltera, depois em um pedido de casamento patético e deslocado que cheira a pedido de socorro.

Val não tem vida pessoal. Mesmo os outros empregados —a diarista e o zelador da casa, a empregada da vizinha— parecem ter alguma vida pessoal. Val, não. Quando sai para o forró com a amiga, a outra encontra um par, ela permanece sozinha.

Os conflitos saem do armário quando Jéssica chega ao Morumbi. Do nada, a menina, que não falava com a mãe há três anos, decide se mudar para São Paulo para prestar vestibular na USP. Após um arranjo com a patroa, que sequer lembrava que Val tinha uma filha, Jéssica é recebida na casa. É a própria menina, no caminho do aeroporto, que anuncia que aquilo não vai dar certo.

Aparentemente, Jéssica não estava inteirada sobre condições de trabalho da mãe, e a pintava como mais rica do que ela de fato era. Essa frustração com a condição real da mãe nunca é superada e está na base de boa parte dos conflitos. De certo modo, a revolta de Jéssica é menos com as injustiças da relação patrão/empregado do que com a sua condição de filha da empregada.

Tudo que em Val era ingenuidade, em Jéssica vira cinismo. Ela parte de uma estratégia de literalidade republicana, fingindo não perceber a discrepância entre aquilo que é dito e aquilo que é presumido. Se dizem a Jéssica que ela é hóspede da casa, a resposta dela será “então é aqui no quarto de hóspedes que eu vou ficar?”. Se dizem que ela é igual, que sua mãe é da família, que a casa é também dela, é assim que ela vai agir, forçando a mãe a finalmente demonstrar um entendimento adulto e a patroa a lhe confinar ao espaço delimitado onde Val restringiu-se “por conta própria”.

Ao explicar as regras do jogo à filha, ao explicar, por exemplo, que, quando Eles oferecem algo que é Deles é porque têm certeza de que A Gente não vai aceitar, Val é obrigada a explicitar um esquema de coisas que foi se constituindo “naturalmente”. Essa explicação não é o bastante para que ela se volte contra o que ela própria está dizendo. Pelo contrário, Val defende o esquema de coisas que lhe possibilitou levar a vida, mas a partir daí ela já não tem a chance de tratar como natural um conjunto de regras completamente artificial.

Quando Val diz para Jéssica que ela parece ter vindo de Marte, essa é a melhor definição para a personagem. O problema de Jéssica é que ela parece ter sido criada em Marte. Em que parte de Pernambuco um ser humano de 18 anos precisa ter sido criado para ser tão alheio ao sistema de classes brasileiro? Que lugar de Pernambuco pode dar origem a uma filha de empregada doméstica que não compreende o universo da mãe?

A estratégia de Jéssica não é partir de uma posição de questionamento do poder, mas sim de uma posição de incompreensão do poder. Jéssica age como um elemento externo, uma enviada especial, uma correspondente internacional infiltrada numa casa brasileira.

Não existe um brasileiro vivente com dificuldades em entender Val, seus pensamentos, seu modo de vida, seu esquema de trabalho ou o que a levou a internalizar as regras do jogo. Ao agir como se não entendesse as coisas, Jéssica obriga os personagens ao seu redor a serem despudoradamente claros.

Esse recurso, embora interessante, dá ao filme um tom excessivamente didático, que soa cansativo em cenas como aquela em que Fabinho e Jéssica molham os pés na piscina. Pouco antes, Jéssica havia entrado na piscina, jogada pelos amigos de Fabinho. Logo após o episódio, Barbara decide trocar toda a água da piscina alegando ter visto um rato por ali. Fabinho conta a história do rato para Jéssica, que diz com todas as letras: “eu acho que o rato sou eu”. Fabinho desconversa e segue seu teatro de menino ingênuo.

O embate entre Val e Jéssica dá a entender que tudo que falta a Val é uma postura mais altiva. Fosse ela mais confiante, se impusesse mais e aquele esquema doméstico nunca teria se armado. Falta a Jéssica a consciência de que ela é fruto das vitórias da geração de Val, e de que o patrão ganha poder em contextos em que o trabalho vale menos, como valia na época em que Val entrou naquela casa.

Enquanto a geração de Val elegeu Lula e possibilitou que sua filha não fosse doméstica, Jéssica integra a geração por ora derrotada. A geração que não foi capaz de superar o lulismo, viu o programa de “disputar o governo por dentro” ruir e agora assistirá a política de redistribuição de renda via ação assistencial do Estado ser rapidamente achatada pela crise. No momento em que Que Horas Ela Volta? foi lançado, o trabalho doméstico já tinha voltado a crescer no Brasil, após anos de retração.

A escolha de Regina Casé para o papel de Val parece acertada na medida em que a atriz é uma figura símbolo da conciliação que marca a Era Lula. Lula é uma figura da conciliação, um sujeito que bebia um uísque com os patrões da fábrica e uma cachaça com os operários, um presidente que tentou promover um ganha-ganha, um governo onde os ricos nunca lucraram tanto e os pobres nunca apanharam tão pouco, algo de que ele se orgulha ainda hoje, em discursos recentes.

A diretora do filme, Anna Muylaert, disse que se inspirou em O Som ao Redor para fazer esse filme quando, na verdade, ela fez o caminho oposto. O Som ao Redor é uma crítica do lulismo feita a partir da esquerda. Que Horas Ela Volta? é uma celebração deslocada do lulismo numa época em que ele já ruiu enquanto projeto.

Os conflitos da história se dão apenas entre as mulheres. A posição dos homens é tão garantida que eles não precisam se rebaixar a negociar com a filha da empregada os limites da relação. Quem faz isso é exclusivamente a patroa, assim como é somente ela quem precisa competir com a empregada pelo amor do filho.

Até a disputa pelo “sorvete de Fabinho” é uma disputa entre Jéssica e Barbara. O próprio Fabinho dorme o sono tranquilo dos que sabem que, de um jeito ou de outro, seu sorvete será assegurado.

A escolha de Jéssica pela USP é interessante. Tida como a melhor universidade do país, a USP é das poucas instituições públicas que não trabalha com sistema de cotas nem aceita ENEM, dois fatores que prejudicam, um bocado intencionalmente, o ingresso de pobres e de pessoas de fora do estado de São Paulo.

Se por um lado a escolha da USP rompe com a literalidade da fábula lulista uma vez que cotas e financiamentos estudantis em universidades privadas foram os dois grandes meios pelos quais os governos petistas conseguiram assegurar a entrada de uma massa de pessoas sem nenhum antecedente familiar de estudo universitário no ensino superior, por outro essa escolha enaltece um elemento importante tanto para a personagem quanto para o filme: a ideia do mérito.

O curso que Jéssica escolheu, Arquitetura, é um dos mais elitistas, com aulas em tempo integral e concorrência feroz, ingredientes importantes para o bolo meritocrático.

A possibilidade de Jéssica cursar essa universidade é questionada a todo momento. Tão logo a expectativa é posta, a mãe diz que não vai dar tempo porque já passou o período de inscrição. A menina explica que já se inscreveu pela internet. A cada nova pessoa que é informada sobre o projeto, surgem mais questionamentos. Se a escola dela era boa, por que Arquitetura, se ela sabe desenhar. Mesmo depois do vestibular, quando Jéssica faz uma quantidade impressionante de pontos, Barbara faz questão de lembrar que aquela foi só a primeira fase do processo seletivo. O mundo está constantemente exigindo as credenciais de Jéssica, que são recebidas ora com espanto, ora com descrença.

Parte importante dessas credenciais é mostrar seus conhecimentos arquitetônicos, quase sempre voltados para os marcos modernistas do país, como o edifício Copan, sonho de coabitação entre as classes, e o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, erguidos pelos arquitetos comunistas Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. Só que, no contexto do filme, esses símbolos modernistas são esvaziados de seu sentido original e representam tão somente uma forma pela qual a menina pobre demonstra circular bem pelos assuntos da elite. Desse modo, Copan, FAU e até o prédio da Sudene —única menção ao Estado no filme— viram mero repertório da pobre talentosa rumo ao seu projeto de ascensão individual e meritocrática.

Um diálogo que reforça a impressão de que o interesse de Jéssica em arquitetura é seletivo e instrumentalista é aquele em que, passando de ônibus com sua mãe pelo Largo da Batata, Val lhe fala sobre a reforma recente da praça e como aquilo, em sua opinião, prejudicou o uso popular daquele espaço. Diante desse comentário, nem traço da empolgação que a moça apresenta para comentar prédios famosos e mostrar que “entendeu” a decoração da casa dos ricos.

Já da parte de Fabinho, não sabemos sequer o curso que ele escolheu, assim como, mais tarde, não saberemos que raios ele vai estudar na Austrália. Mesmo diante do fracasso do garoto no vestibular, Val diz: “Ficou nervoso, né? Sabia de tudo.”

Barbara, por sua vez, diz que o filho pode estudar mais no ano seguinte. Essa sutil repreensão é mal recebida. Fabinho compara sua mãe a Val, para quem sua inteligência é um dado a priori e incontestável mesmo diante do baixo rendimento (vale ressaltar que o garoto não foi apenas reprovado em um processo que é de fato concorrido, ele fez uma pontuação notavelmente baixa).

O que Fabinho vai estudar de fato não importa. Seu futuro com uma profissão meramente cosmética ou fortemente baseada em relações pessoais parece assegurado. Sua postura anti-intelectual e alheia ao estudo encarna ainda a cobrança decrescente de que os ricos brasileiros apresentem pelo menos um verniz de erudição.

(Eu diria que hoje as únicas coisas capazes de atrapalhar as credenciais de um rico brasileiro entre seus pares seriam não falar “inglês fluente” e não ter passado seis meses em qualquer país estrangeiro fazendo rigorosamente qualquer coisa, incluindo nada. Para todo o resto há perdão automático. Digamos que a ida de Fabinho à Austrália já cumpre tudo que se espera dele.)

É somente com a notícia de que Jéssica fez muito mais pontos do que Fabinho e, ao contrário dele, passou na primeira fase do vestibular, que Val passa a ver sua filha como algo além de um problema a ser resolvido. A partir daí, ela passa a estar definitivamente do lado da filha, assim como os afetos do público tendem a mudar, migrando de Val para Jéssica. Os laços entre Barbara e Fabinho também parecem subitamente fortalecidos.

É depois dessa notícia que Val tem sua cena de consagração em uma piscina vazia, onde ela entra para molhar os pés. A cena é bastante triste: é noite, a casa está vazia, ela está inteiramente vestida (a camiseta que usa é de um time de futebol americano, presumivelmente uma roupa velha de Fabinho) com uma água que não chega aos joelhos, fazendo um teatro de subversão para agradar a filha.

No fim, Fabinho vai para a Austrália e Val se demite para cuidar de Jéssica e de seu neto, que está em Pernambuco, com a mesma Sandra que criou sua filha, completando um ciclo de maternidades terceirizadas. O plano da ex-doméstica é virar empreendedora: quer ser massagista ou vender potinhos de crochê. A imagem do pobre empreendedor já havia sido sugerida antes: o primeiro apartamento que Jéssica e Val decidem alugar era um salão de beleza doméstico, com cores estranhas e aspecto deslocado.

O filme não idealiza os laços de solidariedade na periferia. Ao contrário de Casa Grande e na esteira de filmes como Branco Sai, Preto Fica, Muylaert fala de uma periferia dominada pelo individualismo e pelos contratos, como fica evidente no diálogo com o proprietário da primeira casa que elas tentam alugar.

O projeto de Jéssica também é individual. Seu incômodo não parece ser com a opressão de classe ou com o trabalho doméstico em si, mas com a falta de meritocracia e com o lugar que ela ocupa na ordem das coisas. Não busca soluções coletivas nem se enxerga como “vanguarda”. Seu modelo não é o das cartilhas da velha esquerda, é exemplar. Eu vou por aqui, se vocês vêm também me é indiferente. Não perde tempo tentando “educar” ou convencer a mãe ou os outros trabalhadores. Quando Val comunica que se demitiu, a pergunta é: “e agora, vai fazer o quê?”, no singular, cada um responsável por si. A resposta: “eu dou meu jeito.”

A conciliação encontrada no fim do filme é afetiva e familiar, com a família como núcleo de suporte e ajuda mútua. Num mundo sem solidariedade de classe, sobram os vínculos regressivos. As personagens se voltam para um projeto de família e tentam construir algum tipo de afetividade a partir daí. Jéssica chama Val de mainha pela primeira vez quando ela se propõe a cuidar do neto. O arranjo familiar parece ser a melhor chance das personagens, sobretudo de Jéssica, conquistarem seu objetivo de realização pessoal.

Na última cena do filme, mãe e filha tomam café pela primeira vez na casa nova. Val exibe seu famoso jogo de xícaras, presente desprezado que ela apresenta à filha como “roubo”. O suposto furto é festejado. Assim como soube agradar os patrões, Val agora sabe como agradar a filha, com entradas em piscinas vazias e roubos do que a patroa não quis. Sobre o jogo de xícaras, a ex-doméstica diz: “é tudo diferente, o preto no branco, o branco no preto. Que nem tu. Moderno”. No segundo seguinte e sem que tenhamos acesso a quem trocou as xícaras e os pires, já está tudo preto no preto, branco no branco.

PS: Fiz esse texto para apresentar no meu grupo de estudos na USP. Depois disso, incorporei alguns comentários dos colegas. O nome do grupo é Formas Culturais e Sociais Contemporâneas.

Perfeitamente bem

Existem basicamente duas formas de superar a lembrança de alguém. Uma é pelo método da extração, a outra pelo método da incorporação. Na extração, naturalmente, você tenta retirar os resquícios da pessoa. Um livro pela casa, um filme que viram, um lugar. É muito útil quando o lugar é sua própria casa porque casas e bairros, você perceberá no processo, são extremamente descartáveis. Pode ser exaustivo no caso de histórias mais longas e antieconômico se aplicado a sucessões de histórias curtas, portanto eu sugeriria que você se mantivesse nas médias. O importante aqui é que a técnica é reconhecida e funciona perfeitamente bem.

O método da incorporação é mais curioso e, num primeiro momento, talvez soe pouco intuitivo. Uma vez tendo falhado em ser o que a outra pessoa queria, o neurótico pode se concentrar em ser a outra pessoa. Despudoradamente, você passa a fagocitar tudo que te interesse no outro de modo que aquilo passe a ser você e, ao ser você, deixe de te interessar. Não é exatamente esquecer, é banalizar. Essa é uma técnica menos reconhecida pela comunidade científica, mas que também funciona perfeitamente bem.