Mistress America, Frances Ha

Não sei exatamente por que assisto a todos os filmes de Noah Baumbach se o único realmente bom é A Lula e a Baleia. Fora ele, tenho alguma afeição por Frances Ha e acho os outros medíocres, mas é de Deus.

O mais recente, Mistress America, é uma espécie de continuação de Frances Ha. As personagens são outras, mas ele segue na proposta de mostrar problemas em uma relação entre duas garotas. Na verdade, o que menos importa é serem duas garotas. Ambos os filmes são sobre a dificuldade de estabelecer vínculos num mundo de relações fugidias. Só que em vez de se voltar para namoros, casamentos, aquilo que todo mundo já sabe que azeda, ele lança esse mesmo olhar da fragmentação para as relações que ainda vemos como sólidas. Em Frances Ha, a amizade. Em Mistress America, uma tentativa de família.

Frances é uma aspirante a dançarina que enxerga a melhor amiga e roommate, Sophie, como uma espécie de reserva afetiva em uma Nova Iorque fria e hipisterizada em que as relações são comodificadas até o talo. Aguentem uma análise FFLCH porque é o que a casa tem pra servir.

A comodificação surge em diversos pontos do filme. Frances e o namorado terminam durante uma negociação sobre aluguéis e gatos. Ele quer morar com ela, mas não como um projeto romântico: quer ter alguém para dividir o valor e o cuidado de dois gatos que deseja comprar, e que trata como mercadoria o tempo todo. Já ela quer renovar o contrato de aluguel com a melhor amiga. Os dois rompem em um diálogo em que ela se oferece para pagar por um dos gatos e ressalta que o valor de mercado dele vai ficar prejudicado sendo um “solteiro com dois gatos”. Depois, numa conversa com a amiga, Frances avalia o ex em termos de performance, quantidade de sexo obtido, repetição.

O rompimento com o namorado não é nem um pouco traumático porque a relação real de Frances é com Sophie. É para ela que Frances pede “me conte a história da gente” (uma história em que as duas são bem sucedidas, têm amantes e não maridos e são invejadas por todos), é com ela que divide a vida.

Na maior parte das cenas entre as duas, Frances está de corpo presente enquanto Sophie está com a atenção dividida. Enquanto Frances lê alto para a amiga, Sophie fica no celular. Enquanto Frances faz basicamente qualquer coisa física e presente, Sophie fica no celular. Em dado momento, Frances reclama disso, com algum humor. A amiga responde: meu celular não deixa a louça na pia por semanas.

Num ambiente de trabalho competitivo e precarizado —aos 27 ela ainda está tentando numa profissão em que a validade dos corpos é baixa—, num contexto em que relações amorosas duram (e significam) cada vez menos, parece muito esperto da parte de Frances depositar sua lealdade na amizade, um laço aparentemente menos perecível que os outros.

Um pouco mais bem-sucedida do que a amiga —ela é editora-assistente numa grande editora— Sophie, tem outros planos e, pouco depois do fim do namoro de Frances, avisa que quer se mudar para outro apartamento, com outras pessoas, num lugar que a amiga não pode pagar. O aviso é feito no metrô e Sophie precisa dar resposta sobre o apartamento no mesmo dia. Ela nem se incomoda em fingir que as coisas são de outro modo: os argumentos que dá para sua mudança são “o apartamento é ótimo”, “é a rua em que eu sempre quis morar”.  A própria Frances não consegue externar descontentamento afetivo com a situação. Os argumentos que ela usa não são “mas somos amigas, mas você está me trocando”. Ela apenas diz que a amiga precisa arcar com o aluguel das duas até o fim do contrato. Não há espaço para uma exigência afetiva, só para exigências contratuais. Como diz um amigo meu, hoje em dia é tudo os indivíduos, os contratos e vambora. O contrato das duas, no caso, não é renovado.

De um turno, Frances fica sem casa (ela não pode bancar o apartamento sozinha), sem namorado e sem amiga, já que Sophie não apenas muda de casa como desaparece de cena, deixando claro o aspecto circunstancial da relação. A amizade das duas era relativamente longa: tinham feito faculdade juntas, moravam juntas. Mas circunstâncias também podem ser longas.

No apartamento vazio, a falta de Sophie ganha uma dimensão material. E o único protesto de Frances depois da separação também se dá materialmente: liga para reclamar que ela levou embora uma chaleira que as duas compraram juntas. “We bought it together, remember?”. É o vínculo que tem pra hoje, amigos.

A perda de Sophie é seguida de uma busca pelas coisas perdidas: os elos, o lar. Frances vai morar no quarto menor do apartamento de dois garotos ricos. Basta uma noite boa, um jantar em que ela própria faz todo o esforço afetivo, cozinha, dança e tenta agradar, pra Frances se encantar com a idea de uma amizade de sitcom. Quando Sophie finalmente reaparece para um breve encontro entre um compromisso e outro, acha a casa de Frances muito autoconsciente. Ela rebate dizendo que é tudo ótimo e que ela e os roommates possuem a tal amizade de sitcom.

Não tem uma tentativa de contato humano no filme que não seja mediada pelo dinheiro e pelo consumo de experiências. Num jantar com um dos amigos ricos, Frances quer pagar a conta, mas o restaurante só aceita cartão de crédito: “Não tenho cartão de crédito, não sou uma pessoa de verdade”.

No fim, Sophie troca sua carreira por um noivo rico, Frances ajusta suas expectativas e aceita um emprego de escritório na companhia de dança, que ela concilia com alguns trabalhos como coreógrafa. Vai morar sozinha num apartamento muito longe do Soho de Sophie e continua considerando a amiga como a “sua pessoa”.

Baumbach poderia contar essa história como uma história de amor, de casal, mas as pessoas facilmente achariam que o problema está na fragilidade do desejo (é tão frágil assim?), em como “hoje em dia temos opções demais e fica difícil escolher”, em como o ser humano “não foi feito” para estabelecer um vínculo amoroso de longo prazo. Optando pela amizade, ele retira esses fatores e respostas prontas, mas ainda é possível jogar tudo na conta da dinâmica da metrópole ou em sei lá que justificativa as pessoas dão para a falência das relações hoje em dia. Me parece claro que dinheiro e trabalho exerçam uma função central no filme, assim como nos nossos problemas contemporâneos para manter e estabelecer vínculos. A amizade não é nem pode ser um tipo de relação isento dos problemas de todas as outras relações que estabelecemos. Se somos descartáveis e descartados no amor e no trabalho, por que não seríamos na amizade?

A resposta de Frances Ha é: podemos sim, e somos.

Algumas pessoas (meus amigos) enxergam o fim do filme como um ajuste saudável de expectativas por parte de Frances. Eu acho que profissionalmente pode ser: ela aceitou o emprego de escritório na companhia de dança, entreviu que podia ser uma boa coreógrafa, ainda que dificilmente seja a coreógrafa do table-book que todos invejam, não caiu numa narrativa de que quanto você descobrir o que *realmente nasceu para fazer*, o céu será o limite. Mas do ponto de vista das relações pessoais, o ajuste parece violento: ela permanece sozinha, os amigos continuam sendo aqueles péssimos amigos de sempre, Sophie parece ser a Sophie de sempre.

A cena final em que ela mede o próprio tamanho no batente do novo apartamento e tenta encaixar o próprio nome no interfone (não funciona, daí a abreviação para Frances Ha) me parece uma cena em que ela se redimensiona e abraça a solidão. A cara de contentamento, no entanto, aponta para uma mitologia contemporânea da pessoa que se basta, uma lógica que não me agrada muito. Não tenho nenhuma solução melhor para oferecer a Frances, mas queria que ela demonstrasse algum tipo de saudável insatisfação com o que lhe é oferecido.

Já em Mistress America temos essa caloura de faculdade aspirante a escritora típica Pessoa Boa de filme que se veste, age e fala como A Menina Legal Que Na Primeira Cena Você Sabe Que É Legal. E temos Greta Gerwig num papel de Pessoa de Sucesso. Mas é a Greta Gerwig, então não dá para cair no papel. Só quem cai é a escritora, que na verdade é a espécie de vilã do filme.

Tracy, a escritora, e Brooke, a Mistress America, se conhecem por sugestão dos pais delas, que por sua vez mal se conhecem, mas vão se casar. Ambas parecem maravilhadas com a ideia de um vínculo familiar, de ter uma irmã. Mas Brooke é obcecada por sua autoimagem. E Tracy é a escritora que transita pelo mundo usando as outras pessoas como material.

Brooke não fez faculdade e vive de uma sobreposição de subempregos: como professora de spinning numa academia, decoradora, dando aulas de matemática para uma criança, fazendo o que aparecer enquanto tenta embalar essa precariedade triste numa aura descolada. O restaurante que ela quer abrir reflete esse modo errático. Ela quer que pareça o lugar onde você gostaria de ter ido na sua infância, quer que seja acolhedor, familiar (um familiar armado, já que não é o restaurante onde você foi na sua infância, e sim onde queria ter ido numa outra infância, muito melhor). Mas também quer que seja uma série de coisas: que sirva comida, que agregue, que as pessoas possam ir trabalhar, e conversar, e apenas estar, e quem sabe pode ter um espaço pra isso, praquilo e praquilo outro. Brooke passou a vida colecionando pratos “sem saber por que” e espera que o restaurante possa ser a coisa que vai sintetizar e dar sentido a tudo que ela passou a vida juntando sem saber por quê.

O restaurante, claro, não vai pra frente (ter um restaurante é como ter um filho viciado em drogas, diz seu ex-namorado rico). Brooke depende do dinheiro do namorado rico (outro) para montar o negócio, e ele termina com ela. O casamento de seu pai com a mãe de Tracy também desanda e, do nada, ela e a meia-irmã não são nada uma da outra. Aquela relação na qual ela depositava uma expectativa de ser uma coisa menos circunstancial e volúvel que as outras vai ter que se estabelecer no mesmo grau de precariedade de todas as outras porque dependia da relação entre os pais delas, que era por sua vez volúvel. Nada na vida de Brooke tem um lastro. Tudo depende de relações (inclusive a vida financeira dela, que depende de namorados) fragilizadas.

Tracy escreve sobre Brooke no dia seguinte ao primeiro encontro das duas. Pinta a meia-irmã como uma espécie de super-heroína novaiorquina um pouco utilitarista e que não reconhece seu lugar no mundo. Brooke lê o texto e, claro, não gosta. Acha injusto ser resumida àquilo. Acha injusto que a irmã tenha escrito sobre ela e que o tenha feito depois de 01 noite juntas. Tracy tenta explicar que a personagem não é exatamente a irmã, é ficção. Argumenta que escreveu sobre coisas que as duas viveram. Brooke solta duas frases maravilhosas: “é, mas essa ficção está cheia de coisas que não aconteceram bem assim”. E: “você é uma pessoa muito pior do que parece à primeira vista”.

As duas acusações são verdadeiras e o texto da irmã, a propósito, é um amontoado de clichês.

Permanência do objeto

Antes de esquecer alguém é útil esquecer o conceito de permanência do objeto, passar a agir como uma criança para quem uma pessoa com um lençol na cara simplesmente deixou de existir. Muito cedo a criança decide puxar o lençol e a brincadeira funciona apenas como encenação, uma piada da criança com os tempos em que desejos eram contidos com barreiras de lençol. Mas não puxe o lençol. Você, com as suas mãozinhas.

Antes de começar a levantar às seis é útil esquecer o conceito de vida social. As pessoas apinhadas na rua durante sua volta para casa talvez esperem ônibus para lugares distantes. Você ouviu algo sobre o engarrafamento nesse horário ser tão intenso que elas não têm outra opção senão esperar os búfalos passarem.

Você não. Você faz cálculos como: se de Campos Elíseos eu ia a pé para a Santa Cecília, dali para a Bela Vista são só dez minutos a mais. Para a Paulista são mais dez e até a Estados Unidos é agradável descer a Augusta então já estamos em Pinheiros e os sapatos comprados há dois meses parecem tão rotos quanto todos os outros.

Antes de cortar o cabelo é útil esquecer o conceito de liberdade individual. Entregar-se com muita resignação a uma pessoa que está certa de saber o que é melhor para você, como disfarçar o recuo do seu queixo, o formato um pouco errado da testa que eu não tinha reparado, mas agora que você falou. Você senta, balbucia qualquer coisa e se acalma na certeza de não estar sendo ouvido, na certeza de que o profissional diante da cadeira já calculou o corte perfeito e, gato escaldado, sabe que ninguém pede o que de fato quer.

Você sai muito feliz, com metade do cabelo que tinha num formato imprevisto. O queixo, a testa, parecem todos nos mesmos lugares, mas o ombro está exposto e você foi agraciado com menos uma decisão.

Você, o mesmo

Não pode ter filho para dar um sentido pra sua vida triste. Não pode buscar uma outra pessoa. Não pode buscar religião, trabalho, sei lá. Melhor dizendo, até pode, mas não para dar sentido à sua vida triste. Tem que buscar (é bom que busque) o filho, o amor e a religião por um desejo daquelas coisas em si —quem deseja as coisas em si? Sua própria existência tem que vir com um anexo de sentido, é uma vida que se explica por si mesma, uma autoestima que se cria no vácuo e se retroalimenta. Não pode se preocupar com a opinião alheia. Você, essa estrutura hermética e autossuficiente. Quando você fala, é importante que seja o mesmo diante de qualquer pessoa. Qualquer pessoa ali na frente: você, o mesmo. Passa mãe, irmão, patrão, você o mesmo. E fica como um falar sozinho já que o da frente não importa.

Desculpa por hoje

Vou embora em seis meses.

Naquele ponto em que você começa a decorar pequenos tiques da pessoa, como um jeito solene de alongar os músculos do rosto antes de beber água antes de colocar o aparelho de apneia antes de esticar o braço para o lado no travesseiro e te chamar para deitar ali num gesto um pouco burocrático, quase um flanelinha indicando onde estacionar a cabeça.

Vou embora em seis meses.

Espero que seja feliz e que dê tudo certo, quero que faça o que for melhor pra você.

(exceto que quero que faça o que for melhor pra você num raio de duas baldeações de metrô da minha casa. Vejo coisas maravilhosas pra você em Itaquera).

Já no primeiro mês, ele cai sete metros escalando uma rocha. Está prestes a passar a corda pelo próximo mosquetão quando, no pior momento possível, pimba.

I’ve always wanted to say ‘go there, break a leg’ in a context in which the other person could actually end up breaking a leg.

Internação, cirurgia, pinos, placas de titânio que você pode ficar tranquilo que não apitam no detector de metal do aeroporto, pizza no saguão asséptico, a mãe que chora ao telefone. Do quarto, ouvimos passeatas da direita, fazemos piadas sobre xixi no papagaio, o artefato plástico que acaba virando vaso de flores.

— É maravilhoso que eles contratem nutricionistas e façam questionários pra depois servir torrada, geleia e suco industrializado.

— E em porções tão pequenas.

A doença é conservadora. O médico quer saber o que sou dele. Sou de uma ONG que acompanha estrangeiros desamparados em hospitais.

Seis semanas depois, tirar os pinos. O moço da administração de leitos quer saber a filiação do paciente. Moço, era bonitinho, chamei pra jantar, as coisas correm bem, não sei o nome do pai.

Juan.

Uma dança de gestos que vai ficando um pouco mais coordenada. A chave de braço disfarçada de abraço que te dá quando quer dormir mais meia hora, o ponto do filme em que é preciso mudar o cachorro de lado pra não doer o pescoço.

There is no such a thing as romantic experience; there are romantic memories, and there is the desire of romance —that is all. Our most fiery moments of ecstasy are merely shadows of what somewhere else we have felt, or of what we long some day to feel. Strangely enough, what comes of all this is a curious mixture of ardor and indifference. I myself would sacrifice everything for a new experience, and I know there is no such thing as a new experience at all.

Cinco anos de Brasil e pronuncia todas as palavras com x como se fosse equis. Chama tênis de sapatilha. Não acha graça do verso de Drummond “eu também já fui brasileiro, moreno como vocês”.

Fala um português tão bom que, quando calha de cometer um erro, demoro a entender, por bobo que seja, porque não o espero.

Vinte e cinco anos de Estados Unidos e não viu um só filme com Marilyn Monroe, Audrey Hepburn ou Doris Days. Não identifica piadas com The Sound of Music. Nunca viu um musical.

Mesmo agora seu pé continua inchado e com essa cicatriz você até parece uma criança exposta. Podemos te chamar de Édipo, o de pés inchados.

Ela é dançarina quando saio pro trabalho às sete da manhã. Um lado da cama que me é roubado, passo a dormir no outro mesmo sozinha, o cachorro ressente a mudança. Ideias de pautas que damos um ao outro, a comunhão possível entre repórteres.

Sinto tantas coisas boas por você. Agora, por exemplo, só um contentamento por você existir em algum ponto da cidade. Da última vez que te vi você estava cheio de sono, mas foi muito obediente quando te pedi para se virar para mim um pouco, pra eu mexer no seu rosto antes de levantar. Você virou de um jeito que só posso usar a palavra obediente. Foi engraçado, e me deu uma onda de carinho.

Não sou boa de apresentar pessoas. Os únicos amigos que o conheceram o fizeram porque estavam hospedados na minha casa, ou moravam comigo, ou chegaram na hora errada. Para os outros, era minha Odette. (cheguei a falar isso a ele. A piada sobre Odette, as coisas horríveis que eu sou capaz de falar para uma pessoa).

Um Natal que antecipa separações, cada um na sua Bahia e um elefante na sala: não pretende voltar para mim depois das férias.

(um ano antes, o que eu fazia? trocava mensagens com um paquera virtual que passava o Natal na casa dos pais, em Santa Maria da Feira. O cocker spaniel Che caia na piscina na noite do dia 24 e morria congelado, incapaz de nadar pra fora dela).

Estou com saudades suas. Ridículo ter que terminar com você para me dar conta disso, mas pelo jeito eu sou um pouco ridículo. Não sei qual era a barreira que eu tinha, mas depois de umas 24 horas de alívio, o que tenho sentido é perda estúpida, arrependimento. Eu gosto de você, gosto de como você pensa e fala, seu humor e snort-laugh (que me agradou desde o nosso primeiro encontro), sua cara de surface-antipatia; fiquei um tempão agora olhando todas as fotos disponíveis de você nas redes, como um creep de internet. Não sei por que de repente vem essa vontade de estar longe, porque o resto do tempo me sinto tão bem com você. E, bom, não sei como é possível oscilar de um extremo para outro desse jeito, mas o que sinto agora é que quero te namorar, não quero outra coisa.

Não sei se você quer, agora. Se não, vou entender. Não vou gostar, vou achar triste, mas talvez até melhor, ou pelo menos mais sensato. Tenho medo de muita coisa. Sobretudo de te magoar mais do que já te magoei com minha repentina paranoid-making frieza, porque não a entendo, não sei de onde vem. E, como todos sabemos, eu vou embora —talvez fique até maio agora, porque parece que meu livro sai um mês mais tarde, mas vou embora— e tenho medo de te magoar à toa por uma coisa por força temporária. Ou, bom, de me magoar. Sentindo o que senti essa semana, também fiquei com medo do meu attachment a você, se faria sentido aumentá-lo, aumentando a possibilidade de all-around mágoa quando eu for embora, se continuássemos até lá.

É muito medo e muita neurose e dúvida. A única clareza que tive ao longo da semana é que não gosto de não estar com você. Queria ter mais clareza. Acho justo você querer mais. Sei que gosto de você e que a relação que tínhamos é sem duvida a melhor que já tive em muitos sentidos. Mas eu também tenho medo de minha própria capacidade de ficar distante assim do nada. E bom, a verdade é que ela não é uma total novidade pra mim.

Quando eu tinha seis anos, ganhei um porquinho-da-índia. Que dor de coração me dava porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão! Levava ele prá sala, pra os lugares mais bonitos mais limpinhos. Ele não gostava, queria era estar debaixo do fogão. Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas… O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

Modesto boletim de perdas de um relacionamento breve: um ventilador, um guarda-chuva e duas biografias do lado dele. Um paletó, outro guarda-chuva (esse em melhor estado) e Um Copo de Cólera do meu.

— Fui escalar com o Bill e encontrei o Jorge lá, junto com o cara que estava fazendo a minha segurança no dia da queda. A minha narrativa da queda estava errada esse tempo todo! Descobri quando perguntei pra eles o que viram. Me dei conta de que o cara, Luiz, apesar de não ter a culpa exatamente, podia ter evitado o acidente se fosse mais experiente. Estou um pouco perturbado porque me dei conta de que eu estava confiando minha vida em gente que eu sequer conhecia.

— Mas isso é parte da beleza da escalada, não? Aquilo que me falou sobre desconhecidos fazerem as vias e você basicamente confiar que fizeram direito.

— As vias tudo bem, mas não dá para fazer uma escalada perigosa como aquela com um desconhecido inexperiente. Eu não estava apreciando os riscos corretamente.

Como sou uma pessoa especialíssima, um artigo raro e delicado, ele terminou comigo duas vezes em um mês, uma por chat de Facebook após dias me tratando com burocracia enquanto eu viajava para uma pauta, outra por email, do saguão do aeroporto, antes de embarcar para o Natal. Na véspera, dividimos um ceviche que mal dava pra um, tomamos pisco sour e mezcal. No dia seguinte, acordei com ele me olhando como se eu fosse pouco menos do que uma total estranha. Suponho que se eu não fosse tão querida podia ter recebido um saco de bosta por Sedex à guisa de despedida.

É engraçado pensar em como nos recuperamos dessas coisas —englobando nessas coisas desde namoros breves desses que a gente se sente um Pedro da Maia rebaixado por não superar em dois tempos até histórias sérias e longas, dessas que não sei se terei—, e numa velocidade impressionante, mesmo os mais lentos entre nós. Outro dia morreu uma funcionária do jornal, uma espécie de datilógrafa faz-tudo. Em seu obituário, constava que ela permaneceu solteira a vida toda, fiel a um amor desencontrado da juventude. Bullshitagem. Ela apenas se afeiçoou esteticamente à solidão, à ideia de uma datilógrafa de jornal que não consegue virar a página.

Por outro lado, também é verdade que não nos recuperamos. Fitzgerald em The Crack-Up: A man does not recover from such jolts —he becomes a different person, and, eventually, the new person finds new things to care about.

Ele não falava de amor, mas de como, na faculdade, teve de abandonar o projeto de ser um homem que manda em homens para ser um mero escritor. Since that day I have not been able to fire a bad servant, and I am astonished and impressed by people who can.

Nada temos a temer, exceto as palavras. Os gestos ainda não são gravados e arquivados. Sobre eles, a interpretação é mais arredia, a memória, mais piedosa. E somos repórteres. Eu sempre digo: sai da frente com esse infográfico. Se você não conseguiu me explicar algo em palavras, não é um desenho que irá salvar.

Se você não fala as coisas, é como se elas não tivessem ocorrido. Um gesto precisa que alguém venha por cima e fixe o sentido dele. Senão ele parece falar por si, mas só por uma semana. São as palavras que vão criando os sentimentos. Você fala “eu gosto de você” e isso passa a existir, é um verbo performativo. Ou o contrário: fala “eu gosto de você” e aquilo não se sustenta, a frase te soa capenga. Mas é preciso dizer, soltar as palavras no frio da conversa para ver se elas solidificam ou esfarelam; um pouco como fazer vidro. Ninguém vai dizer que é fácil pegar as palavras, crias suas, e atirar nesse mundo sem saber o que serão delas.

(em jornalismo, temos um termo interessante: chama-se legenda para cego. legenda para cego é quando o redator faz uma legenda que descreve a foto, em vez de adicionar informações a ela. há uma foto de uma mulher no parque, sentada num banco e a legenda diz: mulher no parque, sentada num banco, em vez de informar quem é a dita cuja, quantos anos ela teria, que parque seria esse, o que estaria fazendo ali sentada, porque tiramos essa foto. mas a descrição não é reprodução, é decifração, e eu particularmente adoro legenda para cego. existem duas modalidades de declaração amorosa, a legenda para cego e a fabricação de vidro).

Actually we did not have the feelings we said we had until we spoke them —at least, I didn’t; to phrase them was to invent them and own them. We whipped our strangeness and newness into a froth that resembled love, and we dared not play too long with it, talk too much of it, or it would flatten and fizzle away.

Desculpa por hoje. Não queria estar repetindo já essa coisa de ficar de repente distante e frio. Por trás tem algumas das mesmas razões. Mas a verdade é que tem outra coisa também, que é que acho que não posso retribuir o que você disse sentir por mim. Eu mencionei motivos racionais, mas me parece que aquilo talvez não devesse ser tão racional, e que a minha própria busca por desculpas significa alguma coisa. Sinceramente não sei como posso oscilar tão dramaticamente como você tem visto, mas não me parece justo com você, e também me parece que talvez eu precise aceitar essa inconstância como sinal de que não vai dar certo entre nós. Não queria me precipitar, nem queria terminar com você por email, mas também não queria te deixar no limbo que nem da última vez —por ainda mais tempo, já que vou estar fora durante três semanas. Me sinto terrível tendo pedido para você voltar comigo só para terminar pouco depois. Acho você especial e não podia não tentar de novo; realmente achava que podia funcionar, e passei momentos muito bons com você nesse tempo. Mas acho que eu não sinto o que precisaria sentir para a gente continuar. Desculpe-me de novo por te fazer passar por tudo isso.

— Não sei de que cor são seus olhos. Almir Guineto tem um samba que ele fez numa mesa de bar, pra fugir de uma saia justa. Ele sempre passava a mesma cantada, dizia pras moças que elas tinham uns olhos lindos. Um dia, uma mais esperta fechou o olho na hora e perguntou: mas de que cor são meus olhos? Os seus não dá pra saber, mesmo abertos não dá pra saber.

— Prometo não te colocar numa situação em que seja crucial saber a cor dos meus olhos.

— Se te perco na praia e saio te descrevendo, é a primeira coisa que perguntam.

Ambar.

Almir Guineto não pensou numa resposta pronta para essa cor.

Bianca, Nanni Moretti. C’è un uomo che ti pensa ancora, lo capisci questo? A conversa na rede em que falamos de ex-namorados, a impressão de que, de um jeito ou de outro, ele sempre sai por cima das situações. A moça que ficava na janela e escrevia sobre cavalos. Foi ela quem terminou e ainda assim é ela quem “continua tendo problemas”. A que tenta lhe cooptar os amigos e questiona o motivo do término três anos depois do ocorrido. “E, poxa, foi um namoro de um ano”.

O que tenho a depor de minha parte? O namorado de adolescência, os virtuais, o que teve leucemia e muito cedo perdeu a conexão com o real, o que hoje é amigo tão próximo que virou minha família, o que me dispensou em dois meses por mensagem de texto quando eu achava que tinha encontrado a minha pessoa. Numa revista semanal, Contardo Calligaris dizia: a gente devia se divorciar por WhatsApp. A descrição não é proposição, é constatação.

Aquela cena em que Michele diz pra Bianca: não vamos começar nada porque um dia, quando eu já estiver tranquilo, eu estarei aqui no terraço, apenas aqui no terraço, você vai se aproximar de mim, vou te sentir solene, vai começar a dizer “precisamos conversar, acho que não está dando certo”.

No começo, “eu gosto de você” significa “eu gosto de você”. Passados uns meses, “eu gosto de você” significa “eu não te amo” e até evitamos dizer.

Você pode tentar remendar isso com um olhar mais penetrante, com uma pausa dramática antes de “gosto”, mas leia de novo o que eu disse sobre gestos.

Um prazo assim estimula neuroses e as nossas preenchem com folga os três quarteirões que nos separam. Mas é também um alívio: você tem uma duração definida, é mais fácil escrever dentro da retranca. O que você quer que signifique? Você quer fazer uma história bonita, mas quer levantar rápido depois. Philip Roth diz que nada de mal pode acontecer a um escritor, tudo é material. Mas muita coisa pode acontecer a dois.

Defeitos: obcecado pelo próprio corpo. Se fosse possível, eu preferiria não ouvir de novo o quanto todo mundo te acha mais novo do que você realmente é. Isentão que acha que não é isentão apenas se faz de isentão para ter mais credibilidade. Se relaciona com os assuntos como se fossem apenas notícias. Faz uma doação generosa para a caixinha dos porteiros e fica conferindo se os vizinhos seguiram O Exemplo. Toma aqui o seu troféu por não se expor em redes sociais. Tem um cheiro bom que se prova intransferível para superfícies como travesseiros e roupas —isso depõe contra alguém que não se dá ao mundo, que retém as coisas.

Qualidades: Não faz aquela cara de aparição da Virgem que alguns homens fazem diante da nudez feminina. É possível deixar celulares desbloqueados e computadores sem senha por perto. Gosta de cachorros e plantas, embora prefira não cuidar deles. Poucos amigos, discreto como nunca serei, nenhuma necessidade de encher a vida de figurantes, nenhuma necessidade de fingir saber o que não sabe, não falha em reconhecer responsabilidades. Inteligente, razoavelmente engraçado e constrangedoramente bonito.

As a teenager, I started to grab that it was relatively easy for people to recognize my qualities or even to like me, but something on me (or something I lack) would prevent them to go any further. There is something on me that wouldn’t allow them to take the next step —which is not a step anymore, it’s more of a fall. I know that I may sound both pretentious and victimist for saying that is not hard for people to like and admire me, and yet I’m somehow beyond being loved, but I don’t care about how I sound. I just don’t want you to doubt your own capacity to love just because you couldn’t love me. Nobody could, sweetpie. I’m kind of a shadow zone for other people’s affections.

Tem gostos interessantes por serem indistintos. Não dá para saber exatamente do que ele gosta porque não usa seus consumos culturais como marcadores de personalidade. (que tipo de pessoa é esse?). Eu diria que ele gostou de Out of Sheer Rage, de Geoff Dyer, mas não me sinto confortável dizendo que ele goste especificamente de um autor, ou do que quer que seja.

Está sempre se perguntando será que a Ju vai continuar saindo comigo se eu tirar a barba, será que a Ju vai continuar gostando de mim depois de ler meu livro. Até concluir que sim e isso deixar de importar.

Estando com uma pessoa bonita, é difícil saber o que é sua projeção romântica e o que está no objeto. O que é afeto e o que é fria constatação de fatos. É bonito ver um homem forte sentado na sua cama —lendo, engolindo comprimidos misteriosos, procurando o repelente entre os sapatos.

Tem rugas ao redor dos olhos que não consigo identificar de onde vêm. Rugas são rastros de movimentos, mas as dele saem do cantinho do olho, ali onde se alojam as remelas, e partem como ligeiros sulcos até a maçã do rosto. Que movimento é preciso fazer para marcar a pele desse modo? Peço que faça expressões com a cara, mas não consigo descobrir.

Mora há cinco anos num estado de impermanência, num duplex mobiliado com talheres de cabo plástico corroído e móveis de madeirinha clara e aspecto de escritório. Para não dizer que nunca escalei nada, escalamos da sala ao quarto do duplex com uma corda. Não sei se fiz por gosto ou pela história, mas a gente raramente sabe.

Num futuro, tudo será você

A lavadora nova encolheu duas blusas de lã num processo que encolheu também a casa, que virou apartamento e ganhou paredes finas, uma separação muito sutil entre mim e o vizinho, entre todos os vizinhos, entre a rua inteira.

É a primeira vez que moro num desses prédios novos, com lazer completo e portão duplo de gaiolinha. A maior diferença entre isso e uma casa é a trabalheira que dá para sair.

Fora isso, apenas todo o resto. A falta de solidez, a impressão de que uma briga de casal pode pôr tudo a baixo, a necessidade de contenção. Cada compra e cada gesto precisa ser pensado, ou periga não caber no cômodo.

Enquanto uma casa dá trabalho —trabalho físico, braçal—, um apartamento pequeno é trabalhoso no sentido de que exige uma ponderação constante. É como se o apartamento, por pequeno que seja, estivesse em todo lugar pois é preciso tê-lo em mente o tempo todo.

Morar em uma casa de vila é se sentir resistência. Morar num prédio assim é se sentir em expansão, se ver replicado pela cidade, sentir que num futuro próximo tudo será você.

Germes

Higiene: V​ocê oferece um pedaço da sua maçã ao cachorro. Ele lambe, mas não come. Você coloca o pedaço num can​tinho do prato. Quando vai levar o prato na cozinha, percebe que está limpo.

Amoras: Um dos maiores inconvenientes da casa onde moro é que cai muita amora na frente, formando um rastro cor de vinho na calçada. Tem que limpar bem os pés antes de entrar e perdemos muitas horas catando as amoras, colocando em sacos e esquecendo no congelador. A vizinha pôs uma placa na porta: “favor limpar os pés por conta das amoras”. Achei ostentação, eu me limito a contar essa história para todo cristão que encontro.

Validade: A vila é aberta e recebe entre dez e quinze cachorros por dia, além de umas cinco crianças que sabem o nome de Palito e chamam por ele, às vezes aos berros, às vezes esmurrando o portão. São cinco minutos para cada cachorro e três para cada criança antes de Palito voltar correndo, pedindo água e proteção contra o afeto alheio.

Xixi: Quando comprei o cachorro, morava num apartamento pequeno, mas com uma varanda quase tão grande quanto ele próprio. Dizia aos amigos: posso recebê-los desde que acampem na varanda. Nunca ensinei o cachorro a fazer xixi num lugar específico. Ele mesmo entendeu que lá fora seria mais conveniente. Desde então, sempre achou um lá fora, ainda que nos limites desse lá fora escolha o lugar mais chato de limpar. Por três meses moramos num apartamento que não tinha um lá fora, a coisa mais parecida com isso era a área de serviço, estrategicamente localizada na porta do meu quarto, um cômodo aconchegante de uns 7m² onde era necessário optar entre abrir o sofá-cama e fechar a porta. Palito ficou confuso: mais pra direita era perto demais do quarto, mais pra esquerda já era cozinha. Fazia milimetricamente no meio. Gostei tanto dele nessa época.

Pedagogia da contracepção

Alex tinha dez anos quando lhe deram um saco de farinha e a orientação de que andasse com aquele peso para cima e para baixo por uma semana. Era uma atividade escolar para que as crianças soubessem o quão terrível seria ter um filho e carregar um peso daqueles por aí. Um saco de farinha. Algumas meninas enfeitaram seus sacos, traçaram rostinhos, puseram sainhas. Alex jogou o dele no chão consecutivas vezes. O saco rompeu. Lhe deram outro.

Lola tinha 11 quando a pedagoga do SOE começou a passar vídeos da série “​Confissões de Adolescente” na turma dela. Ela achava aquelas mulheres todas muito adultas e distantes. Se tinham 17 ou 35, jamais poderia distinguir.

Na escola de Luana, a professora de ciências ensinava a vestir frutas com camisinhas — era uma escola católica que uma vez por ano promovia uma semana vocacional onde crianças e adolescentes eram questionados sobre a possibilidade de se tornarem padres e freiras. O resultado mais concreto da iniciativa foi que as bananas que os meninos costumavam desenhar nos assentos das cadeiras para humilhar quem ali sentasse passaram a vir envoltas numa cúpula fantasmagórica.

Eu tinha 13 anos quando uma professora resolveu explicar o fenômeno da menstruação: era o choro do útero. Todo mês, o útero preparava um bercinho fofinho para a vinda do bebê. Se o bebê não vinha, ele chorava. Menstruação. No fundo da sala, Sofia soluçava. “Não quero que meu útero chore”. Meu útero era um bravo, chorava por dois, três dias no máximo. Aline tinha um útero mais sentimental, chorava e se debatia a semana inteira.

Marcelo e Lara tinham um acerto no qual Marcelo ligaria todos os dias para Lara para lembrá-la da pílula. Certa vez, Marcelo esqueceu de ligar por três dias seguidos — um feriado na ilha. Eles terminaram, Lara pôs um DIU​ e começou a namorar o Carlos. Marcelo achou injusto. ​

Fernando e ​Bruna rachavam o preço do anticoncepcional. Era um cinema a menos pra cada. Exceto quando precisavam de dinheiro para imprimir o fanzine, nesse caso a pílula rodava.

Rebeca estocava pílulas do dia seguinte na gaveta de calcinhas. Cristina chegou a pedir essas pílulas como presente de aniversário às amigas. A festa foi uma espécie de chá de pílula. Tinha 16. ​

Paloma engravidou aos 18. ​Ela pensava: muito nova, se fosse com vinte, estava bom.

Uva-passa

Januário que não me ouça, mas tenho com a jabuticabeira que ele me deu um jogo de deixá-la bem seca, esturricada, as folhas todas amarelas e só então jogar dois baldes de água nela, vê-la quase verde no dia seguinte e já verde inteira no próximo.

É um jogo de testar a capacidade de resiliência da planta, o desespero da bixa sugando os dois baldes num trago, sua euforia quase tangível pela sorte virada. É também uma pequena perversidade e devo assumir que vejo mesmo uma coisa estética em tê-la sempre quase morta, exibindo um estranho tom outonal em plena primavera dos trópicos, dando à casa um ar de abandono.

Temos levado as coisas nesse ritmo faz um ano e a cada muitos meses ela dá uma só jabuticaba que já nasce assim uma uva-passa.

Quando os cachorros fogem

Há uma leva de cães fugidos antes de toda catástrofe natural, de um terremoto, uma avalanche. Imagino o desespero do cachorro tentando alertar sua família de idiotas sobre o perigo, depois desistindo e partindo em retirada, humilhado e com grande sentimento de culpa.

Dizem que os cachorros pensam que os donos são Deus, mas o trovão desmente esse raciocínio. O cachorro que teme trovões sabe que seu dono não tem poder algum sobre aquele fenômeno. Pior: o dono é um tolo incapaz de calcular riscos. Há algo no cachorro que sabe que o trovão é perigoso, e o dono, limitado demais para se esconder debaixo da mesa ou da soleira da porta, leva a vida como antes, fala em chuvinha gostosa, se aconchega no sofá, são esses os mamíferos no poder.

O cachorro te olha com profunda condescendência quando você tenta consolá-lo dos trovões. Fica claro nessa hora que você para ele não é Deus, ou mesmo um herói. Você, estúpido demais até para se desesperar. Numa espécie de centralismo democrático, o cachorro se submete a uma liderança que ele desconfia que esteja equivocada. Isso pelo menos até que algo grande como um tsunami justifique um abandono de posto.

O professor e os cupins

Quando conheci Albergaria, em 2005, tinha acabado de sair da casa de minha mãe. Estava encantada com a ideia de ter uma casa. Ele ficava muito preocupado com isso. Achava que era importante não se fixar tão cedo, não ter um apego à casa. Antes de tudo, era importante não “juntar papel”. “Quando você junta papel, minha filha, aí que você não vai embora mesmo. Fica lá, lambendo os papéis”.

Como se fossem os papéis que o prendiam a Bahia.

Era 2008 quando minha casa no 2 de Julho, repleta de papéis, sofreu uma infestação de cupins. Albergaria me ensinou a lidar com os meus cupins do jeito que ele lidava com os dele. “Você compra umas estantes de ferro e deixa todas a um palmo da parede. Na minha casa fica tudo em estante de ferro, roupa, livro. Ao redor, os cupins fodem com tudo, mas não conseguem alcançar as estantes”.

O problema, dizia ele, era se você se descuidava e deixava um livro mal posicionado na prateleira, de modo a tocar a parede. Se fizesse isso, o livro funcionava como uma ponte e os cupins invadiam a estante de ferro.

Fui lidando com os cupins como me foi ensinado até o dia em que os bichos corroeram uma das portas, que despencou, e aproveitei a deixa para fugir de Salvador.

Quando soube da morte do professor, fiquei muito triste e me peguei pensando se a questão não seria que os cupins dele finalmente aprenderam um jeito de fazer a ponte até as estantes. Ou se foi ele que cansou de manter aquele palmo de distância entre o que há muito já infestava a casa.

PS: Aqui está um vídeo em que o professor aparece em casa, cheio de papéis cuidadosamente posicionados.