Sócrates e a escrita

Todo mundo sabe que Sócrates não deixou nada escrito. Mas eu, como imagino que tudo mundo faça, nunca parei para perguntar o motivo. Talvez tivesse ler, né. Ou não soubesse escrever. Ou talvez a escrita não fosse muito forte na época dele. Ou talvez ele tenha escrito, mas não chegou até os nossos tempos. Ou talvez ele usasse o Platão de digitador. Enfim, um monte de respostas erradas.

Daí eu precisei ler Fedro e Górgias para a prova de Clássicos e descobri que Sócrates (ou Platão através da personagem Sócrates) critica – mais que isso, desrecomenda! – a escrita.

Para Sócrates, escrita e leitura emburrecem, deixam os homens preguiçosos, com a memória fraca e não gera conhecimento porque o leitor não consegue dizer para o autor que ele está falando besteira.

Segundo ele, você pode até fazer umas anotações para você mesmo, deixar um bilhete para a senhora sua esposa, mas escrever e publicar, ser lido por pessoas que não te conhecem, é o caos. Como você pode saber se a pessoa realmente entendeu o texto? E se ela sair por aí falando que você disse coisas que você nunca disse apenas porque ela entendeu tudo errado? E se ela souber que não entendeu, o que faz? Reler? Mas o texto escrito fala sempre com as mesmas palavras, usando os mesmos exemplos: é possível que a pessoa nunca entenda. Agora sejamos otimistas: e se a pessoa leu, compreendeu, mas discordou? Como ela faz para informar isso ao autor e dar a ele a oportunidade de construir argumentos melhores ou mudar de ideia?

Por todos esses motivos, Sócrates achava que a leitura era nossa ruína. Acho que todo mundo concorda com ele pelo menos três vezes ao dia, mas o que me chamou mais atenção foi a exceção que ele fez: quer escrever, escreva, mas só seja lido por quem te conhece e te ama. Acho que isso tem um pouco a ver com a opinião do Salinger sobre críticos literários: pessoas prepotentes que se julgam capazes de compreender e falar coisas relevantes sobre qualquer livro, inclusive sobre aqueles que elas não amam.

O engraçado é que eu vejo tantas pessoas de Letras achando o oposto: que gostar demais de um autor turva a sua análise. Ou comentando o quanto não suportam mais ler fulano depois de fazer um mestrado sobre ele.

Nisto – e em todas as outras coisas – eu fico com o Salinger. Acho que os textos e as coisas e as pessoas só se abrem completamente para aqueles que as amam e nós não somos nem um pouco capazes de falar algo além do evidente sobre aquilo que não amamos porque o que a gente ama é lido (e conversado, e visitado) muitas vezes com curiosidade de saber como funciona, como procede, enquanto o que a gente não ama só precisa ser desvendado o suficiente para constatar que não amamos e, depois, se ele for revisitado, serve apenas para demonstrar, constatar e grifar tudo que estava naquela primeira impressão.

Juliana Cunha

27 comments to Sócrates e a escrita

  • Concordo.
    Que texto incrível, Juliana. Mesmo correndo o risco de não ter te entendido! :)

  • Depois de ler esse texto não poderia ficar sem comentar, porque, neste caso, estaria indo contra os benefícios da escrita. Só posso dizer que esse texto me tocou particularmente. Não conhecia a opinião de Salinger sobre os críticos literários, nem a de Sócrates (Platão), mas essa foi uma das coisas mais bonitas que eu já li ^^ Obrigada.

  • Breno Trivellato

    Sabe, certo dia um amigo meu retuitou um dos textos deste blog. Li, gostei, e passei a segui-la no Twitter. Desde então venho lendo quase sempre os seus textos, e gostando da maioria. Desse, em especial, gostei bastante (o suficiente pra comentar, veja só!), e já peço licença pra me apropriar da historinha do Sócrates e das conclusões que vieram dela para futuras discussões que terei por aí…

  • Mas acho que boa crítica parte daí mesmo. Em admitir que é a visão parcial de um ser humano. Em dizer coisas do tipo “ah, de jeito nenhum eu vou gostar desse livro que é um itinerário sexual com toques de culpinha burguesa”.

  • nunes

    contardo calligaris fala algo sobre isso. Uma crítica ruim seria uma em que o crítico tende a se aparecer mais do que a obra em si. Ele continua dizendo que só podemos criticar algo se entrarmos realmente na onda do autor. Isso não significa concordar com tudo e com todos, mas é um bom exercício para nossas pretensas vagas impressões.

  • Adorei o texto, Juliana. Dá muito o que pensar para quem lê, para quem escreve, e para quem escreve para ser lido, como eu.
    Beijo.

  • Adorei o texto, Juliana. Dá muito o que pensar para quem lê, para quem escreve, e para quem escreve para ser lido, como eu.
    Beijo.
    PS: Ri alto com o comentário da Mariana.

  • Oi, Juliana,
    Eu geralmente acho seus textos interessantes, contestadores, engraçados, intrigantes. Muitos me fazem rever a minha opinião, ou discordar de você, ou só ficar pensando naquilo por um tempo. Mas o texto de hoje não. O texto de hoje eu achei muito bonito, sabe? Achei essencialmente bonito mesmo, um dos melhores que já li aqui.

    Beijos

  • Se houvesse blog, ou fóruns de discussão, talvez Sócrates tivesse relativizado neh?

  • Suzana

    Belo texto. Parecem as reflexões da J.M. Gagnebin.

  • “Platão através da personagem Sócrates” é exatamente o que acredito até hoje.

  • iradex! menina-moça, você é pi-ra-da!!!
    me amarrei..
    vc chega a ser, em certos momentos, uma mrs holden caufield com uma pimenta bem baiana.
    boa boa boa!
    parabéns d+!

  • Nossa, o ponto de vista dele foi REALMENTE interessante, nunca tinha parado para pensar nisso. Os blogs, no entanto, podem ser uma pequena exceção, afinal, podemos conversar com o leitor, pelo menos um pouco né?
    Beijos

  • Interessante pensar que, mesmo Sócrates tendo dito isso, seu pupilo, Platão, decidiu escrever seus pensamentos. Ou seja: pela fala ou pela escrita, seremos ‘traídos’ pela incompreensão. E é justamente a Verdade, maiúscula, uma das maiores preocupações para Platão. Se pensarmos que o livro não muda de opinião, resta aos leitores esse ônus da mudança, não?

    Sobre essa questão da crítica, acadêmica ou não, acho que boa parte dela se presta a uma defesa, e não a um debate. Há consensos muito encastelados sobre valores literários, que passam longe do mais simples ‘gostei’ e ‘não gostei’ – que, no fim das contas, é a nossa relação com a maior parte dos livros. Isso explicaria a exaustão, ao fim de um mestrado, por defender algo em que não se acredita; e também uma análise turva ao se amar demais, por justamente fazer uma defesa, e não uma discussão: na realidade, os livros não precisam da gente para defendê-los. O problema é que costumamos usá-los para defender nossas ‘capacidades’ e ‘inteligência’, mesmo que seja só demonstrando, constatando e grifando.

    Talvez Sócrates já estivesse pensando em como esconderíamos nossa falsa capacidade e inteligência atrás de uma escrita verdadeira.

  • Mas, seu Sócrates, agora tem internet! A gente pode comentar a escrita do escritor e o escritor pode fazer com que o leitor entenda a sua escrita do jeito que ele pensou em escrever. Mas, enfim, quem acha que a escrita serve pra que alguém entenda alguma coisa, creio eu que está escrevendo pelos motivos errados. E Salinger tem razão, quando fala em críticos literários. E acho isso válido pra críticos de música, cinema etc etc etc.

  • Bruna

    Salinger possui filosofias interessantes de vida, e as principais são as dos seus próprios livros. Ter lido ”Franny e Zooey”, por exemplo, me fez encarar tudo de uma forma de diferente, inclusive o nada. Desse modo, é aí que os sociólogos e historiadores (e outros cargos onde o gosto pessoal da pessoa deve ficar de fora) entram. Como avaliar algo ou alguém com uma opinião já formada? Não seria mais fácil esvaziar as opiniões pré definidas e tentar absorver toda a essência como um copo vazio que se enche de água? Não. Mais fácil não é. O nosso pré-conceito sempre prevalece, em várias situações, positiva ou negativamente. Na literatura, inclusive, ele prevalece. Quem não acha, assim como disse Holden Caufield, que ”bom mesmo é o livro que quando a gente acaba de ler fica querendo ser um grande amigo do autor, para se poder telefonar para ele toda vez que der vontade”? Talvez fosse isso que Platão e/ou Sócrates quisessem dizer.
    Finalizo com Salinger, assim como a Juliana, que disse que, se quisermos, aprenderemos com as pessoas que guardaram um registro dos seus problemas, e que, um dia, se tivermos algo a oferecer também, outra pessoa aprenderá com a gente; e que tudo isso não é instrução, é poesia.

  • droga, ler esse post me deixou mais burro.
    HAHAHA brincadeira,.
    falando sério, é dificil falar sobre algo que vai muito além de nós. São teorias feitas por homens que viveram pra isso, e nos só sabemos o que nos contam.
    ;*

  • Bem, do alto de minha ignorância, sou obrigada a discordar de Sócrates. A não ser que já tivéssemos desenvolvido a telepatia, todas as formas humanas de comunicação envolvem distorção, filtros pessoais, ruídos e preconceitos na recepção da mensagem. Então, só por isso, a gente não deveria mais se comunicar e ficar restrito aos nossos queridinhos. A vida é feita de riscos e o maior deles, a meu ver, é ser incompreendido. Ainda bem que Platão não concordava com ele (apesar de respeitar o ponto de vista) e, pelo jeito, nem você (senão não estaria escrevendo para desconhecidos lerem, né?).

    Mas, como bem lembrado aí em cima, era só uma questão de tempo para aumentar a interação e possibilitar feedbacks dos leitores.

    Não sei se te amo (pois não te conheço), mas amo o que você escreve. Como Sócrates explicaria isso? Aahahah…

    Obrigada, viu?

  • Gabriela

    Adorei o comentário do Gabriel e o seu texto tbm, claro!

  • Eu acredito que Sócrates não passe de apenas um personagem de Platão, que tinha sintomas de esquisofrenia…rs. Mas acho que isso nem importa, como me disse um amigo meu: não deixe a verdade se intrometer numa boa história.

    Acho que Sócrates fala isso da leitura porque o Oráculo de Delphos declarou Sócrates como o homem mais sábio do mundo. Ele falava de uma posição privilegiada.

    Acredito que a web veio pra dar essa interatividade que o texto pede, mas ainda temos muito para evoluir.

  • carol

    Acho que não escrever é um pouco radical para os dias de hoje, que temos a comunicação e a difusão de ideias e conhecimentos de uma forma muito, muito mais ampla e fácil. Mas é realmente interessante e acho que casa bem com o método de “ensinar” uma pessoa por meio do diálogo e do questionamento dos pressupostos das pessoas. É uma forma de fazer com que ela própria chegue ao seu entendimento por meio da razão.

    Ao lermos um texto, fazemos isso com a nossa roupagem, com nossas próprias vivências e referências e se não nos desnudamos disso, há a probabilidade de não entendermos aquilo, de não amarmos, como vc diz, e não acrescentarmos nada novo à nossa bagagem. Não acho que isso aconteça só com a leitura. Se não questionarmos nossos pressupostos, uma conversa não trará uma nova perspectiva, porque facilmente nos colocamos numa posição superior ao outro e concluímos que estamos certos e outro errado.

    Enfim, parabéns pelo texto!

  • Eu amo seus textos. Muito. Li algumas vezes o último parágrafo só para esgotar suas palavras e entender de verdade. Viu só o que o amor faz???

    Beijo

  • alana

    Tipo email importante:será que só eu leio, releio e pondero sobre o uso de cada verbo e adjetivo? Sobre o estado de espirito do remetente a cada escolha de palavras? Em que pensava, que caras fazia e tudo o mais?

    E sobre os clássicos, vc pode dizer agora porque lê-los

  • alana

    acho q era “por quê lê-los?”

  • Anônimo

    o perdao que epedido jamais vai ser dado agora desculpas de mancho esqueci o meu corpo todo possuido por um lado todo cheio pedidos mas nao e assim o meu ser nao pede homens nehumns como eu nao o menti e nao tem provas de tem a verdade que guarde me tudo carla freguesia s sebastiao da predeira o meu nome e para eles fugirem da responsabilidades na verde sao sujos

  • Daniel

    Juliana o post é antigo mas eu estudo exatamente este aspecto aqui proposto e gostaria de lhe fazer uma pergunta baseando-me na sua leitura do Fedro. Para Sócrates, segundo Platão é como se a escrita cristaliza-se o pensamento e o conhecimento, fazendo dele algo totalmente acabado, mas e se pensarmos a tecnologia e o hypertexto? Estamos voltando a uma época de pensamento em construção? Você postou seu texto e eu e várias outras pessoas estamos construindo a nossa forma de ver o pensamento Platônico-socrático em uma velocidade quase igual a velocidade da oralidade. Você concorda com isso? Se não concorda pode me dizer o porque?

    Agradeço se ler este comentário!

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