Para não mudar de opinião

No blog da Companhia das Letras, o escritor Michel Laub - autor de Diário da queda - fez uma listinha de pedidos de fim de ano para o meio literário.

A lista contém apelos desesperados para que as pessoas do meio (autores, críticos, críticos da crítica etc) se comportem feito gente e parem de repetir sempre os mesmos clichês e comportamentos irritantes.

Gostei bastante de alguns itens, por isso, copiei a seguir:

  1. Editores, prefaciadores e escrevedores de orelha: sigam o conselho de Nick Hornby e não entreguem metade da trama, de preferência nem 1% dela. Também evitem dizer que a história que temos em mãos é “em última instância, sobre a própria literatura” ou “em última instância, sobre a própria linguagem”.
  2. Polemistas: quando confrontados, a não ser que seus familiares e animais domésticos sejam nominalmente referidos, não acusem o adversário de estar levando para o lado pessoal. Admitam que alguém pode achar estúpido o que vocês afirmam — e, no limite, não há forma mais honesta de dizer isso do que usar a palavra “estúpido”.
  3. Produtores culturais, professores, bibliotecários: deixem uma pequena parte dos debates em feiras, festivais e eventos literários para a literatura em si, em vez de dedicar 100% de suas intervenções ao problema da educação, às políticas públicas para compras de livros e ao mercado.
  4. Conselho do item anterior aplicado a jornalistas: só algumas perguntas a menos, e se isso não der muito trabalho de pesquisa, sobre e-books, blogs, redes sociais e influência da internet na ficção.

Como deu para notar, minha listinha de itens queridos seguiu toda uma sequência numérica bonita de se ver. O problema foi o item que se seguiu a ela:

5. Pessoal dos itens anteriores que é contra renúncia fiscal no âmbito da literatura: nada contra seus argumentos — até concordo com muitos deles —, mas não deixem de explicar por que a ajuda a um escritor é moralmente diversa de casos que vocês em geral defendem (ou não criticam em público). Exemplos: bolsas para estudantes de letras, principalmente se você se enquadra nessa categoria, e subsídios à imprensa, principalmente se a empresa onde você trabalha tiver feito uso deles no passado (ou, mais provável, ainda faça no presente).

Sou dessas que acham errado escritor receber bolsa. Mais que errado, sinto mesmo que é algo deplorável. Me parece lógico que o escritor tenha as seguintes opções limpinhas para seu sustento:

  1. Um segundo emprego, como Machado de Assis, por exemplo, e toda a linhagem de escritores funcionários públicos desse Brasil brasileiro;
  2. Marido/mulher/pai rico. Nesse caso, o escritor seria como a blogueira mãe fazedora de cupcakes que aparece nesse post (há mil variações para essa categoria: a blogueira mãe artesã, blogueira mãe fotógrafa de Tumblr, blogueira mãe estilista, blogueira mãe chef etc.);
  3. Participar de todos esses eventos literários que pagam pela presença de escritores, mais ou menos como um cachê de príncipe de festa de 15 anos;
  4. Cursos de escrita criativa/literatura/afins da Escola São Paulo, Casa do Saber, Academia Internacional de Cinema etc;
  5. Engolir o choro e escrever algo que venda.

Por outro lado, sempre me pareceu justo que o Estado pagasse bolsa a estudantes e pesquisadores sem que eles precisassem “engolir o choro e pesquisar algo que venda”, o que aparentemente torna minha opinião bem contraditória.

Em ambos os casos, a maior probabilidade é que o dinheiro gasto pelo governo tanto em um escritor quanto em um pesquisador sirva apenas para o proveito da própria pessoa contemplada pela bolsa. É difícil que tanto um quanto outro escrevam algo que interesse outras pessoas, justificando assim o investimento público.

No caso dos estudantes, sempre pensei que era correto o Estado investir no escuro, mesmo sabendo que a maior parte dos estudantes e até dos pesquisadores profissionais nunca dará uma contribuição que valha a pena. Por que eu não penso o mesmo no caso dos escritores?

Reparem que sou uma pessoa acomodada, que não gosta de mudar de opinião. Se vocês puderem, por favor, resolver o impasse apresentado justificativas para ser legal dar bolsa para estudante e não ser legal dar bolsa para o talvez próximo Lima Barreto eu agradeceria de coração.

Juliana Cunha

15 comments to Para não mudar de opinião

  • Rosa

    O pesquisador acaba virando professor, né? bem ou mal ele vai contribuir. No “bem” dos casos, além de professor, ele publica algo que seja relevante minimamente pra discussoes nas graduações e nos programas de pós e cria mais “pesquisadorezinhos” como ele.
    No “mal” dos casos, ele vira um professor medíocre, mas que ainda assim, vai estimular algo em sala de aula, nem que seja não ser como ele.

    O máximo do escritor é fazer um livro bom, que venda, o que a longo prazo só beneficia a ele mesmo, pois vai ter cada vez mais convites para eventos literários e ter mais cachês de príncipe de 15 anos. Ai ele não precisaria mais da bolsa.

  • Lola

    É isso ai que Rosa disse. Nem preciso defender a minha bolsa.

  • Sou escritora e, engraçado, sempre achei o 1 uma opção deplorável. Eu queria um emprego esfalfante mas gratificante e bem pago em empresa privada, algo relacionado a livros. Aí eu descobri que, pelo menos no Rio, esse emprego não existe (esfalfante sim, mas ridiculamente pago. E nunca te deixam fazer as coisas legais, só o trabalho tosco.).
    Já que era para não fazer coisas legais nem receber bem, mesmo, resolvi tentar o serviço público, que pelo menos paga melhor. Estou no meu segundo concurso, me aproximando de uma classificação. Percebi que era uma implicância sem razão, ou melhor, motivada por falta de experiência no mundo do trabalho.
    Nesse meio tempo, fui sustentada por duas bolsas literárias. Por que não acho isso deplorável? Porque acho que os dois livros que saíram são voltados pra ampliar a base de leitores brasileiros, e não só da boca pra fora (o segundo está de graça aqui: http://novojogador.com.br). E porque acho que as bolsas não implicam em nenhuma concessão literária – deixar de falar mal ou bem de algo que eu queria falar, adaptar meu projeto pra “parecer mais brasileiro” etc.

  • Ah, e passei para um mestrado em Letras ano que vem. A princípio, sem bolsa.

  • Juliana Cunha

    Simone: Seus livros são ótimos, acho que isso resolve boa parte do dilema.
    :c)

  • Juliana Cunha

    Lola e Rosa: Nem todos os bolsistas viram professores. Muitos viram médicos, jornalistas, empresários, donas de casa, vendedores etc. Além disso, o que os escritores escrevem – mesmo o que os maus e pouco conhecidos escritores escrevem – também é lido por alguém, só não sei se a quantidade e o interesse desses poucos leitores justifica o investimento.

  • bruna

    pra mim o hornby sempre entrega a trama.

  • Cyntia

    Oi Ju! Pode ser muito simplista o que vou dizer, mas enfim: no meu ver, investir no estudante é dever do Estado, seja ele estudante do que for, Direito, Letras, Química ou Artes Plásticas. Educação é um dos (poucos, na minha opinião) deveres do Estado. O mesmo para pesquisa: em geral se precisa de MUITA pesquisa para que se produza algo relevante, em qualquer área do conhecimento. Também me parece um dever, primeiro, do Estado, e depois, da iniciativa privada. Agora, uma vez formado, siga sua vida. Não há bolsa advogado, bolsa médico, bolsa engenheiro, bolsa arquiteto, para aqueles que se desvinculam do meio acadêmico. Deveria também ser assim para todas as áreas. Quer fazer cinema: engula o choro e faça 1 (pelo menos 1) filme que venda. Quer fazer moda: talvez vc tenha que começar como vendedora de loja. E daí? É duro pra todo mundo, é suado pra todo mundo, não é o perfect job pra ninguém. Eu tive bolsa para um mestrado. Mas uma vez formada, é cada um por si mesmo…

  • Contra Rosa e Lola eu, que sou bolsista CAPES/CNPQ há 5 anos, só tenho uma coisa a dizer: o Estado tem investido a fundo perdido ao conceder bolsas para formar mestres e doutores nesse Brasil varonil. Porque, claro, importa ter números crescentes de mestres e doutores nas estatísticas oficiais. Os doutores podem não fazer nada, podem nem chegar a ser professores medíocres, mas limpam um pouquinho a barra da educação brasileira e dão a impressão de que o país está pavimentando as estradas do desenvolvimento. “País desenvolvido é país com doutores” é um ótimo complemento para o slongan “País rico é país sem pobreza”. Os escritores, por sua parte, não importam muito. Não conheço estatísticas que quantifiquem o percentual de escritores em relação a… coisa alguma!

  • Tenho uma visão parecida com a da Cyntia. O estado, ao conceder bolsas de pesquisa a estudantes, além de almejar uma eventual contribuição científica por parte do bolsista, contribui para que o agraciado tenha uma formação acadêmica melhor – o que, na média, também resulta em um profissional melhor (não acho que o estigma estudante -> pesquisador -> professor atinja a maioria daqueles que, um dia, receberam alguma bolsa de iniciação científica).

    E também concordo com ela no que se refere à “bolsa-trabalho”. Se o fulano fez a lição de casa, estudou direitinho e parte pra uma carreira artística, tem mais é que saber se virar nos 30 pra se sustentar. Mesmo nas profissões convencionais, ninguém vai a lugar algum só batendo ponto de 40hs/semana. Todo mundo acumula mais de uma função: ou trabalha e estuda ao mesmo tempo ou tem um emprego normal e fixo, mas abre também um negócio próprio em horário alternativo, etc. Sem contar que as mulheres, em geral, fazem jornada dupla há décadas.

    Enfim, o “engole o choro” vale pra todos, inclusive artistas.

  • Karen

    Juliana, estou APAIXONADA pelo teu blog!
    Continue assim!
    Karen

  • ana

    sei lá, as pessoas não acham que escrever seja trabalho. quer dizer que qualquer um poderia se auto entitular ‘escritor’ e receberia uma bolsa do governo? qual seria o critériow

    a propósito, morri de rir com o texto sobre cupcakes.

  • Algumas áreas de pesquisa demandam estrutura física que exige uma grande fonte de financiamento, outras envolvem trabalhos que podem ser feitos até com lápis e papel. Ainda que a pesquisa seja do primeiro tipo, há outras formas de se conseguir recursos financeiros fora da esfera pública. Por um lado, no Brasil espera-se que tudo saia das tetas da viúva, sempre! E isto é válido para acadêmicos, artistas, empresários e qualquer um. Por outro lado, mesmo em países nos quais a pesquisa científica recebe investimentos privados, eles nunca são a maioria. Acontece que a prática da ciência é um exercício caro, muito caro. Em áreas como as de biomedicina, engenharia e física subatômica os recursos necessários podem ser consideráveis, e o tempo para se chegar a um resultado válido indefinível. Logo, poucos investidores estão dispostos a colocar seu dinheirinho em pesquisa científica. A área de bioquímica/farmácia talvez seja a única onde o capital privado domina. Sendo assim, se a sociedade almeja usufruir de alguns benefícios tecnológicos, sinto muito, vai ter de arcar com os custos do processo para desenvolvê-los. O governo norte-americano, por meio dos militares, passou décadas investindo na pesquisa e desenvolvimento disto que usamos aqui, a Internet. Se todos nós nos beneficiamos desse recurso de comunicação hoje é porque o povo americano pagou, e muito, por ele. E isso é só um exemplo, tal como seria o microondas, a TV por satélite, o celular ou a comida desidratada. Bom, é válido lembrar que a maioria das pesquisas na área de humanas demandam pouco ou praticamente nenhum investimento. Resumindo, acho justo bolsa paga com dinheiro público para pesquisa científica. Para qualquer uma? Não! Acho justo bolsa paga com dinheiro público para escritor? Não. Assim como o ofício de escritor, boa parte do trabalho envolvido em pesquisa acadêmica não impede que se trabalhe em algo que permita pagar as contas. Fiz a minha primeira graduação trabalhando como estilista e produtora de moda. Fiz a segunda graduação trabalhando como produtora de arte e de eventos. Fiz meu mestrado ao mesmo tempo em que atuava como professora. Em 2012, começo o doutorado, dando aula e clinicando… E, a propósito, escrevendo 2 livros. Se eu que não sou nem um gênio ou supermulher consigo, qualquer um consegue.

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