Paradoxo do imposto de renda

Minha primeira sogra era uma dessas pessoas que tentam burlar o imposto de renda. Uma vez, no intervalo de um filme ou coisa assim, ela lançou um paradoxo muito profundo: “O problema é que nós tentamos convencer o banco de que somos ricos e, ao mesmo tempo, convencer o governo de que somos pobres. E depois eles chegam e cruzam os dados”.

Acho que esse é basicamente o paradoxo dos países que ficam tentando incentivar o turismo e, ao mesmo tempo, conter a imigração.

Em 2007, por exemplo, a prefeitura de Barcelona e o governo da Catalunha investiram dois milhões de euros na produção de “Vicky Cristina Barcelona”. No ano seguinte, companhias americanas que nem tinham voos diretos para Barcelona criaram esses voos. Todo mundo queria ser Rebecca Hall e ser baleado na mão por uma amante latina enlouquecida.

No entanto, ao mesmo tempo que pagava Woody Allen para incentivar o turismo, a Espanha tentava convencer os imigrantes a irem “para casa” porque o país estava pobre demais para “sustenta-los”. Será que eles não entendem que uma hora o turista realmente empolgado cruza os dados e resolve estender as férias?

Quando minha ex-sogra colocou o paradoxo do imposto de renda na roda, criei um pequeno climão dizendo que ela poderia simplesmente decidir se preferiria pagar menos taxas no banco ou menos imposto ao governo.

Acho que alguém poderia fazer algo semelhante explicando para a União Europeia que tudo seria mais simples se eles escolhessem se querem ganhar o dinheiro dos turistas ou economizar o que dizem gastar com os imigrantes.

Sei que nem todo mundo escolhe o país para onde vai migrar por conta da sedução de um filme ou de uma viagem, mas eu não subestimaria a sedução das coisas fúteis se fosse você. No fim das contas, supridas as necessidades muito básicas, todo mundo quer morar no lugar que lhe promete sonhos.

Juliana Cunha

12 comments to Paradoxo do imposto de renda

  • Muito bem colocado! Comer Rezar Amar levou muita gente à Ìndia, Itália e Mali. Meia Noite em Paris… Eu até estou louco para conhecer Hedestad, na Suécia, depois de ver Millenium, Os homens que não amavam as mulheres.

  • LUIZ

    não é bem assim. sou amigo tem 26 anos do diretor de turismo, espécie de secretário, de barcelona, que sofre com o assunto diretamente. barcelona não é na espanha, é na catalunha. barcelona quer e precisa dos turistas, sua maior fonte de renda, mas madri nao quer. e os voos sao da iberia, nao tem catalunya air e o controle de passaportes é do exercito e da policia espanhola. por isso madri é uma das cidades que mais barra brasileiros na europa e uma das portas de entrada mais complicadas, depois de londres. num país que exista integro, como a inglaterra, as duas políticas andam juntas, lá não. eu, um senhor grisalho e de gravata, fui revistado e tive que mostrar grana e cartão de crédito todas as 120 vezes que pousei na espanha via madri, conectando para barcelona. quando fui via paris nem carimbo puseram no passaporte. oo mesmo valeu para ir ao pais basco, via airfrance paris bilbao é como ponte aerea, via iberia tem que passar ate o sapato no raio x.

  • O paradoxo serviu mais pro imposto de renda do que pra imigração… Mas a crítica é válida. Ao promover a imagem da cidade, vc vai atrair turistas, imigrantes, investidores, mafiosos, etc. E todos eles trazem o aspecto humano além do econômico. Aí que sempre dá merda, ninguém quer lidar com o aspecto humano… Uma hora a merda atinge o ventilador.

  • miatrix

    que texto fantástico :)

  • Isso serve pros EUA, que despejam seu lixo cultural em cimada gente e ainda mantêm aquela ridícula entrevista pra tirar visto

  • milaynne

    Juliana, o blog tá liiiindo!

  • minha ex-sogra comprava panetones da bauducco.
    reembalava-os.
    e dizia: “- fui em que fiz, querida, tá uma delícia!”.

    logo, não duvidemos de mais nada.
    aliás, duvidemos por demais!
    de impostos e rendas então, oxi,
    duvidemos mais ainda!

    saudações da alice_

  • Mariana

    à parte do texto, que está ótimo, o blog também está ótimo. gostei dos tons azul-amarelo e estou apaixonada pelo palito.

  • Suzana

    Ficou lindo aí em cima! Texto ótimo, ri muito com o pequeno climão narrado.

  • [...] O paradoxo do imposto de renda – uma reflexão divertida da Juliana Cunha (Já Matei por [...]

  • Rubia Sibele

    Caraca, como não te conheci antes (você é amiga de uma colega minha no facebook e te descobri por lá).
    Alguém que consegue falar de política migratória, taxas, imposto de renda, turismo e sonhos em um texto com tanta singeleza… Depois de 10 textos, seu blog já vai pra minha pasta de favoritos ‘amor verdadeiro, amor eterno’.
    Eu ainda me impressiono com meninas de 20 e poucos anos como você (certo?) com tanto valor nos textos, na minha época (tenho 32, com cabeça de 25) as meninas eram mais palermas, algo assim.
    De novo, que bom que descobri seu blog. ^_^

  • Rubia Sibele

    (tenho 31, avancei um ano por maluquice).

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