Re-humilhação de anônimos

A vida das pessoas é uma coisa mal explicada. Esse é apenas um dos motivos pelos quais a timeline do Facebook é uma ideia de girico. Começos de relacionamento coincidem constrangedoramente com datas de términos do relacionamento anterior, bebês nascem em estações difíceis de explicar e dados simplesmente não deveriam ser cruzados.

Cedi à oferta insistente do Facebook de me dar uma timeline ontem e desde então tenho pensado em pequenas formas de constranger pessoas contando fatos sobre a minha vida. Penso, por exemplo, em listar o ano de divórcio dos meus pais e colocar alguma foto minha e da minha irmã chorando. Ou deles brigando. Ou deles casando, o que for mais teatral.

Se essa coisa de datar e nomear os eventos mais importantes da vida desse certo — não vai dar, fica tranks — a vida seria como aquela re-humilhação de famosos que o “Te Dou Um Dado?” promoveu circa 2008.

Na época, eles convidaram os leitores a acessarem loucamente links com matérias que traziam gafes antigas de pessoas famosas. Velhas, as notícias de traições, quedas e baixarias apareciam nas homepages dos jornais como mais lidas, o que provocava uma bola de neve de re-humilhações eternas. Algo como seu passado armado e furioso voltando no meio do expediente, cinco anos depois do ocorrido.

Pessoas normais são cada vez mais submetidas a mazelas que antes eram sofridas apenas pelos famosos.

Eu tenho para mim que um dia todo mundo vai chegar em casa cansado depois de um dia de trabalho, vai colocar a bolsa de qualquer jeito em cima da mesa da sala e vai olhar para o namorado furioso, sentado no sofá com apenas uma luzinha enigmática iluminando seu rosto severo.

O motivo da fúria doméstica será alguma foto de rede social, algum post mal explicado, alguma data que não bate, alguma dessas coisas que já aconteceram diversas vezes nos últimos dez anos. Nesse dia, todos os relacionamentos da cidade irão terminar. Todos. E em vez de colocar um single no Facebook todo mundo vai achar que é melhor parar com essa cafonice de rede social.

24 comments to Re-humilhação de anônimos

  • Flávia Stefani

    “E em vez de colocar um “single” no Facebook todo mundo vai achar que é melhor parar com essa cafonice de rede social.” <– eu super podia ter escrito.

  • Rejane

    “E em vez de colocar um “single” no Facebook todo mundo vai achar que é melhor parar com essa cafonice de rede social.” Eu não poderia ter escrito porque não seria tão contundente, mas concordo profundamente com a frase =).

  • Lembrando que as pessoas continuam postando só o que elas querem.

  • Mari

    Bom que ninguém vai ficar marcando suas merdas no facebook, pq lá todo mundo é feliz, engajado e ativo socialmente, não vai querer ficar mostrando essas coisas.
    Mas eu sou do tipo q mudo status só pra constar e apago da timeline. Eu não tô a fim de ngm vendo a minha vida não. Só não consigo desmarcar qdo os outros me marcam, pra não chatear. rs

  • Eu não tenho mais facebook.Cafona eu continuo. ;) Cansei beeeeem antes dessa tal “timeline”, mas tenho pra mim que as pessoas devem usar esse espaço não pra “re-humilhação”. Ao contrário, deve rolar um certo esforço pra apresentar uma versão mais photoshopada da vida.

  • Ana Carolina

    Concordo plenamente com a Dani aí de cima. Também continuo cafona. E feliz. Ótimo texto, Juliana!

  • Tomara que acabe mesmo, Ju.

  • Adorei, Juliana. Vou até adicionar você no meu Facebook.

  • Stephen

    - Poste o que quiser ou não poste nada.
    - Foi marcada? Há uma opção para pedir permissão toda vez que for marcada.
    - Há opção de retirar a marcação e até esconder o post marcado.
    - Pode compartilhar o álbum apenas com pessoas especificas.

    Simples!

    Assim não terá crises “virtuaexistenciais”.

  • Raquel

    One can only hope.

  • péssimo. fico revoltadíssimo com essa futilização de redes sociais! = P

  • Mariana Tavares

    ah, a temida timeline… quando eu vi a apresentação do Mark Sobrenome Complicado sobre a timeline eu fiquei com uma cara pavorosa, imaginando toda a minha vida ali, resumida numa página. visualizei situações nas quais eu conheceria pessoas, elas perguntariam meu nome, me adicionariam no facebook e pronto, nunca precisassem me perguntar nada pelo simples fato de já saberem de TUDO. mas aí é você quem decide como vai fazer isso funcionar. porque você pode sim colocar todas as informações ali ou tentar viver com um pouco de dignidade misteriosa.
    ah, e tente só digitar “divorces facebook” no google pra vê o que acontece. material não falta. infelizmente.

  • Gosto tanto do seu blog, dá vontade de abraçar toda vez que eu venho aqui (o blog e você)

  • Achei legal o post. Tema relativamente polêmico embora menos que os Mamilos…
    Anos atrás discorri sobre o assunto no meu Blog LB&A [acessível aqui], em particular sobre a onda de “Orkuticídio” que já anunciava o fracasso de algumas mudanças que o homônimo Engenheiro e sua equipe faziam naquela Rede Social.

    Dias atrás pentelhei minha “prima torta” quando ela reclamava da tal Linha do Tempo apenas expressando que na minha humilde opinião, considerando que o Facebook não é um serviço pelo qual pagamos e sim um serviço cujo produto somos nós e nossa capacidade de disseminar informações gratuitamente, termômetro de eventos cotidianos, não faz muito sentido nos indignarmos ativamente com a forçada mudança do formato de apresentação.

    A maneira de interação entre as pessoas por meio da internet e as ferramentas que são utilizadas pra tal finalidade tende a mudar tal qual a forma das pessoas se relacionarem, influenciadas pelas novas tecnologias e sobretudo pelos interesses comerciais que permeiam cada evento de nossa vida como a visita àquela casa badalada, fotos de passeios e etc.

    A minha, na ocasião foi que decidam entre o Facebookcídio, conformação, ou que se desenvolva o skill necessário pra bolar e “vender” uma rede social que atenda a todos os anseios dos usuários.

    Digo mais, pra fechar, o Facebook, é o BBB da vez da internet. E a matéria prima sempre seremos nós mesmos.

  • adriana

    Bem divulgar e se expor e livre arbitrio, porem lembrando, as pessoas colocam só oque querem, concordo que a materia prima do facebook somos nós mesmos, se alguém coloca datas sabendo que pode magoar um outro alguem, ou expor sem permissao, ai fica mais claro o egoísmo do ser humano, de querer se expor mais que preservar o outro.Porém saber da vida alheia todos mais ou menos queremos por isso revistas de fofoca vendem tamto e por isso o facebook é um sucesso, não deixa de ser uma ideia brilhante devido a curiosidade e relacionamentos entre as pessoas.

  • adriana

    Mas sinceramente não vejo humilhaçao você pode se expor ou não e se exposto pode retirar exposiçao.

  • Helena Tarozo

    Quão paradoxal é eu compartilhar esse post na minha timeline? Mandou bem, ju. bj

  • Simone Schmidt

    Amiga, idéia de JERICO, de Jumento ou burro, OK.
    Abraço, Luz e Paz

  • excelente texto, juliana!
    =)

  • Porra?! Cortei essa parada no talo, deixei meu epitáfio no orkut e não reencarnei no facebook… É o mérito do Twitter, dá pra manter só como fonte de informação e opinião, sem expor sua vida.

    Ótimo texto.

  • Rubia Sibele

    Eu adorei, mas sou piegas mesmo. E concordo que é imbecil não ser opcional. Fico imaginando os executivos, CEOs, marketeiros discutindo a parada… burrice corporativa.

  • Não sei o que é pior, tentar encontrar um meio para se encaixar em redes sociais de uma forma… digamos sustentável, como fez o Stephen ou se entregar ao misantropismo social e achar que tudo que é coletivo (em um país com valores morais e educacionais distorcidos como o nosso) é lixo!

    A Sábia Ignorância:
    http://asabiaignorancia.blogspot.com.br/

  • Ju

    Detesto o FB, mas fiz um porque virei o ET da turma. Uma super amiga de infância perdeu o pai e ficou chateada comigo porque fui indiferente ao fato. Imagina a cena/telefonema: – Uai, Ju meu pai morreu e vc nem para me confortar? Amiga doida, possessiva? Fato, mas e as outras que foram no velório, missa de sétimo dia e não me disseram nada. Senti-me mal mais porque fui excluída do que porque fui acusada de frieza e sei lá mais o quê. Daí FB, de fantasma passei a ter uma cara sugerida/marcada por alguém. Agora essa timeline, eike preguiça eterna! A vida era mais fácil quando as pessoas de ligavam e escondiam as fotos no armário.

  • Michelle

    Eu consegui me libertar das redes sociais…

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