Rainha das aparências

A história de “Otelo” é a história de um sujeito que incorporou de tal forma o que diziam sobre ele que passou a agir conforme esse discurso.

Negro no meio de brancos, decidiram que ele provavelmente era bárbaro e bruto e meio exótico e que se a branca Desdêmona havia se apaixonado por ele é porque devia ter sido enfeitiçada. Vai saber o que essa gente de lá traz nos bolsos.

Otelo — por amor e um pouquinho de politicagem — consegue vencer todos os obstáculos práticos que o preconceito impõe a ele. Consegue ser socialmente suportado, casa com a branca que ama, tem um cargo invejável.

Tomar tudo que ele tem, no entanto, é ridiculamente fácil. Basta confirmar o que ele, de tanto ouvir, já desconfia: que no fundo continua sendo negro e bárbaro e bruto e que se Desdêmona resolveu casar com ele é porque devia ser uma louca inconstante.

É com esse tipo de argumento meio bambo que Iago convence Otelo de que Desdêmona certamente está o traindo com outro branco:

“She did deceive her father, marrying you. . .
Not to affect many proposed matches,
Of her own clime, complexion, and degree,
Whereto we see in all things nature tends. . .”

Diz Iago, e aquilo faz muito sentido para Otelo, lá dentro daquela cabeça desmiolada dele.

Aquilo que pensam sobre você se introjeta na sua cabeça e, cedo ou tarde, passa a ser real. Você age segundo o que esperam de você, seja para agradar ou para tirar algum proveito da má fama.

O pior e mais comum dos casos, no entanto, é quando você age segundo o que esperam de você por acreditar naquela opinião.

Na quinta temporada de “Mad Men”, Joan Harris decide dormir com o executivo da Jaguar quando fica claro para ela o que todos da firma pensavam: que ela era uma puta.

Os subordinados — meio infantis e mal informados — já haviam deixado essa opinião bem clara quando espalharam desenhos dela fazendo um boquete em Lane Pryce. Agora, os chefes — pragmáticos e de caráter duvidoso — emitiam a mesma opinião em forma de um convite: durma com um cliente por dinheiro.

Se Joan quisesse dinheiro, pediria — como era seu direito — ao pai rico de seu filho. Ou teria casado com esse mesmo pai rico quando teve a chance. O que ela queria desde a primeira temporada da série, no entanto, era um casamento legal, do tipo que Betty e Don tiveram por alguns episódios e fingiram ter por tantos outros.

Com o fracasso dos planos de casamento feliz e a chegada da idade, do filho, do divórcio, Joan muda de foco: quer ser bem sucedida profissionalmente. Seu grau de sucesso — que parecia muito bom para quem estava apenas esquentando o banco enquanto esperava por um noivado — passa a ser pouco para uma moça esforçada já flertando com os 40.

Joan dorme com o executivo da Jaguar em troca de se tornar sócia da agência, coisa que ela merecia, mas não conseguiria de outro modo sendo ela essa pessoa sem fortuna e desempenhando tarefas de mulher.

Ao fazer isso, incorpora o discurso geral — o de que ela é puta — na tentativa de tirar algum proveito disso. O custo, no entanto, é óbvio: perde o respeito do único homem que não achava que ela fosse puta.

O flashback repetido no começo e no fim do episódio mostra que Don nunca havia concordado com o jogo sujo que a colocou entre os sócios da agência. Em parte por ser ingênua, parte por saber menos que o espectador, Joan se envergonha de sua decisão quando percebe que Don tinha sido contra sua prostituição. Ela teria agido diferente se soubesse que alguém no mundo não a tinha como uma prostituta.

Caso soubesse que o próprio Don havia cedido quando, lá na segunda temporada, Bobbie — mulher de um comediante famoso — quis ter uma aventura com o gatinho da propaganda e que, na terceira temporada, demitiu Sal por ele ter dado um fora no dono da Lucky Striker, talvez Joan se sentisse melhor e sustentasse o olhar em vez de baixar a cabeça envergonhada.

A diferença entre Joan e Don não é o que cada um fez — Don se vendeu por menos e durante mais noites —, mas o que pensam deles. A ironia adicional é que Joan, na primeira temporada, é apresentada como o Iago do grupo: a rainha das fofocas, diva das telefonistas que grampeiam conversas a seu comando.

É ela quem tenta ensinar Peggy, já no primeiro episódio, que as aparências importam. Mal agradecidas, essas mesmas aparências insistem em se voltar contra Joan.

O caos é gestado quando as telefonistas — princesas da fofoca — prendem sua carteira de motorista no mural da firma, denunciando que Joan era mais velha do que gostaria de admitir. Depois, há o episódio em que ela é estuprada pelo próprio noivo dentro do escritório e permanece calada por saber o que as pessoas vão dizer. Quando esse mesmo noivo decide não sustentá-la depois que ela já havia pedido demissão para virar dona de casa, Joan não pede seu emprego de volta. Escrava das aparências, come seu bolo de despedida e vai vender roupas na Macy’s.

Somente na quinta temporada, quando o marido anuncia que vai passar mais um ano na guerra como voluntário, ela encara uma briga com as aparências e se divorcia. Esse divórcio já contém todos os ingredientes que a fizeram dormir com o executivo da Jaguar: aqui está uma pessoa que desistiu.

Ainda que Peggy tenha arrancado urros de alegria do espectador ao sair do escritório com sua garrafinha de café depois de pedir demissão, a história de Joan é a mais tocante dessa temporada. É a mais humana de todas pois mostra uma trajetória muito lenta e muito triste de uma pessoa que vai se transformando naquilo que pensam dela.

14 comments to Rainha das aparências

  • Muito bom, Juliana.
    Meu último post começou falando justamente sobre aparências… Citei o conto de M. de Assis “O segredo do Bonzo”, conhece? Excelente.
    Bj

  • Acho incrível a maneira como você escreve. Queria saber como transformar personagens de peças e séries em pessoas da família, que a gente descreve com muitas cores.
    Lindo.
    Bj

  • Sofro com as coisas que acontecem com a Joan. Me cortam demais o coração. Odiei profundamente todos os personagens que a agrediram (noivo babaca estuprador, menino do desenho etc etc).

  • marcela

    O suicídio do Pryce tb tem tudo a ver com esse jogo de aparências… e me deixou sem dormir, angustiada, por noites.
    E essa foi a única temporada em q simpatizei um pouco mais com a Joan.

  • Dani

    Talvez a maneira mais correta de dizê-lo seria que Joan e Otelo internalizam o discurso, não que se transformam no que pensam deles. A opinião e a retórica alheias encontram uma ressonância em algo anterior. Talvez :)

  • Ótima análise! Muito pertinente a comparação com Otelo.

  • Nana

    Sabe o que eu comecei a achar esses dias? Que me tornei gorda pra não expor a mentira de algumas pessoas da minha vida que me chamavam insistentemente assim enquanto crescia. Só agora que sou/estou gorda me dei conta de que antes não era. Doideira total, né?

    Muito certeira tua análise do Otelo; tu é muito esperta e acho que o fato de tu tratar as “artes” (filmes, livros, séries) do jeito que tu trata, te aproximando pra experimentá-las mesmo, sem juízo de valor, é uma grande qualidade e que vai sempre te trazer prazer e bons trabalhos. Um beijão pra ti e pro Palitinho. E pro pegs, haha.

  • Renata P.

    Muito bom esse post, Juliana :)

  • ana

    pena que vou ter que esperar acabar de ver essa temporada (tô no 7º epi) pra ler o texto!!

    não sou muito fã de spoiler, sabe? mas juro que leio e comento. amo Mad Men!

  • Vi só o primeiro episódio e com essa primeira impressão reducionista achei que a Joan realmente não ligava em dar a entender que era uma puta.
    Até fiquei com vontade de dar uma segunda chance a Mad Men.

  • Eu me viciei em Mad Men super atrasada e acabei por assistir todas as cinco temporadas em um mês e meio. A razão para eu não conseguir fazer mais nada até terminar a última foi o aviso do spoiler desse post. Não me conformava de não poder ler. E ainda bem que eu consegui terminar rápido. Falou tudo e falou bem! No próprio Mad Men, a Dr. Miller fala que as pessoas não conseguem ser felizes por conta do conflito entre o que elas querem e o que as pessoas esperam dela. O perigo de virar o que os outros esperam ou querem de você vem quando a gente não consegue mais enxergar o que a gente quer.

  • Comecei a assistir Mad Men recentemente e uma amiga ficou só esperando que eu assistisse esse episódio pra me indicar a leitura desse seu texto. Não sei se concordo com todas as interpretações, ainda refletindo; mas o episódio seguinte me abalou ainda mais, devo confessar. De qualquer forma, foi uma leitura bem interessante a que você fez.

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