Longe, muito longe

Marinhos é a última filha de uma matriosca. Você sai de Belo Horizonte e chega até Brumadinho, um município composto por vários minúsculos distritos, como se ele próprio já não fosse pequeno o bastante. Um desses distritos, São José do Paraopeba, abriga Marinhos. E Marinhos abriga a Comunidade Quilombola de Marinhos. É a última filha, é minúscula mas, como se sabe, é a única feita de madeira maciça.

A comunidade se resume a cerca de 80 famílias e foi reconhecida como quilombola em 2010 pela Fundação Palmares. Eles sempre souberam que eram um quilombo, mas não viam sentido em arranjar um papel que dissesse o que todos sabiam. Não viam até a mineradora Ferrous ficar de olho naquelas terras.

Marinhos tem uma igreja, uma escola municipal que vai até a quinta série, um posto de saúde, uma associação de agricultores e uma cooperativa de artesanato. Um único ônibus atende o lugar. Ele sai de Brumadinho e vai até lá três vezes por dia. Você entra no ônibus e a cobradora te pergunta na casa de quem deseja descer. A “cidade” só tem duas paradas. O último carro parte às 16h.

São todos ultracatólicos até a página dois: quando João Cambão, uma espécie de líder informal da comunidade, explica o uso de pêndulos, magnetismo, águas sagradas e oferendas para deixar a plantação saudável você começa a ligar os pontos. Ele pensa que faz uma plantação de orgânicos. Na Bahia, chamaríamos era de preto velho.

As pessoas que conheci em Brumadinho associam Marinhos à festas, ao congado e ao moçambique. Eles têm a festa de São Sebastião, de Nossa Senhora da Santa Cruz, festa da Colheita, de São Benedito, Nossa Senhora do Rosário. Quando cheguei lá, estavam pregando renda em barras de vestidos para a festa seguinte.

Não foi muito fácil chegar até Marinhos. Sair foi uma verdadeira epopéia com direito a caronas [digamos que eu tenha feito um remake do “On The Road” numa versão baixo orçamento] e sete quilômetros de caminhada. Espero que um fotógrafo mais talentoso que eu repita a peregrinação em breve porque a comunidade é linda e merece.

♫ Oasis, She’s Electric ♫

wanderlust_rodapeWEB

10 comments to Longe, muito longe

  • Marcio Hasegava

    Legal.

  • Luiza

    Ver você falando da minha terrinha em três posts ta fazendo um rombo no meu coraçao e me deixando com mais saudade ainda de la! E apesar do coraçao quase partido, por mim você nao deveria nunca parar de escrever sobre Minas Gerais! Cria tipo um “cantinho de MG” nos proximos posts, independente do assunto! Parabens pelos textos, pela delicadeza e sensibilidade!

  • Gostaria de te ver falando da minha terrinha lá na Paraíba. Eu só passei em Minas dentro de um ônibus e adoraria conhecer mais de lá.

  • Deu vontade de ir conhecer e conversar com o pessoal de lá. A família da minha mãe é toda mineira, mas lá do norte, dentro do sertão e perto da terra de Guimarães Rosa. Desconfio que foi por isso que não senti grandes dificuldades ao ler Grande Sertão.

  • Juliana

    Já fui a Marinhos algumas vezes… Adoro o lugar, o povo, as festas. Um amigo está morando atualmente por lá (sério), em uma casa que é da família dele há gerações! Acredito que a construção tenha aproximadamente 150 anos. Um lugar mágico, onde o tempo anda bem mais devagar e as pessoas têm um relacionamento bem interessante com a natureza e suas “entidades”. Adoro!

    Muito bom divulgar esse lugar tão especial de Minas. Parabens!

  • a primeira frase do texto já me pegou pelo pé – perfeita introdução. me deu vontade súbita de pegar um carro tocando Marvin Gaye, Cee-Lo Green & Tim Maia e sair correndo para Marinhos. parabéns pelo momento Kerouak, adorei mesmo.
    forte abraço,
    W

  • essas montagens de fotos de cantinho arredondado ficam uma gracinha. e parabéns pelo texto!

  • flora

    adorei o texto e as fotos! Parabéns. beijos

  • maria raimunda

    legal

  • Leonardo

    Otimo texto ! Marinho é um daqueles lugares que passei e nâo parei por falta de onibus. Porem apartir de 1 novembro 2014 ,havera 3 horarios diretos Para Belo horizonte. Linha 3943 na rua guaranis Centro de Belo horizonte.

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