De onde é?

A moça posta uma foto sorrindo. Querem saber a cor e a marca daquele batom. A outra posta uma foto de viagem e é imediatamente promovida a consultora de turismo: querem saber onde se hospedou e se achou passagem barata. Minha paciência se esgotou quando uma pessoa do meu Instagram postou uma foto fazendo acro ioga pendurada em panos que pendiam do teto e tudo que seus amigos tinham para perguntar era onde ela fazia aquelas aulas.

Nêgo pensa que as experiências podem ser reduzidas ao local onde se corta o cabelo, a uma cor de batom. No fim, os sorrisos permanecem amarelos e nossas vidas vão sendo reviradas como um catálogo da Polishop.

A coisa mais legal que uma pessoa pode fazer hoje na internet é se recusar a citar marcas gratuitamente. É subir seu passe como consumidor objetificado e parar de transformar amigos em consultores de compras.

Hoje, durante, a aula, fiquei hipnotizada pelo modo como meu professor conseguiu sair de casa inteiramente vestido sem exibir um único logo. Uma camisa polo sem marquinha no peito. Óculos sem marquinhas nas hastes. Nunca na vida vi um par de óculos sem logomarca. Tive que me conter para não checar se os fundos da calça jeans traziam emblema. Quem sabe um dia eu crio coragem para perguntar onde ele comprou aqueles óculos.

40 comments to De onde é?

  • iap

    interessante. lembrei de uma vez em que uma amiga estava tentando ler uma frase que estampava minha camisa. não era procurando marca, acho que ela procurava algo engraçado. mas isso me incomodou tanto, mas tanto mesmo, que acabei sendo grosseiro com ela. agora procuro não vestir camisas com nada escrito, hahaha.

  • Simone C Vollbrecht

    Uma personagem do William Gibson é “alérgica a marcas” e se veste assim, sem logos. Lembrei dela na hora com o seu texto :)

    http://en.wikipedia.org/wiki/Cayce_Pollard#Apparel

  • Caramba, nem me fala. tudo é consumo hoje em dia e isso tbem me irrita um pouco. tenho umma amiga que diz que as marcas é que deviam pagar pra gente, por ter que usar suas roupas tão cheias de logos….

    Beijoca

  • lembrei do Drummond e seu poema “eu, etiqueta”.

  • Ligia

    Adorei o texto. Me incomoda muito ver a falta de pudor das pessoas em perguntar onde as coisas bonitas dos outros foram compradas, quanto custaram etc… É invasivo e demonstra falta de personalidade. Quando eu era adolescente, ninguém no colégio queria ser tachado de “copião”. Hoje, é só uma blogueira citar uma marca de batom que ele se esgota em segundos.

  • natalia

    Certa vez entrei numa loja de jeans x e a vendedora reconheceu que a calça que eu tava usando era das que ela vendia, aí ela olhou meu traseiro e não viu a etiqueta da marca, ficou meio abismada :b Costumo cortar todas as etiquetas de todas as roupas que uso, me sinto melhor sem elas. Só não sei oq faço com meus tênis que tem a marca desenhada umas 4 ou 5 vezes…

  • Mari

    Eu não vejo problema em um certo ponto. Não acho que é indicar algo q se gostou é reduzir a experiência a isso, nem perguntar de onde veio algo bonito é necessariamente ser “copião”. Claro que tem gente que vê as coisas desse jeito, pauta a vida por marcas, ou por copiar pessoas com mais personalidade que elas. Mas não tenho porque sonegar a informação pra quem se interessou. O que ela faz com isso, é com ela. Até pq nem sempre isso envolve alguma marca de verdade (dá pra ter comprado algo legal sem marca na lojinha fuleira da esquina).
    Agora, o que eu também não gosto é marca em roupa. Minha irritação atual é aquelas camisetas da Abercrombie com o nome e inscrições aleatórias costuradas na camiseta com as bordinhas desfiadas. Não é o cúmulo do horrível, mas não é bonito suficiente pra ser disseminado como praga. Todos os boyzinhos sem gosto próprio ficam usando aquilo lá, quando uma camiseta lisa ou com uma estampa legal de verdade dava efeito semelhante, mas com mais dignidade.

    Sobre óculos, tem ópticas que fabricam os próprios, talvez venham sem marca. Eu suspeito que os óculos do meu namorado não tenham marca, porque foram comprados em um lugar desses.

  • Eu tenho dois oculos da Guess que nao tem logomarca visivel. Ele realmente assusta pessoas. E comprei umas roupas nos EUA na D&G e Billabong com logomarcas internas. Essas nao devem fazer sucesso no Brasil. O povo daqui tem que “ostentar” pra se “diferenciar”

  • Belíssimo post.

    Incrível como o comentário da Simone também foi a primeira coisa que me passou pela cabeça. Talvez por eu estar relendo esse livro do Gibson mas na real, acho que por trabalhar com publicidade ou por ser pai de um moleque de 4 anos bem influenciável pelas propagandas da TV, eu tenho pensado bastante em tentar fazer como o seu professor. Acho que essa é a crise de meia idade da profissão ;)

  • Esse post me lembra um outra antigo do Vodka barata sobre pessoas, câmeras e ostentação, existe sim esse grupo de pessoas preocupadas com qual marca ou quanto custou que inclusive poderiam pedir desconto pela propaganda gratuíta, mas também tem esse grupo que precisa de um óculos bom que proteja os olhos do sol ou de uma calça que vista bem, já o onde você ficou era bom? você recomenda? eu acho justo.

  • Renata

    Acabei de ver q meus óculos não tem logomarca. Q coisa.

  • Luciana G M Carmo

    Concordo com tds acima, mas ainda acho que pior do que a pessoa que pergunta da onde é, onde comprou, é a pessoa que para só pra falar “eu tbm tenho”.

  • Renata

    Ou melhor, estou vestida como seu professor.
    Não tem marca na blusa, minha calça jeans não tem etiqueta, nem os óculos logomarca alguma.
    É fácil quando vc faz naturalmente. E ninguém nota isso…

  • Fabiana

    “(…)Sou gravado de forma universal,
    Saio da estamparia, não de casa,
    Da vitrine me tiram, recolocam,
    Objeto pulsante mas objeto
    Que se oferece como signo de outros
    Objetos estáticos, tarifados.
    Por me ostentar assim, tão orgulhoso
    De ser não eu, mar artigo industrial,
    Peço que meu nome retifiquem.
    Já não me convém o título de homem.
    Meu nome noco é Coisa.
    Eu sou a Coisa, coisamente.”

    Gênio; Drummond

  • Belo texto, o que mais temos hoje é comunicação futil entre pessoas, entre amigos.
    Não querem saber o que realmente vc viveu, o importa é quanto pagou, e onde vai mostrar isso. Estou cheia de ver pessoas fazendo coisas apenas para tirar foto e postar em rede social. Não levam nada alem da foto… é triste.
    Abraço

  • adorei, tenho um blog que espera fugir disso tudo, mesmo mostrando moda, http://www.heddy.com.br

  • Todas essas coisas estão me irritando ultimamente. Tudo o que as pessoas fazem ou diz é para mostrar que usa tal marca ou faz tal aula, ou para divulgar algo e receber por traz disso. Isso fez com que quem posta fotos de batom, ou em uma balada causasse essa vontade do outro saber a marca o lugar. Está tudo baseado em futilidade e material. Até os próprios blogueiros já não postam por diversão, e sim por divulgação. Hoje o que temos de bom são apenas secessões.

  • se tiver marca gigante eu não uso, salvo em tênis que geralmente carregam a logo e eu sempre me arrependi quando comprei as versões genéricas sem marca visível.

    Eu penso que uma roupa deva ser de qualidade, isso que faz uma marca valer ou não a pena. É eu poder usar uma roupa durante anos e ela parecer nova. Ter a marca aparente para mim só significa dizer: “olha a marca que eu comprei”.
    Justamente por isso não uso réplicas/falsificações, aquele tipo que carrega o nome de uma marca qualquer sem ser. Não vejo motivo pq se o fato que me faria comprar uma Chanel , se tivesse dinheiro, seria poder ter uma bolsa para deixar de herança para as netas, quando é uma falsificação a única coisa que vou ter é o logo e não a qualidade. É inútil.

    Jessica

  • Judith Lewinski

    Menina, como você é chata…

  • Bruna Carvalho

    Muito bom seu texto, é triste saber que cada vez mais pessoas usam a internet para se “vangloriar”, querem sempre ser melhores que as outras sendo em roupas de marca ou fazendo tour pela Europa só para ter o prazer de sentir superior. Acho que as vezes não é possível ter mais pessoas fúteis no mundo, mas elas sempre me surpreendem.

  • Acho ainda mais incrível como algumas pessoas insistem em usar roupas-outdoors, como aquelas camisetas da Hollister onde não se vê nada além da marca.

  • Aliás, adorei o comentário da Judith. Me pareceu um ótimo elogio. Sério.

  • Simone

    achei incoerente da sua parte! afinal, vc tem instagram pra q? pra ver fotos originais em boa definição? ah vá! pra mim, instagram tem esse intuito mesmo, esse de ser vitrine maquiada do dia-a-dia. e quem tem vitrine quer vender… e quem olha, comprar.

    enfim, a importância dada aos logos parte de quem os usa e de quem os julga. pra mim, nas minhas roupas, não passam de uma questão de estética. se são discretos, pouco ligo. o que eu visto pouco interfere no que eu penso de mim mesma… não preciso de roupas pra me sentir mais ou menos autêntica. espero ansiosa pelo dia em q todos usaremos macacões prata! rsss

  • penso (e me assusto) com a ideia de que tudo na internet está a venda: link para a bolsa, o sapato, o sorvete, o livro, o cd, a poltrona, o tapete. todos os caminhos levam a uma compra.

  • fabio furlan

    Sim!!! Porque diabos usar marca tem valor social? Poor being!!!
    No máximo só mostra que tu pode ter grana mas não tem o minimo senso independência e valorização da sua individualidade e personalidade, de além de fazer porpaganda da marca, sem receber nada em troca.

  • Para você ver como eu sou mais legal, na moda e mais antenada que você: há uns meses comentei no Twitter que já não aguentava mais isso. A minha observação, no entanto, era mais sobre quem postava dicas não solicitadas nas fotos dos outros. Exemplo: pessoa compartilha uma foto de Paris e alguém vai lá e escreve, “coma crepe no café tal.” Ou aqueles que escrevem, “amo essa cidade, estive aí na semana passada.” Gente! Tem mesmo que deixar registrado nas fotos dos outros o quanto você é viajado, como é conhecedor das boas coisas? Afe.

  • Ótimo texto, pena estarmos passando por uma”guerriha do consumo” -li esta frase, adorei. A necessidade de ter objetos de origem reconhecível – a bolsa X, o sapato Y, etc – está forçando alguas marcas a fazer produtos sem a logomara, ara clientes mais exigentes. Mas são minoria frente ao percentual consumidor.

  • Luiz com Z

    Naomi Klein na veia!

  • Desculpa, Ju, mas acho que a visão de consumo aí tá um pouco equivocada. sugiro ler um livro mto bacana do Future Concept Lab chamado “Consumo Autoral”.
    bjs

  • MBSjnr

    :: Humpf… tive que tirar
    meus óculos pra ver se tinha
    alguma logo. Não, não tem.

  • Adorei o texto!
    É exatamente o que penso. Trabalho em um local onde cliente bom é definido pelo que está vestindo, entre outros detalhes do mesmo naipe. Até mesmo alguns de meus “superiores” gostam de ostentar as marcas que usam, e se mordem pela maneira como me visto. Não sou nenhum jeca, mas não ligo para marcas. Tenho que bater o olho e gostar do estilo, e não da etiqueta. Se marcas fizesse o caráter de uma pessoa…

  • Lucy

    pior ainda são as pessoas que compram produtos piratas de marcas famosas

  • Juliana Cunha

    É? Eu não acho as pessoas que compram pirata nem um pouco piores que as que compram marcas famosas originais.

  • Loli

    É pior sim Juliana, porque quem compra o original ainda pode ter a desculpa que comprou pela qualidade do produto (embora na maioria das vezes acabe sendo pra ostentar a marca mesmo). Quem compra pirata quer APENAS ostentar uma marca.

  • Juliana Cunha

    Mas quem compra o fake pode dizer que de fato achou aquilo bonito e está cagando para o quanto custa o fake ou custaria o original.

  • Sophie

    Embora eu não concorde inteiramente com o post da Simone aí de cima, acho que ela levantou uma bola muitíssimo interessante: Mas outras coisas levam sua “marca” estampada e você as usa da mesma forma que as blogueiras usam suas grifes. Existem outros programas como o Istagram, no entanto, as pessoas vivem comentando o nome (marca registrada), fazendo a mesmíssima propaganda que as camisetas da Abercrombie/Hollister, etc. Twitter? Idem. Facebook? Mais um… E no caso do Facebook é ainda mais gritante, porque vários costumam (a la it girls) falar mal da concorrência “ultrapassada”, “fora de moda”, Orkut. São marcas tal e qual!

    E o que dizer de marcas que viraram os próprios nomes de seus produtos? Ou alguém vai ao supermercado comprar “palha de aço”? Alguém sequer sabe o que é “goma de mascar”? Tá lá escrito BOM-BRIL e todo mundo compra sem reclamar, igualzinho o “chiclets” (q a bem da verdade é só o da Adams), Maizena e etc.

    Sou antiga (velha não!!) o suficiente para lembrar da época em que etiquetas eram por dentro, mas certas marcas pagávamos mais caro sim, não pela popularidade que usá-la trazia, mas porque sabíamos que aquele produto era de excelente qualidade e iria durar anos. Então eu, assim como todas as minhas amigas, perguntávamos sim qual era a marca daquela bolsa/sapato/roupa que a outra estava usando… Não porque queríamos comprar igual, mas porque aquela amiga PODIA ser uma testemunha sobre a qualidade da marca, escondida no verso, por dentro.

    Pensando pelo lado da empresa e descartando exageros (de novo, Hollister e afins), se você lança algo novo, que gastou algum tempo para desenvolver, descobrir ou até sacar, você não quer que aquela novidade seja associada a sua marca? É a empresa que está errada ou é a educação do consumidor de deixar que marcas registradas virem a própria moda? Mas não foi por isso que tantos publicitários e marqueteiros trabalharam tão duro???

  • Steph

    Oi Ju, os óculos da ASOS não tem logo!
    Eu amei isso, simples assim, protege do sol…

    http://www.asos.com

    Aliás, o ponto forte deles é o estilo e não a marca, sei que seu post não é sobre isso, e sim sobre como a embalagem importa, principalmente pra mídia e blogs da vida, mas é uma boa dica pra não curte a auto-propaganda…
    Beijos,

  • Barbara

    Gostei do texto.
    Só não usa mais a palavra “logomarca”, ok? ;)

  • roberta

    o que mais vi nos comentários foi gente querendo deixar registrado que não usa marcas, não está usando nada com logo nesse momento, acha ridículo gente q usa hollister ou abercrombie, etc… como que querendo se encontrar, fazer parte de um grupo, tanto quanto as pessoas que usam aquelas marcas. simplesmente pq vc achou seu professor, que conseguiu sair de casa sem ter nenhuma peça de roupa griffada, descoladíssimo, incrível. todo mundo quer ser o seu incrível e aceito por vc. vc virou a marca. viajei?

  • [...] Certa vez, li um pôster bem interessante no blog da Juliana Cunha: De onde é? [...]

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