A viagem como investimento

Gosto muito desse texto de Osvaldo Javier López-Ruiz (abaixo) sobre como viajar deixou de ser um mero lazer e passou a ser um investimento no nosso “capital humano”. Uma forma de manter nossa “empregabilidade” em um mundo que valoriza o verniz cultural.

Embora a informação esteja disponível para muitos, viajar ainda é caro para quem não é porteiro de Danuza Leão. Daí que valorizar a viagem como uma forma diferenciada de adquirir conhecimento é um truque muito esperto para excluir uma parcela da população que pode até se esforçar e estudar, mas dificilmente será “bem viajada”. Michel Laub falou algo parecido numa coluna muito legal sobre o ato de viajar. Ele diz que há uma “noção romântica e consumista de que se deve viver com intensidade, de que a experiência prática e sensorial é mais emocionante que a cultura livresca”.

É duro balancear o encantamento da viagem em si e nossa alegria por podermos nos dar a esse luxo com a consciência de que essa paixão coletiva por viagens que a gente vê atualmente não é uma coisa inocente.

“A diluição de uma diferença clara entre ‘consumo’ e ‘investimento’, promovida pela teoria do capital humano, torna-se um elemento fundamental para a compreensão da lógica sobre a qual funciona a sociedade atual e dos valores que a orientam.

A partir da área difusa que se cria entre o que se entende como consumo e o que se entende como investimento, é que se torna possível ordenar e legitimar socialmente prioridades cambiantes. É a partir dessa vaguidade que se articula e se reafirma a cultura de consumo  que em muitos casos se apresenta como uma cultura de investimento.

As pessoas capitalizam-se consumindo e podem fazê-lo de inúmeras formas: capitalizam em qualidade de vida, por isso é legítimo investir em viagens; capitalizam na própria carreira, por isso é legítimo investir tempo e dinheiro em treinamentos; capitalizam em relacionamentos, por isso é legítimo investir em sofisticados e caros objetos de design na decoração de suas casas; capitalizam em cultura, por isso é legítimo investir em cursos acelerados que dêem os códigos sistematizados para que a ‘fast culture’ possa ser digerida-comentada-capitalizada.

Antigamente, a ‘postergação de satisfações’ significava poupança. A poupança iria formar com o tempo um capital monetário que ficaria disponível para melhor gastar no futuro. Hoje, a poupança, entendida como um ‘não investimento’ — porque o mercado oferece ‘taxas de rendimento’ muito mais altas para quem ‘investe’, por exemplo, no seu capital humano —, perde o sentido fortemente positivo que tinha para a ética protestante do trabalho.

O consumo-investimento [e não a poupança] é o que nos dá a possibilidade, senão de mobilidade social, pelo menos de continuar pertencendo a um mesmo grupo social. Se deixarmos de investir [consumir] temos o alto risco de não ter nada no futuro: qual será nosso capital humano? Que experiência teremos capitalizado? E, curiosamente, qual será nosso capital econômico se, por não termos investido o suficiente em nossa carreira e em nossos relacionamentos, perdemos oportunidades de crescimento e ao final acabamos perdendo nosso emprego?

Por essa razão, quando o consumo é entendido no sentido proposto pela teoria do capital humano, como um ‘investimento’, a orientação que tomam os valores hoje parece ser mais claramente definida pela equação ‘consumo-capacitação-permanência social’, do que pela tradicional equação que guiava o espírito do capitalismo antigamente e que rezava ‘poupança-educação-mobilidade social’”. [Osvaldo Javier López-Ruiz]

Agora chega de filosofia e vem me ajudar a atochar um carregamento industrial de chocolate Garoto nessa mala que é para agradar meus anfitriões coreanos e indianos.

♫ Lilly Allen, Oh My God ♫

wanderlust_rodapeWEB

13 comments to A viagem como investimento

  • Karina

    Leva cachaça e camisa da seleção. Não tem nada que conquiste mais numa viagem.

  • Loraine

    Ju, concordo absolutamente com essa visão. Morei em dois países diferentes para estudar (além do Brasil) e assino embaixo! Ver como outras culturas funcionam e interagem é muito importante para o nosso crescimento, não só pessoal, mas também profissional. Eu lidei com pessoas de muitas nacionalidades, cultos, religiões, etc e tenho certeza que, como pessoa, sou mais tolerante as diferenças.

    Aproveite muito essa viagem, principalmente por causa das diferenças. Observe, absorva, você vai ver o que estou falando. Os indianos são pessoas maravilhosas, tenho vários amigos da India que morarão no meu coração para sempre. Os coreanos são diferentes, mais fechados.

    Agora, quanto as dicas de viagem pra India, já sabe, né? Só beba de canudinho e só água engarrafada ou refrigerante. Pergunte se a comida é spicy, se eles falarem mildly spicy, significa que vai queimar a sua língua ;)

    Na Coreia, tente achar um glass noodles feito de batata doce, é delicioso! Kimchi também pode ser bastante spicy!!!!!

    Beijos e boa viagem! Loraine

  • Gabriela

    Para aumentar o capital humano e ter mais lucro, de preferência tem que enfiar bastantes destinos em pouco espaço de tempo, mesmo que vire viagem de japonês: correr e tirar fotos. Depois mostrar no trabalho para auferir o rendimento pretendido.

  • Bella

    Você não acha que quanto mais a gente viaja e mais a gente aprende, mais a nossa identidade se modifica? E se modifica de tal forma que o que era pra ser investimento para alterar as coisas ao nosso redor (nossa rotina, digamos assim) vira um catalizador de uma vontade de deixar tudo para trás e viver eternamente buscando culturas diferentes? Just thinking :)

  • Talvez a melhor coisa que meus pais me deram foi o espírito de viajante, e praticamente tudo que consegui na vida foi por causa disso. E não é necessariamente algo relacionado a dinheiro, você não precisa ir ao lugar mais caro da Europa, mas sempre procurar algo diferente, até onde a gente sempre viveu.

    Você já é viajante e imigrante, então duvido muito, acho quase impossível, que não encontre coisas maravilhosas nessa viagem que tão pouca gente fez, e espero que conte tudo, porque relatar é viajar duas vezes.

  • Dri

    Ah, e daí que o encantamento da viagem não é inocente? Cada um no seu encantamento e na sua experiência.

    Acho que o texto do Laub e o da Danuza são bem similares: em ambos, existe uma busca por uma diferenciação da “massa” e uma vontade de se ter uma vivência e uma experiência mais única que a do outro. Ninguém quer ser visto como turista, ninguém quer ser visto como viajante fútil. A gente sempre quer percebido como diferenciado. Por que não conseguimos aproveitar na nossa experiência como única e deixar pra lá um pouco gente que acha brega postar foto da torre Eiffel no Facebook?
    Viajar é ótimo, ver o diferente é ótimo, e cada experiência é única, com futilidade e com instrospecção. Porque sempre tem os 2.

    Boa viagem, aproveite muito e poste bastante sobre isso porque quero acompanhar!

  • É preciso crescer sempre e concordo que viajar seja uma ótima forma de fazê-lo. Parece que ao desembarcar em um lugar desconhecido, nossa alma se abre e nossos olhos se perdem.

    Boa viagem, garota. Cuidado com a água e a pimenta.

  • Ótimo esse texto do Osvaldo Javier López-Ruiz e ótima também a amarração que você faz.
    Importante nos pormos à refletir sobre as ideias que estão por trás das coisas que vivenciamos tão naturalmente.
    Gostei muito do seu texto e do seu blog! :)

  • “Você não acha que quanto mais a gente viaja e mais a gente aprende, mais a nossa identidade se modifica? E se modifica de tal forma que o que era pra ser investimento para alterar as coisas ao nosso redor (nossa rotina, digamos assim) vira um catalizador de uma vontade de deixar tudo para trás e viver eternamente buscando culturas diferentes?” Curti.

    Ju, a questão viajante/turista se aplica demais nesse caso. O turista – estamos falando de maioria, porque existem porções turvas tanto em turistas quanto em viajantes – de maneira geral faz o investimento social. Traz a foto, e às vezes o diploma. Os registros são físicos, palpáveis (em tempos digitais, um pouco menos palpáveis, mas de toda maneira comprováveis). O viajante traz a experiência como troféu (e pode até esquecer de tirar fotos). O viajante é pra dentro, e o turista é pra fora.

    De todo modo, separar assim pode ser simplista, pois acredito que tanto o viajante, quanto o turista, podem partir procurando uma coisa e achar outra, e no caminho podem se tornar uma pessoa melhor. Claro que isso também acontece com a literatura, mas a literatura não dá perrengue, não exercita tantos sentidos. (E em contrapartida exercita bem mais a imaginação, esse troço bacana que é nosso hd externo.)

    Sabe quando a gente está *muito* apaixonado e pensa como o mundo seria melhor se todo mundo amasse assim? Eu enxergo isso na viagem. Gosto tanto e me faz tão bem que fico feliz demais se todo mundo puder viajar e conhecer outros limites, outras distâncias. Já pensou, que mundo melhor?

    “As pessoas capitalizam-se consumindo e podem fazê-lo de inúmeras formas: capitalizam em qualidade de vida, por isso é legítimo investir em viagens (…)” :-) Tá aí um texto que me deixou feliz. Uma sociedade interessada em investir em viagens, tanto quanto em bens materiais, é bem mais interessante que aquela que só se interessa por carros e roupas com cavalos e jacarés bordados, né não? E se este consumo-experiência tá disponível tanto pra mim, quanto pra Danusa e o porteiro dela, e pra geral, tanto melhor.

  • [...] recalcada? É possível. Mas tem quem concorde um pouco comigo, [...]

  • lulu

    “Gabriela
    janeiro 2nd, 2013 at 12:43 pm

    Para aumentar o capital humano e ter mais lucro, de preferência tem que enfiar bastantes destinos em pouco espaço de tempo, mesmo que vire viagem de japonês: correr e tirar fotos. Depois mostrar no trabalho para auferir o rendimento pretendido.”

    kkkkkkk, ADOREI!!!! E postar no FALSOBOOK como se tivesse aprendido muito a cultura local, kkkkkk

  • [...] A viagem como investimento – Osvaldo Javier López-Ruiz [...]

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