Travelers with closed minds

O escritor nigeriano Chinua Achebe tem um texto falando mal de Joseph Conrad, autor de “The Heart of Darkness”. Achebe diz que Conrad é racista por só ter visto selvageria e atraso no Congo sendo que na época em que ele esteve lá a África tinha civilizações muito desenvolvidas e organizadas. O Congo tinha reis, mas Conrad só viu bárbaros.

Para falar do quanto viajantes podem ser míopes, Achebe conta uma coisa muito interessante. Ele diz que Marco Polo passou 20 anos na China, escreveu um dos relatos de viagem mais importantes do mundo, mas passou batido por duas coisinhas de nada: a Grande Muralha e a imprensa. Ele não fala nada sobre a Muralha! Talvez nem tenha visto. Se viu, achou irrelevante, indigna de nota. Dá para ver da lua, mas ele não viu.

Marco Polo escreveu um livro, mas não viu graça nenhuma na imprensa, por isso a deixou de fora de seu relato. Resultado: a Europa passou outros cem anos esperando Gutemberg nascer e fazer o favor de “inventar” o que já tinha sido criado.

É sempre bom lembrar que nossas impressões de um lugar são apenas nossas impressões, não vão um palmo além disso. Nada mais irritante do que pessoas que se sentem autoridades sobre um lugar só porque já foram lá. Mesmo que tenham passado 20 anos!

Dito isso, posso me vangloriar de ter sido muito mais esperta que Marco Polo. Passei menos de uma semana na China, mas a Grande Muralha eu vi. E a imprensa também!

Travellers with closed minds can tell us little except about themselves. But even those not blinkered [...] can be astonishing blind. [...] One of the greatest and most intrepid travellers of all time, Marco Polo, journeyed to the Far East from Mediterranean in the thirteenth century and spent twenty years in the court of Kublai Khan in China. On his return to Venice he set down in his book entitled ‘Description of the World’ his impressions of the peoples and places and customs he had seen. But there were at least two extraordinary omissions in his account. He said nothing about the art of printing, unknown as yet in Europe but in full flower in China. [...] Europe had to wait another hundred years for Gutenberg. But even more spectacular was Marco Polo’s omission of any reference to the Great Wall of China nearly 4,000 miles long and already more than 1,000 years old at the time of his visit. Again, he may not have seen it; but the Great Wall of China is the only structure built by man which is visible from the moon! Indeed travellers can be blind.”. [Chinua Achebe]

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Subi a Muralha logo no meu segundo dia de China. Estava tão frio que até um grupo de russos dava pulinhos e se escondia atrás do muro para se esquentar. Quando estávamos lá em cima soprou um vento da Mongólia que foi o pior frio que já senti na vida. Minha câmera rolou por dez degraus [momento de tensão] e uma amiga resolveu fazer streap tease no meio da ventania. Volte em alguns meses que eu posto as fotos, por enquanto ela não é maior de idade.

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Esses guardinhas me seguiram por uns vinte minutos depois que os fotografei, com caras até piores que essas. Outros militares simplesmente colocam a mão no rosto quando percebem qualquer aproximação de uma câmera. Azar o deles, gostei da minha foto.

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Cachorro simpático e imundo, com uma expressão meio séria. Parece bravo, mas é só dentuço mesmo.

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Visitamos um túmulo da Dinastia Ming com uma guia que não conjugava os tempos verbais. Era engraçado porque, como ela falava tudo no presente, parecia que os rituais, sacrifícios e sucessões dinásticas continuavam acontecendo até hoje. Quando ela falava uma frase muito bonita e certinha em inglês, daí repetia duas ou três vezes consecutivas. Tipo: “arrasei, hein? vou mandar de novo”.

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Emocionada em ver a quantidade de bicicletas na cidade. Deve ser o único traço ecológico de Pequim.

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