We will always have Pyongyang

Depois de horas de indecisão entre dormir no sagão do aeroporto, lamentavelmente estirada por cima de minha própria mala, e desembolsar 元 500 para me hospedar num hotel barato nas imediações do aeroporto de Pequim, peguei uma van e vim parar no “Beijing 100% Perfect Hotel”. Acabei de chegar de Pyongyang e de me separar dos três amigos que me acompanharam nas últimas semanas pela Coreia do Sul, China e Coreia do Norte. Agora estou por minha conta e risco partindo amanhã para Mumbai. Sozinha e sozinha pelas próximas oito semanas. Hoje, depressão no hotel mais sujo da cidade. Aqui faz um frio do caramba, que é para eu não esquecer de Pyongyang. A cortina pisca a cada dez segundos com o neon da fachada e o filtro de água mineral parece sofrer de refluxo de tão barulhento.

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Reduzi ao máximo a luz do monitor e desliguei o wi-fi para fazer minha bateria render. Coloquei ao lado da cama um pacote de banana chips compradas na lojinha diplomática de Pyongyang e sentei para tentar digerir a cidade.

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Pyongyang não se parece em nada com o que eu imaginava. É melhor. Dezenas de vezes melhor. A pessoa tem que ir e ver o que é porque não dá para explicar. Eu sei que se pode dizer isso de qualquer lugar, mas raramente é verdade. Você não precisa ir a Nova York para saber o que é. Durante toda a sua vida metade dos filmes que assistiu te falavam sobre como Nova York era, de cada ponto de vista, de cada esquina possível. Tudo que o ocidente vê sobre Pyongyang são paradas militares. Como se a cidade inteira vivesse um eterno Sete de Setembro. De certo modo ela vive — um quarto da população trabalha para o Exército — por outro lado, não é bem assim.

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A cidade é um parque temático dos três Kim. Sua tarefa é fugir deles, enxergar para além do fanatismo. Tive armas privilegiadas para essa missão. Graças a um amigo diplomata que viajou comigo pude ficar hospedada na embaixada do Brasil, e não em um dos hoteis. Pude andar pela cidade sem guia, sozinha, pude escolher mais ou menos os passeios que queria fazer. Pude até mandar um e-mailzinho para casa, luxo do luxo.

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A Pyongyang que eu vi é escura e fria. Chegou a fazer -18°C e vi as pessoas passando frio em todos os lugares. No circo, nos museus, nas lojas. A maioria dos estabelecimentos simplesmente não tem aquecimento. Para piorar, prédios públicos costumam ser feitos de mármore já que o país produz bastante desse material. O resultado é que faz mais frio dentro dos prédios do que na rua. Você sai do museu tremendo. As pessoas assistem ao circo usando três casacos, luvas e chapeu. As atendentes das lojas trabalham de sobretudo. Não existe chegar num ambiente fechado e tirar o casaco. Quando um lugar tem aquecedor elétrico ele é usado como lareira: as pessoas sentam ao redor para esquentar a mão. É muito raro um lugar ter aquecedores o suficiente para esquentar todo o ambiente.

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Há quedas de energia constantes em quase todos os lugares: no meio do teatro, no parque de diversões, nos restaurantes, no clube diplomático, nas embaixadas, na casa do embaixador. A maioria dos bairros simplesmente não tem iluminação pública. Nas casas das pessoas comuns falta energia cerca de três vezes por semana. Por horas. Na Coreia do Sul eles usam um sistema de aquecimento milenar chamado ondol. Tubos de água quente subterrâneos aquecem o chão da casa, fazendo o calor se propagar por todo o ambiente. É delicioso, mas só funciona em casas. A maioria das pessoas de Pyongyang vive em apartamentos tipo loteamento popular. Não dá para aquecer o chão num apartamento desses. Também não dá para ter lareira. E frequentemente não tem luz. Das varandas podemos ver chaminés improvisadas e marcas de fogo nas paredes. Nas ruas todos andam com lanternas.

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O frio é tanto que ninguém liga para ele. Crianças brincam na rua e os adultos passeiam como se fosse verão. Não existe isso de ficar em casa porque está frio. Em casa também faz frio, pega essa tábua de madeira e vamos escorregar na neve.

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Numa cidade tão carente de energia elétrica luz é sinônimo de poder. Na noite escura só os monumentos ficam bem iluminados. Prédios altos [devem ter elevador] e novos colocam neons e leds na fachada num exibicionismo de embrulhar o estômago. Os lugares para estrangeiros como o clube diplomático e a Pyongyang Shop abusam nas luzinhas. Primeiro porque oriental sempre acha que ocidental curte um neon. Segundo porque se é importante, se é rico, então vamos iluminar. Mesmo que a energia tenha caído toda vez eu fosse comprar leite.

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Nota-se um esforço muito grande dos norte-coreanos em maquiar a situação da cidade, porém é um esforço vão. O banheiro do restaurante mais chic de Pyongyang não tem papel higiênico nem água na torneira. O cidadão precisa ser muito sem imaginação para não supor como seria a situação no interior do país.

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A cidade é uma mistura de sentimentos. Tem essa parte do frio, da pena que a gente sente pelas pessoas que passam ainda mais frio, tem a vergonha que eu senti a cada vez que passeei pelo bairro das embaixadas de noite e notei que os coreanos não podiam andar do nosso lado da calçada. Porque eles não têm permissão para entrar em embaixadas. Os guardinhas na frente de cada embaixada não estão lá para proteger a embaixada: estão lá para garantir que nenhum coreano possa entrar.

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Tem também a parte do fascínio que a cidade exerce por seguir uma outra lógica, completamente diferente da nossa. Décadas de propaganda aniquilaram nossa capacidade de avaliar produtos enquanto mercadorias estáticas de função limitada. Passeando por lojinhas com Che, amigo que fizemos por lá, ficava claro que para ele um casaco é só um casaco enquanto para nós um casaco é um passaporte para outra vida. Algo que pode arrasar ou alavancar sua reputação, assim como um sapato ou um imã de geladeira. Che não é definido pelas coisas que usa, eu sou.

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Muita gente na Coreia do Norte usa mercadoria falsificada. As coisas produzidas por lá são resistentes e de boa qualidade, feitas para durar. As miudezas veem da China, o que explica a presença de gorrinhos Puma e bolsinhas Prada. É engraçado ver essas coisas nas mãos de pessoas que não dão o menor valor a elas, que não ligam para as marcas nem para o fato de serem falsificações. No nosso mundo todos têm uma opinião sobre uma falsificação, sobre uma marca. Em Pyongyang tudo isso não passa de símbolos esvaziados, perdidos numa tradução que tão cedo não se concretizará.

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Viajar para a Coreia do Norte é uma atividade tão educativa quanto problemática. O tom da maioria dos turistas é de “vamos ver essa gente estranha”. Tratam os locais como bichos num zoológico, tratam a cidade como um museu de cera bizarro. Acho tosco. Tem muita coisa engraçada por lá. É difícil não rir ao entrar num museu e ver que uma das relíquias expostas é um potão de creme Nivea, presente do Grande Líder para os trabalhadores de uma fábrica hidratarem suas mãos. Apesar dessas bizarrices, Pyongyang é uma cidade real, com pessoas de carne e osso que vivem numa ditadura bastante palpável. É preciso se policiar o tempo inteiro para não desrespeitar os moradores, não transformar seu modo de vida em um divertimento sem compromisso.

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Mesmo não sendo obrigados a andar com guias, tivemos dois tradutores que nos acompanharam na maior parte dos passeios já que pouca gente lá fala inglês e você precisa agendar suas idas aos museus e até a alguns restaurantes. Não existe isso de estar passando na frente de uma galeria e dar uma entradinha. Um dos tradutores tinha mais ou menos a minha idade. Era o primeiro contato dele com turistas. Ele falava português, jogava boliche super bem e virou meu amigo. Sabe aquela pessoa com quem você trocaria altos e-mails e convidaria para uma estadia gratuita na sua casa? Pois ela nasceu no lado errado da Guerra Fria e você nunca mais vai saber notícias dela.

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99 comments to We will always have Pyongyang

  • Juliana, nem preciso dizer que sou um grande admirador das suas aventuras, além disso fico muito feliz em ver ou melhor, ler todo o seu ponto de vista. Confesso que gostaria de estar ai também conhecendo não só este povo como diversos outros.

    Um grande abraço e uma ótima viajem… Se cuida!

    Beijos.

  • Helena Pinheiro

    Muuuuito brigada, Juliana.

  • Leonardo

    Texto e fotos lindas.
    Um dos seus melhores posts (se não o melhor).
    Parabéns.

  • Elizangela

    Muito bom conhecer essa cidade. Gracias por compartilhar. :)

  • Tô amando essa sua viagem e seus relatos. Eu queria ter a coragem de ir viajar assim, e agora, sozinha.

    Suas fotos estão maravilhosas, Juliana.

    Beijos!

  • Osvaldo Ferreira de Abreu Junior

    Juliana, ótimo diário de viagem, adorei seus escritos, vim conhecê-la por um admirador, o jornalista Ethevaldo Siqueira, que compartilhou essa página com os seus amigos, e por tabela me trouxe até essa rica leitura, parabéns! Abraços calorosos dos irmãos brasileiros ;) Osvaldo.

  • Dri

    Esse post é lindo, reli varias vezes. Seu olhar tem muita humanidade e humildade, parabéns!

  • Tô maravilhada, Juliana.
    Com teu relato e fotos e esse olhar tão diferente pra viagens.

  • Michele

    Excelente Juliana, parabéns e obrigada!!

  • Vera dos Anjos

    Juliana seu relato é genial ! vc redige muito bem e estou viajando com vc !!! quero ler mais !!! Parabéns ! Vera

  • Roselaine

    Parabéns menina por seus relatos, sempre me emociono. Estou acompanhando você!

  • Simplesmente sensacional. Nunca tive vontade de ir para a Coréia do Norte e talvez por causa desse preconceito que a gente tem mesmo de lá. O lugar parece ser incrível e ao mesmo tempo assustador. Parece-me um contraste grande, daqueles que nos faz pensar um pouco sobre nossas vidas. Achei as paisagens lindas! E nem acredito que você viu lobos!

  • Lalai

    Maravilhada com sua aventura e coragem! Acompanhando tudo, pois a senhorita arrasa. Beijos

  • Luiza

    Fotos maravilhosas, Juliana! E muito legal o seu relato! Que a viagem continue te trazendo descobertas, surpresas e material pra posts tão bacanas como esse!

  • Luciana

    Juliana,
    Desde que li, por acaso, seu relato de uma viagem a um retiro de meditação na região serrana,há uns dois anos, te sigo e tento sempre ler o que você escreve! Adoro seus textos, são muito bem escritos e com as informações que a gente quer ler! Parabéns! Continue relatando suas aventuras…
    Luciana

  • Cynthia

    Jú,
    Vou repetir o que todos já disseram aqui: estou simplesmente fascinada pelas suas aventuras!!! Obrigada por dividir momentos tão únicos, sempre ilustrados com imagens belíssimas! Um beijo e manda mais coisa pra nós!!!!

  • Hellen Claudia

    Mt rico! Que olhar profundo e POÉTICO! Gostaria de ter estes óculos… Rssss!!! Parabéns!

  • Caroline

    Só me bate uma certa tristeza por ter tão pouco dinheiro e tantos problemas nacionais a resolver…

    (isso é tristeza ou inveja?)

  • Daniela

    Belo relato! Obrigada por compartilhar!

  • Melissa

    Que texto maravilhoso!! Cheguei aqui logo após ter lido o relato de Sophie Schmidt, que esteve em uma missão americana e relatava como os norte-coreanos pareciam ter montado um cenário para eles. O teu texto comprova totalmente a visão dela, nos mostrando o lado real da vida dos coreanos. Parabéns!

  • Bone Yoo

    Sou brasileiro, meus pais sul-coreanos.
    Somos eternamente gratos pelos seus relatos.
    Alguns de nós temos famílias separadas pela guerra onde nunca mais se teve contato.
    Muito obrigado, tentarei traduzir toda emoção que senti ao ler esta carta para meus ancestrais.
    Um grande abraço,
    Bone Yoo

  • Muito bom. Fiquei com mais vontade de ir a Coréia do Norte.

  • Renata Capute

    Espero ainda em vida ter um companheiro (ou companheira, whatever)de viagem como você. Sem mais.

  • seu texto me lembrou muito esta série de fotografias tiradas no irã: http://www.theatlantic.com/infocus/2012/01/a-view-inside-iran/100219/
    é um país que a gente não conhece, uma cultura sobre a qual sabemos pouco, uma realidade palpável que nós não conseguimos tocar e (mesmo assim) (por isso mesmo) sempre tem gente ‘do lado de cá’ do mundo tendo opinião e tratando o lugar e as pessoas como simplesmente exótico.

  • juliane

    véi — como a gente fala por aqui — adorei o texto. moro com uma koreana e acho que, pelo contato que tenho com a cultura, você pode nao ter tido tanto contato e nao ter entendido tanto. mero palpite que me faz descordar de algumas partes. mas como assim você foi ate lá, viveu e escreveu e dividiu tanto. valeu! sem medo de ser feliz dividindo a sua opinião!

  • juliane

    e completando meu comentário anterior, vale muito a pena ler sua
    experiência!!! você ahazoo!

  • ana paula

    Parabéns pelas fotografias e pela experiência compartilhada. Somos quase da mesma idade, fico feliz em ver uma guria como você com tanto pouco tempo de vida já tendo uma puta bagagem toda vez que entro aqui você me dá mais vontade de correr atrás dos meus sonhos mesmo com poucas pratas no bolso mais com muito gás, obrigada!Já admiro.

  • Carla

    Nossa, parabéns, suas fotos ficaram muito massa!!! :)
    Sem querer questionar seu merito como fotógrafa, mas você poderia nos dizer que camera vc usa? rsrs

  • fabiane

    não conhecia o seu blog, mas esse post me cativou por todos os que não li ainda. inspirador. texto muito bem escrito e bastante honesto. fotografias lindas.

    você conquistou uma fã hhahah.

  • Juliana Cunha

    Obrigada.
    :c)

    Carla: Eu tenho uma Cânon T2i.

  • Muito bom ler artigos como este. Li tudo o que o Gabriel Quer Viajar publicou sobre a Coreia e vou fazer o mesmo por aqui. Tenho muitas dúvidas sobre este país e acho que só vou esclarecer quando for até lá.

    Parabéns pela viajem e ousadia.

    Até mais.

  • 'Eugenia

    Leitura leve, suave e extremamente afiada. Gostei muito.

  • Juliana,

    gostei muito das fotos e do relato.
    bom conseguir informações desse tipo.

    olhe só: estarei em Seoul durante 4 meses a trabalho e estou tentando me organizar para visitar Pyongyang.
    poderia me dar alguma dica sobre a entrada em si?
    você entrou pela Coréia do Sul?
    obtenção de visto e outras burocracias?

    obrigado.
    abraço

  • Muito bom seu texto! Uma experiência fenomenal e única, de ter a possibilidade de visitar a Coréia do Norte sem o acompanhamento de um guia. E mais fantástico ainda que você compartilha com a gente de maneira tão reflexiva, que dá abertura para diversas conversas. Demais!
    Só uma observação: morei 3 anos na Coréia do Sul, e os apartamentos no Sul têm ondol aquecendo-os (pelo menos não morei em nenhum que não tivesse). O piso dos ambientes fica um pouco mais elevado (e com isso os apartamentos têm pé direito mais baixo que o que estamos acostumados), exatamente para caber a tubulação quente que passa por ali. Mas depende de energia para aquecer o caldeirão de água quente que cada prédio possui. E se energia é um recurso limitado…

  • Olá Juliana, tenho muita curiosidade em conhecer a Coreia do Norte. Parabéns pelo texto, fotos e pela inspiração. Bj desde Portugal, Filipe

  • Paulo Paterniani

    Legal, mas vc podia falar sobre arte, musica, livros da Coreia!! Ou não tem isso lá???

  • Elisabeth

    Eu acho que vc foi la em uma boa época : http://bit.ly/17oyi3w

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    vai tuma suco de maracuúja la

  • joazin pikeno

    eu gostei muito do seu blog! eu tbm gostei demais do fato de vc ter mostrado o outro lado da Coreia-do-Norte,que as outras pessoas não sabiam.

  • Roberval Baracho

    gostei muito….achei interessante você é muito aventureira gostaria de conhecer a coreia do norte e do sul…..gostei muito da sua historia….

  • Lo Lu La Va

    Juliana muito obrigada por compartilhar suas viagens pelo mundo, ficamos aqui com muita vontade de sair sozinha pelo mundo como você. (Laryssa Xavier)

    Adorei a sua matéria sobre Pyongyang, pra falar a verdade eu gostaria muito de fazer o que você fez.. mas não tenho idade nem grana nem coragem.. (Lorena Maia)

    com certeza um dia vamos sair em uma viajem bem louca e registrar nossas passagens como você faz! (Luizi Madruga)

    Muito boa a sua matéria!

  • Roberval Baracho

    gostei muito….achei interessante você é muito aventureira gostaria de conhecer a coreia do norte e do sul…..gostei muito da sua historia…você é uma ótima fotografa…

  • amanda

    Achei muito interessante o seu blog e como você se expressou neste post.Somos um grupo de colegas estudando sobre a Coreia do Norte.

  • nickson

    Juliana você escreve muito bem e eu sempre acompanho o seu blog(mentira essa é a 1°vez que vejo o seu blog mas ele é muito bom).Você poderia ir visitar a Austrália, pois
    lá é muito bonito e tem muitos animais diferentes e perigosos.Caso você já tenha ido lá me desculpo pois essa é a 1° reportagem que leio em seu blog.
    Atenciosamente:Anônimo Sexy e gostoso

  • Manuela

    Obrigado por me ajuda aprendi, umas coisas sobre a Coreia mas um pouco. Pois estou estudando sobre isso.

  • [...] Julho e agosto costumam ser quentes demais, enquanto os meses entre novembro e fevereiro costumam ser terrivelmente frios, ainda que a paisagem coberta de neve seja terrivelmente linda. [...]

  • [...] fortalecer a discussão, é legal ler a experiência que a Juliana Cunha postou no blog dela (clique aqui) e o relato do repórter Richard Amante para a revista GQ (clique aqui). Duas experiências muito [...]

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