Vermelha e com um saldo de três copos d’água em cinco minutos, eu estava bem satisfeita comigo mesma. Acabara de completar duas semanas comendo apenas comida indiana, feita por indianos, na casa de indianos, sem me recusar a experimentar nada e sempre limpando o prato. Eu amo comida indiana. O desafio, claro, é a pimenta, mas eu estava vencendo o chili verde e o chili vermelho, além da pimenta-do-reino que eles nem consideram pimenta de verdade, só um gostinho a mais.
Compartilhei meu momento de vitória com meus anfitriões e eles riram. Foi aí que entendi que esse tempo todo eles tinham me servido o caruru dos paulistas. Tratantes.
“Caruru dos paulista” é como chamávamos a comida baiana levemente falsificada — com menos dendê, leite de coco e pimenta — que minha avó fazia quando recebia parentes de São Paulo em casa. Eles passavam a viagem inteira comendo essa comida quase light. No fim da estadia, levávamos os paulistas ao restaurante Yemanjá, onde até o café deve ter um pouco de dendê, e as visitas eram convidadas a ter suas dores de barriga no avião.
Insatisfeita com o tratamento café com leite, passei a comer com amigos, nos lugares onde eles vão. Não é fácil. Tudo que eles chamam de não apimentado é apimentado e tudo que eles chamam de apimentado é intragável. Coreanos e chineses também gostam de pimenta, mas na Índia a coisa beira o fanatismo. Acordo e tem pimenta no meu chá. No café da manhã uma das atrações são os biscoitinhos com pimenta. No almoço nem se fala: tudo leva pimenta e a dona da casa come pelo menos três pimentas vermelhas assadas. Inteiras.
Estou oficialmente viciada em lassi, paan, gajar-ka-halwa e em remédios ayurvedicos para males randômicos.
Tanto em Ahmedabad quanto em Mumbai me hospedei e saí apenas com gujaratis. São todos vegetarianos e quase ninguém bebe. Gujarati é um estado que restringe bebida alcoólica. Aqui você completa sua maioridade alcoólica aos 40 anos. É quando ganha permissão para consumir dois litros de bebida por mês. Se quiser mais, volte aos 60, quando pode beber até quatro litros por mês. Tanta disciplina para ser um dos estados com maior índice de alcoolismo no país. Por causa da cota em litros as pessoas preferem comprar bebidas com o maior teor alcoólico possível. Assim, conseguem fazer drinques em casa e repartem com os parentes mais jovens. Completar 40 anos é ver sua popularidade aumentar drasticamente.
Leite é liberado. Comer carne e ovos é mais tabu que tomar vodca adocicada embalada em garrafas que parecem d’água. As pessoas me perguntam: “Você gosta de ovos?”. “Gosto. Assim, normal”. “Ah, eu vou te levar num lugar onde você pode comer ovos”. Bem-vindo ao tráfico de ovos.
Em Mumbai, recebi a tarefa de levar o garoto de 11 anos ao curso de escrita criativa. Não fazia muito sentido considerando que era eu quem segurava na mão dele na hora de atravessar a rua. No meio do caminho, ele entrou num McDonald’s e implorou por um MacFish. Dei. Agora sou uma traficante de peixe. No mesmo dia, jantamos no McDonald’s com a família inteira. Ambos comemos sanduíches vegetarianos. Coitado, teve seu horizonte de possibilidades carnívoras resumido a um MacFish. Esse com certeza vai afogar a frustração na pimenta.





Caruru dos paulistas seria a feijoada para inglês ver que eu preparo para os amigos gringos não terem um ataque do coração ao pescarem uma orelhinha de porco no feijão. Adorei! Eu me surpreendi com a pimenta indiana, achei que era pior. Virei atração local toda vez que sentava nos restaurantes copo sujo, pedia o mesmo que a mesa ao lado e limpava o prato. Com o naan, naturalmente. Coma a comida singalesa e depois me conta se existe pimenta mais forte que aquela. Mas ela é tão boa que o nariz escorre, a garganta arde e você continua comendo.
pela contagem daí já passei dos 180 anos, fácil.
cara, me diverti muito com seu texto. e fiquei com dó do garoto, ngm merece mc fish ¬¬ kkkkkkk
trafico de ovos? que engraçado!
Poxa, McFish? Tadinho… pq não pediu um Big Mac, e mostrou o que é sanduiche de verdade?! (sou nova no blog, e estou adorando seu jornal de viagens!)
Bom saber que você está sobrevivendo às pimentas. Sempre que penso em viajar à Índia, começo a questionar meu desejo com base na questão da pimenta. Eu gosto, mas bem moderadamente. E a água? É mesmo tão complicada quanto dizem?
fooooooooooootooooooooossssssssss!!!!!!!
Fernanda, o mac fish na Índia é de frango. Até onde eu sei, ao menos no mac, não tem carne vermelha, e mesmo os pratos com frango são preparados em lugar separado dos pratos vegetarianos.
No más, melhor post de todo o blog, sem dúvida!
Que engraçada a sua experiência! Eu fui só no norte da Índia e só comi UMA coisa apimentada: o Chicken Maharaja Mac. Ok, pimenta do reino sim, em tudo, mas nada picante mesmo nos pratos dos restaurantes indianos…
Incredible India indeed
e certeza de que o Mc Fish é de peixe mesmo, viu? — lendo o comentário acima
HAHAHAHA adorei, seu humor é muito bom.
Ri demais. Você é maravilhosa.
Como sempre espirituosa. Adoro suas postagens.
essa sua viagem vai virar livro, não vai, xará? TEM QUE.
Caramba, Ju! Nunca imaginei que eu comi caruru pra paulista. Eu que sempre amei a comida da Guió. Me senti traída. Mas nunca passei mal pela comida do Iemanjá, viu?
Beijão