Bahkti é uma senhora de 82 anos com alguma doença degenerativa que ataca a memória e também seu comportamento. Por causa dela, a cozinha de casa está sempre trancada enquanto o banheiro simplesmente não tem chave — ela já ficou presa no banheiro inúmeras vezes e criou alguns problemas na cozinha. Várias das portas têm furos feitos à machadinha perto da tranca, lembranças de vezes em que ela precisou ser resgatadas de dentro de algum cômodo em que não sabe bem o que foi fazer.
Ela mora com a filha, o marido e a sogra da filha, o neto e sua mulher e a bisneta. Bahkti tecnicamente não pertence a essa casa. Depois do casamento, a mulher indiana se muda para a casa do marido e deixa seus pais, passando a viver com os sogros. Doença e viuvez a reincorporaram à casa de sua cria.
Bahkti senta na minha cama e fala comigo em gujarati. No começo era incômodo ver essa senhora de sari e lenço na cabeça, terceiro olho vermelho pintado na testa, sorrindo com poucos dentes e falando baixo coisas que podiam ser ofensas ou conselhos de vida. Com o tempo passei a apreciar a companhia. Ela fica aqui enquanto ouço uma música, enquanto como uma mexerica ou vejo fotos do meu cachorro em diferentes poses, usando uma gravata borboleta.
Liberdade X segurança. Conquistar um pouco mais de uma é perder o mesmo tanto da outra, diz Zygmunt Bauman. Bahkti é um membro funcional e ativo da família apesar de uma doença que a torna bem pouco funcional e excessivamente ativa. Quem disser que ela tem sorte de receber o tratamento classe A que recebe está errado. Ela pagou por esse tratamento ao fazer opções que mantinham a família unida e coesa, um cuidando do outro. E da vida do outro, já que é complicado manter qualquer nível de individualidade em uma família como essa. O banheiro sem chave não me deixa mentir.
Nesses nossos encontros vespertinos sinto que ambas estamos no topo daquilo que nossos modos de vida têm a oferecer. Ela nunca deve ter tido a oportunidade de, lá no meio de seus 20 anos, virar para a família e informar que passaria os próximos dois meses e meio sozinha do outro lado do mundo, for no particular reason. Por outro lado, ser tratada como igual por uma família numerosa é algo que não está no horizonte da minha velhice.
Enquanto conversamos — acabo de apresentá-la a Tom Jobim, recebi um Namasté como resposta — eu não sou obrigada a saber que tipo de sonho individual foi esmagado por sua escolha de grupo e ela não é obrigada a saber que tipo de tratamento frio e mercantilizado eu receberei se um dia, daqui a uns 60 anos, estiver viva e encarando a tranca do banheiro sem saber o que fazer com ela.





Meus pensamentos ao ler o texto (talvez fruto de uma insensibilidade que vão tentando desenvolver os que se envolvem com pessoas doentes com frequência) foram quase todos voltados a pensar que a senhora tenha essa doença: http://en.wikipedia.org/wiki/Pick%27s_disease Mas, no fim das contas, não muda muita coisa saber o apelido da doença, né?
Muito bonito texto. Sou fã!
Fico imaginando o que ela te fala. Será que assim como você analisa o contexto e comportamento dela, ela faz o mesmo com você? Será que ela acha que você é um novo e estranho membro na família e tenta de dar as boas-vindas?
Acho que ela esquece quem eu sou porque volta e meia alguém explica novamente. Mas imagino que sejam coisas boas porque ela tem sempre um rosto muito alegre e simpático comigo. :c)
por favor, apenas por favor escreva um livro (pode ser em pdf! haha) sobre essa viagem quando você voltar. e sobre outras coisas também..sou capaz de ficar lendo seus textos por dias!
Grave o que ela fala com você, um dia. Quem sabe você não consegue um tradutor e descobre o que ela diz?
bjs
Estou adorando os posts da viagem, Ju! Obrigada por compartilhar.
Beijos!
Conheci seu blog em janeiro e por coincidência acabei de ler um texto seu na piaui. Adorei sua sensibilidade ao escrever e viajar.
Acho que vi o Palito na tv. Era um reportagem na record news sobre cachorros terem ou não sentimentos, e mostrava uma mulher indo buscar os seus numa creche, aí acho super que um dos cachorrinhos da creche era o seu. haha, confere?
Lindo texto!
vou passar quatro meses fora de casa também. e às vezes olho pra minha avó, pensando que com a minha idade ela já tinha duas filhas. nada na minha vida é mais liberdadexsegurança do que esses últimos jantares que temos antes da minha ida.
Muito bom o texto (como todos seus!)e acho muito importante, para os mais jovens, fazerem o que você fez: se imaginar na velhice e se colocar no lugar de um idoso. A reflexão de como quer ser trato deveria ser fundamental para a convivência com as pessoas da melhor idade mas sem boa saúde. Uma pena que não seja sempre assim!