Sonho de uma noite de verão

Quando Nina Horta e Danuza Leão começam a falar sobre empregadas domésticas se prepare que vai vir pérola. Essas duas senhoras formam hoje o núcleo duro do elitismo entre os colunistas da Folha. Esqueça Luiz Felipe Pondé, é nas colunas de Nina e Danuza que mora o elitismo hardcore, em seu estado bruto, sem disfarces ou elaborações. É lá que se confraternizam numa eterna conversa de elevador as madames decadentes da nossa classe média, rancorosa por ter perdido privilégios que antes eram quase direitos constitucionais de sua classe social, a exemplo da cobiçada empregada mensalista que dorme do serviço e vive às margens do patrão.

Nina e Danuza me fazem lembrar com tristeza dos tempos em que o Brasil tinha um outra cronista que gostava de falar de empregadas: Clarice Lispector. Vários de seus contos tinham empregadas como personagens centrais, a exemplo das histórias de “A Descoberta do Mundo”. Outros livros, como “A Paixão Segundo G.H” problematizavam a relação entre patroa e empregada.

Nos textos de Clarice a própria autora não se coloca como um exemplo a ser seguido, como a patroa ideal. Pelo contrário: vários deles deixam entrever seus preconceitos de classe e sua dificuldade em lidar com aquela pessoa estranha que vive em sua casa, para lhe servir.

Em “A Mineira Calada”, por exemplo, vemos o episódio em que uma das empregadas da escritora, Aninha, quer porque quer ler os livros da patroa, que menospreza sua capacidade intelectual:

“Um dia de manhã estava arrumando um canto da sala, e eu bordando no outro canto. De repente — não, não de repente, nada é de repente nela, tudo parece uma continuação do silêncio. Continuando pois o silêncio, veio até a mim a sua voz: ‘A senhora escreve livros?’ Respondi um pouco surpreendida que sim. Ela me perguntou, sem parar de arrumar e sem alterar a voz, se eu podia emprestar-lhe um. Fiquei atrapalhada. Fui franca: disse-lhe que ela não ia gostar de meus livros porque eles eram um pouco complicados. Foi então que, continuando a arrumar, e com voz ainda mais abafada, respondeu: ‘Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar’”. [Clarice Lispector]

Mesmo depois de ouvir que a empregada não gostava de água com açúcar, Clarice dá a ela um romance policial que ela havia traduzido — ou seja, uma aguinha com açúcar. Aninha lê, mas volta e responde: “Gostei, mas achei um pouco pueril. Eu gostava era de ler um livro seu”.

Nessa crônica, Clarice relativiza a diferença de classe entre patroa e empregada, desmascara seu próprio preconceito e mostra que a situação da escritora também não é a de uma vida feita somente de trabalhos intelectualizados: assim como Aninha limpa casas para viver e é mais do que uma trabalhadora manual, Clarice tem que traduzir livrinhos policiais para viver, mas não se resume a isso. Não sei que diabos Danuza e Nina fazem para viver, mas elas certamente se resumem a isso.

Ontem, em sua coluna no jornal, Danuza Leão atacou a “PEC das empregadas”, uma tentativa de assegurar mais direitos trabalhistas às empregadas domésticas. Ela compara o esquema brasileiro ao esquema de “países mais civilizados” [palavras dela], como Estados Unidos e França. Para a colunista, “a ideia de dar auxílio creche e educação para menores de cinco anos dos empregados é sonho de uma noite de verão, pois se os patrões mal conseguem arcar com as despesas dos próprios filhos, imagine com os da empregada”.

De onde Danuza tirou que uma pessoa que mal consegue prover educação para os próprios filhos deveria ter uma empregada mensalista? A única forma de assegurar a uma classe média falida o “direito essencial” a ter uma empregada doméstica é permitindo que mulheres pobres se sujeitem a remunerações pífias.

O emprego doméstico só deixou de ser a principal profissão das mulheres brasileiras em 2011. Eu e grande parte dos jovens de classe média da minha geração fomos parcialmente criados por mulheres que abdicaram de sua privacidade e vida individual para morar na casa de patrões, frequentemente sem carteira assinada. Muitas delas criaram seus filhos dentro do ambiente de trabalho, em condições pouco propícias para o desenvolvimento da autoestima de uma criança. Fico feliz em saber que se eu tiver filhos eles serão criados em um outro esquema. Será mais difícil e caro para mim e é também por isso que a minha geração tem filhos mais tarde, mas será indiscutivelmente melhor.

Quando era adolescente jantei na casa de um amigo cuja empregada tinha um filho de seis anos. Em dado momento a mãe do meu amigo disse que Vitor, filho da empregada, só vivia doente, até que se mudou para a casa dela e passou a beber “água boa”. Ela creditava a água de sua casa pela saúde de ferro que o menino apresentava. O comentário foi feito na frente do garoto e de sua mãe. Essa é uma criança que cresceu pensando que devia até sua falta de resfriados à patroa de sua mãe.

Em janeiro conheci uma garota de 17 anos com quem iniciei uma amizade —  sou dessas que fazem amizades com garotas de 17. A menina era inteligente, tocava quatro instrumentos e era fã de Bob Dylan. No meio de uma conversa randômica ela contou que seus amigos caçoavam dos erros de português da empregada. “Mas caçoam de piada, sabe? Imitando e tal. Ela sabe que é brincadeira”.

A conversa evoluiu e descobri que a tal empregada ia na casa da garota todos os dias, mas não tinha carteira assinada. Ela achava normal porque era “um esquema de trabalho informal”. Ela não sabia que isso era fora da lei. Não sabia que se a empregada fosse mais de duas vezes por semana na casa dela a mãe era obrigada a pagar FGTS, férias e décimo terceiro. Ela achava que sua mãe tratava Maria muito bem e ficou surpresa quando eu disse que Maria poderia levar até o violão dela embora caso acordasse para a vida e fosse em busca de seus direitos.

O “sonho de uma noite de verão” de viver em um mundo do trabalho senão justo ao menos legalizado exige vigilância diária. Vivo em uma bolha de pessoas legais e inteligentes e frequentemente acho que questões como a empregada merecer ter os mesmos direitos que a faxineira de uma empresa já foram vencidas. Mas não foram. E é por isso que eu tenho um pequeno derrame cerebral cada vez que vejo o jornal ao qual dediquei dois anos da minha vida —  sem carteira assinada, sem férias e sem décimo terceiro, como tantos jornalistas fazem —  publicar uma besteirada dessas.

“Ser conservador em países que têm o que conservar é funesto, mas nos países novos é absurdo e criminoso”. [Manoel Bomfim]

Para ler em dias de coragem:

“Empregadas, mais um capítulo” — Para Nina Horta “empregada que veio do sertão” fala idioma estrangeiro

“Luta de classes” — Danuza Leão conta como teve de abdicar de seu espírito sonhador e reconhecer que empregado tem mesmo que se limitar à cozinha

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71 comments to Sonho de uma noite de verão

  • Oi, Juliana,
    Cheguei aqui através da Lalai e amei o texto.
    Valeu!!!
    (ó, a Danuza é esquisita, mas ela fez uma coisa MUITO legal: é mãe da Pinky Wainer, dona da loja e da editora do bispo aqui em sp, entre outras coisas…)
    beijo

  • Cida Blaz

    Sou professora por opção, mestre em Historia e fico mmmmuuuiiito brava quando ouço essas barbaridades da Danusa Leao……. Nao tenho empregada, fazemos nossa comida e limpeza e como já precisei dessas profissionais tao sacrificadas, sempre as respeitei, mesmo porque, gostaria de saber onde e quando meu trabalho ‘e mais importante que o dela. Ambas trabalhamos, duro, para que possamos viver com dignidade….e isso esta difícil….

  • Como sempre, texto brilhante, Juliana! Moro na Austrália há 6 anos e por aqui empregada doméstica é coisa de gente milionária. Os australianos ficam bobos quando ouvem de algum brasileiro que eles (ou os pais deles) tinham (ou tem) diarista no Brasil. E os brasileiros que além de empregada doméstica, tem também a babá. Os gringos logo acham que a pessoa é riquíssima. Mal sabem eles que não é preciso ser rico no Brasil para ter essas regalias, simplesmente porque essas regalias acontecem em detrimento dos direitos trabalhistas de muitas mulheres que não tem outra opção se não aceitar a situação. Por aqui, as pessoas normalmente tem uma faxineira que vai uma ou duas vezes na semana, e que cobra por hora, de 20 a 50 dólares a hora. Pois é Brasil, desenvolvimento é isso, valorização do trabalho humano, seja ele qual for.

  • Mara rabelo

    Amei o seu texto. Justiça e sensibilidade parecem fazer parte do seu mundo, parabens! Vi o texto da Danuza Leão, não cheguei ao fim. Veja que só uma mídia tão comprometida e de direita, no Brasil, escolhe uma pessoa como Danusa para escrever. Leio tão belos textos de pessoas em redes sociais que não têm a possibilidade de publicar, pena!

  • Amei o seu texto. Justiça e sensibilidade parecem fazer parte do seu mundo, parabens! Vi o texto da Danuza Leão, não cheguei ao fim. Veja que só uma mídia tão comprometida e de direita, no Brasil, escolhe uma pessoa como Danusa para escrever. Leio tão belos textos de pessoas em redes sociais que não têm a possibilidade de publicar, pena!
    Abraço

  • Juliana…! Que a luminosidade da sua mente se espalhe pela internet trazendo um pouco de bom-senso e humanidade para todos aqueles que tem o privilegio de ler os seus textos. Inteligência deve ser celebrada. Os valores materiais e as loucuras dos seres humanos para manter dinheiro e poder, não! Definitivamente não. Abaixo à Danusa Leão e Nina Horta. O mundo não precisa mais disso. Tenho uma preguiça monstro de tentar compreendê-las…

  • Haroldo Lago

    Olá! Sem querer menosprezar a sua opinião, eu gostaria der ler aqui o que ‘você’ pensa acerca das domésticas. Salvo engano, Nina Horta e Danuza Leão têm direito a ter lá suas opiniões, ainda que delas você discorde.

  • Juliana Cunha

    Elas têm direito a ter a opinião delas, Haroldo, e é por isso que eu não vou à casa de ninguém tirar satisfações, eu não bato em ninguém e não ameaço ninguém, apenas venho no meu blog e digo que a opinião delas me causa nojo.

  • Samuel

    Achei sua análise dos textos das colunistas citadas muito boa, bem como suas análises sociais sobre a questão das domésticas.

    Agora a citação sobre conservadorismo ao final é despropositada, visto que uma coisa não está necessariamente ligada à outra.

  • Sabe me dizer onde essa crônica da Clarice foi publicada? Tem em algum livro dela?

  • “Na França, quando um casal normal, em que os dois trabalham, têm um filho, existem creches do governo (de graça) que faz com que uma babá não seja necessária, mas no Brasil? Ou a mãe larga o emprego para cuidar do filho ou tem que ser uma executiva de salário altíssimo para poder pagar uma creche particular ou uma babá em tempo integral, olha a complicação.” Leão, Danusa.

    A informação é digna, mas uma informação digna não valida toda uma opinião cretina, forjada a anos de “Maria, me traz um copo de água?”.

    Sabe o pior? Os comentários que sempre concordam com estes menestréis da casa-grande-senzala. Me dá uma vergonha doída, uma sensação de que não evoluímos, de que, como nação, nossas ilusões de grandeza imerecida turvam nossa dignidade. Ler os comentários explode a bolha que a gente vive, de gente bacana, humanista. O que nos resta a fazer? Falar a respeito dessas vergonhas, trazer o assunto, educar nossos filhos. Fale, Ju, sempre que sentir necessidade. É um serviço, uma reação, uma solução.

    “No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. (…) for whom the bells tolls (?); it tolls for thee.”

  • Leônidas Costa Andrade

    Não sei a que rótulo pertenço, se sou socialista, conservador, liberal, progressista ou qualquer outro, acho até um tanto quanto engraçado esse emaranhado de taxações, mas confesso que gosto que haja pessoas como Danuza Leão, Nina Horta e tantas mais, são pessoas como elas que fazem valer a pena as nossas tantas lutas, elas estão ficando e nós vamos passando ou como diz o ditado: “os cães ladram e a caravana passa”, melhor ainda a frase do Chico Buarque que me ocorre sempre que me deparo com ideias tão retrógradas: “apesar de você manhã há de ser outro dia”, agora, o melhor mesmo é conhecer pessoas como Juliana Cunha e saber que felizmente as outras duas são exceções e não representam o pensamento da nação que finalmente parece ter despertado sua vocação para o desenvolvimento, embora, elas representem um elite que cheira a mofo.

  • Ju, voltei. Porque li uma matéria e pensei VISH, se a Danuza ler isso, vai nos brindar novamente com suas reflexões sobre a coisa toda. Olha só: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/04/130405_impostodomestica_df_fl.shtml

  • Isadora Oliveira

    Parabéns pelo artigo! O artigo da Danuza Leão é mesmo de levar alguém à síncope! E não sei de onde ela tirou a ideia de que creches na França são gratuitas, paga-se de acordo com o nível de renda. Ela (e muita gente) tem que aprender que o desenvolvimento de um país passa obrigatoriamente pela valorização das pessoas como seres humanos e pela promoção da igualdade.

  • Juliana,

    Resumindo:Minha mãe sobrevive, através do rodo e da luva plástica para eu ser revolucionário. Por este motivo, na minha infância ajudei muito ela na limpeza de seus patrões e digo: “A sobrevivência no Brasil é como o câncer”.

  • A herança escravocrata ainda está incutida na cabeça de muita gente. A galera continua andando por aí pensando que é normal passear pela rua em cima de uma cadeirinha carregada por quatro marmanjos fortes. A PEC vem aí não pra transformar apenas a vida das empregadas domésticas, todo mundo vai ter que mudar – e acho que pra melhor. Se não tem condições nem de pagar a educação dos próprios filhos, compra uma máquina de lavar pratos e para de achar que é direito da classe média bancar a Rainha da Sucata. Fácil, ué.

  • [...] Sonho de uma noite de verão – Em mais um artigo ótimo, Juliana Cunha fala sobre a elite rançosa brasileira que ainda vive na [...]

  • Eu sou curioso demais, é um fato. E quase sempre que venho aqui fico pensando nos seus mecanismos de criação de textos. É adorável a estrutura que você emprega deixando todas as palavras formarem um verdadeiro diálogo por letras a fio.
    E isso acontece com qualquer assunto. Nada é “mais” pra um e “menos” pra outro. É um tipo de equilíbrio assustador natural – acho que seja natural – da sua pessoa.

    E que peculiar a observação. Talvez o ponto chave seja a revelação do “como posso ter uma empregada se não consigo arcar com os gastos básicos dos próprios filhos?” Aí o texto se explica e torna-se ainda mais válido.

    O que dizer, Juliana?
    Esclarecedor e convidativo, feito um livro novo, de um escritor conhecido.

  • regina

    Olá Juliana… Beleza? Então, só opinando não acho justo mesmo ter que dar auxílio creche e educação para menores de 5 anos das empregadas domésticas. Acho correto os direitos de regularizar a jornada de trabalho, ganhar décimo terceiro, como todos. Mas quando começam a enchê-las demais de direitos acho algo demagogo, porque fica injusto.
    Quem é professor em uma universidade não ganha esse tipo de auxílio. A verdade é que tudo isso é pose de heróis para um governo populista e pessoas hipócritas.
    Li alguns comentários aqui, se referindo à Danuza como esquisita etc. Isso é falsidade. Na vida real, os que se que acham humildes e bondosos se depararão às vezes com mais preconceitos do que vêem no outros. Me formei numa faculdade federal e em veterinária e tive que ralar para isso. Mas não se ganha bem atendendo em clínicas e as vezes a faxineira ganha mais. Não é arrogância dizer que o trabalho de uma empregada é simplório. É muito difícil, e necessário, mas não complexo. E, em qualquer relação de patrão e empregado, sabe-se que é preciso distanciamento entre os dois para que a hierarquia seja respeitada. Não é arrogância, é fato. E creio que vale ainda mais para domésticas, sempre na intimidade do seu lar, observando as brigas,conversas, situações, e muitas vezes se metendo.
    Vivemos num país cheio de bolsas alimentação, familia e pessoas as vezes se escoram nesses benefícios do governo populista que temos. É assim que eles (governo, PT) conqistam o poder. Nada contra ajudar, mas vamos ensinar o cara a pescar. O Brasil é cheio de soluções injustas para injustiças.
    Não vejo aqui incentivo ao estudo, ao trabalho. aA usar menos internet e ir ler, desenhar, viver. Esse país não é sério. E quem se faz de santo e ajudador dos pobres, são os que menos se importam na verdade. São os enganadores.

  • [...] uns meses eu escrevi aqui no blog sobre duas figuras que, para mim, são muito mais pit bulls do elitismo — para usar [...]

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