Voltem para o armário

Li um artigo sobre como os blogs de moda estilo “blogueira de moda”, “look do dia” estavam ficando datados e sendo progressivamente substituídos por outros modelos como o “blog de mãe” (em que uma moça fala sobre o universo da “maternidade legal”); o “blog de Amélia” (em que a moça fala sobre como arrumar a casa para uma festa, como servir uma mesa da forma “correta”, como redecorar 30 vezes o mesmo cômodo) e o blog de ginástica (blogueira fitness, um fenômeno que ganhou projeção muito mais rápido do que as blogueiras de moda jamais sonharam).

Esperta, diz o artigo, é a blogueira que fizer um mexidão e combinar isso tudo. Ou seja, esperta é a moça que permanecer com um pé na moda (terreno seguro e já explorado), mas aproveitar para adquirir uma família e tonificar os músculos nas horas vagas.

O artigo não problematizava muito a questão, apenas constatava que as pessoas estão perdendo o interesse no esquema “look do dia” e que posts mais voltados para casa, família etc têm feito sucesso. Isso talvez se deva a um envelhecimento do público que lê esses blogs ou das blogueiras em si (eu tenho essa teoria de que rico “envelhece” cedo. Rico aos 25 já tem casa fixa, já casou ou está em vias de. Rico casa, para começo de conversa. Depois tem filho. O filho acarreta em mil processos que rendem posts, essas coisas). Uma “pessoa de humanas” comum não vê sua vida mudar drasticamente entre os 25 e os 30, um rico já é outra pessoa, toda uma nova fase.

A perspectiva de ver a internet tomada por mesas de jantar, rituais familiares estapafúrdios e bebês me deixou um pouco saudosista dos fotologs e até dos tempos aureos (2009?) das blogueiras de moda.

Todo mundo falou tanto nas tais “selfies” em 2013 que eu não pude evitar pensar nas fotologgers que povoaram minha adolescência, mais especificamente na Marimoon, que é a única que eu ainda tenho notícias. Quase todas as matérias sobre a Marimoon no começo dos anos 2000 chochavam a garota por tirar muitas fotos dela mesma e por se “expor desnecessariamente na internet”. Hoje, cada um dos leitores e editores dessas matérias tem um Instagram (um fotolog moderno e menos criativo) e posta fotos com um geolocalizador que indica exatamente onde a pessoa está, onde ela mora. A expressão “eu sei onde você mora” como sinal de ameaça nunca fez tanto (e tão pouco sentido): todos sabem onde todos moram.

As fotologgers foram (em certa medida e com um intervalo temporal considerável em termos de internet) substituídas pelas blogueiras de moda. As fotologgers eram incrivelmente mais legais do que as blogueiras de moda! Claro que não eram o modelo mais edificante que poderíamos ter, mas ainda era um fenômeno interessante. Para voltar à Marimoon, ela era uma menina normal, amplamente zuada na internet por motivos idiotas como “nariz grande”, “vegetariana que usa bota de couro” e “você se expõe demais” e que ainda assim fazia o que queria, costurava as próprias roupas, tirava fotos loucas. Hoje ela continua fazendo as mesmas coisas, nem aí para quem acha que ela não tem idade para usar aquelas roupas ou para ter aquele cabelo.

Daí vieram as blogueiras de moda. Um retrocesso significativo pois trouxeram um apelo financeiro que não existia (eu pelo menos não sentia) em relação ao fotolog. O foco do fotolog era ser gatinho e descolado, não era usar a marca tal, frequentar lugares caros, tirar fotos em que sua casa de rico acidentalmente aparecesse no fundo. Mesmo quando havia um apelo de consumo, era por itens baratinhos da 25 de Março/Galeria do Rock (chora, Salvador).

Apesar do retrocesso, os blogs de moda eram melhores do que essa vibe mãe/esposa/maratonista que começa a dar o ar da graça. Porque o foco pelo menos era na garota em si, no ego dela, nas roupas dela (mas em algum nível ainda trazia um olhar para si, um empoderar-se, ainda que fosse um empoderamento do mais raso, que é o empoderamento através da beleza e do dinheiro). Porque é menos ameaçador ser interpelada a comprar sapatos do que a se encaixar em todo um modelo de vida coxinha e, francamente, muito chato. Porque o que se configura no horizonte é uma possibilidade da influência negativa desses blogs deixar de ser restrita ao armário e invadir a casa inteira. Uma casa chata, correta e muito, muito família.

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67 comments to Voltem para o armário

  • Rosa

    comentários’, não documentários rs

  • Laura

    Ótimo texto, como sempre.
    Juliana, sempre tive uma curiosidade absurda em te perguntar: com quantos anos você entrou na faculdade de Letras na USP?

  • Walter

    A resposta que você deu nos comentários sintetiza bem a situação atual. Um mundo habitado por uma geração crescida no parquinho que “ameaça contar pra mãe” cada vez que é contrariada.
    Textos que não seguem o “Politicamente Correto” como os seus fazem falta.

  • Laís

    Juliana, fiquei curiosa a respeito do artigo. Posta o link, por favor.

  • Renata

    Minha ídola. Só isso. Bjo. Tchau.

  • Bia

    Eu ri da metade dos comentários, quanta revolta com um texto opinativo (isso é um blog, não?). Eu me lembro dos fotologs, li os blogs de moda e por ser jovem e solteira não tenho muito assunto com a fase mãe-esposa de algumas blogueiras. O fitness não é minha praia. Mas não acho que esse estilo antigo morreu, nós crescemos assim como as pessoas que escrevem esses textos. Existem blogs de meninas mais jovens que falam de cabelo e de livros, moda e roupas, que tem milhares de seguidoras e claro tem marcas patrocinadoras, mas também falam de forma despreocupada sobre o que interessa a elas. A questão é que temos interesses na “fila do meio”, não se encaixam no mundo das jovens blogueiras, nem das mães-esportistas. Mas sempre tem uma ou outra pessoa que escreve algo que se encaixa ao gosto do leitor

  • Ana

    Rico milionário que não precisa se preocupar em construir uma carreira pra se sustentar casa cedo. Mas pobre também casa.
    As diversas faixas da classe média é que vão adiando.

  • Ana

    E não entendi, quem tem que achar uma vida chata demais não é o dono da vida? Quem é vc pra dizer que uma pessoa que escolheu casar e ter filhos e levar uma vida tradicional é SOMENTE POR ISSO um coxinha chato demais?

  • Fábio

    Só queria dizer que queria ter nascido seu melhor amigo. Talvez como o Palito! srrsrsrs
    Porque simplesmente eu AMO o que você escreve e como escreve.
    Não para, não para, não pára não!
    Bjo

  • Alana

    Adorei o texto e mesmo planejando um estilo de vida ‘coxinha’ hahahaha, me questiono se é preciso ser tão coxinha assim, pq não fazer umas loucuras de vez em quando…

  • Uma coisa tem me incomodado nas novas gerações – sou velha assumida, tenho 46 anos – que é o fato de eu ver tantos jovens, entre os 25 e os 35, reproduzirem o estilo de vida dos próprios pais. Eu acho saudável a geração mais jovem recusar um pouquinho, pouquinho que seja, os valores e os gostos estéticos da geração anterior. Gosto da ideia de que os mais jovens avançam, mudam, transformam, questionam… Pelo menos enquanto são jovens. Não vejo muito isso ultimamente. Os jovens que vejo – não todos, é claro, estou fazendo uma análise baseada na média – gostam das músicas e dos lugares que seus pais gostavam, cultuam os mesmos ídolos, assumem as mesmas posturas filosóficas, ideológicas, etc. Filhos de pais descolados, de esquerda e coisa e tal, são descolados, de esquerda e coisa e tal. Filhos de pais tradicionais são tradicionais. Não aguento mais ver gente de 25, 30, 35 anos declarando amor eterno aos Beatles, ao Chico, ao Woody Allen… Ou ao Roberto Carlos! E não me venham com o papo de que essas são figuras eternas e blá, blá, blá. Aos 20, 30 anos ninguém deveria se importar com a eternidade! Até o que é novo é velho. Bandinhas e mais bandinhas que soam como tudo o que já foi feito a 20/30 anos. Cineastas cujas obras nada mais são do que citações da citação. Acho um tédio ver tantos jovens que não são nada mais do que os seus pais foram em termos de pensamentos, propostas e ideias. Tenho medo de uma sociedade na qual os jovens parecem não oferecer nada que já não foi oferecido. Pode ser só a minha velhice, ou pode ser que mais do que isso. Não sei! O que sei é que eu anseio por algo que realmente me surpreenda, seja vindo de jovens ou de velhos. Ando cansada de reproduções.

  • Letícia Santos

    Me divirto horrores com os comentários desse blog! Gente chata pode ser tão divertida…

  • Lívia

    O Chez Noelle que você tem ali na lateral do blog é bem nesse estilo, não?

  • Juliana Cunha

    Você acha? Não acho, não. Acho que existem muitas formas de se falar de roupa, maquiagem etc. A Oficina de Estilo é o que fala dessas coisas da melhor maneira, na minha opinião, e a Stephanie também tem um jeito legal de falar disso, de novo na minha opinião. O problema para mim não é o tema, é o tratamento do tema.

  • juliana fiquei louco pra te conhecer, poucas pessoas se comparam, não tenho nada mas queria so te ver te conhecer e quem sabe te amar……………

  • Olá! Adorei. Voltei no tempo, voltei ao meu fotolog, no qual escrevia para treinar a redação e falava de temas interessantes. Eu falo de moda, mas tento fugir do esteriótipo, mas as vezes ter conteúdo nem gera audiência, risos. E daí? Pelo menos tenho essência. Virei leitora. Beijocas!

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