A jardineira

Existem pais que passaram toda a infância dos filhos fazendo promessas vazias sobre uma futura viagem à Disney que nunca se concretizou ou sobre um presente caro que eles sempre quiseram, mas que ficava além das posses familiares. Dizem que isso é muito bom para a formação da criança: ensina a lidar com as frustrações, ensina que na vida nem tudo é possível.

Quando eu era criança, um ônibus bonito, de janelas grandes e banquinhos que mais pareciam bancos de parque rodava os pontos turísticos de salvador. As pessoas chamavam aquilo de jardineira. Era um ônibus especial, com uma tarifa levemente acima da tarifa convencional e um trajeto um pouco fora de mão para os moradores já que o objetivo era apresentar a cidade e não levar do ponto A ao ponto B. Eu e minha irmã sempre quisemos andar nesse ônibus. Minha mãe prometia que um dia nos levaria, mas nós crescemos, o ônibus saiu de circulação e ela nunca levou. Minha mãe me negou não uma viagem à Disney, não o carrinho de Jorge Del Salto, mas um mísero passeio em um ônibus bonito.

Isso não apenas me ensinou que nem tudo é possível como me deu uma demonstração precoce da aleatoriedade dessas impossibilidades. O universo não lhe negará apenas aquilo que está distante de seus bracinhos curtos. No mais das vezes ele lhe negará coisas extremamente simples e plausíveis, coisas que foram feitas impossíveis só de brinks. O universo não lhe negará somente o que for muito caro ou muito longe ou muito difícil, ele lhe negará também o que é barato, simples e perto apenas porque ele é grande e você é pequeno, ele é o universo e você é você.

Creio que esse ensinamento tenha me dado grandes vantagens em relação aos meus pares que aprenderam apenas que algumas coisas são muito caras e papai não pode pagar.

Hoje, quando já tenho 26 anos e achava que minha educação estava completa, minha mãe me manda um Whatsapp dizendo que está passeando de jardineira pela primeira vez e se divertindo muito. (As jardineiras voltaram a circular há alguns anos). Pois hoje eu aprendi que o universo não apenas é aleatório em suas negações como às vezes ele também é escroto e te manda mensagens avisando que aquilo que era tão simples e lhe foi negado é mesmo excelente.

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29 comments to A jardineira

  • Lucimar

    Puxa filha, também te amo!!!!!!!!

  • Maíra

    Veja o lado positivo, as jardineiras voltaram e você finalmente pode ir! Minha mãe não me levou ao show dos Mamonas Assassinas mas prometeu levar na próxima e, bem.. rs!

  • Sou do tipo que leva essas frustrações pra vida. A volta do Furby foi algo que mexeu comigo, por exemplo. Me chocou muito. Temos que ser fortes, Juliana. Espero que você consiga superar.
    Eu não consegui…

  • Adoro o modo como você consegue transformar a observação mais simples a respeito de um fato da sua vida num texto coeso, enxuto, maravilhoso. Adoro! :D

  • Mari

    Em Campinas tem um parque, que é como se fosse o Ibirapuera proporcionalmente (falta um monte de coisa pra ser, mas é o q temos). Qdo eu era criança, a gente ia lá e eu sempre queria balões de hélio e andar de pedalinho. Ocasionalmente eu ganhava uma bexiga, mas nunca andei de pedalinho. Acho q eles tbm já não funcionam mais, nunca mais vi depois de adulta.
    Tbm me prometeram viagens pra Disney fora de alcance, mas isso eu resolvi sozinha já, só nunca andei de pedalinho. Significa q as vezes a gente fica sem alguma coisa só pq sua mãe tem medo q vc se afogue e/ou tem muita fila.

  • Maria do Rosario Sad

    Tenho 70 anos e seu texto me fez lembrar de minha infância.Queria muito uma boneca de louça (coisa rara e difícil naquele tempo)
    Era uma criança bonita e a vaidade de meus pais me fizeram participar de um concurso na cidade de robustez infantil(naquele tempo ser cheinha era o máximo)
    Não queria participar,mas fui tentada pelo prêmio: uma boneca de louça.
    Ganhei o primeiro lugar! O prêmio : uma boneca de celulose(papelão) Horrorosa!!!!!!!
    Chorei de decepção.
    Na volta para casa joguei a boneca no rio que passava na minha rua.
    Nunca esqueci o fato.

  • Sabe o que é engraçado? Esses dias conversei sobre algo assim com a minha mãe, algo que era perfeitamente possível e me foi negado a vida inteira (mas não me lembro o que é, honestamente. depois dos 30 a coisa complica um pouco) e ela me disse que eu não insistia TANTO ASSIM. Tudo bem que a memória da minha mãe é pior ainda, mas as vezes penso que pode ser isso. Na nossa cabeça era um troço tão importante, mas não deixamos isso claro, talvez pela inocência. Enfim, viajei.

  • Laura

    Adorei! Apesar de estar esperando minha viagem à Disney até hoje, pra falar verdade as minhas frustrações com o universo (e mammy) também foram bastante aleatórias.
    E, sei que não foi a intenção do texto, mas vou a Salvador pela primeira vez na semana que vem e gostei da dica da jardineira, então obrigada :)

  • Ligia Cellani

    Meu pai sempre me prometeu uma casa na árvore e durante anos a casinha foi apenas sonho, até que ele se cansou de tanta cobrança e resolveu fazer, era linda, pena que mudamos não apenas de cidade, mas de estado um ano depois. Ou seja, quando o universo finalmente te dá, ele tira logo em seguida.

  • Gabriela

    Esse lance de viagem à Disney é algo que, graças a Deus, nunca me prometeram. Espero que nunca me impinjam essa promessa, pois não pretendo cumpri-la.

  • Oi Juliana, também já ouvi a promessa da viagem à Disney. Mas essa não foi a pior parte, a pior parte é que a promessa era para a minha festa de 15 anos. Eu esperei anos pela maldita viagem, e ainda tive que escolher entre festa ou viagem. Escolhi a viagem, porque não tinha amigos para festa. No dia do meu aniversário minha mãe resolveu me levar juntamente com meus irmãos mais novos e meu pai para uma pousada no meio do nada. Onde ficamos um fim de semana infernal dentro de um único quarto apertado e cheio de baratas e aranhas. Então fiz o último pedido, com muita esperança: Mãe, posso andar a cavalo? – A resposta eu acho que todos já conhecem…

  • Alline

    Ao menos não rolou uma foto sorrindo.
    Nada é tão ruim que não possa ser piorado. Carrego essa máxima e repito segundos antes de reclamar em voz alta, pq cê deve ter percebido, o universo te vê e ouve.

  • Li o depoimento da Maíra sobre os Mamonas! Na época se apresentaram na minha cidade que fica no interiorrrr de SP. E eu queria muito ter ido no tal show, mas eu era uma pirralha e minha mãe não deixou. No dia que resmunguei sobre isso ela disse “Ahh filha, mas logo eles voltam e fazem outro show” e eu disse que não haveria outra vez. E naquela madrugada foi quando o avião deles caiu! O_O

  • Ah, no meu caso eu era doida para ganhar um cachorrinho. Não um simples cachorrinho, mas um Cocker Spaniel, que fosse a cara da Lady da Dama e o Vagabundo. Passei uns 5 anos choramingando que queria um, até me darem um Poodle, e logo quando eu já estava desencanando de querer um cachorro. :-P

  • Olá Juliana,

    Tudo bem? Este é o seu segundo texto que leio. Ontem graças a um amigo, li um texto bacana sobre a Coreia do Norte, gostei da pegada literatura de viagem (tema que muito me interessa) e me aproximei do teu blog. Parabéns!

    Quanto ao texto, me fez pensar em uma frase do Pessoa que li estes dias: “Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu”.

    Então uma pergunta provocadora: será que é mesmo o universo quem nos nega? Ou somos nos que nos negamos? Talvez porque somos incentivados, desde de crianças, a praticar a renuncia e o desapego de certos desejos …

    Tem outra frase neste mesmo texto do Pessoa: “A renúncia é a libertação. Não querer é poder.”

    Enfim, fiquei pensando sobre isto depois que li teu texto :)

    Parabéns mais uma vez e se tiver vontade dá uma passada no meu site tb

    http://www.davicarneiro.com

  • Deixo tb o link pro trechinho do Pessoa no Livro do Desassossego

    http://arquivopessoa.net/textos/2206

    :)

  • Michelle

    A minha mãe me negava sandálias Melissas, eram baratinhas e vinham com brindes, ela dizia que eu ficaria com chulé…

  • Eu, definitivamente, não ando em salvador. Moro aqui desde “sempre ever” e nunca vi uma jardineira – ou talvez eu já tenha me deparado com uma, mas não tenha prestado atenção o suficiente a ponto de desejar passear num troço desses.
    Minha imã, quando mais nova, voltando das férias da escola Adventista, dizia aos coleguinhas que havia passado as férias na Disney.
    Infância é phoda.
    Abraços.

  • Salvatore

    Este texto me fez pensar que existem coisas simples – não materiais – que nos são negadas, apenas porque aparentam ser simples. Talvez os pais pudessem ir um pouco adiante na lição e ensinar que as coisas extremamente caras não podem ser compradas.

  • Que fofa sua mãe, até então também não tinha andado. Quem sabe ela não se anima em te levar numa próxima visita? :P

  • Marina

    Não lembro se meus pais me prometeram uma viagem à Disney, mas eu sonhava com isso quando criança. Acho que justamente por eles sempre afirmarem que não podemos ter tudo, ainda pequena guardei os desejos só pra mim e parei de pedir o que queria. Tipo aqueles baldes cheios de Lego que eu amava. Só ganhava os genéricos, enquanto a prima rica ganhava o original, além do carro e da casa da Barbie. Era decepcionante. Aos 15 anos, recusei festa de debutante porque não era a minha cara, preferia um viagem, uma viagem que nunca veio. Na formatura da faculdade, recusei participar da festa porque preferia usar o dinheiro para uma viagem, que também não veio. Tola.

  • Vanessa Macedo

    Hahahaha. Minha mãe me prometeu uma festa de 15 anos que na minha infância parecia tão distante. Eu via as garrafas de whisky eternamente fechadas e amontoadas até o dia que se transformaram em promessas para uma festa de formatura que igualmente não se realizou. A vida foi passando até o ponto que se tornou imoral prometer whisky envelhecido para uma festa de casamento que igualmente não se realizaria. Acho que este é o real motivo em não querer casamento, pela primeira vez deixei de desejar a promessas irrealizáveis, hahaha.

  • Pio

    Simples para quem? Para quem foi negado ou para quem acha excelente? :-)

    O simples pode ser para você excelente, ou simples, mais sempre excelente.

    Para muitos, o caro pode ser simples e não suprir a necessidade de simplesmente passear em um ônibus, barato, feio mais que nos trás a excelência de vida!

    “Se é que me entende!”

  • Na real,essa coisa de acreditar que ‘tudo é capaz basta querer mto’ cai por chão mto rapido, seja rico ou não. seja algo simples ou não e o que é simples não é mesmo? o o simples pra um pode nao ser pra outro enfim..depende mto enfim divaguei heheh… juliana vocÊ toparia dar uma entrevista pro meu blog? ou já esta muito chique e famosa? hehehe…

  • Com o devido respeito, prefiro que sejam as aleatoriedades do universo a ensinar-me as aleatoriedades do universo do que os meus pais quebrando promessas. Foi com eles que aprendi a prometer só o que posso cumprir e essa é uma lição bem valiosa.

  • camila

    Fiquei com peninha de você. Vem cá e me dá um abraço.

  • Igor M.

    Definitivamente, the Universe is a bitch.

  • Quando era pequena e minha mãe negava me dar alguma coisa, ela cantava esta música dos Rolling Stones: http://www.youtube.com/watch?v=j7leQB_Oe_k Achei muito chato, mas até hoje quando não consigo fazer algo ou não tenho dinheiro para comprar algo que eu quero, essa música vem na cabeça.

  • Tatiane

    Aqui no RJ tinha jardineira e eu adorava passear nela no final de semana. O que a minha mãe me negou, não sei por qual motivo, foi um aquaplay e até hoje quando encontro um fico querendo brincar!

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