Beijo de novela

Verdade, ter dois homens se beijando na novela é um primeiro passo. Mas um primeiro passo rumo a quê? Rumo ao projeto de inclusão de quem e por quem? Em que termos essa inclusão se dará? O problema crucial dessas inclusões televisivas empreendidas pelas novelas da Globo é o achatamento das diferenças. Quando é tolerado na televisão, o diferente passa a ser igual. É assim que temos pessoas de todas as etnias, origens, rendas, religiões e até nacionalidades representadas em novelas, mas pensando exatamente como a classe dominante brasileira (ainda que seus pensamentos costumem ser uma mímese rasteira e simplificada dos pensamentos da classe dominante brasileira, que é para ficar mais “realista”, pontuada aqui e acolá por uma excentricidade desimportante só para dar uma cor local).

Os gays que se beijam na novela são dois atores heterossexuais, brancos, lindos, magros, discretos, masculinizados, ricos, cisgêneros que dão uma bitoquinha chocha e assexuada. Nada disso ajuda a lidar com as diferenças, só passa uma impressão infantilizada de que a discriminação é sempre um capricho fruto de ignorância e que pode ser resolvida com PowerPoints e panfletos explicativos e não um posicionamento político violento de manutenção de privilégios historicamente adquiridos.

A dificuldade em lidar com o diferente reside justamente no fato de que ele não é como a gente, é fruto de outra experiência pessoal, de outra experiência histórica, tem outros anseios, outro código moral, outras necessidades, insiste em pensar, agir, consumir, se relacionar, produzir cultura, se vestir, falar, votar, transar e criar os filhos de modo diferente do nosso. Produtos culturais que vendem a ideia de igualdade e homogeneidade não estão ensinando a sociedade maior a respeitar o diferente, estão ensinando o diferente a se moldar de um jeito que ele possa ocupar um espacinho delimitado na sociedade maior, que faz um grande estardalhaço para mostrar como é boa de alma por recebê-lo no quarto de hóspedes da vida em sociedade.

Troque seu beijo de novela por um beijinho no ombro e seja gay (ou gordo, ou pobre, ou negro, ou estrangeiro, ou nordestino, ou deficiente físico, ou do terreiro) em seus próprios termos.

30 comments to Beijo de novela

  • Não minto que fui uma das muitas pessoas que comemoraram o beijo gay na novela, mas agora, olhando pela sua vertente, de fato você tem razão. São bonitos os atores, heterossexuais, caucasianos. Ficção dentro de ficção. E o que existe dentro da Globo assim como em todos os lugares ainda? Muitos homossexuais não-assumidos por serem galãs de novela. Triste. Tapa na cara. A vida é uma farsa.

  • Não me dei ao trabalho de assistir sequer a um capítulo.
    Mas li muitas críticas sobre a violência misógina do autor.
    Beijo gay na Globo? Só se for gay de alegre.

  • Talita

    Sabe o que me incomodou nessa história toda?
    Não assisti a novela, mas ainda não consigo ficar sem saber o que acontece na novela das 21h da Globo, e dessa novela vinham as péssimas histórias nos posts dos blogs que eu leio: “olha o jeito que este autor retrata a mulher gorda”, “olha como ele está retratando a coisa ‘x’ e a ‘y’ de maneira absurda”, “olha a m* que ele falou sobre o cabelo do menininho negro”, etc, etc, etc.
    Aí ele vai lá, coloca o beijo no último capítulo e vira o salvador da pátria, dizem que a novela vai ficar pra história (eu acho que as cenas finais até podem ficar, mas todo o resto pode ser apagado…). Li coisas como “Nossa, que cena final mais emocionante, agora sim deu pra entender que tudo o que aconteceu tinha um propósito”. Menos, né?

  • Oi Juliana
    Honestamente, assim como nossa amiga Nina, também comemorei o tal beijo. Embora não ache que ele deva ser jogado no lixo, porque representa sim algum tipo de avanço, ainda que seja de um micro maior autonomia artística – quando um diretor não tem que jogar fora uma cena gravada porque aos 48 do segundo tempo alguém da “cúpula” diz que ela vai chocar – seu raciocínio fez muito sentido para mim. Parabéns, mais uma vez, pelo seu admirável olhar crítico. Sou sua fã!

  • Erro de plural na quarta linha do terceiro parágrafo. Eu às vezes esqueço do tempo enquanto escrevo. Parabéns, ótima lição, bjos

  • Juliana, a importância maior talvez tenha sido a expectativa pelo beijo, aceitando-o. A cena em si é pífia, com detalhes subliminares que me incomodaram, mas fui voz vencida em alguns fóruns de discussão. Não, os gays não eram masculinizados, e sim bastante afeminados afetados – se fossem dois tipos “macho” seria muito diferente. Mas o final da dupla dava margem a uma leitura enviesada : para ser aceito, ele saiu da cidade, foi morar numa praia (longe dos outros), cuidando sozinho do pai, como uma Florence Nihgtingale contemporânea. E o pai o aceita por não ter opção, visto estar fisicamente dependente.
    Agora seu ponto de vista sobre a aceitação e convivência com as diferenças é de uma precisão cirúrgica. Abraços.

  • acho que no campo das representações o beijo acaba sendo tão válido quanto inócuo. inócuo pelos motivos que você falou e válido porque as representações estão em dialética c’o nosso mundo e desencadeia ações na vida real, reflexões, o tal do pai que entra no quarto do filho entendendo que a sexualidade dele não o faz menos humano.

    mas, no fundo, essa representação gay na novela é um pepino dentro do próprio movimento LGBT, em geral. porque há frentes que se perguntam “por que lutar pelo casamento gay se a idéia de casamento é uma das coisas mais conservadoras que já instituíram?!”. é que o outro tá dentro até daqueles que são outros e é um esforço nosso lidar com eles em muitas camadas da vida, sem achatá-los como as novelas no fundo fazem… (mas daí também a novela é uma baita instituição no brasil e conservadora, mas mobiliza uma série de gentes diferentes numa mesma estrutura narrativa (mesmo que no dia seguinte TO-DAS essas gentes estejam falando que a novela é ruim, é fraca, blablablá)).

  • Lane

    Concordo contigo em muitas partes, porém convém sempre lembrar que a sociedade é bastante hipócrita e talvez o autor tenha acertado em colocar como primeira “abertura de porta” neste assunto espinhoso (beijo entre homens no horário nobre) dois tipos mais “palatáveis” ao público, para que o cara que tá lá sentadão no sofá não tenha ainda mais preconceitos embutidos quando assistir a cena… o mundo ideal seria que isso tivesse ocorrido numa história sem tantos furos e erros como foi esta, mas mesmo assim foi importante para que muitos expectadores vejam que o mundo não acaba quando duas pessoas do mesmo sexo se relacionam.

  • Bom ler esse texto e saber que não estou sozinha no mundo. Acredito que seja importante o papel da teledramaturgia em discutir essas questões de gênero e tantas outras, mas ler o que você escreve sobre “o beijo”, me deixou feliz porque não sou sozinha no mundo. Quando eu crescer quero escrever assim que nem você.

  • Suelen Nunes

    O episódio nem esfriou ainda e já vi uma pá de gente jogando baldes de água fria na empolgação de quem curtiu o beijo de Félix. Textos enormes para mostrar como isso é apenas uma migalha etc. etc. Vindo de blogs de militância, eu entendo: é papel deles aprofundar essas questões, que de fato são bem complexas. Na verdade, é fundamental que eles se aprofundem, que expliquem o que é “higienização”, “privilégios”.

    Vindo do seu, fico particularmente desgostosa porque fica parecendo uma espécie de oportunismo intelectual, algo como “meu deus, como vocês são inocentes e alienados comemorando uma bitoca dessas”. Para mim é bastante óbvio que esse beijo foi apenas uma migalha. Não é como se a discriminação tivesse, puf!, acabado.

    Mas representação importa. A “bitoquinha chocha” gerou no país uma expectativa quase de final da copa do mundo. Vi relatos de pessoas dizendo que dava pra escutar os vizinhos gritando em suas casas na hora da novela. Penso nos gays que se viram representados ali, no horário nobre, numa relação carregada de afeto e lembro, por exemplo, da minha felicidade como mulher negra quando vi na novela das seis (Lado a Lado) uma protagonista incrível como era Isabel. Coisa que seu texto (na minha opinião, de um didatismo irritantemente imperativo e frio), parece ignorar. E não vou nem adentrar a questão de que a televisão é uma potente formadora de opinião, porque, né: nada de novo aí.

  • Juliana Cunha

    Gente, tô lendo isso mesmo? Uma pessoa discorda de mim e interpreta um acontecimento de modo diferente do meu, logo, ela está praticando oportunismo intelectual? Belezinha, hein.

  • Suelen Nunes

    Sim, está lendo isso mesmo.
    ___

    “Uma pessoa discorda de mim e interpreta um acontecimento de modo diferente do meu, logo, ela está praticando oportunismo intelectual?”

    Não. Eu nem discordei da maioria das coisas ditas. Entendi os argumentos, a problematização. Mas meio é mensagem, e tom também. O que você aparentemente vê como uma crítica bem embasada, eu vejo como uma crítica, também, porém insensível, que faz questão de colocar na boca das pessoas um gosto amargo que na verdade já existe. Faz mais:

    “Troque seu beijo de novela por um beijinho no ombro e seja gay (ou gordo, ou pobre, ou negro, ou estrangeiro, ou nordestino, ou deficiente físico, ou do terreiro) em seus próprios termos.”

    Coloca posturas como opostas quando, na verdade, uma não anula a outra; dita comportamento para uma comunidade que está calejada de ouvir como se comportar.

    Concordo com o rapaz do post do Facebook: “vamos tentar alguma empatia?”

  • [...] um garoto que frequenta rolezinhos. Tivemos o primeiro beijo gay global na semana que passou, mas é como a Juliana Cunha afirma: do quê adianta você colocar dois atores heterossexuais, brancos e bonitos (para não falar em [...]

  • Quando vc diz: “Produtos culturais que vendem a ideia de igualdade e homogeneidade não estão ensinando a sociedade maior a respeitar o diferente, estão ensinando o diferente a se moldar de um jeito que ele possa ocupar um espacinho delimitado na sociedade maior.”
    Sabe o que me lembra? Uma coisa que estudo muito: as moda das subculturas. Recentemente cabelos coloridos, fetiche, punk, grunge tachas, spikes foram absorvidos pela moda mainstream e vendido à rodo em lojas de departamento. Mas o real alternativo, que vive mesmo uma vida diferente do padrão pré-estabelecido, não sente essa igualdade no dia a dia. Ao contrário, diversos ainda são vítmas de desrespeito. Ou seja, o mainstream vende um alternativo suave, ameno, lindo… mas vai lá pedir emprego com suas tattoos e um cabelo pink, mesmo tendo pós e mestrado e vê se você encontra algum espaço e respeto?

  • Representação importa. Entendo a Suelen, na verdade, preciso me lembrar quem você é, lembrar por que eu a admiro e dai tirar que você não deve estar sendo oportunista. Ela disse muito do que eu queria dizer. Outras pessoas também. Na minha visão, seu texto traz algumas ideias importantíssimas acompanhadas de trechos infelizes e, principalmente por escorregar no timing, parece um produto com um sabor opressor.

    O que eu acho mais curioso é que eu vejo você lendo esse seu próprio texto em algum lugar e escrevendo outro em resposta que me faria vibrar, sobre a cagarregrice alheia, sobre como gato, cachorro, papagaio virou adepto de um pedaço da teoria queer com o beijo gay e usa isso para criticar agora uma alegria, nunca imerecida, como diz o Pessoa.

    Daqui de onde eu estou, foi uma alegria tremenda saber que um beijo gay entrou nas casas de um país que se apoia tanto na televisão e nos produtos da rede globo. Saber que rolou, que todo mundo queria saber mais disso do que do destino do casal principal, e que isso pode ajudar alguém hoje. Um beijo gay no comercial de margarina ainda é rebelde. Sim, gente, 90% da novela foi um lixo tóxico, e com essa cena eu dancei de meia no quarto.

    A gente não precisa que ninguém diga como devemos viver, e sabe o que é novela, a gente sabe o que é a globo. Meu beijo gay veio muito antes, mas uma bitoquinha menor do que a da novela na frente da família já foi motivo de tensão e falatório em quantos lares? Não é pouco. Representação importa. Se a DISNEY fizer um filme de PRÍNCIPE com beijo gay, celebrarei feito um boneco de posto.

  • Edu

    Concordo com Suelen e Tomás. Porque fica parecendo que dois homens brancos, magros e discretos não podem se beijar, porque não são representativos. Claro que são!

    Partindo do mesmo raciocínio podemos então rejeitar a aprovação do “casamento gay” porque ele reproduz um modelo heteronormativo, monogâmico, quando na verdade o Estado nem deveria se meter nessas questões: qualquer tipo de “contrato” (bigamia, poligamia, etc.) deveria valer sem mais nem menos. Mas é um primeiro passo, muito comemorado.

    Assim como esse beijo. Que aliás não foi “chocho”. Ou todo beijo que a gente dá é de língua e desentupidor-de-pia? Foi bem coerente com a cena e a emoção do momento.

    (Mas sim, a novela como um todo foi brutal, violenta, ridícula até. Ainda assim, qual a memória que dela ficará? A do beijo…)

  • Juliana Cunha

    Olha, numa boa, tem um tipo de leitor que eu preferiria que nem viesse aqui e pessoas que me chamam de oportunista por escrever um texto que elas simplesmente discordam (ou acham o tom infeliz, pedante etc) são bem desse tipo. Oportunista é uma palavra muito agressiva e descabida para vocês usarem com uma pessoa que simplesmente escreveu em um blog um texto que vocês não gostaram. Que tipo de vantagem individual estou cavando ao escrever esse texto? Meia dúzia de likes no Facebook? Porque para ser oportunista eu tenho que escrever isso visando uma vantagem.

    A minha impressão ao longo dos anos escrevendo um blog é que há pessoas que sentem “traídas” quando não concordam com o que eu digo, como se eu estivesse aqui para corresponder às expectativas de alguém. Não, obrigada. Vão ler gente morta ou unidimensional, assim vocês não correm o risco de perceber quem nem sempre o outro corresponde ao que a gente esperava, nem sempre ele usa o tom e o argumento que combina com o nosso jeitinho de ser e chamar alguém de oportunista por isso é uma violência descabida. Não concordou comigo, vai lá e ataca meu catáter? Vão se foder. E se puderem nunca mais ler nada que eu escrevo, é um favor que me fazem.

  • Diogo

    Cuidado! Vai acabar matando por menos novamente.

    Se não quer que as pessoas discordem, desabilite os comentários. O mundo na verdade é em sua maior parte discordante.

    Não se importe com isso.

    À propósito, também discordo de você… mas é um bom texto, nao chamaria de oportunista. Acho que não é mesmo… acho outras coisas, mas se quisesse que as pessoas soubessem o que eu acho escreveria. Assim como você. ;)

  • Arnaldo F

    O entendimento do sentido do texto todo começa logo na primeira afirmação: “Verdade, ter dois homens se beijando na novela é um primeiro passo”.

    A gente lê e pensa… será brincadeira? Primeiro passo??????

    Não, não é brincadeira. Para dar sentido à argumentação que vem a seguir, uma “verdade” é lançada. Verdade que de verdadeira não tem nada. É pura mentira.

    A realidade é outra: o primeiro beijo gay exibido nesse ícone da cultura de massas brasileira que é a telenovela foi apenas um passo dado em uma caminhada iniciada há muitos e muitos anos. De “primeiro” ele não tem nada.

    Os primeiros passos reais foram dados por efeminados desorganizados (mas que pela condição efeminada apresentam grande visibilidade social – são a linha de frente da causa gay) e gays de todos os tipos organizados que deram a cara a bater (literalmente) desde pelo menos os anos 1970.

    Como resultado de anos e anos de porrada e luta, emergiu nos anos 1990 uma nova cultura gay, orgulhosa da condição sexual e ligada a valores positivos de saúde, cultura, bom gosto. A face mais visível desse processo foi o surgimento de uma ‘cena gay’ (basicamente locais para dançar) que superou o estigma histórico de submundo e se tornou tão brilhante e atraente que gerou o conceito GLS (relacionando Gays, Lésbicas e Simpatizantes), procurada e frequentada por héteros (o ‘S’) em busca de boa música, alegria e sofisticação.

    Em meio ao fenômeno GLS surgiram as Paradas do Orgulho Gay (em S. Paulo a primeira em 1997), levando para a rua e à luz do dia homens e mulheres que se assumiam felizes e orgulhosos por serem gays, além dos héteros simpatizantes. Paradas onde as casas noturnas da cena gay marcavam a marcha com seus carros de som (daí a relação entre o surgimento da cena e de um movimento gay mais articulado).

    Pouco a pouco, parcelas crescentes da sociedade das grandes cidades começou a aceitar os gays como algo ‘cool’, bacana, digno. As novelas da Globo começaram a incluir ao menos um personagem homossexual como regra, apesar doe ainda haver muitos clichês, estereótipos etc. Mas a ação da Globo era apenas mais um dado em uma luta muito maior, e nem de longe o mais importante.

    Mas nem tudo é Globo.

    Em agosto de 2001, a MTV brasileira transmitiu um beijo entre homens no programa Fica Comigo. Um beijo real (não encenado) e muito quente. Outras edições do mesmo programa tiveram participantes gays, mostrando costumeiramente um beijo real no final.

    Em 2002, a Parada Gay paulistana chegou a 700 mil participantes, marcando uma nova escala.

    Em julho de 2003, depois de 1 milhão de gays e simpatizantes marcharem na Parada Gay na Avenida Paulista, os seguranças do Shopping Frei Caneca repreenderam um casal de meninos que trocaram um selinho. na praça de alimentação Como resposta, em agosto mil casais gays ocupam o shopping e protagonizam um beijaço. Dez anos antes dos rolezinhos…

    O BBB de 2005 teve como vencedor um homossexual assumido, militante da causa gay, que depois do programa foi contratado pela Rede Globo como jornalista. Nesse ano, a Parada de SP bateu em 2,5 milhões de pessoas na rua.

    Por essa época já era grande a pressão para que as novelas globais mostrassem um beijo entre dois homens. Mas a Globo alegava que a sociedade brasileira (incluindo cidades pequenas, periferias e grotões) não estava preparada para tanto. Mas esta questão nunca foi considerada fundamental na luta pela causa gay no Brasil, que continuava firme e forte.

    Em 2010, Jean Wyllys se elegeu deputado federal e passou a defender as causas gays no Congresso, somando-se à Marta Suplicy, antiga militante da causa gay.

    Em 2011, o STF reconheceu a legalidade da união estável homoafetiva, iniciando uma onda de casamentos gays em todo o país. A maior conquista até agora da luta pelos direitos dos gays. A Parada paulistana chega a 4 milhões de participantes.

    Um detalhe era ainda a telenovela, que não exibiu ainda nenhum beijo gay, apesar dos casais gays serem cada vez mais presentes nas tramas da Globo.

    A grande luta passa a ser a lei que criminaliza a homofobia e amplia as penas de quem comete crimes baseados na homofobia. Os cristãos fundamentalistas, notadamente os neopentecostais, sabem que com essa lei seu discurso anti-gay (dizem que eles que é a vontade de Deus) será criminalizado. A chamada bancada evangélica vem barrando a tramitação da lei. Essa é a grande luta.

    Em janeiro de 2014 o beijo gay finalmente acontece em uma novela da Globo. Os gays comemoram, junto com os simpatizantes, como um marco simbólico, no momento em que os fundamentalistas ganham força. Jean Wyllys está entre os que vibram.

    E neste exato momento, oh surpresa!, um monte de militantes da esquerda anti-Globo “acorda” e vem ensinar aos gays que o beijo global não tem importância, que é tudo bobagem etc. etc. etc.

    E agora essa de “primeiro passo”? Hã?

    Bom, faz sentido. Para muitos militantes sim, que jamais ergueram um dedo na luta gay, o beijo global da noite de 31 de janeiro de 2014 foi um “primeiro passo”.

    Arre.

  • Luiz com Z

    Juliana, a vantagem individual que você tem é o sucesso. A maior verdade imortal do ethos brasileiro é aquela descrita pelo Tom Jobim: no Brasil, o sucesso é uma ofensa pessoal. Por mais escrota que seja essa patuléia de medíocres, eu me permito torcer pra que ela aumente, porque a inveja é proporcional ao seu talento. Aprendi isso desde o jardim de infância, pena que sou discreto demais e ainda mais preguiçoso, mas um dia passo dessa fase do jardim e vou tentar escrever como gente grande, enfrentar a mediocridade. Beijo!

  • katherine

    esse beijo “gay” foi puro ilusionismo.

  • Luara

    Eu admito que não tinha me animado nem um pouco com essa coisa do beijo na novela, também tive uma opinião parecida com a sua, de achar que não representava. ATÉ QUE, eu li esse texto que colo abaixo, e pensei em quantas casas não pode ter acontecido algo semelhante.
    E-mail de um gay para a Colunista da IG: “…estavam todos na sala… eu no sofá qdo o Felix bjou o carneirinho… Silêncio… Fiquei quieto também pra não dar motivos, embora estivesse fazendo a drag por dentro… Mas a cena final, do Felix e do Cesar, eu não aguentei, veio um choro descontrolado q estava preso esses quatro anos que não falamos direito.., estava total descontrol… dai veio minha mãe com a cara inchada de chorar me abraçar e meu pai do outro lado segurou minha mão e pôs a mão em volta do meu ombro… Não falamos nada! Na hora de dormir, o Felipe (irmão) entrou no quarto, deu a mão e quando eu ia apenas apertar, ele me puxou, deu um abraço e disse que ele sempre vai ser meu irmão. E chorei de novo… Pela primeira vez não dormi no inferno…”

  • Juliana, não é só por discordar, ou isso já teria acontecido. Às vezes vejo alguém que admiro fazer algo que para mim é uma lambança e claro que não quero virar a cara e fazer de conta que aquilo não importa.

    E se um texto soa oportunista, mesmo que a gente não ache que a pessoa o seja, isso deve ser dito em uma crítica?

    Na dúvida, peço desculpas por ter usado “oportunista”. Não faço questão de defender essa palavra, na verdade. A menção, mesmo ali, teve um peso que eu não consegui enxergar quando a reiterei, que atraiu sua atenção para ela (e ainda ofuscou minha piadinha de boneco de posto). Foi um erro que pareceu um ataque e pode ter ofendido. Não quero esse tipo de efeito, então me desculpe.

    Todo o resto do meu e dos outros comentários na mesma linha eu acho bacana, complementares e com informações muito importantes. Tem muito amor aí.

  • Eu ia fazer um texto a respeito desse acontecimento, mas seu texto descreve perfeitamente o meu sentimento! Gosto bastante da maneira como vc se expressa! Já te coloquei como favorito e super te recomendo em meu blog (:

    http://www.blogdagisele.com

  • Suelen Nunes

    Bom, vai parecer morde-assopra, mas, sobre o “oportunismo”, estava menos para uma ofensa direta a seu caráter e mais para algo dirigido ao timing (como alguém bem colocou mais acima), viés e tom com os quais você elaborou seu texto. Realmente não achei que a palavra fosse pesar tanto. Mesmo no meu segundo comentário, eu ainda não havia percebido que a palavra havia soado muito agressiva (para mim você estava apenas ironizando meu primeiro comentário).

    A intenção era que o comentário fosse direto, duro, realmente, sem floreios do tipo “amo seus textos, seu blog, seu livro, MAS”, mas desaforo, jamais. Enfim, que fique registrado meu pedido de desculpas. No mais, é aquilo mesmo.

  • eu

    Bom, quem tá plastificando a sociedade? quem tá dizendo ser obrigatório que todos os 7 bilhões de pessoas no mundo devem gostar/amar/aceitar as mesmas coisas?

    Isso seria uma ditadura, simples assim! o indivíduo é LIVRE para pensar o que quiser e isso novela alguma vai mudar (nem a q vc aspira). Devemos nos aceitar como somos, seres cheios de imperfeições e preconceitos, ao invés de nos escorarmos na infantil ideia de que somos fofinhos.

    Liberdade de verdade, por favor! Menos demagogia, minha gente.

  • Gláucia

    Então… Acho que você não deveria ficar doída com os comentários contrários ao seu texto. Na verdade quando uma pessoa resolve escrever algo e divulgá-lo em um blog tem que estar preparada à opiniões favoráveis ou contrárias. E acho que nenhum comentário foi tão ofensivo ao ponto de te levar ao descontrole exibido em sua resposta. Na verdade gostei do seu ponto de vista, mas também discordo de algumas colocações (que não repetirei aqui pra não ficar enfadonho)

  • Fernando Barros

    a estratégia adotada pela novela é o que se pode se chamar de uma tentativa de assimilação pela homogeneização, uma espécie de licença para aceitação da diversidade quanto mais ela se aproxima de um padrão considerado ideal, mas acho que a discussão em torno do beijo gay tem resvalado para um não-lugar. ter acontecido um beijo tem seu mérito; tímido, pouco realista, sem profundidade ou não, ele aconteceu como consequência de uma história construída ao longo da trama e isso não deixa de ter uma simbologia. ter um personagem pintoso e todos os dramas relacionados a isto também. claro que a tv, a imprensa, os veículos de comunicação de um modo geral ainda devem muito em relação à representação da diversidade e precisamos estar atentos a isto.

  • michel

    Gostei mais do beijo protagonizado pela Gisele Tigre e Luciana Vendramini na novela Amor e revolução do SBT (uma ótima novela por sinal, mas que ninguém viu porque só existe a Globo e a “crítica especializada” só sabe esculhambar as outras emissoras)

    Principalmente porque foi um beijo seguido de uma transa sem esse bla´bláblá romântico. Foi tesão apenas.

Comentar