Oito semanas

É incrível como um simples ajuste na unidade de medida muda tudo na cabeça de uma pessoa com pouca noção matemática e temporal. O fato de que o Instagram lista as fotos pelo número de semanas desde que elas foram postadas me dá uma sensação muito mais concreta, ainda que melancólica, do que se passou em minha vida recente. A contabilidade do tempo em anos ou meses diz pouco, mas saber que algo aconteceu a um número x de semanas de algum modo me perturba.

Entre as minhas fotos mais felizes está uma de 109 semanas atrás em que ando de bicicleta em casa jogando bola com meu cachorro. O momento é bonito, embora meu cabelo estivesse uma lástima (penso agora que cabelos são outra boa unidade de medida, como uma ampulheta orgânica que carrego comigo, o tempo passando, caindo por entre fios que se alongam e voltam a encurtar), mas o que importa é que lembro nitidamente da minha euforia interior naquele dia por motivos que pouco se relacionavam a qualquer um daqueles elementos enquadrados. Em outra foto, essa de 112 semanas atrás — talvez meu pico de contentamento desde que possuo conta nessa rede —, exibo uma capa de “A Sentimental Journey” com o preço estampado (cinco dólares) em um dia que eu mesma embarcava em uma jornada sentimental. Legenda: “Team Mr. Yorick”.

Há oito semanas meus joelhos sorriam esfolados ao lado de um focinho de cachorro num registro que não mostra nada, a não ser um dos dias mais legais dos últimos anos. A marquinha deixada pelo asfalto áspero ainda estampa meu joelho direito. Às vezes torço para que vire uma cicatriz; às vezes acho melhor não porque cicatrizes lembram algo que aconteceu há bastante tempo e a graça que vejo nela hoje é como um lembrete algo mentiroso de que os acontecimentos estão todos frescos, que nada se estabilizou, que as coisas ainda podem mudar de cor e textura até decidirem sua forma definitiva.

Oito semanas, 112 semanas. Qual seria o número ideal (e o aceitável) de semanas para que algo realmente incrível tenha acontecido?

9 comments to Oito semanas

  • Fernanda Francischinelli

    Você sabe que essa contagem do Instagram também me deixa melancólica? Se a 119 semanas aconteceu algo tão legal que eu postei uma foto, será que mais nada de legal aconteceu dessas 119 semanas pra cá? Ou eu estava feliz demais curtindo o momento que nem me lembrei de registrar e mostra-lo por aí? Talvez não postar mais fotos faça com que eu tenha a sensação que isso aconteceu agorinha mesmo, naquele minuto atrás de tão fresco que esta na memória….

  • Mariana

    Achei que era gravidez. Enquanto a página abria imaginei o Palito brincando com uma criança!

  • Leandro Oliveira

    Comecei a ler o texto imaginando que estivesse grávida. Como o Instagram, gravidez também ajusta a unidade de medida temporal.

  • Ju, que texto mais bonito! <3
    É por essas que posso dizer com tranquilidade: sou sua fã.

  • Divido com você a melancolia de um joelho direito ralado no asfalto há mais ou menos oito semanas também. No meu caso, não postei foto por um pouco de vergonha do meu ato infantil de se estrebuchar no meio da rua com carros vindo em minha direção. Usei Snapchat. Um dos dias mais legais desse ano e o joelho continua marcado…

  • Juliana Cunha

    Putz, gravidez é um troço que ponho tão fora do meu espectro que demorei a entender a relação que vocês fizeram com a contagem em semanas. Passei uns bons minutos achando que fosse um surto coletivo. :c)

  • Acho que é por isso que vez ou outra, mesmo que me doa, eu apago as fotos no Instagram e em redes sociais em geral, é muito mais fácil lidar com as memórias sem o lembrete (por vezes patético) de um momento feliz e (inútil e infelizmente) estático.

  • Deisi

    Legal o texto,só associei á gravidez após ler os comentários .rs

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