Jonathan

Tenho um gosto específico por músicas de amor cantadas por mulheres que evocam não a vontade de amar ou de ser amado daquele jeito, mas sim de chutar aquela macumba. O exemplo mais claro disso provavelmente são as músicas de amor interpretadas por Nina Simone. Quando ela canta I put a spell on you, você não é convidado a se colocar na posição do emissor daquela treta, mas sim na do receptor. E você deve sentir medo.

Medo é o que deve sentir com All mine, de Beth Gibbons, com The operation, de Charlotte Gainsbourg, e medo, muito medo é o que deve sentir com praticamente qualquer música de Fiona Apple. Valentine, Sleep to dream, Shadowboxer, Jonathan. O drama é tanto que sua empatia desliza sorrateira daquela voz que canta para o receptor da mensagem. Quando menos espera você simpatiza com os ex-namorados dela, não com ela. Quando ela canta “just tolerate my little fist tugging on your forest chest” você instintivamente contrai os ombros bem de leve, em repulsa. E é fascinante para mim que uma artista como ela, que pode me fazer sentir o que ela quiser, tenha escolhido me fazer sentir repulsa por ela mesma, pelo amor dela. Repulsa e medo. E ela sabe disso tudo, como fica claro no vídeo de Not about love em que Zach Galifianakis interpreta uma espécie de superego peludo dela, ou na letra de Paper bag, em que ela diz que “I know I’m a mess he don’t wanna clean up”.

Ninguém quer limpar. Por isso que ouvir as músicas dela é uma forma inesperada de autoajuda. Você começa chafurdando na lama, mas logo adota uma postura de “deixa disso, eu vi umas fotos desse Jonathan no Google e pensei que a gente acha fácil alguém melhor para te levar a Coney Island”.

Ps: Mas por que só mulheres, vocês me perguntam. Porque mulher assusta mais. Porque o esperado de nós é a passividade, assusta quando somos ativas em nossos afetos. Mas em Creep Thom Yorke chega quase lá.

8 comments to Jonathan

  • Nadja Pereira

    ai <3

  • Julia

    Fiona é maravilhosa. O que dizer da letra de Daredevil (especialmente da frase “I’m all the fishes in the sea”)? <3

  • Gosto da Nancy Sinatra cantando “These boots are made for walking”. Ela canta, humilha, e no final passa por cima.

  • Jayne

    Hoje eu esbarrei com você na R. Sergipe – o que foi estranho porque eu estava subindo a Consolação e depois de encontrar com uma modelo, comecei a pensar como vemos gente “conhecida” por São Paulo e lembrei “poxa, a Juliana Cunha disse que morava por aqui… Nossa, não peguei a mochila até hoje… será que ela passou pra frente?! Ou será que tá muito enrolada?” E puf, você passou na minha frente hahaha. Só notei que você parecia alegre e deduzi que estava ouvindo música. Agora eu acho que estava tendo a epifania pra esse texto. (-: Criar historinhas com personagens que encontramos pela rua é sempre divertido.

    Sobre as musas e músicas: me assustam tanto que só as amo mais.

  • Nathália

    numa escala de assimilação bemmm longínqua, karina burh faz isso em “não me ame tanto”… você vai bailando no sotaque bahiano maravilhoso e no fim pensa ‘poxa vida, mas como recusar amor?’ e bem, sobre dramas musicais, o que dizer sobre a ação de alanis em minha adolescência com sua dor disfarçada de ironia e agressividade? olhando pra minhas playlist agora, minhas bandas favoritas sempre tiveram mulheres que não gostavam do papel de passivas ou coitadas. ou de bonitinhas. não por uma escolha consciente. mas acho que as músicas ficavam mais gostosas de interpretar no chuveiro…

  • Melhores vocais para mim são os femininos, elas dizem tanto. Mas o Yorke realmente consegue chegar quase lá.
    Amei o post, amei o blog. Me deu uma nostalgia desse modo de escrever que tantos blogs tinham antigamente. Até eu tive um.
    Beijos.
    Sara

  • Ahyalla Riceli

    Sinto falta dos seus textos. Fico tão feliz quando abro o feedly e encontro texto novo no seu blog. :)

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