Xico Sá te abraça

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Caso se sinta incompreendida, Xico Sá te dará um abraço. Não se sinta feia, Xico Sá está aqui para te dar colo dizendo que macho que é macho não sabe a diferença entre estria e celulite. Macho que é macho liga quando promete, não enxerga rugas, é incapaz de notar que você engordou cinco quilos. O que são cinco quilos na grande ordem das coisas? O Homem de Verdade prega a imaterialidade dos cinco quilos. Com a cabeça nas grandes questões da humanidade ou na concretude do trabalho braçal, não consegue se ater a esse tipo de pequeneza.

É incrível a lista de itens cotidianos que um Homem de Verdade não enxerga, não compreende, não sabe diferenciar. Sua tolerância assume a forma de uma completa falta de percepção. Seus problemas, moça, suas inseguranças, não são fruto de processos históricos concretos, são apenas miragens. De repente você não é uma adulta que percebe o quanto a sociedade é exigente com você (especificamente com você) e que se frustra diante disso: você é uma criança, moça, uma criança boba vendo chifre em cabeça de cavalo. Tudo que você precisa é de um Homem de Verdade para lhe assegurar que seus fantasmas não existem, pois ele não pode vê-los. A lente da razão não pode vê-los, moça, por isso deixe de bobagem, deixe que seu homem te diga com que se preocupar, deixe que ele te separe por grupinhos e que te dê apelidos no diminutivo como “boterinha”, caso você seja gorda, ou “prozaquinha”, caso faça um gênero doidinha.

Xico Sá entende as mulheres. Xico Sá infantiliza as mulheres ao assumir a posição do homem que as entende. Porque é difícil entendê-las. Entender quem não sabe se expressar é uma arte que uns poucos homens sensíveis dominam. Precisamos desses porta-vozes para traduzir o que sentimos. Somos mulheres, somos só sentimento, não elaboramos as coisas, ou elaboramos mal. Precisamos de homens sensíveis que peguem nossos sentimentos confusos e transformem em conceitos inteligíveis, em regras de conduta. Precisamos que esses mesmos homens nos digam quais dos nossos sentimentos são legítimos e quais são paranoia.

Xico Sá pensa os gêneros como coisas tão separadas que, segundo ele, homens (de verdade) simplesmente não conseguem enxergar dados concretos expostos pelas mulheres. Homem que é Homem não vê celulite. A celulite é um dado da realidade. Pode ser fotografada, apalpada, tem aparência e textura definidas, tem classificação médica. É um depósito de gordura e tecido fibroso que provoca irregularidades na pele que o reveste. A celulite é ainda uma construção publicitária: surgiu enquanto problema na França, no começo da década de 1970, ápice do movimento feminista. Surgiu para lembrar as mulheres que você não deve tentar melhorar o mundo quando não consegue sequer melhorar sua bunda. Olhe para o seu próprio rabo. Lembre daquele provérbio que diz: quando pensar em mudar o mundo, dê uma volta em sua própria casa. Quando pensar em mudar o mundo, torne-se um neurótico enclausurado.

Celulites são furinhos, estrias são listrinhas. Muitos homens têm estrias já que elas são um rompimento das fibras elásticas que pode acontecer, por exemplo, durante um crescimento repentino na puberdade. Poucos homens têm celulite, é uma questão hormonal. Celulite é uma mesquinharia. Espíritos elevados não enxergam algo tão pequeno. Eu achava que em 2014 um homem normal era aquele que sabia exatamente o que era uma celulite, conseguia enxergá-la perfeitamente e lidava com sua existência do mesmo modo como eu venho lidando com os pelos nas narinas dos meus namorados desde que passei a ter namorados (e que eles passaram a ter pelos nas narinas). Eu não preciso glorificar o pelo na narina. Não preciso negar sua existência, tampouco dizer que nunca reparei. Não preciso dizer que não sei a diferença entre um pelo e um cravo. Homem nenhum vai me dar um biscoito e dizer que nunca encontrou uma mulher tão legal na vida caso eu diga algo assim. Eu lido com esses pelos. Eles permanecerão lá quer eu os ache nojentos ou lindos. Por isso eu não preciso achá-los nojentos. Nem lindos. E nunca me ocorreu que o homem ao meu lado pudesse ser desmerecido pelo que traz dentro do nariz. Porque eu fui ensinada a enxergar homens como pessoas, não como objetos. Isso não é um mérito meu, nem da minha educação familiar específica. Eu não enxergo homens como pessoas porque sou bacana, um espírito livre. Eu enxergo homens como pessoas porque isso é fruto do percurso que fizemos até aqui enquanto sociedade.

Homens que enchem a boca para dizer que adoram celulite, que curtem uns pelos, são idiotas condencendentes. O cerne do problema é justamente você achar que deve ter e expressar opinião sobre cada aspecto do corpo de uma outra pessoa. Melhor: de uma categoria de pessoas. Você não tem que opinar sobre isso. Se você tem uma preferência específica sobre um aspecto do corpo da mulher com quem está transando, exponha isso para ela. Se tem várias preferências específicas, exponha isso ao seu analista. Mas não opine sobre como mulheres em geral deveriam manter seus pelos, ou sobre a relação que elas deveriam estabelecer com suas celulites. Fique na sua.

Não enxergar as coisas, não saber a diferença entre elas, não ligar para elas, nada disso é empatia, nada disso é mérito. E não é a empatia de um grupo historicamente privilegiado que vai impulsionar mudança alguma. Não é minha empatia pelos negros que reduz o racismo. Não é minha bondade ao “abrir mão de privilégios” que faz o bondinho da história andar. Não foram textos na internet ensinando o opressor a maneirar que nos trouxeram até aqui. Apoiar grupos minoritários é importante (e, em última análise, a única posição possível), mas sem a falsa ideia de que são os privilegiados que concedem algo aos demais. Podemos até nos esforçar para apoiar o oprimido, mas como sociedade o movimento é sempre na direção de manter o privilégio.

Tenho achado muito engraçados uns textos recentes sobre “como homens podem ajudar o feminismo” (spoiler: não podem). Uma das dicas costuma ser: “abrindo mão de seus privilégios”. Ninguém abre mão de privilégio. Ninguém quer ou mesmo pode fazer isso. Um privilégio histórico não é aquele ⅓ do apartamento de papai que você considera abdicar em favor do irmãozinho desajustado. Eu não abro mão de nenhum dos meus privilégios como branca: são os negros que vêm arrancando esses privilégios de mim, como tem que ser. Me ressinto quando vejo meus privilégios serem arrancados, fecho a mãozinha. Se fico caladinha é porque uma das conquistas do movimento negro foi fazer com que a exposição desse ressentimento fizesse de mim uma idiota no meu meio social. Eu posso perder coisas com isso, amigos, trabalhos. Então fico calada. Um dia, homens como Xico Sá também acharão melhor ficar na deles. Mas hoje não. Hoje eles são amigos das mulheres e expoentes da ala feminismo de boteco da imprensa brasileira. Posam entre as pernas de uma gostosa enquanto te asseguram que vai dar tudo certo, moça, inclusive aquele seu rolo com o demente que não vê celulite.

PS: Cansei desse blog, ele vai sair do ar em breve. Vou fazer um novo, ainda sem endereço. Para saber quando etc, vem aqui.

68 comments to Xico Sá te abraça

  • Raquel

    o desapego qdo bem usado é maravilhoso – continuarei seguindo nonada

  • Fred Garcia

    Sua malcomida dozinferno, quem é vc? O Xico Sá achou PC Farias quando tu ainda tava pensando em criar um blog merda como esse… Que se foda esse e o próximo blog irrelevante que voce parir…

  • É sempre um conforto ler um texto que não é declaração de tesão pelo Xico Sá porque nossa, como ele nos entende e é homem cabra macho de verdade, quero-dar-pro-xico-sá.

  • Alexandre Huang

    Você sabe quem é Xico Sá? Pegou um texto dele para destilar sua raivinha feminista? Relaxa, Ju. Nem todo texto precisa ser escrito para te agradar. Ele tem um estilo, um perfil e não faz sentido você agredir de forma tão barata. Não é o que ele faz com as mulheres, muito pelo contrário.

    Sei a diferença entre estria e celulite. E não acho que celulite faz alguma diferença na minha vida. Ele não está controlando sua vida. Apenas mostrou o ponto de vista de alguns homens, que é o meu. Pegar Xico para Cristo por conta disso é leviano.

    Menos rancor faz bem.

  • Solange

    Juliana Cunha: pra mim, você é a melhor. A melhor blogueira de todas que conheço! Eu simplesmente amo o seu estilo de escrita. Independente se concordo ou não. Continuaria te lendo, e adorando, mesmo que você me ofendesse. Então, obrigada por este blog, e boa sorte com o que virá.

  • Carol

    Não tira esse do ar, não… :(

  • Bárbara

    Machos que estão chamando a autora de mal comida: calem-se. Não interessa se o cara entrevistou o Jimi Hendrix no além ou qualquer outra coisa. Apelar à autoridade dele não é argumento, seus JÊNIOS (e bem machistinhas tb – quem os comeu tão bem pra serem assim?). Vão estudar.

    Imbecis.

  • Tuiuan

    Belo texto. Acho que todas as pessoas tem o direito de ter suas preferências, inclusive quanto a aspectos físicos do seu parceiro ou parceira e de si mesmo. Mas isso é problema da pessoa. Se achar o máximo porque você é um “homem de verdade”, e que “homem de verdade” acha isso ou aquilo de uma mulher é uma puta idiotice. Quem quiser achar pelos aqui ou ali feios, que ache. O problema maior é você querer impor seu padrão ás pessoas, e achar que está certo fazendo isso, aí é caso de procurar ajuda.

    Quanto a questão dos privilégios…bom, discordamos. Não é porque involuntariamente eu me beneficio de algum tipo de privilégio por ser branco e heterossexual que eu não posso me juntar as causas das pessoas que lutam contra esses privilégios. Ou até conquistar algo para essas pessoas, ainda que isso afete meus privilégios, caso eu tenha essa condição. Não é porque eu me beneficio de uma estrutura social que eu não possa querer mudá-la, ou que eu jamais teria alguma noção de como quem não se encaixa nessa estrutura sofre. É quase a questão da esquerda caviar, que é medonha.

  • Muito bom mesmo! Acho que já comentei, mas gostaria de comentar outra vez.

  • Renata

    Juliana,
    Quando eu a conheci, você tinha em torno de quinze anos. Fomos colegas num curso de cinema, ainda em Salvador. Lembro que pensei: essa menina é muito inteligente.
    Tinha um bom tempo que não tinha “notícias” suas. Lendo este texto, ganho uma certeza: essa mulher é muito inteligente.
    Tudo de bom para vc.

  • clarice

    Juliana, leio sempre seu blog, gosto muito! e não tenho facebook. Peço que quando mudar de página que comunique aqui também senão ficarei sem contato com seus textos. Obrigada!! :)

  • [...] um dos maiores exemplos de homenzinho de merda disfarçado é Xico Sá. A Juliana Cunha escreveu um belo texto a respeito, super [...]

  • pessoa

    ATÉ QUE ENFIM alguém que entende que MARKETEIRO que é esse Xico Sá. Francamente!

  • Rodrigo

    Comecei a acompanhar seus escritos na época da formulação do teu primeiro livro; e fui ficando primeiramente pelos posts de viagem…depois pelos posts sobre (rodopiando) as Normas. E agora tô me despedindo, com medinho que todos os textos se percam e quase abrindo o Scrivener pra tentar salvar algo! Espero ansioso pelo próximo contato, Juliana.

    Em tempo: pessoal precisa aprender a interpretar; muitas das críticas que li nos comentários não se sustentam e podem ser rebatidas com trechos inalterados do texto original.

    P.s.: concordo com a maioria dos argumentos do texto; meu ciclo de amizades conversa pouco sobre esse tópico, mas me dá exemplos de sobra pra refletir tudo isso.

  • Paloma

    Acompanho o blog há tempo, mas nunca comentei em nenhum post. De uma forma bem chocha resolvi descer pela página dessa vez para escrever algo do tipo “já estava sofrendo com a diminuição das postagens e agora isso?”, mas aí me deparei com comentários tão absurdos que mudei completamente de ideia. Quer saber? Exclui esse blog mesmo. Salva os textos, deixa eles disponíveis para quem quiser reler (eu mesma terei que re-favoritar os meus prediletos), mas parte para outra. Já vi muitas coisas extremadamente toscas por aqui, com “dúvidas” que poderiam ser facilmente esclarecidas pela leitura decente das palavras, mas venho percebendo um aumento considerável no quesito ataques pessoais e superficialidade dos argumentos daqueles que se dizem “contra”.

    Por isso te desejo muita tranquilidade daqui em diante para continuar dividindo com os leitores ideias tão pertinentes e bem articuladas, como as que você expôs nesse post. Eu só posso imaginar o quão cansativo deve ser ter que lidar com essa dose de frases mal-formuladas – que dão muita preguiça de tentar explicar e abrir um pouco para novas ideias a cabeça de quem as escreve –, mas admiro muito quem tem coragem de continuar, mesmo sabendo de tudo isso. Admiro quem faz da vida uma arte e ainda dá a cara a tapa para que todo mundo possa ver o seu trabalho. Admiro quando ouço uma música, leio um texto ou vejo uma foto que me faz querer olhar para as coisas de outra forma, perceber o que eu não percebia. Admiro você.

    Por fim, queria dizer que espero, de coração, que você tenha muita paciência e encontre muita coisa boa nessa sua nova etapa.

  • Pabblo Santo Cristo

    Também acho o Xico Sá muito migué. Mas não precisava declarar guerra.

  • [...] Já matei por menos a Juliana botou em post várias coisas que também me impedem de gostar do Xico [...]

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