Atenção significa: atenção

Um amigo me disse que esse texto deveria se chamar “como me viciei em speed”, mas mais adiante eu vou te esclarecer que esse é o mesmo amigo que tem uma agenda organizada de ressacas e drogas, que estrutura o cotidiano de trabalho e até quais amigos devem ser vistos em quais dias (eu, por exemplo, sou uma pessoa da quarta-feira) segundo um cronograma rígido de baratos e contra-baratos, e todos concordarão que a opinião dele sobre o assunto não deve ser considerada.

Faz uns oito meses que passei a tratar déficit de atenção com um remédio que se você apertar bem a bula e perguntar: tens o que é preciso para esmagares minha distração? ele dirá: sou um speed, minha senhora.

Déficit de atenção é um assunto que você pode soltar em uma festa desanimada e sentar de canto para observar as pessoas se engalfinharem. Há quem discuta se ele sequer “existe”; se não estamos hiperdiagnosticando pessoas; se antes não estávamos subdiagnosticando pessoas; se alguém como eu, que malemal é funcional na vida, não poderia lidar com isso de outros jeitos; se por trás do DDA não há um forte discurso moral e uma indústria farmacêutica perversa; se não estamos dopando nossos corpos para uma carga de trabalho excruciante; se não estamos superdimensionando o que uma pessoa é capaz de fazer; se não estamos intencionalmente estragando nossa capacidade de concentração… São todas discussões muito legais que eu resolvi meramente achatar aqui para dizer: elas existem, não as farei.

Não as farei porque elas estão por toda parte, sendo feitas por pessoas certamente mais qualificadas do que eu. Pessoalmente, minha resposta para cada um desses questionamentos seria: sim, com certeza. Mas o que eu quero falar é sobre atenção, sobre drogas, sobre procrastinação. São comentários esparsos que venho fazendo de mim pra mim há algum tempo.

Procrastinar não tem nada a ver com preguiça, com a nossa preguiça ibérica, indígena, negra, com resistência, com banzo, com indolência, com indulgência, com prazer. Procrastinação pressupõe um sofrimento pior do que o trabalho que ela evita. É uma paralisação. Vem de uma consciência prévia de que você vai fazer o mundo e o mundo ainda estará por fazer. De uma insegurança e desânimo. De uma falta de propósito. De uma certeza de não ser suficiente, de não ser bom o bastante, de uma impotência. Não vem de uma recusa, de uma vontade de fazer outra coisa, de ir para a sua vida.

O procrastinador não fecha a planilha e vai ao cinema, ao parque, não dorme a tarde inteira. Ele fica preso ao computador, com o arquivo aberto, se torturando em um jogo de nunca começar, ou de parar o tempo inteiro. As redes sociais, o BuzzFeed, as pequenas emergências, os trabalhos inúteis, a aglutinação de tarefas. Essas são as distrações do procrastinador. São distrações culpadas, sem graça, rapidinhas. Atividades das quais estamos sempre de saída, são sempre dois minutos. São coisas que você não quer de fato fazer, só faz para evitar aquela outra. Procrastinação não implica em DDA. DDA, no entanto, causa uma imensa procrastinação.

Eu comecei a tomar esse remédio depois de muita curiosidade sobre ele e de uma certa desconfiança de que tinha problemas concretos de atenção. Problemas que você pode dizer: todos temos, ao que respondo que sim, talvez “todos” tenhamos. Quase todos temos problemas de compulsão alimentar porque temos, enquanto sociedade, uma relação doentia com a comida e com os corpos. O fato de “todos termos” alguma coisa ou de “então até eu ter isso” não invalida que a coisa esteja aí e que, sim, talvez até você tenha (não te parece um sintomão daqueles isso de as pessoas desmerecerem um sofrimento psíquico dizendo que “se for assim até eu tenho?”. Você se sente acima demais para ter uma doença mental ou é justo o contrário, acha seus sofrimentos aquém de serem reconhecidos, compartilhados, de serem sequer nomeados?).

Talvez quase todos tenhamos problemas de concentração porque estamos nos treinando para isso. Pense em como ensinamos crianças a verem um filme, a assistirem uma aula: é um processo violento, cansativo, prolongado. Não há nada natural em sentar a bunda numa cadeira e se concentrar em algo por duas horas. Conseguimos isso (conseguíamos isso) porque éramos fisiculturistas da atenção, cultivávamos essa atenção. Hoje é o contrário: cultivamos a dispersão, educamos nosso cérebro a olhar para o lado a cada cinco minutos. Só que o fato de um problema ser agravado por questões ambientais não nega sua porção de existência.

Não é minha intenção aqui informar as pessoas sobre DDA, mas talvez seja bom dizer que especialistas no assunto tendem a minimizar a influência desses fatores ambientais no desenvolvimento do transtorno. A opinião hegemônica entre os médicos é a de que nossos maus hábitos tecnológicos podem agravar os sintomas, mas não desencadeiam DDA. O que poderia desencadear DDA num adulto seria abuso de cocaína ou uma concussão, por exemplo.

Atenção significa: atenção. Susan Sontag diz que atenção é vitalidade. Andrew Solomon diz que o contrário de depressão não é alegria, é vitalidade. Não acho que eu tenha problemas de atenção propriamente dita. Quando falo sobre um filme que vi uma vez há dois meses, as pessoas ficam impressionadas com a quantidade de detalhes. O problema, no entanto, é reter essa atenção, sobretudo em coisas que não estejam me dando prazer imediato. Alguns estudos dizem que o adulto com DDA é justamente alguém meio da mão pra boca. Enquanto os outros adultos conseguem antever uma possibilidade de prazer e fazer sacrifícios para alcançá-la, o desatento só consegue fazer o que está gostando naquele momento. Um escravo das próprias vontades.

Eu tenho pra mim que esse seja um problema comum em jornalistas. É de se perguntar se muitos não estão presos a essa profissão justamente pela incapacidade de reter atenção em algo de fôlego. Também pode ser um problema que encontra abrigo ideal na internet, com seu bendito encurtamento entre a produção de um conteúdo (vamos ampliar o conceito de conteúdo até caber aquele seu tuíte semi-engraçado) e o reforço positivo que ela gera.

Existe quase um padrão de texto do “jornalista que tomou Adderall e te conta tudo sobre isso”. Nesses relatos, o repórter diz que o remédio funciona, que ele se viu um workaholic de comédia romântica, só que o resto da vida ficou bastante ruim. “Nada mais tinha graça, só o trabalho”. É um relato muito responsável e não apologético, exceto que remédios para DDA são bastante usados como droga recreativa. Parte do efeito da droga vem do fato de que ela te dá uma leve euforia. Você se sente menos contrariado em enfrentar tarefas chatas justamente porque trouxe sua alegria de casa. No entanto, fazer as coisas que você já gostava de fazer não só continua sendo mais interessante do que o trabalho como também se torna mais interessante do que essas mesmas coisas na sobriedade. Quanto a virar um workaholic de filme, nunca me aconteceu. Talvez por eu de fato ter um problema, talvez por não ter temperamento nem vontade pra isso.

Essa atenção de remédio não é uma atenção normal. Não é uma atenção contemplativa, por exemplo, como costuma ser a pouca atenção de fábrica que possuo. Também não é uma atenção curiosa. A coisa mais angustiante que você pode fazer na sua vida é tomar uma bolinha dessas e tentar meditar. Por outro lado, não é uma atenção suja como a da cocaína. É uma atenção mais limpa, mais… Limpa mesmo. Há um pequeno ganho de autoestima uma vez que você consegue fazer as coisas, mas não há uma redução geral do mundo. Há você mais disposto a agir no mundo, não mais poderoso.

Porque de onde vem o poder que a cocaína te faz sentir? De uma simplificação do mundo. Você, essa pessoa pequena que é você, de repente entendeu tudo. Tudo é muito simples, você virou a Jout Jout. É menos que você tenha aumentado de tamanho do que que o mundo tenha se tornado subitamente transparente. Você é poderoso em um universo desprovido de mistério. Tudo é pão-pão, queijo-queijo. Tudo é como eu não tinha entendido isso antes, como eu não pensei nisso antes. Mas você não efetivamente pensou nada de minimamente sofisticado. Você pensou as coisas mais simplórias e elas foram estranhamente suficientes.

As drogas para DDA não passam perto desse efeito. Trata-se de uma atenção excitada, por vezes irritadiça, mas que não muda o tamanho das coisas.

Quanto às distrações, elas continuam todas lá, só é mais fácil ignorá-las. Na verdade, é mais fácil ignorar qualquer coisa. Você pode sentar em cima do seu pé e só notar que a posição é incômoda duas horas depois. A fome soa como o toque do celular de uma outra pessoa.

Os psiquiatras que estudam DDA (e aqueles que “acreditam” em DDA) tentam arduamente dissociar os tratamentos da doença da pecha de “doping cognitivo”. Para isso, citam pesquisas que apontam que pessoas com déficit de atenção se envolvem em mais acidentes, brigas, têm mais chance de ir para a cadeia, se divorciam de parceiros que não aguentam tanto descaso. Mas se você for ler um fórum de pacientes, quase todos procuraram tratamento por queixas relacionadas ao trabalho e quase todos foram orientados a não tomar o remédio aos fins de semana.

No caso das crianças, fica até engraçado. Os médicos dizem: não é uma droga para a escola, é um problema que afeta vários aspectos da vida. Mas em que horário as crianças tomam? Na hora de ir para a escola. Nas férias, nada de Ritalina. O fato de não ter Ritalina nas férias é constantemente citado para rebater críticas de que o remédio causaria dependência. Nesses momentos, a coisa de que seria um problema que afeta vários aspectos da vida vai tomar um ar lá fora.

Talvez seja um transtorno que afeta vários aspectos da vida, mas somente um que a gente de fato valoriza.

Acho que um dos motivos pelos quais aceitamos melhor que um problema como a depressão de fato exista e seja uma doença é que falava-se em depressão muito antes de existir um antidepressivo. A depressão já estava estabelecida como problema médico muito antes de existir uma solução farmacêutica pronta para ser difundida. Distração? Era um problema moral, comportamental ou só um traço da personalidade do sujeito até que descobrimos um jeitinho químico para isso.

Estranhamente, algumas das pessoas mais ressabiadas com esse tipo de droga são… Os drogados. Existe uma ala de usuários de drogas recreativas que tem bastante desprezo por quem usa as chamadas “drogas de administração da vida”. Soníferos, ansiolíticos, ritalinas. Para eles, a droga é do prazer e fazê-la bater ponto é um tipo de heresia que te coloca no mesmo patamar de alguém que pesquisa quantas calorias pode queimar durante o sexo.

(o termo “drogas de administração da vida” eu peguei emprestado da primeira psiquiatra com quem tentei tratar DDA. uma lacaniana que mobilizou aquela inconfundível linguinha mole de psiquiatra pra me falar em “drogas de administração da vida”).

Uma outra frente anti-Ritalina é composta por pessoas de esquerda que percebem nessas drogas uma tentativa de burlar as limitações do corpo e de intensificar a exploração. De fato, parte do problema de não conseguirmos fazer nosso trabalho deve estar nos nossos trabalhos excruciantes, desestimulantes e sem propósito e na expectativa crescente do quanto um ser humano deve produzir em um dia. Só me parece que nesse barco estamos todos os desprovidos, e o sujeito que consegue remar sóbrio talvez não esteja tão melhor do que eu.

Foi um processo violento e cheio de perdedores esse que nos fez trabalhar em horários fixos e artificiais, em atividades alienadas e desconectadas de nossas vidas e desejos. Me sinto um pouco mal por pavimentar com drogas um atalho para a minha inclusão nesse mundo, e um pouco bem por pelo menos precisar de drogas para isso.

PS: Eu não tomo Ritalina nem Adderall, mas um outro remédio que não foi citado. Falei nesses dois apenas porque são os mais famosos, quase sinônimos da coisa em si. Note que este é um texto leigo escrito por uma palpiteira, possivelmente contém erros e inconsistências. Se você tem ou acha que tem déficit de atenção, procure um médico. Cheirar cocaína é um hábito horrível, evite.

25 comentários sobre “Atenção significa: atenção

  1. Na dúvida se eu quero tentar ser diagnosticada com DDA ou se é melhor entrar na onda de pó dos meus amigos. Talvez seja o primeiro para o dia-a-dia durante a semana, e o segundo para o fim de semana e as férias?

  2. Esse seu texto está tão bom que eu não resisto perguntar: foi feito sob efeito? Rá, brincadeira. Na verdade, acho que isso não importa nem diminui a qualidade do textão. Curti de verdade essa sua piração.

  3. Elogio é um troço complicado de se fazer comunicar. Fiquei tocado com o texto, me pareceu difícil, e bom para as duas da manhã. Um abraço.

  4. Parabéns pelo texto, srta. Juliana. Não só estar muitíssimo bem escrito como por revelar uma sensibilidade incomum porém imprescindível pra esse tipo de análise. Não pude deixar de me reconhecer em boa parte das descrições que você fez dos efeitos desse transtorno, e eu, que dava uma atenção à distância ao DDA, talvez por ingenuamente não linká-lo ao problema da procrastinação, fui acometido por uma certa preocupação a respeito dessa questão toda. Tenho dentro de mim uma certa resistência ao uso de medicamentos, embora reconheça a importância e respeite a necessidade de usá-los quando a situação o pede, e mesmo eu já tive e tenho outros transtornos relativamente aparentados deste em foco e que me forçaram a tomá-los durante certos períodos. Relutantemente, é justamente o que estou considerando no momento sobre o caso em questão. Só é lamentável e indignante ao extremo, como imagino que você concorde comigo, fazer parte de um sistema que forçosamente nos submete a modos de vida tão degradantes e deletérios, ensejantes de problemas e transtornos tão terríveis.

    De toda forma, obrigado por compartilhar sua experiência e suas reflexões sobre esta questão.

    Um abraço,
    Thiago

  5. Você deveria escrever um romance, em primeira pessoa de preferência. Eu ia adorar ler!

  6. Perfeita sua descrição de procrastinação. Ela me causou problemas muito graves no passado e ainda causa muitos problemas hoje. Olhando para trás, penso se não deveria ter buscado ajuda, como você fez… teria mudado o curso da minha vida – não teria passado tanto tempo arrastando uma graduação e nem teria prejudicado tão gravemente outras pessoas no meu antigo trabalho.

    Parabéns pelo texto, e boa sorte no tratamento.

  7. Cara Juliana,

    O remedio nao e uma droga aditiva se usada com cuidado. O paciente ADD que faz uso do remedio nao tem vantagem em relacao ao normotipico, apenas fica mais funcional. Mas ainda assim, em desvantagem ao normotipico. Voce nao pavimenta seu caminho com drogas. Isso e preconceito seu. Voce cria um ambiente neurologico priopicio para o trabalho e para o funcionamento pessoal. Alem de regular a parte emocional que esta alterada em quase 100% dos pacientes com ADD. Portanto, tenha mais gentileza consigo para nao criar mais estigma em relacao a quem utiliza as medicacoes, atraves do seu texto. Um abraco, Mariana.

  8. Bom texto, Juliana.

    O que você fala sobre a procrastinação enquanto uma “paralisia” é bem parecido com a descrição que os antigos davam à acídia, considerada uma doença ou “paralisia da alma”, uma indisposição que anula a vitalidade e ânimo de seguir com as repetitivas tarefas cotidianas. Engraçado que alguns monges já diagnosticavam a acídia como sendo resultado de fatores externos ou como uma “disposição da alma”, mas hoje em dia se observa uma certa relutância em admitir que certos distúrbios ou inadequações tenham um fundamento inerente (tudo é culpa do caráter dispersivo da sociedade moderna).

    Apesar deste diagnóstico ‘teológico’ estar no contexto da rotina monacal e da monotonia da execução diária dos ritos, acho que a raiz do problema é a mesma de hoje: algumas pessoas estariam mais ‘bem equipadas’ (neurotípicas?)para enfrentar a monotonia das obrigações diárias, enquanto outras teriam mais dificuldades em lidar com deveres que não trazem satisfação e sentido imediatos.

    Já li em algum lugar que o DDA não é um problema de concentração – na verdade pessoas com DDA possuem hiperfoco em assuntos que as interessam -, mas de direcionamento, manter o foco naquilo que é necessário. Por um lado, um cérebro de alguém com DDA parece o de uma criança mal-acostumada (só quero fazer as coisas que me agradam), por outro há uma certa dignidade nesta rebeldia inconsciente (recuso a rotina excruciante dos deveres burocráticos, só faço o que verdadeiramente possui sentido para mim).

  9. Mais uma que adorou sua descrição sobre o que é procrastinar. Como veterana de “drogas de administração de vida”, fiz as pazes com o fato de que preciso delas para conseguir desenvolver (e conservar) recursos para lidar com meus tilts cerebrais de estimação. Sem elas, o processo teria sido muito mais sofrido e difícil. Muito bacana o seu relato, Juliana!

  10. Hábito horrível e perigoso. Mudando de assunto, é incrível, espantoso, o que você faz com as palavras. E ok que tudo tem seu tempo o você sabe da sua vida melhor do que ninguém, mas não há como te ler e não esperar por um romance, por algo maior, a gente começa a ler o que você escreve e não quer (consegue) mais parar… quando te “descobri”, fiquei uns dois dias sem fazer outra coisa, e ficaria muitos mais…

  11. Eu não tenho paciência com usuários de drogas, então posso dizer que esse texto me representa 100%, embora eu ache que você não o tenha escrito com o objetivo de desqualificar a esquerda drogadinha; enviei o link para meio mundo com a chamada “se a carapuça servir”.

  12. maravilhoso. pontuar a questão do uso de drogas recreativas foi essencial, e a coisa da procrastinação, senhor jesus, deve ter deixado muita gente se perguntando se não deve procurar algum conselho médico (eu, pelo menos, tô agora aqui me perguntando. o jeito que vc descreve o procrastinar e a coisa do prazer imediato de alguma tarefa versus a dificuldade de se colocar pra fazer tarefas que não me trarão prazer – embora me tragam dinheiro, que me permite fazer todo o resto das coisas) (aí agora me pego pensando também na questão que você mencionou do nosso sistema social que nos faz trabalhar em horários e com objetivos completamente aleatórios e sem sentido, e que talvez eu não tenha que procurar auxilio nenhum – eu não estou fazendo errado, o mundo é que está. mas aí como a gente sobrevive dentro do sistema?)

    sou professora e extremamente contra uso de remédios para atenção em crianças. acho que um adulto é responsável pela própria vida e toma os remédios e usa as drogas que quiser e depois lida com as consequências, mas uma criança não deve ser forçada a se encaixar num sistema quadrado e que não engloba de maneira nenhuma nossas individualidades e nossos mecanismos de lidar com o mundo e as experiências. a criança já tá sendo colocada nessa forminha desde sempre, desde o dia que entra na escola, e com muito pesar eu sou responsável por isso, por preparar as crianças pra viverem numa sociedade pouquíssimo livre e que valoriza a função prática de um ser humano, acho que ainda por cima dar remédio é cruel e violento. (o fato de que, sim, o remédio é dado pra criança conseguir se “comportar” na escola só reforça meu pensamento. nós como adultos precisamos nos encaixar e seguir o flow, se precisamos de um remédio pra isso, que seja)

    não sei se fiz sentido

  13. Completei a leitura do texto de três vezes, num intervalo aproximado de duas horas, e tenho uma leve impressão de ter compreendido. Sem mais.

  14. Esse texto foi maravilhoso, esse texto é lindamente bem escrito, esse texto mudou minha vida; enquanto eu lia me esforcei em não olhar pro lado a cada 5 minutos – aqui na salinha de computadores da universidade toda hora entra alguém e meu olho quer saber quem é, mesmo sabendo que não conheço muita gente. Tenho um mestrado pra escrever e tenho lido e estudado despretenciosamente, achando que não devo exigir muito de mim, afinal “se julgar e ser dura consigo mesma não vai ajudar”, as amigs dizem… mas não é bem isso. a gente acaba caindo num relativismo meio absurdo, pode tudo, pode até não ter atenção no instante – como que pode isso? não é só porque não somos budistas que isso deixa de ser verdade: precisamos de atenção, uma atenção diferente, que não é sofrimento e que não é letargia, mas que também saiba ser e ponto. Já já vou pegar um café – uma outra droga, de qualquer maneira… mas tentemos praticar a meditação pelo menos aos domingos, acho que já é alguma coisa. é sempre alguma coisa.

    Obrigada pelo texto… foi iluminador!!!!

  15. Ótimo texto e uma perspectiva interessante sobre a questão. Acho que o sistema identifica o DDA como um problema na medida em que não conseguimos mais ser tão produtivos quanto ele queria que nós fossemos. Quando nós não conseguimos ser tão produtivos quanto queremos (ou precisamos) ser aí acho que tudo é válido. O grande desafio é conseguir identificar o que é desejo seu (aquilo pelo qual você vai cumprir a frase do poeta grego Píndaro e tornar-se o que és) e o que é desejo do outro (sistema, patrão, cônjuge…) em você.

    Enfim, parabéns pelo e pelo blog.

  16. Me identifiquei demais com seu relato, suas reflexões e com a intenção do texto. Muito obrigado, me sinto menos sozinho.

  17. Complementando minha mensagem anterior.

    Creio que há basicamente dois perigos com relação à ciência, particularmente à Medicina e às ciências da psique.

    Primeiro, uma “embriaguez do sucesso” da ciência, ainda mais quando se converte em tecnologia eficaz [e, sobretudo, rentável]. Uma mitologia da ciência. A psiquiatria, em particular, buscou resultados palpáveis – baseados em estatística e farmacologia, para conquistar respeito entre os pares [e mercado]. O perigo é a rentabilidade converter-se em caminho e motor para a banalização de prescrições e diagnósticos. Dificilmente alguém estaria em contra da existência desse perigo. Com relação à construção de um paradigma sobre a compreensão da consciência e da cognição humanos, que induziria a uma normalização bastante arbitrária, não sei se há tanta consciência.

    O outro perigo é a antipsiquiatria radical, que pode nos converter em “testemunhas de Jeová laicos”, que rejeitam “a priori” e intransigentemente alguns tratamentos médicos em razão de princípios. Além de uma estigmatização muito nociva de pessoas que realmente necessitam de cuidado…

  18. Você abriu uma luz no meu caminho que meu psiquiatra nunca me fez enxergar em dez anos, apesar do remédio. Obrigada.

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