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Foi tudo um sonho

É uma verdade universalmente conhecida na internet que propagadores de spoiler merecem uma morte lenta e saborosa, quem sabe cozidos em banho-maria no sangue da última pessoa que ousou mudar de ideia.

Difícil pensar em uma coisa que traga mais consenso, mais senso de comunidade e uma revolta mais morninha e confortável do que a crença de que revelar partes importantes de uma trama — quer seja televisiva, literária ou cinematográfica — consiste em uma espécie de crime contra o prazer de quem ainda não terminou aquela história.

Quem dera fosse apenas o de quem ainda não terminou uma história que está se desenrolando aqui e agora. É preciso preservar também o prazer de quem sequer começou, de quem não sabe se um dia vai começar, de quem não tem planos concretos, de quem declaradamente não vai. Aos poucos, ganha terreno a ideia de que cada vez mais aspectos de uma trama são importantes e, portanto, spoilers. Resenhas e até críticas são reduzidas a sinopses alongadas que nada podem concluir ou revelar. Vai se formando a noção de que o direito à surpresa deve ser mantido não apenas no campo da ficção, mas também do jornalismo, da vida em geral.

Durante a Olimpíada de 2016, por exemplo, quando os jogos eram transmitidos por gravações na tevê americana, veículos como a NPR adotaram “alertas de spoiler” para notícias. Ao abrir o site da NPR ou sua página no Facebook, você veria chamadas que excluíam a informação factual (quem ganhou, como foi o jogo) em respeito àqueles que ainda não tinham visto a partida. Os anúncios de spoiler foram comemorados por um público que sentia que esse sim era um veículo que o respeitava. Foi um caso de uma ação caça-cliques entendida como um favor ao leitor.

Assistir a qualquer coisa ao vivo tem um valor em si, uma camada de emoção que não pode ser reproduzida numa gravação, ainda que recente. Você e os atletas, o bairro e todo mundo estão, senão no mesmo espaço, ao menos no mesmo minuto, na mesma página. É uma comunhão possível. Mas qual o sentido de não saber o resultado para preservar o prazer de uma gravação? Me parece um caso em que o fetiche do spoiler se sobrepôs a um fetiche às vezes chamado de jornalismo.

O caso da transmissão da Olimpíada nos EUA foi um fenômeno interessante porque um único canal detinha o direito de exibição dos jogos no país. Esse canal decidiu exibir gravações para acomodar melhor as coisas em sua programação (spoiler: para ganhar mais dinheiro). O efeito que se criou foi o de uma bolha. Ali dentro, naquele pequeno país que são os Estados Unidos, os jogos aconteciam em um horário diferente. Eles efetivamente aconteciam em outro horário. Eles só podiam acontecer em outro horário porque os Estados Unidos são uma grande ilha. Fosse no Brasil, isso talvez não se repetiria. Não se repetiria porque nosso interesse por notícias, pessoas e produtos estrangeiros é outro. Porque somos mais permeáveis. Nos Estados Unidos, no entanto, a NBC conseguiu fazer os jogos acontecerem no horário que bem entendia. Ela conseguiu ajustar o tempo cá — pressionando para que as competições de maior sucesso nos Estados Unidos fossem alocadas em horários que não faziam sentido no país que sediava os jogos, para o público concreto desses jogos — e lá, transmitindo gravações protegidas por alertas de spoilers na imprensa nacional. Puf, eles mudaram o tempo dos jogos.

Com um orçamento mais modesto, mas com grande convicção, os pequenos censores do spoiler também tentam mudar o tempo dos seriados, dos filmes, dos livros, criando o sonho de um presente eterno em que eu possa começar hoje a assistir uma série amplamente vista e comentada em 2007 — digamos, Mad Men — sem saber o que aconteceu. No dia em que esse sonho se concretizar, eu estarei, dizem eles, sendo completamente respeitada no meu direito de consumidora tardia de produtos culturais descartáveis.

Para que isso seja possível, as discussões públicas sobre uma obra precisam ser abafadas. A única graça que esses produtos comerciais que consumimos pode ter, a única coisa que esses produtos que no melhor dos casos são diluições infinitesimais de algo que um dia foi bom podem trazer, que é a discussão coletiva, recebe a amarra do spoiler como um pacto de não agressão entre consumidores passados e futuros. Qualquer discussão, análise, ponderação passa a ser calada em um “por favor, vejam”. De um possível analista, o público passa a ser um mero divulgador do que consome.

A lógica do spoiler estabelece que a fruição de uma obra estaria na surpresa individual com o rumo dos acontecimentos. História boa seria aquela que me surpreendesse, que trouxesse um encaminhamento inesperado para os conflitos apresentados. Mas história boa, por outro lado, seria aquela verossímil, então você precisa me surpreender, porém sendo extremamente verossímil. No limite, são expectativas contraditórias. Puxando demais a sardinha para a surpresa você vai parar na ilha de Lost, onde tudo pode acontecer, inclusive qualquer coisa.

Isso porque se você me inseriu em um universo ficcional coerente, me apresentou os conflitos, me ambientou ali, é possível que eu consiga prever resoluções verossímeis. Porque resoluções verossímeis seriam progressões lógicas. Um dos princípios do drama burguês é justamente isso, a concatenação de acontecimentos: uma cena puxa a outra, como se houvesse ali um imperativo lógico, e não uma mão invisível fazendo dos personagens o que bem entendesse.

Na minha adolescência, filme bom, bom mesmo, era o que conseguia atar esses dois nós. Surpreender sem nocautear a verossimilhança interna. Pense em Efeito Borboleta, ou em O Sexto Sentido. Eram roteiros espertos. Eram obras que você pode matar, enterrar e jogar a última pá de cal no segundo em que desvendar o mistério. Porque não tem mais nada ali. Os filmes são um grande nada com um e aí sacou? no fim. A pessoa que disser que eu estraguei O Sexto Sentido ao contar o fim estará completamente correta. A pergunta é se um filme que pode ser estragado com uma frase merece ser preservado.

Mas no caso de obras (mesmo as rebaixadas, comerciais, dramáticas e vazias) que tiverem um fiapo a mais do que O Sexto Sentido, qual seria o trauma? Burlar a ditadura do spoiler é dizer que a fruição de uma obra pode estar em outra coisa que não seja o enredo básico, o argumento.

Existem muitas formas de fruir uma obra que não incluem a surpresa do fim. Quando o público ia assistir a uma tragédia grega, por exemplo, ele muitas vezes já conhecia a história de cabo a rabo, ou no mínimo sabia o básico, os fatos principais. Na peça Agamenon, de Ésquilo, por exemplo, Clitemnestra mata o marido, enquanto em outras versões é o amante dela quem mata, ela é apenas a cúmplice, ou a mandante. Seria, no entanto, inconcebível sentar para assistir a uma versão de Agamenon em que o próprio Agamenon não morresse, mas saísse de lá sobre duas pernas berrando “por essa vocês não esperavam” ou “foi tudo um sonho”.

Isso porque a graça de uma peça não estava na tensão dramática, em não saber o que vai acontecer em seguida, e sim nas emoções suscitadas e no debate em torno da história. É por isso que o “clímax” da tragédia, por assim dizer, que a liberação da tensão dramática, acontecia muito antes do que o clímax de um drama burguês. Para o espectador do drama burguês, o clímax resolve todos os mistérios da trama, fecha a conta e passa a régua.

Já na tragédia grega, o ápice de tensão era o momento em que os personagens se tornavam conscientes da natureza dos acontecimentos, que se reconheciam, que entendiam seu lugar no mundo. Édipo compreendia que o assassino que ele buscava era ele próprio. Nesse momento, o véu da ironia dramática era subitamente retirado. Ou seja, o público deixava de saber mais do que os personagens (tem essa: nas peças gregas a ignorância muitas vezes estava no personagem. Era ele quem ia se surpreender, não o público).

Depois disso tinha: todo o resto. O embate de emoções que isso causava, o debate. Conte para o coleguinha que Édipo mata o pai e casa com a mãe e você terá retirado um total de nenhum prazer dele em assistir a Édipo Tirano. Mas se contar para o próprio Édipo quem são seu pai e sua mãe, capaz de não ter história.

Concedo que dos festivais gregos para cá alguma água já rolou, mas do drama burguês para cá inúmeras águas rolaram, inclusive a do meu pranto. É verdade que grande parte das obras que vemos e lemos hoje ainda é dramática e, portanto, depende ou pelo menos se beneficia amplamente de um “pela mãe do guarda”. Não estou dizendo aqui que quem reclama de spoiler não sabe consumir essas obras. Pelo contrário: é justamente por entenderem a fragilidade do prazer trazido por essas obras que as pessoas se armam contra o spoiler.

Mas vamos comer esse M&M’s de garfo e faca. Vamos colocar o guardanapo no colo. É isso que fazemos ao nos recusarmos a fugir de spoilers em favor de uma discussão pública sobre uma obra. Sobre obras que, bem ou mal, são o nosso repertório coletivo atual. Vamos observar as notas de carvalho dessa Coca-cola, vamos deixar o Dolly respirar e vamos esperar que, meus sais, algo melhor seja servido.

Atenção significa: atenção

Um amigo me disse que esse texto deveria se chamar “como me viciei em speed”, mas mais adiante eu vou te esclarecer que esse é o mesmo amigo que tem uma agenda organizada de ressacas e drogas, que estrutura o cotidiano de trabalho e até quais amigos devem ser vistos em quais dias (eu, por exemplo, sou uma pessoa da quarta-feira) segundo um cronograma rígido de baratos e contra-baratos, e todos concordarão que a opinião dele sobre o assunto não deve ser considerada.

Faz uns oito meses que passei a tratar déficit de atenção com um remédio que se você apertar bem a bula e perguntar: tens o que é preciso para esmagares minha distração? ele dirá: sou um speed, minha senhora.

Déficit de atenção é um assunto que você pode soltar em uma festa desanimada e sentar de canto para observar as pessoas se engalfinharem. Há quem discuta se ele sequer “existe”; se não estamos hiperdiagnosticando pessoas; se antes não estávamos subdiagnosticando pessoas; se alguém como eu, que malemal é funcional na vida, não poderia lidar com isso de outros jeitos; se por trás do DDA não há um forte discurso moral e uma indústria farmacêutica perversa; se não estamos dopando nossos corpos para uma carga de trabalho excruciante; se não estamos superdimensionando o que uma pessoa é capaz de fazer; se não estamos intencionalmente estragando nossa capacidade de concentração… São todas discussões muito legais que eu resolvi meramente achatar aqui para dizer: elas existem, não as farei.

Não as farei porque elas estão por toda parte, sendo feitas por pessoas certamente mais qualificadas do que eu. Pessoalmente, minha resposta para cada um desses questionamentos seria: sim, com certeza. Mas o que eu quero falar é sobre atenção, sobre drogas, sobre procrastinação. São comentários esparsos que venho fazendo de mim pra mim há algum tempo.

Procrastinar não tem nada a ver com preguiça, com a nossa preguiça ibérica, indígena, negra, com resistência, com banzo, com indolência, com indulgência, com prazer. Procrastinação pressupõe um sofrimento pior do que o trabalho que ela evita. É uma paralisação. Vem de uma consciência prévia de que você vai fazer o mundo e o mundo ainda estará por fazer. De uma insegurança e desânimo. De uma falta de propósito. De uma certeza de não ser suficiente, de não ser bom o bastante, de uma impotência. Não vem de uma recusa, de uma vontade de fazer outra coisa, de ir para a sua vida.

O procrastinador não fecha a planilha e vai ao cinema, ao parque, não dorme a tarde inteira. Ele fica preso ao computador, com o arquivo aberto, se torturando em um jogo de nunca começar, ou de parar o tempo inteiro. As redes sociais, o BuzzFeed, as pequenas emergências, os trabalhos inúteis, a aglutinação de tarefas. Essas são as distrações do procrastinador. São distrações culpadas, sem graça, rapidinhas. Atividades das quais estamos sempre de saída, são sempre dois minutos. São coisas que você não quer de fato fazer, só faz para evitar aquela outra. Procrastinação não implica em DDA. DDA, no entanto, causa uma imensa procrastinação.

Eu comecei a tomar esse remédio depois de muita curiosidade sobre ele e de uma certa desconfiança de que tinha problemas concretos de atenção. Problemas que você pode dizer: todos temos, ao que respondo que sim, talvez “todos” tenhamos. Quase todos temos problemas de compulsão alimentar porque temos, enquanto sociedade, uma relação doentia com a comida e com os corpos. O fato de “todos termos” alguma coisa ou de “então até eu ter isso” não invalida que a coisa esteja aí e que, sim, talvez até você tenha (não te parece um sintomão daqueles isso de as pessoas desmerecerem um sofrimento psíquico dizendo que “se for assim até eu tenho?”. Você se sente acima demais para ter uma doença mental ou é justo o contrário, acha seus sofrimentos aquém de serem reconhecidos, compartilhados, de serem sequer nomeados?).

Talvez quase todos tenhamos problemas de concentração porque estamos nos treinando para isso. Pense em como ensinamos crianças a verem um filme, a assistirem uma aula: é um processo violento, cansativo, prolongado. Não há nada natural em sentar a bunda numa cadeira e se concentrar em algo por duas horas. Conseguimos isso (conseguíamos isso) porque éramos fisiculturistas da atenção, cultivávamos essa atenção. Hoje é o contrário: cultivamos a dispersão, educamos nosso cérebro a olhar para o lado a cada cinco minutos. Só que o fato de um problema ser agravado por questões ambientais não nega sua porção de existência.

Não é minha intenção aqui informar as pessoas sobre DDA, mas talvez seja bom dizer que especialistas no assunto tendem a minimizar a influência desses fatores ambientais no desenvolvimento do transtorno. A opinião hegemônica entre os médicos é a de que nossos maus hábitos tecnológicos podem agravar os sintomas, mas não desencadeiam DDA. O que poderia desencadear DDA num adulto seria abuso de cocaína ou uma concussão, por exemplo.

Atenção significa: atenção. Susan Sontag diz que atenção é vitalidade. Andrew Solomon diz que o contrário de depressão não é alegria, é vitalidade. Não acho que eu tenha problemas de atenção propriamente dita. Quando falo sobre um filme que vi uma vez há dois meses, as pessoas ficam impressionadas com a quantidade de detalhes. O problema, no entanto, é reter essa atenção, sobretudo em coisas que não estejam me dando prazer imediato. Alguns estudos dizem que o adulto com DDA é justamente alguém meio da mão pra boca. Enquanto os outros adultos conseguem antever uma possibilidade de prazer e fazer sacrifícios para alcançá-la, o desatento só consegue fazer o que está gostando naquele momento. Um escravo das próprias vontades.

Eu tenho pra mim que esse seja um problema comum em jornalistas. É de se perguntar se muitos não estão presos a essa profissão justamente pela incapacidade de reter atenção em algo de fôlego. Também pode ser um problema que encontra abrigo ideal na internet, com seu bendito encurtamento entre a produção de um conteúdo (vamos ampliar o conceito de conteúdo até caber aquele seu tuíte semi-engraçado) e o reforço positivo que ela gera.

Existe quase um padrão de texto do “jornalista que tomou Adderall e te conta tudo sobre isso”. Nesses relatos, o repórter diz que o remédio funciona, que ele se viu um workaholic de comédia romântica, só que o resto da vida ficou bastante ruim. “Nada mais tinha graça, só o trabalho”. É um relato muito responsável e não apologético, exceto que remédios para DDA são bastante usados como droga recreativa. Parte do efeito da droga vem do fato de que ela te dá uma leve euforia. Você se sente menos contrariado em enfrentar tarefas chatas justamente porque trouxe sua alegria de casa. No entanto, fazer as coisas que você já gostava de fazer não só continua sendo mais interessante do que o trabalho como também se torna mais interessante do que essas mesmas coisas na sobriedade. Quanto a virar um workaholic de filme, nunca me aconteceu. Talvez por eu de fato ter um problema, talvez por não ter temperamento nem vontade pra isso.

Essa atenção de remédio não é uma atenção normal. Não é uma atenção contemplativa, por exemplo, como costuma ser a pouca atenção de fábrica que possuo. Também não é uma atenção curiosa. A coisa mais angustiante que você pode fazer na sua vida é tomar uma bolinha dessas e tentar meditar. Por outro lado, não é uma atenção suja como a da cocaína. É uma atenção mais limpa, mais… Limpa mesmo. Há um pequeno ganho de autoestima uma vez que você consegue fazer as coisas, mas não há uma redução geral do mundo. Há você mais disposto a agir no mundo, não mais poderoso.

Porque de onde vem o poder que a cocaína te faz sentir? De uma simplificação do mundo. Você, essa pessoa pequena que é você, de repente entendeu tudo. Tudo é muito simples, você virou a Jout Jout. É menos que você tenha aumentado de tamanho do que que o mundo tenha se tornado subitamente transparente. Você é poderoso em um universo desprovido de mistério. Tudo é pão-pão, queijo-queijo. Tudo é como eu não tinha entendido isso antes, como eu não pensei nisso antes. Mas você não efetivamente pensou nada de minimamente sofisticado. Você pensou as coisas mais simplórias e elas foram estranhamente suficientes.

As drogas para DDA não passam perto desse efeito. Trata-se de uma atenção excitada, por vezes irritadiça, mas que não muda o tamanho das coisas.

Quanto às distrações, elas continuam todas lá, só é mais fácil ignorá-las. Na verdade, é mais fácil ignorar qualquer coisa. Você pode sentar em cima do seu pé e só notar que a posição é incômoda duas horas depois. A fome soa como o toque do celular de uma outra pessoa.

Os psiquiatras que estudam DDA (e aqueles que “acreditam” em DDA) tentam arduamente dissociar os tratamentos da doença da pecha de “doping cognitivo”. Para isso, citam pesquisas que apontam que pessoas com déficit de atenção se envolvem em mais acidentes, brigas, têm mais chance de ir para a cadeia, se divorciam de parceiros que não aguentam tanto descaso. Mas se você for ler um fórum de pacientes, quase todos procuraram tratamento por queixas relacionadas ao trabalho e quase todos foram orientados a não tomar o remédio aos fins de semana.

No caso das crianças, fica até engraçado. Os médicos dizem: não é uma droga para a escola, é um problema que afeta vários aspectos da vida. Mas em que horário as crianças tomam? Na hora de ir para a escola. Nas férias, nada de Ritalina. O fato de não ter Ritalina nas férias é constantemente citado para rebater críticas de que o remédio causaria dependência. Nesses momentos, a coisa de que seria um problema que afeta vários aspectos da vida vai tomar um ar lá fora.

Talvez seja um transtorno que afeta vários aspectos da vida, mas somente um que a gente de fato valoriza.

Acho que um dos motivos pelos quais aceitamos melhor que um problema como a depressão de fato exista e seja uma doença é que falava-se em depressão muito antes de existir um antidepressivo. A depressão já estava estabelecida como problema médico muito antes de existir uma solução farmacêutica pronta para ser difundida. Distração? Era um problema moral, comportamental ou só um traço da personalidade do sujeito até que descobrimos um jeitinho químico para isso.

Estranhamente, algumas das pessoas mais ressabiadas com esse tipo de droga são… Os drogados. Existe uma ala de usuários de drogas recreativas que tem bastante desprezo por quem usa as chamadas “drogas de administração da vida”. Soníferos, ansiolíticos, ritalinas. Para eles, a droga é do prazer e fazê-la bater ponto é um tipo de heresia que te coloca no mesmo patamar de alguém que pesquisa quantas calorias pode queimar durante o sexo.

(o termo “drogas de administração da vida” eu peguei emprestado da primeira psiquiatra com quem tentei tratar DDA. uma lacaniana que mobilizou aquela inconfundível linguinha mole de psiquiatra pra me falar em “drogas de administração da vida”).

Uma outra frente anti-Ritalina é composta por pessoas de esquerda que percebem nessas drogas uma tentativa de burlar as limitações do corpo e de intensificar a exploração. De fato, parte do problema de não conseguirmos fazer nosso trabalho deve estar nos nossos trabalhos excruciantes, desestimulantes e sem propósito e na expectativa crescente do quanto um ser humano deve produzir em um dia. Só me parece que nesse barco estamos todos os desprovidos, e o sujeito que consegue remar sóbrio talvez não esteja tão melhor do que eu.

Foi um processo violento e cheio de perdedores esse que nos fez trabalhar em horários fixos e artificiais, em atividades alienadas e desconectadas de nossas vidas e desejos. Me sinto um pouco mal por pavimentar com drogas um atalho para a minha inclusão nesse mundo, e um pouco bem por pelo menos precisar de drogas para isso.

PS: Eu não tomo Ritalina nem Adderall, mas um outro remédio que não foi citado. Falei nesses dois apenas porque são os mais famosos, quase sinônimos da coisa em si. Note que este é um texto leigo escrito por uma palpiteira, possivelmente contém erros e inconsistências. Se você tem ou acha que tem déficit de atenção, procure um médico. Cheirar cocaína é um hábito horrível, evite.

Complexo de Telêmaco

Eu vi, num desses chorumes de internet, uma frase que dizia: be the person your dog thinks you are. O ser humano é um caso quase irremediável. Ele olha para uma coisa bonita e diz: olha que coisa bonita. Em seguida descreve algo horrível.

Você já é a pessoa que o seu cachorro pensa que você é. Você não é uma fraude vivendo com um animal estúpido e iludido. Tentar ser a pessoa que o seu cachorro pensa que você é só mostra que você não entendeu nada da lógica do cachorro, e que subestima demais sua compreensão. O cachorro é um ser muito generoso e de algum modo gosta até de quem confia mais na opinião de transeuntes do que no parecer detido de um especialista. Mas, por via das dúvidas, melhore. É sempre bom dar a quem gosta da gente um pouco de argumento.

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A dita inteligência do gato reside em se achar muito independente sem o ser. Ele é completamente dependente, mas age como se fosse completamente independente. É completamente domesticado e age como um selvagem. É, em suma, um adolescente.

O cachorro, mais atento, percebe o tamanho de sua dependência e nunca perde de vista esse dado. O cachorro te ensina tudo o que você devia saber sobre afeto. O cachorro entrega o afeto dele não apenas para a pessoa que mais gosta dele, mas para a pessoa que gosta certo, para a pessoa que noves fora vai resolver o problema. É por isso que o cachorro nunca é da criança. Uma das maiores alegrias de ser adulto é que pela primeira vez o cachorro pode — ninguém garante que vai — ser seu cachorro.

Só em filme o cachorro é da criança. Na vida real o cachorro é sempre da mãe, muito raramente do pai. Se na sua casa o cachorro é da criança, é bom ver o que está acontecendo. Análise pra geral agora mesmo, sei lá, recomendo.

Sendo a sua uma casa normal, a análise da criança continua de pé porque é capaz que ela sofra de um fenômeno muito real, embora pouco comentado, que é o complexo de Telêmaco.

Uma das grandes frustrações da criança inteligente se dá no momento em que ela percebe que o cachorro não é dela. Aquele cachorro que talvez tenha sido seu presente de Natal, que todos se referem como seu cachorro, que sua mãe pergunta “já foi limpar o cocô do seu cachorro?”. Pois que deite no estrume, não é seu.

Você ama muito o cachorro e o cachorro é possível que te ame de volta, mas você não previa tantas ressalvas da parte dele. Não previa que ele por vezes, enquanto você tenta acarinha-lo, fugisse para debaixo da mesa, ou que apenas olhasse para o seu pai em franco desespero. Onde você previa total entrega e obediência e um ânimo infinito para aventuras está um cachorro que falhou em assistir aos mesmos filmes que você.

A criança que além de inteligente é budista e iluminada tira grandes lições daí. Usa o cachorro como termômetro para saber onde depositar sua própria lealdade. O resto de nós, no entanto, passa muito tempo se perguntando qual o problema do cachorro, ou o que os meninos de filme têm que eu não tenho.

É conhecida a chateação de Telêmaco por ter vivido tanto tempo entre 108 marmanjos desconhecidos planejando sua morte, mas num pergaminho perdido está essa parte em que ele enfim pergunta “mas por que diabos o cachorro não pode ser meu?”.

Salvar maridos

“Tudo que eu quero é salvar maridos, me traz uns maridos para eu salvar”, diz o meu amigo Marcos, soltando Fanta pelo nariz.

Em nossos almoços, pelo menos uma pauta é repetida: Casablanca. Marcos é psicólogo e acha que gostar de Casablanca é meio caminho andado para diagnosticar um neurótico. O filme, na nossa leitura de almoço, é sobre um sujeito que prefere não viver um amor para preservar sua autoimagem.

No fim da história, Rick tem duas escolhas: pode ficar com Ilsa e conviver com o fantasma do marido perfeito, herói da Resistência, ou pode virar o joguinho e ser ele o herói, salvando a ela e o ao marido e se transformando num abnegado, num sujeito que sabe que a História é mais importante do que os afetos de três pessoinhas jogadas nesse mundo louco.

Ilsa diz: mas e você? E a gente? Rick responde com uma esperteza sem sabedoria: se você ficar comigo, vai se arrepender. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas na semana que vem e para o resto da vida.

O que ele faz é entregar a mulher que ele ama a um marido subitamente desprovido de qualquer graça. É assim que ele, um comerciante, um dono de bar, se projeta acima de um herói de guerra. Eu vejo e revejo Casablanca como um treinamento para que quando chegar minha vez — se um dia chegar minha vez — eu escolha sempre Casablanca a Paris.

Em Manhattan, Woody Allen rebaixa tudo isso quando Isaac diz “we’ll always have Paris” para a namoradinha Tracy (aquela, que nunca sabe os nomes das atrizes) em um contexto em que eles sequer tiveram Paris, sequer tiveram uma semana de pura aventura e amor romântico seguida de uma separação teatral por motivos que envolvem a chegada dos alemães e o bem do povo tcheco. Em Manhattan não há guerra, Paris, Casablanca, aliados, Resistência, tráfico de armas, música de casal ou Humphrey Bogart e Paul Henreid disputando Ingrid Bergman. Tudo que há é muito mundano, lanchonetes, supermercados, televisão, dever de casa, um Woody Allen calvo insistindo para que a namorada vá para Londres ou fique com o “little Tommy”, casais que se bagunçam apenas porque não têm nada além de seus problemas pessoais para entretê-los. Como diz o protagonista no final, “a story about people in Manhattan who are constantly creating these unnecessary, neurotic problems for themselves because it keeps them from dealing with more unsolvable, terrifying problems”. Aqui, os suspeitos de sempre são o tédio, a gratuidade da vida, as pequenas vaidades (meu livrinho, minha privacidade, se gostei ou não daquela exposição).

Eu sei exatamente o que eu queria fazer em Casablanca. Se me soltarem, como em A Rosa Púrpura do Cairo, no meio de Casablanca, eu sei exatamente o que quero fazer. Já em Manhattan, tão mais próximo, meio que tanto faz. Entre o professor desleal, a jornalista pedante, o roteirista cujo grande ato de heroísmo consiste em pedir demissão, a mulher largada — levemente superior por falar baixo e aparecer tão pouco —, e a colegial, ironicamente a única adulta do filme, praticamente tanto faz.

Se me soltarem em Manhattan, eu toco aquela gaita da Tracy e talvez procure o “little Tommy” só porque sempre quis saber que cara ele teria.

Mais sangue na pele

No ano passado eu tinha 27 anos. É estranho pensar que no ano passado eu tinha 27 anos porque hoje, veja só, eu tenho 28. Aos 27 anos me ocorreu pela primeira vez, em interações sociais com homens, que eles me consideravam uma mulher mais velha. Eu sabia que isso aconteceria um dia, mas confesso que achava que teriam a cortesia de me esperar completar 30, ou 40.

De modo geral, mais velha é uma expressão que só faz sentido em relação a um determinado referencial, mas nesse caso não é preciso referencial algum porque eu senti isso em interações com um homem de 24 e com outro de 42, de modo que mais velha nesse contexto parece ter um sentido absoluto. Talvez o seu parâmetro de mais velha não seja 27, mas qualquer que seja ele, imagino que também seja absoluto. Uma mulher não é mais velha em relação a um homem ou a outra mulher ou mesmo a algo (aprender piano, japonês, competir na Olimpíada, ter filhos), ela é mais velha, ponto.

A primeira dessas interações foi no trabalho. Em conversas com esse colega de 24, ele já tinha mencionado algumas vezes a namorada. Em mais de um contexto, ele ressaltou que ela era mais velha do que ele. Em outros, ressaltou apenas que ela era mais velha. Um dia, eu conheci a moça e soube que ela tinha 27 anos. Eu não lembro de ter namorado ninguém exatamente da mesma idade que eu e sempre achei que depois dos 20 a gente passasse a contar as diferenças por faixas de cinco em cinco. Depois dos 30, de dez em dez. Isso até os 70, quando retomaríamos a contagem de cinco em cinco para então aos 90 voltarmos àquela fase em que é completamente aceitável ignorar uma pessoa seis meses mais velha ou mais nova que a gente.

Eu sempre presto muita atenção a informações descabidas que sei sobre alguém. Por exemplo, ricos simplões que assinam com sobrenomes do meio e adiam o jantar para o dia 20, mas que de algum modo eu sempre sei de quem são filhos, onde estudaram. Ricos que estão sempre escondendo que são ricos enquanto frisam que são ricos. No caso dos ricos, eles são muito transparentes, isso você tem que conceder a eles, mas é só um exemplo de como coisas muito pequenas que você magicamente sabe sobre uma pessoa sem lembrar ao certo como ou por que geralmente dizem bastante sobre ela. No caso desse meu colega, eu não sabia quase nada sobre ele, mas sabia que a namorada era mais velha.

Na segunda interação, eu estava conversando com esse homem de 42 anos que, enquanto dava ligeiramente em cima de mim, ressaltava que não gostava de menininhas. Posteriormente, eu soube que ele teve algo com uma moça de 24 de modo que só posso imaginar que alguns homens queiram um troféu por não ficarem numa porta de buffet esperando o momento exato em que as moças completam 18.

A armadilha deste texto é que eu só posso escrevê-lo enquanto não sou mais velha. Alguns uns anos atrás, uma moça fez um vídeo em que falava sobre ser feia. O vídeo era bastante bom, feminista etc. Mas ela só pôde gravá-lo porque não era nem um pouco feia e porque tinha um namorado igualmente bonito. (Alguém podia, inclusive, estudar essa presença fantasmagórica dos namorados de youtubers mulheres). Do mesmo modo, eu só posso escrever sobre ser mais velha enquanto não sou mais velha. Enquanto comentários do tipo “mas você? velha? kkk” estiverem garantidos para mim. Depois disso, até posso, mas vai significar outra coisa e é provável que não escreva. Espero que escreva, mas é provável que não.

Eu tenho essa teoria de que você sabe que está ficando “mais velha” quando começa a ouvir elogios mais efusivos à sua aparência. Quando as pessoas, homens e mulheres, te elogiam demais, em parte surpresas por você ainda não ter entrado em decomposição, em parte por uma percepção de que te achar bonita é fruto de alguma superioridade moral da parte delas, de um certo refinamento estético e moral inatingível à maioria. Quando algumas mulheres “mais velhas” do meu trabalho são elogiadas eu por vezes tenho o ímpeto de buscar um banquinho para que o elogiador prossiga com o discurso.

Também me parece que as bonitas mais velhas são ainda mais padrão do que as bonitas mais novas. Entre as mulheres mais novas ainda é possível tolerar pequenos desleixos e esquisitices. Moças quase gordas, quase baixas, quase estranhas por vezes são consideradas bonitas. Entre as mais velhas, a tolerância só cai.

O elogio à mulher mais velha tem ainda um tom prescritivo. Quando elogiam uma jovem, eu nem sempre tenho a impressão de que o conteúdo real da conversa seja “e você, querida, devia ser como ela”. Quando elogiam uma mulher mais velha, fica implícito que com um pouco de esforço e dignidade todas deveríamos ser como ela.

Um dos raros benefícios de ser uma mulher heterossexual é justamente que os corpos dos homens são menos regulados pela publicidade, pela higiene, por tudo. E que o meu desejo é menos prescrito. Ele é reprimido, mas quase não é prescrito. Ninguém me ensinou qual o diâmetro exato de uma coxa desejável. As mulheres, quase todas, mesmo as mais inteligentes, estão tentando ser a mesma coisa, ou uma das poucas dez ou vinte coisas que é permitido ser enquanto mulher. Entre os homens, há uma gama bem maior. Há muitas formas diferentes de ser feio e de ser bonito. Sendo mulher e heterossexual, eu perco a liberdade sobre o meu corpo e essa de fato é mais essencial, mas por enquanto eu ainda tenho acesso a uma variedade maior de belezas e feiuras menos disciplinadas.

Algumas bonitas mais velhas têm uma beleza mais voltada para a elegância do que para a sensualidade. Temo que isso não indique coisas boas, não indique que aqui é possível uma redução do domínio do corpo. Acho que não é nada disso. Acho que há um jeito polido de ser bonita mais velha e ele inclui um reconhecimento de que o sexo já não é seu forte e que você está em paz com isso. Talvez o aspecto mais violento do machismo para mim pessoalmente seja como se exige que as mulheres passem pelas coisas em paz. Reconhecer que coisas feitas para te atingir te atinjam é de algum modo humilhante. Parte da nossa aversão por mulheres plastificadas vem daí. É um moralismo. A mulher mais velha que não abre mão de sua sexualidade docilmente cai no ridículo. As que tentam se manter na juventude porque esse parece ser o único caminho para permanecer no sexo, também caem no ridículo.

As pessoas falam bastante sobre como mulheres jovens funcionam como troféus para tantos homens mais velhos. Mas o simples fato de ser casado com uma mulher de sua própria idade confere a um homem de 50 toda uma aura de superioridade, elegância, legalzice, caráter, estabilidade, inteligência, maturidade. Ver o seu marido, da sua idade, ser considerado um cara-tão-bacana somente por permanecer com você não deve ser a coisa mais lisonjeira do mundo. Se a jovem é um troféu, não seja por isso, a velha é uma medalha de escoteiro.

No carnaval, Alessandra Negrini causou comoção nas minhas redes sociais vestida de noiva num bloco da rua Augusta. Os comentários, todos elogiosos até onde vi, eram muito esclarecedores do que se espera de uma mulher mesmo nos círculos brasileiros menos (mas ainda muito) misóginos. Uma moça que eu sigo disse que ela estava maravilhosa, que estava tonificada sem estar malhada, com cara de nova sem estar preenchida, jovem sem estar menina, magra sem estar esquelética. Era uma lista realmente longa de coisas que ela estava assim sem estar assado, mas a própria lista de oposições deixava claro que ao tentar ficar assim aos 45, era quase impossível não ficar assado. Por um segundo, por aquele segundo, Alessandra Negrini estava se equilibrando em um lugar impossível. Um passo a mais e ela teria de escolher se ficava malhada ou se deixava a flacidez sobrevir, se seria velha ou preenchida, isso ou aquilo, para qual polo inevitável e indesejável penderia. Quando isso acontecesse, nós esqueceríamos Alessandra Negrini sem que ninguém pudesse dizer que desprezamos mulheres mais velhas porque naquele carnaval nós achamos Alessandra Negrini lindíssima.

Quando eu era mais nova, na verdade até outro dia, era misterioso para mim que adolescentes e pessoas de vinte e muito poucos fossem consideradas mais bonitas do que as de 30 ou 40. Com trinta me parecia que as pessoas tinham um domínio melhor do corpo, além de melhores maneiras, assuntos e hábitos de higiene. Mas é o tipo de coisa que talvez você só seja capaz de perceber quando perde. Há uns meses, eu estava na fila de espera do médico e tinha esse garoto muito novo e muito bonito. Olhando para ele, eu entendi que a graça das pessoas jovens, ou pelo menos a graça das pessoas jovens para mim, é que elas parecem ter mais sangue na pele. Elas ficam vermelhas espontaneamente, depois desficam, ficam de novo. Um jogo de sangue que sobe e desce com o calor, com a risada, com quase qualquer coisa. Tem um filme só sobre isso: é esse “Os Anarquistas”, com a Adèle Exarchopoulos. O filme é realmente terrível de modo que você terá duas horas para notar o que digo.

Perfeitamente bem

Existem basicamente duas formas de superar a lembrança de alguém. Uma é pelo método da extração, a outra pelo método da incorporação. Na extração, naturalmente, você tenta retirar os resquícios da pessoa. Um livro pela casa, um filme que viram, um lugar. É muito útil quando o lugar é sua própria casa porque casas e bairros, você perceberá no processo, são extremamente descartáveis. Pode ser exaustivo no caso de histórias mais longas e antieconômico se aplicado a sucessões de histórias curtas, portanto eu sugeriria que você se mantivesse nas médias. O importante aqui é que a técnica é reconhecida e funciona perfeitamente bem.

O método da incorporação é mais curioso e, num primeiro momento, talvez soe pouco intuitivo. Uma vez tendo falhado em ser o que a outra pessoa queria, o neurótico pode se concentrar em ser a outra pessoa. Despudoradamente, você passa a fagocitar tudo que te interesse no outro de modo que aquilo passe a ser você e, ao ser você, deixe de te interessar. Não é exatamente esquecer, é banalizar. Essa é uma técnica menos reconhecida pela comunidade científica, mas que também funciona perfeitamente bem.

Perto da ação

Hoje eu mandei um email para um ex-professor tirando uma dúvida sobre parâmetro pro-drop. Parâmetro pro-drop: em algumas línguas, você tem como suprimir um pronome quando ele pode ser inferido no contexto, em outras não. No português: sim. Inglês: não. Inglês: cada vez mais sim, por conta de aloprações dos falantes. Português: cada vez mais não, também por conta de aloprações dos falantes, que vão abandonando o uso de casos verbais inteiros.

Discutimos um pouco por email, ele foi mais simpático do que eu me lembrava em sala de aula, encerrou frases com kkk. Ele estava certo, eu errada, mas ele encerrava com kkk.

Um mês antes, mandei um email para um outro professor, tentando lembrar o nome do linguista que falou sobre como, antes de abrir a boca, o falante precisa esquecer que tudo já foi dito. Tudo já foi dito: você esquece, por isso fala. O conhecimento pleno encerraria qualquer possibilidade de diálogo. Ele não me respondeu, nem consegui lembrar sozinha.

Outro dia um amigo postou uma citação que dizia: “não saber do que se fala é uma grande vantagem, da qual não se deve abusar”, ao que eu respondi que éramos jornalistas justamente para ampliarmos nossa cota disso aí. É uma das coisas que vou sentir falta no jornalismo, quando ele terminar pra mim, mas hoje não saberia dizer se isso realmente me importa ou se é apenas um ambiente viciante para mim.

Aquilo que Seinfeld diz sobre homens em volta de um sujeito consertando o carro, fazendo algum trabalho manual. Eles querem ajudar? Querem fazer? Não, eles só querem estar ali, perto da ação. Por muito tempo eu olhei com incompreensão para jornalistas que faziam carreira em atividades francamente abestalhadas. Não podiam fazer algo menos estressante? Mais bem pago? Menos inseguro? Sem plantão? Eles não estavam fazendo nada que valesse a pindaíba dessa atividade, por que continuar? Porque querem estar perto da ação, seria minha resposta atual.

Permanência do objeto

Antes de esquecer alguém é útil esquecer o conceito de permanência do objeto, passar a agir como uma criança para quem uma pessoa com um lençol na cara simplesmente deixou de existir. Muito cedo a criança decide puxar o lençol e a brincadeira funciona apenas como encenação, uma piada da criança com os tempos em que desejos eram contidos com barreiras de lençol. Mas não puxe o lençol. Você, com as suas mãozinhas.

Antes de começar a levantar às seis é útil esquecer o conceito de vida social. As pessoas apinhadas na rua durante sua volta para casa talvez esperem ônibus para lugares distantes. Você ouviu algo sobre o engarrafamento nesse horário ser tão intenso que elas não têm outra opção senão esperar os búfalos passarem.

Você não. Você faz cálculos como: se de Campos Elísios eu ia a pé para a Santa Cecília, dali para a Bela Vista são só dez minutos a mais. Para a Paulista são mais dez e até a Estados Unidos é agradável descer a Augusta então já estamos em Pinheiros e os sapatos comprados há dois meses parecem tão rotos quanto todos os outros.

Antes de cortar o cabelo é útil esquecer o conceito de liberdade individual. Entregar-se com muita resignação a uma pessoa que está certa de saber o que é melhor para você, como disfarçar o recuo do seu queixo, o formato um pouco errado da testa que eu não tinha reparado, mas agora que você falou. Você senta, balbucia qualquer coisa e se acalma na certeza de não estar sendo ouvido, na certeza de que o profissional diante da cadeira já calculou o corte perfeito e, gato escaldado, sabe que ninguém pede o que de fato quer.

Você sai muito feliz, com metade do cabelo que tinha num formato imprevisto. O queixo, a testa, parecem todos nos mesmos lugares, mas o ombro está exposto e você foi agraciado com menos uma decisão.

Você, o mesmo

Não pode ter filho para dar um sentido pra sua vida triste. Não pode buscar uma outra pessoa. Não pode buscar religião, trabalho, sei lá. Melhor dizendo, até pode, mas não para dar sentido à sua vida triste. Tem que buscar (é bom que busque) o filho, o amor e a religião por um desejo daquelas coisas em si —quem deseja as coisas em si? Sua própria existência tem que vir com um anexo de sentido, é uma vida que se explica por si mesma, uma autoestima que se cria no vácuo e se retroalimenta. Não pode se preocupar com a opinião alheia. Você, essa estrutura hermética e autossuficiente. Quando você fala, é importante que seja o mesmo diante de qualquer pessoa. Qualquer pessoa ali na frente: você, o mesmo. Passa mãe, irmão, patrão, você o mesmo. E fica como um falar sozinho já que o da frente não importa.

Desculpa por hoje

Vou embora em seis meses.

Naquele ponto em que você começa a decorar pequenos tiques da pessoa, como um jeito solene de alongar os músculos do rosto antes de beber água antes de colocar o aparelho de apneia antes de esticar o braço para o lado no travesseiro e te chamar para deitar ali num gesto um pouco burocrático, quase um flanelinha indicando onde estacionar a cabeça.

Vou embora em seis meses.

Espero que seja feliz e que dê tudo certo, quero que faça o que for melhor pra você.

(exceto que quero que faça o que for melhor pra você num raio de duas baldeações de metrô da minha casa. Vejo coisas maravilhosas pra você em Itaquera).

Já no primeiro mês, ele cai sete metros escalando uma rocha. Está prestes a passar a corda pelo próximo mosquetão quando, no pior momento possível, pimba.

I’ve always wanted to say ‘go there, break a leg’ in a context in which the other person could actually end up breaking a leg.

Internação, cirurgia, pinos, placas de titânio que você pode ficar tranquilo que não apitam no detector de metal do aeroporto, pizza no saguão asséptico, a mãe que chora ao telefone. Do quarto, ouvimos passeatas da direita, fazemos piadas sobre xixi no papagaio, o artefato plástico que acaba virando vaso de flores.

— É maravilhoso que eles contratem nutricionistas e façam questionários pra depois servir torrada, geleia e suco industrializado.

— E em porções tão pequenas.

A doença é conservadora. O médico quer saber o que sou dele. Sou de uma ONG que acompanha estrangeiros desamparados em hospitais.

Seis semanas depois, tirar os pinos. O moço da administração de leitos quer saber a filiação do paciente. Moço, era bonitinho, chamei pra jantar, as coisas correm bem, não sei o nome do pai.

Luis.

Uma dança de gestos que vai ficando um pouco mais coordenada. A chave de braço disfarçada de abraço que te dá quando quer dormir mais meia hora, o ponto do filme em que é preciso mudar o cachorro de lado pra não doer o pescoço.

There is no such a thing as romantic experience; there are romantic memories, and there is the desire of romance —that is all. Our most fiery moments of ecstasy are merely shadows of what somewhere else we have felt, or of what we long some day to feel. Strangely enough, what comes of all this is a curious mixture of ardor and indifference. I myself would sacrifice everything for a new experience, and I know there is no such thing as a new experience at all.

Cinco anos de Brasil e pronuncia todas as palavras com x como se fosse equis. Chama tênis de sapatilha. Não acha graça do verso de Drummond “eu também já fui brasileiro, moreno como vocês”.

Fala um português tão bom que, quando calha de cometer um erro, demoro a entender, por bobo que seja, porque não o espero.

Vinte e cinco anos de Estados Unidos e não viu um só filme com Marilyn Monroe, Audrey Hepburn ou Doris Days. Não identifica piadas com The Sound of Music. Nunca viu um musical.

Mesmo agora seu pé continua inchado e com essa cicatriz você até parece uma criança exposta. Podemos te chamar de Édipo, o de pés inchados.

Ela é dançarina quando saio pro trabalho às sete da manhã. Um lado da cama é roubado, passo a dormir no outro mesmo sozinha, para ressentimento geral do cachorro. Ideias de pautas que damos um ao outro, a comunhão possível entre repórteres.

Sinto tantas coisas boas por você. Agora, por exemplo, só um contentamento por você existir em algum ponto da cidade. Da última vez que te vi você estava cheio de sono, mas foi muito obediente quando te pedi para se virar para mim um pouco, pra eu mexer no seu rosto antes de levantar. Você virou de um jeito que só posso usar a palavra obediente. Foi engraçado, e me deu uma onda de carinho.

Não sou boa de apresentar pessoas. Os únicos amigos que o conheceram o fizeram porque estavam hospedados na minha casa, ou moravam comigo, ou chegaram na hora errada. Para os outros, era minha Odette. (cheguei a falar isso a ele. A piada sobre Odette, as coisas horríveis que eu sou capaz de falar para uma pessoa).

Um Natal que antecipa separações, cada um na sua Bahia e um elefante na sala: não pretende voltar para mim depois das férias.

(um ano antes, o que eu fazia? trocava mensagens com um paquera virtual que passava o Natal na casa dos pais, em Santa Maria da Feira. O cocker spaniel Che caia na piscina na noite do dia 24 e morria congelado, incapaz de nadar pra fora dela).

Estou com saudades suas. Ridículo ter que terminar com você para me dar conta disso, mas pelo jeito eu sou um pouco ridículo. Não sei qual era a barreira que eu tinha, mas depois de umas 24 horas de alívio, o que tenho sentido é perda estúpida, arrependimento. Eu gosto de você, gosto de como você pensa e fala, seu humor e snort-laugh (que me agradou desde o nosso primeiro encontro), sua cara de surface-antipatia; fiquei um tempão agora olhando todas as fotos disponíveis de você nas redes, como um creep de internet. Não sei por que de repente vem essa vontade de estar longe, porque o resto do tempo me sinto tão bem com você. E, bom, não sei como é possível oscilar de um extremo para outro desse jeito, mas o que sinto agora é que quero te namorar, não quero outra coisa.

Não sei se você quer, agora. Se não, vou entender. Não vou gostar, vou achar triste, mas talvez até melhor, ou pelo menos mais sensato. Tenho medo de muita coisa. Sobretudo de te magoar mais do que já te magoei com minha repentina paranoid-making frieza, porque não a entendo, não sei de onde vem. E, como todos sabemos, eu vou embora —talvez fique até maio agora, porque parece que meu livro sai um mês mais tarde, mas vou embora— e tenho medo de te magoar à toa por uma coisa por força temporária. Ou, bom, de me magoar. Sentindo o que senti essa semana, também fiquei com medo do meu attachment a você, se faria sentido aumentá-lo, aumentando a possibilidade de all-around mágoa quando eu for embora, se continuássemos até lá.

É muito medo e muita neurose e dúvida. A única clareza que tive ao longo da semana é que não gosto de não estar com você. Queria ter mais clareza. Acho justo você querer mais. Sei que gosto de você e que a relação que tínhamos é sem duvida a melhor que já tive em muitos sentidos. Mas eu também tenho medo de minha própria capacidade de ficar distante assim do nada. E bom, a verdade é que ela não é uma total novidade pra mim.

Quando eu tinha seis anos, ganhei um porquinho-da-índia. Que dor de coração me dava porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão! Levava ele prá sala, pra os lugares mais bonitos mais limpinhos. Ele não gostava, queria era estar debaixo do fogão. Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas… O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

Modesto boletim de perdas de um relacionamento breve: um ventilador, um guarda-chuva e duas biografias do lado dele. Um paletó, outro guarda-chuva (esse em melhor estado) e Um Copo de Cólera do meu.

— Fui escalar e encontrei o Jorge lá, junto com o cara que estava fazendo a minha segurança no dia da queda. A minha narrativa da queda estava errada esse tempo todo! Descobri quando perguntei pra eles o que viram. Me dei conta de que o cara, Luiz, apesar de não ter a culpa exatamente, podia ter evitado o acidente se fosse mais experiente. Estou um pouco perturbado porque me dei conta de que eu estava confiando minha vida em gente que eu sequer conhecia.

— Mas isso é parte da beleza da escalada, não? Aquilo que me falou sobre desconhecidos fazerem as vias e você basicamente confiar que fizeram direito.

— As vias tudo bem, mas não dá para fazer uma escalada perigosa como aquela com um desconhecido inexperiente. Eu não estava apreciando os riscos corretamente.

Como sou uma pessoa especialíssima, um artigo raro e delicado, ele terminou comigo duas vezes em um mês, uma por chat de Facebook após dias me tratando com burocracia enquanto eu viajava para uma pauta, outra por email, do saguão do aeroporto, antes de embarcar para o Natal. Na véspera, dividimos um ceviche que mal dava pra um, tomamos pisco sour e mezcal. No dia seguinte, acordei com ele me olhando como se eu fosse pouco menos do que uma total estranha. Suponho que se eu não fosse tão querida podia ter recebido um saco de bosta por Sedex à guisa de despedida.

É engraçado pensar em como nos recuperamos dessas coisas —englobando nessas coisas desde namoros breves desses que a gente se sente um Pedro da Maia rebaixado por não superar em dois tempos até histórias sérias e longas, dessas que não sei se terei—, e numa velocidade impressionante, mesmo os mais lentos entre nós. Outro dia morreu uma funcionária do jornal, uma espécie de datilógrafa faz-tudo. Em seu obituário, constava que ela permaneceu solteira a vida toda, fiel a um amor desencontrado da juventude. Bullshitagem. Ela apenas se afeiçoou esteticamente à solidão, à ideia de uma datilógrafa de jornal que não consegue virar a página.

Por outro lado, também é verdade que não nos recuperamos. Fitzgerald em The Crack-Up: A man does not recover from such jolts —he becomes a different person, and, eventually, the new person finds new things to care about.

Ele não falava de amor, mas de como, na faculdade, teve de abandonar o projeto de ser um homem que manda em homens para ser um mero escritor. Since that day I have not been able to fire a bad servant, and I am astonished and impressed by people who can.

Nada temos a temer, exceto as palavras. Os gestos ainda não são gravados e arquivados. Sobre eles, a interpretação é mais arredia, a memória, mais piedosa. E somos repórteres. Eu sempre digo: sai da frente com esse infográfico. Se você não conseguiu me explicar algo em palavras, não é um desenho que irá salvar.

Se você não fala as coisas, é como se elas não tivessem ocorrido. Um gesto precisa que alguém venha por cima e fixe o sentido dele. Senão ele parece falar por si, mas só por uma semana. São as palavras que vão criando os sentimentos. Você fala “eu gosto de você” e isso passa a existir, é um verbo performativo. Ou o contrário: fala “eu gosto de você” e aquilo não se sustenta, a frase te soa capenga. Mas é preciso dizer, soltar as palavras no frio da conversa para ver se elas solidificam ou esfarelam; um pouco como fazer vidro. Ninguém vai dizer que é fácil pegar as palavras, crias suas, e atirar nesse mundo sem saber o que serão delas.

(em jornalismo, temos um termo interessante: chama-se legenda para cego. legenda para cego é quando o redator faz uma legenda que descreve a foto, em vez de adicionar informações a ela. há uma foto de uma mulher no parque, sentada num banco e a legenda diz: mulher no parque, sentada num banco, em vez de informar quem é a dita cuja, quantos anos ela teria, que parque seria esse, o que estaria fazendo ali sentada, porque tiramos essa foto. mas a descrição não é reprodução, é decifração, e eu particularmente adoro legenda para cego. existem duas modalidades de declaração amorosa, a legenda para cego e a fabricação de vidro).

Actually we did not have the feelings we said we had until we spoke them —at least, I didn’t; to phrase them was to invent them and own them. We whipped our strangeness and newness into a froth that resembled love, and we dared not play too long with it, talk too much of it, or it would flatten and fizzle away.

Desculpa por hoje. Não queria estar repetindo já essa coisa de ficar de repente distante e frio. Por trás tem algumas das mesmas razões. Mas a verdade é que tem outra coisa também, que é que acho que não posso retribuir o que você disse sentir por mim. Eu mencionei motivos racionais, mas me parece que aquilo talvez não devesse ser tão racional, e que a minha própria busca por desculpas significa alguma coisa. Sinceramente não sei como posso oscilar tão dramaticamente como você tem visto, mas não me parece justo com você, e também me parece que talvez eu precise aceitar essa inconstância como sinal de que não vai dar certo entre nós. Não queria me precipitar, nem queria terminar com você por email, mas também não queria te deixar no limbo que nem da última vez —por ainda mais tempo, já que vou estar fora durante três semanas. Me sinto terrível tendo pedido para você voltar comigo só para terminar pouco depois. Acho você especial e não podia não tentar de novo; realmente achava que podia funcionar, e passei momentos muito bons com você nesse tempo. Mas acho que eu não sinto o que precisaria sentir para a gente continuar. Desculpe-me de novo por te fazer passar por tudo isso.

— Não sei de que cor são seus olhos. Almir Guineto tem um samba que ele fez numa mesa de bar, pra fugir de uma saia justa. Ele sempre passava a mesma cantada, dizia pras moças que elas tinham uns olhos lindos. Um dia, uma mais esperta fechou o olho na hora e perguntou: mas de que cor são meus olhos? Os seus não dá pra saber, mesmo abertos não dá pra saber.

— Prometo não te colocar numa situação em que seja crucial saber a cor dos meus olhos.

— Se te perco na praia e saio te descrevendo, é a primeira coisa que perguntam.

Ambar.

Almir Guineto não pensou numa resposta pronta para essa cor.

Bianca, Nanni Moretti. C’è un uomo che ti pensa ancora, lo capisci questo? A conversa na rede em que falamos de ex-namorados, a impressão de que, de um jeito ou de outro, ele sempre sai por cima das situações. A moça que ficava na janela e escrevia sobre cavalos. Foi ela quem terminou e ainda assim é ela quem “continua tendo problemas”. A que tenta lhe cooptar os amigos e questiona o motivo do término três anos depois do ocorrido. “E, poxa, foi um namoro de um ano”.

O que tenho a depor de minha parte? O namorado de adolescência, os virtuais, o que teve leucemia e muito cedo perdeu a conexão com o real, o que hoje é amigo tão próximo que virou minha família, o que me dispensou em dois meses por mensagem de texto quando eu achava que tinha encontrado a minha pessoa. Numa revista semanal, Contardo Calligaris dizia: a gente devia se divorciar por WhatsApp. A descrição não é proposição, é constatação.

Aquela cena em que Michele diz pra Bianca: não vamos começar nada porque um dia, quando eu já estiver tranquilo, eu estarei aqui no terraço, apenas aqui no terraço, você vai se aproximar de mim, vou te sentir solene, vai começar a dizer “precisamos conversar, acho que não está dando certo”.

No começo, “eu gosto de você” significa “eu gosto de você”. Passados uns meses, “eu gosto de você” significa “eu não te amo” e até evitamos dizer.

Você pode tentar remendar isso com um olhar mais penetrante, com uma pausa dramática antes de “gosto”, mas leia de novo o que eu disse sobre gestos.

Um prazo assim estimula neuroses e as nossas preenchem com folga os três quarteirões que nos separam. Mas é também um alívio: você tem uma duração definida, é mais fácil escrever dentro da retranca. O que você quer que signifique? Você quer fazer uma história bonita, mas quer levantar rápido depois. Philip Roth diz que nada de mal pode acontecer a um escritor, tudo é material. Mas muita coisa pode acontecer a dois.

Defeitos: obcecado pelo próprio corpo. Se fosse possível, eu preferiria não ouvir de novo o quanto todo mundo te acha mais novo do que você realmente é. Isentão que acha que não é isentão apenas se faz de isentão para ter mais credibilidade. Se relaciona com os assuntos como se fossem apenas notícias. Faz uma doação generosa para a caixinha dos porteiros e fica conferindo se os vizinhos seguiram O Exemplo. Toma aqui o seu troféu por não se expor em redes sociais. Tem um cheiro bom que se prova intransferível para superfícies como travesseiros e roupas —isso depõe contra alguém que não se dá ao mundo, que retém as coisas.

Qualidades: Não faz aquela cara de aparição da Virgem que alguns homens fazem diante da nudez feminina. É possível deixar celulares desbloqueados e computadores sem senha por perto. Gosta de cachorros e plantas, embora prefira não cuidar deles. Poucos amigos, discreto como nunca serei, nenhuma necessidade de encher a vida de figurantes, nenhuma necessidade de fingir saber o que não sabe, não falha em reconhecer responsabilidades. Inteligente, razoavelmente engraçado e constrangedoramente bonito.

As a teenager, I started to grab that it was relatively easy for people to recognize my qualities or even to like me, but something on me (or something I lack) would prevent them to go any further. There is something on me that wouldn’t allow them to take the next step —which is not a step anymore, it’s more of a fall. I know that I may sound both pretentious and victimist for saying that is not hard for people to like and admire me, and yet I’m somehow beyond being loved, but I don’t care about how I sound. I just don’t want you to doubt your own capacity to love just because you couldn’t love me. Nobody could, sweetpie. I’m kind of a shadow zone for other people’s affections.

Tem gostos interessantes por serem indistintos. Não dá para saber exatamente do que ele gosta porque não usa seus consumos culturais como marcadores de personalidade. (que tipo de pessoa é esse?). Eu diria que ele gostou de Out of Sheer Rage, de Geoff Dyer, mas não me sinto confortável dizendo que ele goste especificamente de um autor, ou do que quer que seja.

Está sempre se perguntando será que a Ju vai continuar saindo comigo se eu tirar a barba, será que a Ju vai continuar gostando de mim depois de ler meu livro. Até concluir que sim e isso deixar de importar.

Estando com uma pessoa bonita, é difícil saber o que é sua projeção romântica e o que está no objeto. O que é afeto e o que é fria constatação de fatos. É bonito ver um homem forte sentado na sua cama —lendo, engolindo comprimidos misteriosos, procurando o repelente entre os sapatos.

Tem rugas ao redor dos olhos que não consigo identificar de onde vêm. Rugas são rastros de movimentos, mas as dele saem do cantinho do olho, ali onde se alojam as remelas, e partem como ligeiros sulcos até a maçã do rosto. Que movimento é preciso fazer para marcar a pele desse modo? Peço que faça expressões com a cara, mas não consigo descobrir.

Mora há cinco anos num estado de impermanência, num duplex mobiliado com talheres de cabo plástico corroído e móveis de madeirinha clara e aspecto de escritório. Na casa dele, as coisas nunca estão diretamente sobre um móvel, é sempre um paninho e só então os objetos. É paninho, relógio, panhinho, escova de cabelo. Um cuidado de tia um pouco destoante do quadro geral. Para não dizer que nunca escalei nada, escalamos da sala ao quarto do duplex com uma corda. Não sei se fiz por gosto ou pela história, mas a gente raramente sabe.