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Por que nos desentendemos por mensagem de texto?

Minha pergunta de pesquisa é: por que nos desentendemos por mensagem de texto? É óbvio que, dada a centralidade dessa forma de comunicação, todo mundo aqui já se perguntou isso, mas as respostas parecem girar em torno da dificuldade de ler e transmitir tom de voz e expressões faciais, algo que tentamos reverter a base de emoticons e exclamações mais abundantes do que vírgulas. Essa resposta me parece insuficiente e, francamente, abobada, por isso queria ajuda para pensar em algo mais aprumado.

A primeira ressalva lógica em que penso é: nos desentendemos, e agora isso se dá por mensagem de texto. Trata-se de uma coincidência que talvez não implique causalidade. Nos desentendemos, agora isso costuma acontecer por mensagem de texto porque essa é a forma de comunicação não fática mais frequente que usamos, às vezes até com pessoas próximas. Porque conversamos demais por esse meio e porque costumamos criar ou abordar problemas através dele, as chances de nos desentendemos assim crescem. Como a conversa pessoal passou a ser usada como resolvedora de conflitos já postos pelo texto, a disposição das pessoas ao conversarem ao vivo sobre o mesmo problema é outra, o cuidado é outro, o que leva à impressão de que ao vivo funciona quando talvez fosse mais justo pensar que com cuidado funciona, com boa vontade funciona, ou que resolver problemas é menos difícil do que nunca criar problemas.

Mas vamos supor que não seja apenas uma coincidência, que a mensagem de fato aumente a frequência e a gravidade dos desentendimentos. Ainda assim me parece haver respostas mais completas do que tom de voz e expressões faciais. Ao falar em tom de voz e expressões faciais, estamos falando o que, exatamente? Que o texto é intrinsecamente, irremediavelmente deficitário em relação à linguagem oral? Que com os áudios do WhatsApp ou, sei lá, se passarmos a gravar videozinhos no qual faremos todas as expressões e gestos, a questão será resolvida?

Poderíamos dizer que a questão é que não sabemos ler e escrever tão bem quanto sabemos ouvir e falar, o que parece lógico se pensarmos no conjunto da população, mas não corresponde à média das pessoas do meu meio, basicamente alfabetizadas no IRC, ICQ, UOL, MSN e, posteriormente, nas redes sociais, além de serem leitoras de livro ao menos razoáveis. Aprendemos estratégias de leitura e de escrita mais sofisticadas do que a média dos nossos pais porque esses foram desde cedo instrumentos poderosos de sociabilidade. Termos aprendido essas estratégias, todo e cada um de nós estar fluente demais em artimanhas elementares de como construir um texto engraçadinho, perspicazinho, emocionantezinho, talvez contribua para o nosso bode crescente em relação a amigos que postam demais e suas fórmulas fáceis de chamar atenção com textos que parecem berrar o efeito que pretendem causar. As palavras, como todas as outras coisas, sofrem desgaste.

Conclusões parciais: as pessoas se desentendem; as pessoas se desentendem menos quando são mais cuidadosas; as pessoas sabem ler e escrever; a linguagem escrita tem suas próprias ferramentas e independe de gestual e de tom de voz; vídeos e áudios dificilmente resolverão o problema.

Hipóteses para estudos futuros:

Talvez os problemas gerados pelas mensagens de texto estejam mais ligados à falta de controle das condições de recepção da mensagem e a uma tendência a presumir que a outra pessoa lerá nossa mensagem em condições neutras ou similares às nossas. Você escreve uma mensagem levemente bêbado no banheiro de uma festa e dá de barato o quanto o ambiente influencia seu modo de sentir e de se expressar naquele momento, assim como dá de barato que a outra pessoa estará em um estado mental neutro ou semelhante, e não imersa em um outro problema, no meio de uma situação desagradável, de uma conversa mais interessante do que a sua etc.

Se pessoalmente também é possível estar dessintonizado emocionalmente, ao menos existe um ambiente comum e a possibilidade de avaliar o terreno antes de iniciar a interação. Também é mais fácil se desapegar de expectativas e roteiros previamente estabelecidos e se deixar convencer pelo outro quando os turnos de fala não demoram minutos, horas inteiras usadas para solidificar posições.

(no caso de desentendimentos entre casais, talvez seja justo acrescentar que pessoalmente não estamos tão dispostos a interpretar mal alguém em quem pretendemos ter autorização para tocar dali a dois minutos).

Escritores tentam criar e controlar minimamente as condições de recepção de seus textos. Tentam selecionar se o leitor ideal estará com tempo ou apressado, se vai devorar, degustar ou ruminar o texto. O fazem através da extensão, do meio onde publicam, do título apagado ou chamativo, da escolha entre uma linguagem transparente ou opaca, de uma narrativa que empurre o leitor num carrinho de mão e saia em disparada ou que exija que ele caminhe com suas próprias pernas por um terreno movediço. Nós também tentamos controlar essas condições, sobretudo através da escolha entre ferramentas (e-mail pressupõe leitura e resposta mais lentas, WhatsApp pressupõe diálogo etc.), mas trata-se de um controle pequeno e para o qual nos vemos com menos recursos.

Tem a máxima de Montaigne de que metade da palavra é de quem lê, uma proporção que tende a diminuir com o diálogo pessoal, onde aquele que fala tem um poder maior de se fazer entender, pois sente imediatamente as reações de seu interlocutor. No caso do texto escrito, da mensagem de texto, há uma série de circunstâncias que escapam ao poder do enunciador (algo que os americanos chamam de set and setting). Se a pessoa lê sua mensagem no metrô, preocupada com algo do trabalho, ou se lê à noite, no meio das cobertas, são leituras e interpretações e até textos completamente distintos. Para quem pensa que até a literatura pode ser apenas um modo de leitura, e não algo que esteja necessariamente no texto, isso deve fazer sentido.

Outra hipótese, essa um pouco mais fraca: hiperleitura. As palavras ganham mais peso por escrito porque foram grafadas, podem ser lidas várias vezes, soam mais pesadas. Essa é um pouco mais fraca porque, dado o volume em que escrevemos, acho que relemos cada vez menos. Não é como na época do IRC com internet discada e mãe que não era sócia da Telebahia em que nos especializávamos em hiperleitura neurótica ao reler logs de conversas por uma semana antes de iniciar a próxima interação. Você já viu um adolescente de hoje no WhatsApp? A quantidade de mensagens, grupos e conversas a dois que eles administram o tempo todo e ao mesmo tempo? A falta de barreiras financeiras, técnicas e sociais que limitem o falatório descontrolado? Mas isso é uma outra questão porque se trata de uma gente esquisita que vai destruir o mundo de uma tacada. No momento estou mais interessada em saber por que nós, gente limpa e ordeira, não conseguimos nos entender.

Por fim, em uma guinada contraditória e imprevista que aprendi em séries televisivas, tem a questão do tom de voz e das expressões faciais. Mas não é que tenhamos dificuldade em ler ou transmitir por escrito as mesmas informações que esses marcadores da interação face a face transmitem. É que de algum modo esses marcadores não são apenas informações que decodificamos racionalmente, mas ferramentas poderosas de quebra da nossa bolha autocentrada. Pessoalmente, tendemos a querer agradar e a fazer pequenos ajustes e modulações instantâneas nas nossas falas para atingir esse propósito. Isso não apenas não é ruim como é a coisa mais civilizada do mundo. Por mensagem de texto, nos expressamos bem até demais justamente porque são retirados filtros importantes do contato com o outro. O interlocutor se virtualiza virando menos gente e mais projeção. Pessoalmente, o outro não é um avatar irritantemente incapaz de aderir ao seu roteiro, é um termômetro de como suas ideias soam fora da sua cabeça (mal).

Foi tudo um sonho

É uma verdade universalmente conhecida na internet que propagadores de spoiler merecem uma morte lenta e saborosa, quem sabe cozidos em banho-maria no sangue da última pessoa que ousou mudar de ideia.

Difícil pensar em uma coisa que traga mais consenso, mais senso de comunidade e uma revolta mais morninha e confortável do que a crença de que revelar partes importantes de uma trama — quer seja televisiva, literária ou cinematográfica — consiste em uma espécie de crime contra o prazer de quem ainda não terminou aquela história.

Quem dera fosse apenas o de quem ainda não terminou uma história que está se desenrolando aqui e agora. É preciso preservar também o prazer de quem sequer começou, de quem não sabe se um dia vai começar, de quem não tem planos concretos, de quem declaradamente não vai. Aos poucos, ganha terreno a ideia de que cada vez mais aspectos de uma trama são importantes e, portanto, spoilers. Resenhas e até críticas são reduzidas a sinopses alongadas que nada podem concluir ou revelar. Vai se formando a noção de que o direito à surpresa deve ser mantido não apenas no campo da ficção, mas também do jornalismo, da vida em geral.

Durante a Olimpíada de 2016, por exemplo, quando os jogos eram transmitidos por gravações na tevê americana, veículos como a NPR adotaram “alertas de spoiler” para notícias. Ao abrir o site da NPR ou sua página no Facebook, você veria chamadas que excluíam a informação factual (quem ganhou, como foi o jogo) em respeito àqueles que ainda não tinham visto a partida. Os anúncios de spoiler foram comemorados por um público que sentia que esse sim era um veículo que o respeitava. Foi um caso de uma ação caça-cliques entendida como um favor ao leitor.

Assistir a qualquer coisa ao vivo tem um valor em si, uma camada de emoção que não pode ser reproduzida numa gravação, ainda que recente. Você e os atletas, o bairro e todo mundo estão, senão no mesmo espaço, ao menos no mesmo minuto, na mesma página. É uma comunhão possível. Mas qual o sentido de não saber o resultado para preservar o prazer de uma gravação? Me parece um caso em que o fetiche do spoiler se sobrepôs a um fetiche às vezes chamado de jornalismo.

O caso da transmissão da Olimpíada nos EUA foi um fenômeno interessante porque um único canal detinha o direito de exibição dos jogos no país. Esse canal decidiu exibir gravações para acomodar melhor as coisas em sua programação (spoiler: para ganhar mais dinheiro). O efeito que se criou foi o de uma bolha. Ali dentro, naquele pequeno país que são os Estados Unidos, os jogos aconteciam em um horário diferente. Eles efetivamente aconteciam em outro horário. Eles só podiam acontecer em outro horário porque os Estados Unidos são uma grande ilha. Fosse no Brasil, isso talvez não se repetiria. Não se repetiria porque nosso interesse por notícias, pessoas e produtos estrangeiros é outro. Porque somos mais permeáveis. Nos Estados Unidos, no entanto, a NBC conseguiu fazer os jogos acontecerem no horário que bem entendia. Ela conseguiu ajustar o tempo cá — pressionando para que as competições de maior sucesso nos Estados Unidos fossem alocadas em horários que não faziam sentido no país que sediava os jogos, para o público concreto desses jogos — e lá, transmitindo gravações protegidas por alertas de spoilers na imprensa nacional. Puf, eles mudaram o tempo dos jogos.

Com um orçamento mais modesto, mas com grande convicção, os pequenos censores do spoiler também tentam mudar o tempo dos seriados, dos filmes, dos livros, criando o sonho de um presente eterno em que eu possa começar hoje a assistir uma série amplamente vista e comentada em 2007 — digamos, Mad Men — sem saber o que aconteceu. No dia em que esse sonho se concretizar, eu estarei, dizem eles, sendo completamente respeitada no meu direito de consumidora tardia de produtos culturais descartáveis.

Para que isso seja possível, as discussões públicas sobre uma obra precisam ser abafadas. A única graça que esses produtos comerciais que consumimos pode ter, a única coisa que esses produtos que no melhor dos casos são diluições infinitesimais de algo que um dia foi bom podem trazer, que é a discussão coletiva, recebe a amarra do spoiler como um pacto de não agressão entre consumidores passados e futuros. Qualquer discussão, análise, ponderação passa a ser calada em um “por favor, vejam”. De um possível analista, o público passa a ser um mero divulgador do que consome.

A lógica do spoiler estabelece que a fruição de uma obra estaria na surpresa individual com o rumo dos acontecimentos. História boa seria aquela que me surpreendesse, que trouxesse um encaminhamento inesperado para os conflitos apresentados. Mas história boa, por outro lado, seria aquela verossímil, então você precisa me surpreender, porém sendo extremamente verossímil. No limite, são expectativas contraditórias. Puxando demais a sardinha para a surpresa você vai parar na ilha de Lost, onde tudo pode acontecer, inclusive qualquer coisa.

Isso porque se você me inseriu em um universo ficcional coerente, me apresentou os conflitos, me ambientou ali, é possível que eu consiga prever resoluções verossímeis. Porque resoluções verossímeis seriam progressões lógicas. Um dos princípios do drama burguês é justamente isso, a concatenação de acontecimentos: uma cena puxa a outra, como se houvesse ali um imperativo lógico, e não uma mão invisível fazendo dos personagens o que bem entendesse.

Na minha adolescência, filme bom, bom mesmo, era o que conseguia atar esses dois nós. Surpreender sem nocautear a verossimilhança interna. Pense em Efeito Borboleta, ou em O Sexto Sentido. Eram roteiros espertos. Eram obras que você pode matar, enterrar e jogar a última pá de cal no segundo em que desvendar o mistério. Porque não tem mais nada ali. Os filmes são um grande nada com um e aí sacou? no fim. A pessoa que disser que eu estraguei O Sexto Sentido ao contar o fim estará completamente correta. A pergunta é se um filme que pode ser estragado com uma frase merece ser preservado.

Mas no caso de obras (mesmo as rebaixadas, comerciais, dramáticas e vazias) que tiverem um fiapo a mais do que O Sexto Sentido, qual seria o trauma? Burlar a ditadura do spoiler é dizer que a fruição de uma obra pode estar em outra coisa que não seja o enredo básico, o argumento.

Existem muitas formas de fruir uma obra que não incluem a surpresa do fim. Quando o público ia assistir a uma tragédia grega, por exemplo, ele muitas vezes já conhecia a história de cabo a rabo, ou no mínimo sabia o básico, os fatos principais. Na peça Agamenon, de Ésquilo, por exemplo, Clitemnestra mata o marido, enquanto em outras versões é o amante dela quem mata, ela é apenas a cúmplice, ou a mandante. Seria, no entanto, inconcebível sentar para assistir a uma versão de Agamenon em que o próprio Agamenon não morresse, mas saísse de lá sobre duas pernas berrando “por essa vocês não esperavam” ou “foi tudo um sonho”.

Isso porque a graça de uma peça não estava na tensão dramática, em não saber o que vai acontecer em seguida, e sim nas emoções suscitadas e no debate em torno da história. É por isso que o “clímax” da tragédia, por assim dizer, que a liberação da tensão dramática, acontecia muito antes do que o clímax de um drama burguês. Para o espectador do drama burguês, o clímax resolve todos os mistérios da trama, fecha a conta e passa a régua.

Já na tragédia grega, o ápice de tensão era o momento em que os personagens se tornavam conscientes da natureza dos acontecimentos, que se reconheciam, que entendiam seu lugar no mundo. Édipo compreendia que o assassino que ele buscava era ele próprio. Nesse momento, o véu da ironia dramática era subitamente retirado. Ou seja, o público deixava de saber mais do que os personagens (tem essa: nas peças gregas a ignorância muitas vezes estava no personagem. Era ele quem ia se surpreender, não o público).

Depois disso tinha: todo o resto. O embate de emoções que isso causava, o debate. Conte para o coleguinha que Édipo mata o pai e casa com a mãe e você terá retirado um total de nenhum prazer dele em assistir a Édipo Tirano. Mas se contar para o próprio Édipo quem são seu pai e sua mãe, capaz de não ter história.

Concedo que dos festivais gregos para cá alguma água já rolou, mas do drama burguês para cá inúmeras águas rolaram, inclusive a do meu pranto. É verdade que grande parte das obras que vemos e lemos hoje ainda é dramática e, portanto, depende ou pelo menos se beneficia amplamente de um “pela mãe do guarda”. Não estou dizendo aqui que quem reclama de spoiler não sabe consumir essas obras. Pelo contrário: é justamente por entenderem a fragilidade do prazer trazido por essas obras que as pessoas se armam contra o spoiler.

Mas vamos comer esse M&M’s de garfo e faca. Vamos colocar o guardanapo no colo. É isso que fazemos ao nos recusarmos a fugir de spoilers em favor de uma discussão pública sobre uma obra. Sobre obras que, bem ou mal, são o nosso repertório coletivo atual. Vamos observar as notas de carvalho dessa Coca-cola, vamos deixar o Dolly respirar e vamos esperar que, meus sais, algo melhor seja servido.

Atenção significa: atenção

Um amigo me disse que esse texto deveria se chamar “como me viciei em speed”, mas mais adiante eu vou te esclarecer que esse é o mesmo amigo que tem uma agenda organizada de ressacas e drogas, que estrutura o cotidiano de trabalho e até quais amigos devem ser vistos em quais dias (eu, por exemplo, sou uma pessoa da quarta-feira) segundo um cronograma rígido de baratos e contra-baratos, e todos concordarão que a opinião dele sobre o assunto não deve ser considerada.

Faz uns oito meses que passei a tratar déficit de atenção com um remédio que se você apertar bem a bula e perguntar: tens o que é preciso para esmagares minha distração? ele dirá: sou um speed, minha senhora.

Déficit de atenção é um assunto que você pode soltar em uma festa desanimada e sentar de canto para observar as pessoas se engalfinharem. Há quem discuta se ele sequer “existe”; se não estamos hiperdiagnosticando pessoas; se antes não estávamos subdiagnosticando pessoas; se alguém como eu, que malemal é funcional na vida, não poderia lidar com isso de outros jeitos; se por trás do DDA não há um forte discurso moral e uma indústria farmacêutica perversa; se não estamos dopando nossos corpos para uma carga de trabalho excruciante; se não estamos superdimensionando o que uma pessoa é capaz de fazer; se não estamos intencionalmente estragando nossa capacidade de concentração… São todas discussões muito legais que eu resolvi meramente achatar aqui para dizer: elas existem, não as farei.

Não as farei porque elas estão por toda parte, sendo feitas por pessoas certamente mais qualificadas do que eu. Pessoalmente, minha resposta para cada um desses questionamentos seria: sim, com certeza. Mas o que eu quero falar é sobre atenção, sobre drogas, sobre procrastinação. São comentários esparsos que venho fazendo de mim pra mim há algum tempo.

Procrastinar não tem nada a ver com preguiça, com a nossa preguiça ibérica, indígena, negra, com resistência, com banzo, com indolência, com indulgência, com prazer. Procrastinação pressupõe um sofrimento pior do que o trabalho que ela evita. É uma paralisação. Vem de uma consciência prévia de que você vai fazer o mundo e o mundo ainda estará por fazer. De uma insegurança e desânimo. De uma falta de propósito. De uma certeza de não ser suficiente, de não ser bom o bastante, de uma impotência. Não vem de uma recusa, de uma vontade de fazer outra coisa, de ir para a sua vida.

O procrastinador não fecha a planilha e vai ao cinema, ao parque, não dorme a tarde inteira. Ele fica preso ao computador, com o arquivo aberto, se torturando em um jogo de nunca começar, ou de parar o tempo inteiro. As redes sociais, o BuzzFeed, as pequenas emergências, os trabalhos inúteis, a aglutinação de tarefas. Essas são as distrações do procrastinador. São distrações culpadas, sem graça, rapidinhas. Atividades das quais estamos sempre de saída, são sempre dois minutos. São coisas que você não quer de fato fazer, só faz para evitar aquela outra. Procrastinação não implica em DDA. DDA, no entanto, causa uma imensa procrastinação.

Eu comecei a tomar esse remédio depois de muita curiosidade sobre ele e de uma certa desconfiança de que tinha problemas concretos de atenção. Problemas que você pode dizer: todos temos, ao que respondo que sim, talvez “todos” tenhamos. Quase todos temos problemas de compulsão alimentar porque temos, enquanto sociedade, uma relação doentia com a comida e com os corpos. O fato de “todos termos” alguma coisa ou de “então até eu ter isso” não invalida que a coisa esteja aí e que, sim, talvez até você tenha (não te parece um sintomão daqueles isso de as pessoas desmerecerem um sofrimento psíquico dizendo que “se for assim até eu tenho?”. Você se sente acima demais para ter uma doença mental ou é justo o contrário, acha seus sofrimentos aquém de serem reconhecidos, compartilhados, de serem sequer nomeados?).

Talvez quase todos tenhamos problemas de concentração porque estamos nos treinando para isso. Pense em como ensinamos crianças a verem um filme, a assistirem uma aula: é um processo violento, cansativo, prolongado. Não há nada natural em sentar a bunda numa cadeira e se concentrar em algo por duas horas. Conseguimos isso (conseguíamos isso) porque éramos fisiculturistas da atenção, cultivávamos essa atenção. Hoje é o contrário: cultivamos a dispersão, educamos nosso cérebro a olhar para o lado a cada cinco minutos. Só que o fato de um problema ser agravado por questões ambientais não nega sua porção de existência.

Não é minha intenção aqui informar as pessoas sobre DDA, mas talvez seja bom dizer que especialistas no assunto tendem a minimizar a influência desses fatores ambientais no desenvolvimento do transtorno. A opinião hegemônica entre os médicos é a de que nossos maus hábitos tecnológicos podem agravar os sintomas, mas não desencadeiam DDA. O que poderia desencadear DDA num adulto seria abuso de cocaína ou uma concussão, por exemplo.

Atenção significa: atenção. Susan Sontag diz que atenção é vitalidade. Andrew Solomon diz que o contrário de depressão não é alegria, é vitalidade. Não acho que eu tenha problemas de atenção propriamente dita. Quando falo sobre um filme que vi uma vez há dois meses, as pessoas ficam impressionadas com a quantidade de detalhes. O problema, no entanto, é reter essa atenção, sobretudo em coisas que não estejam me dando prazer imediato. Alguns estudos dizem que o adulto com DDA é justamente alguém meio da mão pra boca. Enquanto os outros adultos conseguem antever uma possibilidade de prazer e fazer sacrifícios para alcançá-la, o desatento só consegue fazer o que está gostando naquele momento. Um escravo das próprias vontades.

Eu tenho pra mim que esse seja um problema comum em jornalistas. É de se perguntar se muitos não estão presos a essa profissão justamente pela incapacidade de reter atenção em algo de fôlego. Também pode ser um problema que encontra abrigo ideal na internet, com seu bendito encurtamento entre a produção de um conteúdo (vamos ampliar o conceito de conteúdo até caber aquele seu tuíte semi-engraçado) e o reforço positivo que ela gera.

Existe quase um padrão de texto do “jornalista que tomou Adderall e te conta tudo sobre isso”. Nesses relatos, o repórter diz que o remédio funciona, que ele se viu um workaholic de comédia romântica, só que o resto da vida ficou bastante ruim. “Nada mais tinha graça, só o trabalho”. É um relato muito responsável e não apologético, exceto que remédios para DDA são bastante usados como droga recreativa. Parte do efeito da droga vem do fato de que ela te dá uma leve euforia. Você se sente menos contrariado em enfrentar tarefas chatas justamente porque trouxe sua alegria de casa. No entanto, fazer as coisas que você já gostava de fazer não só continua sendo mais interessante do que o trabalho como também se torna mais interessante do que essas mesmas coisas na sobriedade. Quanto a virar um workaholic de filme, nunca me aconteceu. Talvez por eu de fato ter um problema, talvez por não ter temperamento nem vontade pra isso.

Essa atenção de remédio não é uma atenção normal. Não é uma atenção contemplativa, por exemplo, como costuma ser a pouca atenção de fábrica que possuo. Também não é uma atenção curiosa. A coisa mais angustiante que você pode fazer na sua vida é tomar uma bolinha dessas e tentar meditar. Por outro lado, não é uma atenção suja como a da cocaína. É uma atenção mais limpa, mais… Limpa mesmo. Há um pequeno ganho de autoestima uma vez que você consegue fazer as coisas, mas não há uma redução geral do mundo. Há você mais disposto a agir no mundo, não mais poderoso.

Porque de onde vem o poder que a cocaína te faz sentir? De uma simplificação do mundo. Você, essa pessoa pequena que é você, de repente entendeu tudo. Tudo é muito simples, você virou a Jout Jout. É menos que você tenha aumentado de tamanho do que que o mundo tenha se tornado subitamente transparente. Você é poderoso em um universo desprovido de mistério. Tudo é pão-pão, queijo-queijo. Tudo é como eu não tinha entendido isso antes, como eu não pensei nisso antes. Mas você não efetivamente pensou nada de minimamente sofisticado. Você pensou as coisas mais simplórias e elas foram estranhamente suficientes.

As drogas para DDA não passam perto desse efeito. Trata-se de uma atenção excitada, por vezes irritadiça, mas que não muda o tamanho das coisas.

Quanto às distrações, elas continuam todas lá, só é mais fácil ignorá-las. Na verdade, é mais fácil ignorar qualquer coisa. Você pode sentar em cima do seu pé e só notar que a posição é incômoda duas horas depois. A fome soa como o toque do celular de uma outra pessoa.

Os psiquiatras que estudam DDA (e aqueles que “acreditam” em DDA) tentam arduamente dissociar os tratamentos da doença da pecha de “doping cognitivo”. Para isso, citam pesquisas que apontam que pessoas com déficit de atenção se envolvem em mais acidentes, brigas, têm mais chance de ir para a cadeia, se divorciam de parceiros que não aguentam tanto descaso. Mas se você for ler um fórum de pacientes, quase todos procuraram tratamento por queixas relacionadas ao trabalho e quase todos foram orientados a não tomar o remédio aos fins de semana.

No caso das crianças, fica até engraçado. Os médicos dizem: não é uma droga para a escola, é um problema que afeta vários aspectos da vida. Mas em que horário as crianças tomam? Na hora de ir para a escola. Nas férias, nada de Ritalina. O fato de não ter Ritalina nas férias é constantemente citado para rebater críticas de que o remédio causaria dependência. Nesses momentos, a coisa de que seria um problema que afeta vários aspectos da vida vai tomar um ar lá fora.

Talvez seja um transtorno que afeta vários aspectos da vida, mas somente um que a gente de fato valoriza.

Acho que um dos motivos pelos quais aceitamos melhor que um problema como a depressão de fato exista e seja uma doença é que falava-se em depressão muito antes de existir um antidepressivo. A depressão já estava estabelecida como problema médico muito antes de existir uma solução farmacêutica pronta para ser difundida. Distração? Era um problema moral, comportamental ou só um traço da personalidade do sujeito até que descobrimos um jeitinho químico para isso.

Estranhamente, algumas das pessoas mais ressabiadas com esse tipo de droga são… Os drogados. Existe uma ala de usuários de drogas recreativas que tem bastante desprezo por quem usa as chamadas “drogas de administração da vida”. Soníferos, ansiolíticos, ritalinas. Para eles, a droga é do prazer e fazê-la bater ponto é um tipo de heresia que te coloca no mesmo patamar de alguém que pesquisa quantas calorias pode queimar durante o sexo.

(o termo “drogas de administração da vida” eu peguei emprestado da primeira psiquiatra com quem tentei tratar DDA. uma lacaniana que mobilizou aquela inconfundível linguinha mole de psiquiatra pra me falar em “drogas de administração da vida”).

Uma outra frente anti-Ritalina é composta por pessoas de esquerda que percebem nessas drogas uma tentativa de burlar as limitações do corpo e de intensificar a exploração. De fato, parte do problema de não conseguirmos fazer nosso trabalho deve estar nos nossos trabalhos excruciantes, desestimulantes e sem propósito e na expectativa crescente do quanto um ser humano deve produzir em um dia. Só me parece que nesse barco estamos todos os desprovidos, e o sujeito que consegue remar sóbrio talvez não esteja tão melhor do que eu.

Foi um processo violento e cheio de perdedores esse que nos fez trabalhar em horários fixos e artificiais, em atividades alienadas e desconectadas de nossas vidas e desejos. Me sinto um pouco mal por pavimentar com drogas um atalho para a minha inclusão nesse mundo, e um pouco bem por pelo menos precisar de drogas para isso.

PS: Eu não tomo Ritalina nem Adderall, mas um outro remédio que não foi citado. Falei nesses dois apenas porque são os mais famosos, quase sinônimos da coisa em si. Note que este é um texto leigo escrito por uma palpiteira, possivelmente contém erros e inconsistências. Se você tem ou acha que tem déficit de atenção, procure um médico. Cheirar cocaína é um hábito horrível, evite.

Complexo de Telêmaco

Eu vi, num desses chorumes de internet, uma frase que dizia: be the person your dog thinks you are. O ser humano é um caso quase irremediável. Ele olha para uma coisa bonita e diz: olha que coisa bonita. Em seguida descreve algo horrível.

Você já é a pessoa que o seu cachorro pensa que você é. Você não é uma fraude vivendo com um animal estúpido e iludido. Tentar ser a pessoa que o seu cachorro pensa que você é só mostra que você não entendeu nada da lógica do cachorro, e que subestima demais sua compreensão. O cachorro é um ser muito generoso e de algum modo gosta até de quem confia mais na opinião de transeuntes do que no parecer detido de um especialista. Mas, por via das dúvidas, melhore. É sempre bom dar a quem gosta da gente um pouco de argumento.

*

A dita inteligência do gato reside em se achar muito independente sem o ser. Ele é completamente dependente, mas age como se fosse completamente independente. É completamente domesticado e age como um selvagem. É, em suma, um adolescente.

O cachorro, mais atento, percebe o tamanho de sua dependência e nunca perde de vista esse dado. O cachorro te ensina tudo o que você devia saber sobre afeto. O cachorro entrega o afeto dele não apenas para a pessoa que mais gosta dele, mas para a pessoa que gosta certo, para a pessoa que noves fora vai resolver o problema. É por isso que o cachorro nunca é da criança. Uma das maiores alegrias de ser adulto é que pela primeira vez o cachorro pode — ninguém garante que vai — ser seu cachorro.

Só em filme o cachorro é da criança. Na vida real o cachorro é sempre da mãe, muito raramente do pai. Se na sua casa o cachorro é da criança, é bom ver o que está acontecendo. Análise pra geral agora mesmo, sei lá, recomendo.

Sendo a sua uma casa normal, a análise da criança continua de pé porque é capaz que ela sofra de um fenômeno muito real, embora pouco comentado, que é o complexo de Telêmaco.

Uma das grandes frustrações da criança inteligente se dá no momento em que ela percebe que o cachorro não é dela. Aquele cachorro que talvez tenha sido seu presente de Natal, que todos se referem como seu cachorro, que sua mãe pergunta “já foi limpar o cocô do seu cachorro?”. Pois que deite no estrume, não é seu.

Você ama muito o cachorro e o cachorro é possível que te ame de volta, mas você não previa tantas ressalvas da parte dele. Não previa que ele por vezes, enquanto você tenta acarinha-lo, fugisse para debaixo da mesa, ou que apenas olhasse para o seu pai em franco desespero. Onde você previa total entrega e obediência e um ânimo infinito para aventuras está um cachorro que falhou em assistir aos mesmos filmes que você.

A criança que além de inteligente é budista e iluminada tira grandes lições daí. Usa o cachorro como termômetro para saber onde depositar sua própria lealdade. O resto de nós, no entanto, passa muito tempo se perguntando qual o problema do cachorro, ou o que os meninos de filme têm que eu não tenho.

É conhecida a chateação de Telêmaco por ter vivido tanto tempo entre 108 marmanjos desconhecidos planejando sua morte, mas num pergaminho perdido está essa parte em que ele enfim pergunta “mas por que diabos o cachorro não pode ser meu?”.

Salvar maridos

“Tudo que eu quero é salvar maridos, me traz uns maridos para eu salvar”, diz o meu amigo Marcos, soltando Fanta pelo nariz.

Em nossos almoços, pelo menos uma pauta é repetida: Casablanca. Marcos é psicólogo e acha que gostar de Casablanca é meio caminho andado para diagnosticar um neurótico. O filme, na nossa leitura de almoço, é sobre um sujeito que prefere não viver um amor para preservar sua autoimagem.

No fim da história, Rick tem duas escolhas: pode ficar com Ilsa e conviver com o fantasma do marido perfeito, herói da Resistência, ou pode virar o joguinho e ser ele o herói, salvando a ela e o ao marido e se transformando num abnegado, num sujeito que sabe que a História é mais importante do que os afetos de três pessoinhas jogadas nesse mundo louco.

Ilsa diz: mas e você? E a gente? Rick responde com uma esperteza sem sabedoria: se você ficar comigo, vai se arrepender. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas na semana que vem e para o resto da vida.

O que ele faz é entregar a mulher que ele ama a um marido subitamente desprovido de qualquer graça. É assim que ele, um comerciante, um dono de bar, se projeta acima de um herói de guerra. Eu vejo e revejo Casablanca como um treinamento para que quando chegar minha vez — se um dia chegar minha vez — eu escolha sempre Casablanca a Paris.

Em Manhattan, Woody Allen rebaixa tudo isso quando Isaac diz “we’ll always have Paris” para a namoradinha Tracy (aquela, que nunca sabe os nomes das atrizes) em um contexto em que eles sequer tiveram Paris, sequer tiveram uma semana de pura aventura e amor romântico seguida de uma separação teatral por motivos que envolvem a chegada dos alemães e o bem do povo tcheco. Em Manhattan não há guerra, Paris, Casablanca, aliados, Resistência, tráfico de armas, música de casal ou Humphrey Bogart e Paul Henreid disputando Ingrid Bergman. Tudo que há é muito mundano, lanchonetes, supermercados, televisão, dever de casa, um Woody Allen calvo insistindo para que a namorada vá para Londres ou fique com o “little Tommy”, casais que se bagunçam apenas porque não têm nada além de seus problemas pessoais para entretê-los. Como diz o protagonista no final, “a story about people in Manhattan who are constantly creating these unnecessary, neurotic problems for themselves because it keeps them from dealing with more unsolvable, terrifying problems”. Aqui, os suspeitos de sempre são o tédio, a gratuidade da vida, as pequenas vaidades (meu livrinho, minha privacidade, se gostei ou não daquela exposição).

Eu sei exatamente o que eu queria fazer em Casablanca. Se me soltarem, como em A Rosa Púrpura do Cairo, no meio de Casablanca, eu sei exatamente o que quero fazer. Já em Manhattan, tão mais próximo, meio que tanto faz. Entre o professor desleal, a jornalista pedante, o roteirista cujo grande ato de heroísmo consiste em pedir demissão, a mulher largada — levemente superior por falar baixo e aparecer tão pouco —, e a colegial, ironicamente a única adulta do filme, praticamente tanto faz.

Se me soltarem em Manhattan, eu toco aquela gaita da Tracy e talvez procure o “little Tommy” só porque sempre quis saber que cara ele teria.

Mais sangue na pele

No ano passado eu tinha 27 anos. É estranho pensar que no ano passado eu tinha 27 anos porque hoje, veja só, eu tenho 28. Aos 27 anos me ocorreu pela primeira vez, em interações sociais com homens, que eles me consideravam uma mulher mais velha. Eu sabia que isso aconteceria um dia, mas confesso que achava que teriam a cortesia de me esperar completar 30, ou 40.

De modo geral, mais velha é uma expressão que só faz sentido em relação a um determinado referencial, mas nesse caso não é preciso referencial algum porque eu senti isso em interações com um homem de 24 e com outro de 42, de modo que mais velha nesse contexto parece ter um sentido absoluto. Talvez o seu parâmetro de mais velha não seja 27, mas qualquer que seja ele, imagino que também seja absoluto. Uma mulher não é mais velha em relação a um homem ou a outra mulher ou mesmo a algo (aprender piano, japonês, competir na Olimpíada, ter filhos), ela é mais velha, ponto.

A primeira dessas interações foi no trabalho. Em conversas com esse colega de 24, ele já tinha mencionado algumas vezes a namorada. Em mais de um contexto, ele ressaltou que ela era mais velha do que ele. Em outros, ressaltou apenas que ela era mais velha. Um dia, eu conheci a moça e soube que ela tinha 27 anos. Eu não lembro de ter namorado ninguém exatamente da mesma idade que eu e sempre achei que depois dos 20 a gente passasse a contar as diferenças por faixas de cinco em cinco. Depois dos 30, de dez em dez. Isso até os 70, quando retomaríamos a contagem de cinco em cinco para então aos 90 voltarmos àquela fase em que é completamente aceitável ignorar uma pessoa seis meses mais velha ou mais nova que a gente.

Eu sempre presto muita atenção a informações descabidas que sei sobre alguém. Por exemplo, ricos simplões que assinam com sobrenomes do meio e adiam o jantar para o dia 20, mas que de algum modo eu sempre sei de quem são filhos, onde estudaram. Ricos que estão sempre escondendo que são ricos enquanto frisam que são ricos. No caso dos ricos, eles são muito transparentes, isso você tem que conceder a eles, mas é só um exemplo de como coisas muito pequenas que você magicamente sabe sobre uma pessoa sem lembrar ao certo como ou por que geralmente dizem bastante sobre ela. No caso desse meu colega, eu não sabia quase nada sobre ele, mas sabia que a namorada era mais velha.

Na segunda interação, eu estava conversando com esse homem de 42 anos que, enquanto dava ligeiramente em cima de mim, ressaltava que não gostava de menininhas. Posteriormente, eu soube que ele teve algo com uma moça de 24 de modo que só posso imaginar que alguns homens queiram um troféu por não ficarem numa porta de buffet esperando o momento exato em que as moças completam 18.

A armadilha deste texto é que eu só posso escrevê-lo enquanto não sou mais velha. Alguns uns anos atrás, uma moça fez um vídeo em que falava sobre ser feia. O vídeo era bastante bom, feminista etc. Mas ela só pôde gravá-lo porque não era nem um pouco feia e porque tinha um namorado igualmente bonito. (Alguém podia, inclusive, estudar essa presença fantasmagórica dos namorados de youtubers mulheres). Do mesmo modo, eu só posso escrever sobre ser mais velha enquanto não sou mais velha. Enquanto comentários do tipo “mas você? velha? kkk” estiverem garantidos para mim. Depois disso, até posso, mas vai significar outra coisa e é provável que não escreva. Espero que escreva, mas é provável que não.

Eu tenho essa teoria de que você sabe que está ficando “mais velha” quando começa a ouvir elogios mais efusivos à sua aparência. Quando as pessoas, homens e mulheres, te elogiam demais, em parte surpresas por você ainda não ter entrado em decomposição, em parte por uma percepção de que te achar bonita é fruto de alguma superioridade moral da parte delas, de um certo refinamento estético e moral inatingível à maioria. Quando algumas mulheres “mais velhas” do meu trabalho são elogiadas eu por vezes tenho o ímpeto de buscar um banquinho para que o elogiador prossiga com o discurso.

Também me parece que as bonitas mais velhas são ainda mais padrão do que as bonitas mais novas. Entre as mulheres mais novas ainda é possível tolerar pequenos desleixos e esquisitices. Moças quase gordas, quase baixas, quase estranhas por vezes são consideradas bonitas. Entre as mais velhas, a tolerância só cai.

O elogio à mulher mais velha tem ainda um tom prescritivo. Quando elogiam uma jovem, eu nem sempre tenho a impressão de que o conteúdo real da conversa seja “e você, querida, devia ser como ela”. Quando elogiam uma mulher mais velha, fica implícito que com um pouco de esforço e dignidade todas deveríamos ser como ela.

Um dos raros benefícios de ser uma mulher heterossexual é justamente que os corpos dos homens são menos regulados pela publicidade, pela higiene, por tudo. E que o meu desejo é menos prescrito. Ele é reprimido, mas quase não é prescrito. Ninguém me ensinou qual o diâmetro exato de uma coxa desejável. As mulheres, quase todas, mesmo as mais inteligentes, estão tentando ser a mesma coisa, ou uma das poucas dez ou vinte coisas que é permitido ser enquanto mulher. Entre os homens, há uma gama bem maior. Há muitas formas diferentes de ser feio e de ser bonito. Sendo mulher e heterossexual, eu perco a liberdade sobre o meu corpo e essa de fato é mais essencial, mas por enquanto eu ainda tenho acesso a uma variedade maior de belezas e feiuras menos disciplinadas.

Algumas bonitas mais velhas têm uma beleza mais voltada para a elegância do que para a sensualidade. Temo que isso não indique coisas boas, não indique que aqui é possível uma redução do domínio do corpo. Acho que não é nada disso. Acho que há um jeito polido de ser bonita mais velha e ele inclui um reconhecimento de que o sexo já não é seu forte e que você está em paz com isso. Talvez o aspecto mais violento do machismo para mim pessoalmente seja como se exige que as mulheres passem pelas coisas em paz. Reconhecer que coisas feitas para te atingir te atinjam é de algum modo humilhante. Parte da nossa aversão por mulheres plastificadas vem daí. É um moralismo. A mulher mais velha que não abre mão de sua sexualidade docilmente cai no ridículo. As que tentam se manter na juventude porque esse parece ser o único caminho para permanecer no sexo, também caem no ridículo.

As pessoas falam bastante sobre como mulheres jovens funcionam como troféus para tantos homens mais velhos. Mas o simples fato de ser casado com uma mulher de sua própria idade confere a um homem de 50 toda uma aura de superioridade, elegância, legalzice, caráter, estabilidade, inteligência, maturidade. Ver o seu marido, da sua idade, ser considerado um cara-tão-bacana somente por permanecer com você não deve ser a coisa mais lisonjeira do mundo. Se a jovem é um troféu, não seja por isso, a velha é uma medalha de escoteiro.

No carnaval, Alessandra Negrini causou comoção nas minhas redes sociais vestida de noiva num bloco da rua Augusta. Os comentários, todos elogiosos até onde vi, eram muito esclarecedores do que se espera de uma mulher mesmo nos círculos brasileiros menos (mas ainda muito) misóginos. Uma moça que eu sigo disse que ela estava maravilhosa, que estava tonificada sem estar malhada, com cara de nova sem estar preenchida, jovem sem estar menina, magra sem estar esquelética. Era uma lista realmente longa de coisas que ela estava assim sem estar assado, mas a própria lista de oposições deixava claro que ao tentar ficar assim aos 45, era quase impossível não ficar assado. Por um segundo, por aquele segundo, Alessandra Negrini estava se equilibrando em um lugar impossível. Um passo a mais e ela teria de escolher se ficava malhada ou se deixava a flacidez sobrevir, se seria velha ou preenchida, isso ou aquilo, para qual polo inevitável e indesejável penderia. Quando isso acontecesse, nós esqueceríamos Alessandra Negrini sem que ninguém pudesse dizer que desprezamos mulheres mais velhas porque naquele carnaval nós achamos Alessandra Negrini lindíssima.

Quando eu era mais nova, na verdade até outro dia, era misterioso para mim que adolescentes e pessoas de vinte e muito poucos fossem consideradas mais bonitas do que as de 30 ou 40. Com trinta me parecia que as pessoas tinham um domínio melhor do corpo, além de melhores maneiras, assuntos e hábitos de higiene. Mas é o tipo de coisa que talvez você só seja capaz de perceber quando perde. Há uns meses, eu estava na fila de espera do médico e tinha esse garoto muito novo e muito bonito. Olhando para ele, eu entendi que a graça das pessoas jovens, ou pelo menos a graça das pessoas jovens para mim, é que elas parecem ter mais sangue na pele. Elas ficam vermelhas espontaneamente, depois desficam, ficam de novo. Um jogo de sangue que sobe e desce com o calor, com a risada, com quase qualquer coisa. Tem um filme só sobre isso: é esse “Os Anarquistas”, com a Adèle Exarchopoulos. O filme é realmente terrível de modo que você terá duas horas para notar o que digo.

Perfeitamente bem

Existem basicamente duas formas de superar a lembrança de alguém. Uma é pelo método da extração, a outra pelo método da incorporação. Na extração, naturalmente, você tenta retirar os resquícios da pessoa. Um livro pela casa, um filme que viram, um lugar. É muito útil quando o lugar é sua própria casa porque casas e bairros, você perceberá no processo, são extremamente descartáveis. Pode ser exaustivo no caso de histórias mais longas e antieconômico se aplicado a sucessões de histórias curtas, portanto eu sugeriria que você se mantivesse nas médias. O importante aqui é que a técnica é reconhecida e funciona perfeitamente bem.

O método da incorporação é mais curioso e, num primeiro momento, talvez soe pouco intuitivo. Uma vez tendo falhado em ser o que a outra pessoa queria, o neurótico pode se concentrar em ser a outra pessoa. Despudoradamente, você passa a fagocitar tudo que te interesse no outro de modo que aquilo passe a ser você e, ao ser você, deixe de te interessar. Não é exatamente esquecer, é banalizar. Essa é uma técnica menos reconhecida pela comunidade científica, mas que também funciona perfeitamente bem.

Perto da ação

Hoje eu mandei um email para um ex-professor tirando uma dúvida sobre parâmetro pro-drop. Parâmetro pro-drop: em algumas línguas, você tem como suprimir um pronome quando ele pode ser inferido no contexto, em outras não. No português: sim. Inglês: não. Inglês: cada vez mais sim, por conta de aloprações dos falantes. Português: cada vez mais não, também por conta de aloprações dos falantes, que vão abandonando o uso de casos verbais inteiros.

Discutimos um pouco por email, ele foi mais simpático do que eu me lembrava em sala de aula, encerrou frases com kkk. Ele estava certo, eu errada, mas ele encerrava com kkk.

Um mês antes, mandei um email para um outro professor, tentando lembrar o nome do linguista que falou sobre como, antes de abrir a boca, o falante precisa esquecer que tudo já foi dito. Tudo já foi dito: você esquece, por isso fala. O conhecimento pleno encerraria qualquer possibilidade de diálogo. Ele não me respondeu, nem consegui lembrar sozinha.

Outro dia um amigo postou uma citação que dizia: “não saber do que se fala é uma grande vantagem, da qual não se deve abusar”, ao que eu respondi que éramos jornalistas justamente para ampliarmos nossa cota disso aí. É uma das coisas que vou sentir falta no jornalismo, quando ele terminar pra mim, mas hoje não saberia dizer se isso realmente me importa ou se é apenas um ambiente viciante para mim.

Aquilo que Seinfeld diz sobre homens em volta de um sujeito consertando o carro, fazendo algum trabalho manual. Eles querem ajudar? Querem fazer? Não, eles só querem estar ali, perto da ação. Por muito tempo eu olhei com incompreensão para jornalistas que faziam carreira em atividades francamente abestalhadas. Não podiam fazer algo menos estressante? Mais bem pago? Menos inseguro? Sem plantão? Eles não estavam fazendo nada que valesse a pindaíba dessa atividade, por que continuar? Porque querem estar perto da ação, seria minha resposta atual.

Permanência do objeto

Antes de esquecer alguém é útil esquecer o conceito de permanência do objeto, passar a agir como uma criança para quem uma pessoa com um lençol na cara simplesmente deixou de existir. Muito cedo a criança decide puxar o lençol e a brincadeira funciona apenas como encenação, uma piada da criança com os tempos em que desejos eram contidos com barreiras de lençol. Mas não puxe o lençol. Você, com as suas mãozinhas.

Antes de começar a levantar às seis é útil esquecer o conceito de vida social. As pessoas apinhadas na rua durante sua volta para casa talvez esperem ônibus para lugares distantes. Você ouviu algo sobre o engarrafamento nesse horário ser tão intenso que elas não têm outra opção senão esperar os búfalos passarem.

Você não. Você faz cálculos como: se de Campos Elísios eu ia a pé para a Santa Cecília, dali para a Bela Vista são só dez minutos a mais. Para a Paulista são mais dez e até a Estados Unidos é agradável descer a Augusta então já estamos em Pinheiros e os sapatos comprados há dois meses parecem tão rotos quanto todos os outros.

Antes de cortar o cabelo é útil esquecer o conceito de liberdade individual. Entregar-se com muita resignação a uma pessoa que está certa de saber o que é melhor para você, como disfarçar o recuo do seu queixo, o formato um pouco errado da testa que eu não tinha reparado, mas agora que você falou. Você senta, balbucia qualquer coisa e se acalma na certeza de não estar sendo ouvido, na certeza de que o profissional diante da cadeira já calculou o corte perfeito e, gato escaldado, sabe que ninguém pede o que de fato quer.

Você sai muito feliz, com metade do cabelo que tinha num formato imprevisto. O queixo, a testa, parecem todos nos mesmos lugares, mas o ombro está exposto e você foi agraciado com menos uma decisão.

Você, o mesmo

Não pode ter filho para dar um sentido pra sua vida triste. Não pode buscar uma outra pessoa. Não pode buscar religião, trabalho, sei lá. Melhor dizendo, até pode, mas não para dar sentido à sua vida triste. Tem que buscar (é bom que busque) o filho, o amor e a religião por um desejo daquelas coisas em si —quem deseja as coisas em si? Sua própria existência tem que vir com um anexo de sentido, é uma vida que se explica por si mesma, uma autoestima que se cria no vácuo e se retroalimenta. Não pode se preocupar com a opinião alheia. Você, essa estrutura hermética e autossuficiente. Quando você fala, é importante que seja o mesmo diante de qualquer pessoa. Qualquer pessoa ali na frente: você, o mesmo. Passa mãe, irmão, patrão, você o mesmo. E fica como um falar sozinho já que o da frente não importa.