Conselho aos vivos

A não ser que o modo de disposição dos seus restos mortais seja uma questão absolutamente crucial, evite tecer comentários sobre o assunto. A não ser que você realmente faça questão de ser cremado, enterrado, atirado no oceano ou transformado em  diamante, evite falar esse tipo de coisa ao léu.

Um defeito recorrente dos vivos é falar demais e emitir opiniões categóricas sobre assuntos que, na verdade, não estamos nem aí. Talvez eu mesma já tenha dito que quero ser enterrada ou cremada, submersa ou picotada, homenageada ou esquecida. Posso ter dito que quero ficar em Jacobina, onde minha mãe nasceu, ou no Campo Santo de Salvador, onde estão os meus avós, que quero estar vestida de vampiro num caixão rosa-choque. É possível que tenha dito coisas diferentes a pessoas diferentes. Com algum otimismo, terei dito coisas diferentes a uma mesma pessoa, evitando ao menos a disputa de versões.

Um morto querido pode tudo, mas note que é justamente por poder tudo que convém não abusar do poder. O problema dos desejos para a morte é que eles costumam ser feitos de modo excessivamente casual, por pessoas destituídas de qualquer poder por estarem vivas e em perfeita saúde. Uma pessoa sem poder é, por definição, uma pessoa irresponsável. É alguém que pode pedir mundos e fundos justamente por não ter nem a obrigação, nem os meios de viabilizar isso tudo.

Uma pessoa saudável dizendo que quer ser enterrada numa roda de samba com a presença da velha guarda da Portela é como uma criança dizendo que quer ser astronauta. No dia seguinte, eis a sua tarefa: levá-la ao espaço.

Se Chico Buarque quer ser enterrado na beira de um chapadão, eu espero que ele ao menos confira a possibilidade jurídica da empreitada.

Capitão Fantástico é um filme sobre um casal extremamente autoritário tanto em vida (pai) quanto em morte (mãe). Pedir para ser venerada em um ritual viking, cremada em uma praia e ter suas cinzas atiradas em uma latrina é a coisa mais pretensiosa e antibudista do mundo. O verdadeiro desapego consiste em dizer: façam o que der, o que precisarem, o que for ajudar a seguir em frente.

Com alguma sorte, o batismo terá sido o primeiro ato de poder dos pais e o enterro o último ato de poder dos filhos.

Desejos negativos parecem fáceis de resolver, mas acabam sendo igualmente penosos. Você pode dizer que não quer uma cerimônia religiosa e gerar problemas de interpretação do que, afinal, seria uma cerimônia não religiosa. Pode ser mais direto e vetar a presença de padres etc, mas eis que a Tia Cláudia não soube do veto e convidou um pastor amigo dela que você nunca viu na vida. O pastor Santos era inclusive boa pessoa. Desmarcou um programa bem mais interessante para acompanhar sua Tia Cláudia no enterro de um desconhecido. Chegando lá, calhou de falar uma ou duas palavras. É possível que tenha citado um salmo. Agora, faz dois meses que sua mãe e Tia Cláudia estão de relações rompidas, e seu pai tem certeza de que vão todos para o inferno por terem desrespeitado a vontade do morto.

A não ser que você acredite que o método empregado alteraria suas chances do lado de lá, talvez seja melhor deixar os detalhes com os vivos.

Ainda temos aqueles dias nos quais a mãe dele acorda atordoada porque não pudemos cremar o filho dela. Foi com muita dificuldade que a convenci de que o fato de o rabino ter ido como convidado e dito duas frases não constitui cerimônia religiosa.

Sim, ele queria ser cremado. Sim, ele não queria rabino. Na verdade, não queria sequer convidados. Não, ele nunca pensou sobre isso por mais de dois minutos. Se soubesse como foi, teria dito pra a gente desembaçar e fazer do jeito que desse. E eu acho de verdade que ele teria gostado do jeito que deu.

Eu queria contar pra ele que a mãe dele imprimiu fotos com um trecho de wish you were here e que ficou cafona que só a peste. Queria contar que na foto em questão ele está usando aquele relógio do Freud e que justo na hora do flash o Freud pensou em sexo. Queria contar quais das paqueras dele estavam presentes e como elas reagiram. Queria contar cada pequena cena constrangedora. Que a tia dele foi de chinelo. Que o pai ficava repetindo todos os bordões da família. Que o cabelo dele estava arrumado de um jeito ridículo. Que na volta a melhor amiga dele só parou de chorar quando ofereceu uma descrição detalhada do pinto de um outro amigo, e que o melhor amigo dele prometeu que aprenderia a tocar a summertime sadness no piano em homenagem a ele. Que no dia seguinte ele já tinha virado a Clarice Lispector e começaram a espalhar uma citação do Baal Shem Tov como sendo dele.

Que história. Um dia um judeu confuso manda uma citação de um rabino para os amigos como mensagem de Natal. Anos depois, o judeu morre e sua tia compartilha a mensagem em cartões funerários, como sendo de seu sobrinho.

“Ai de nós, o mundo está cheio de incríveis luzes e maravilhas e o homem as encobre de si com as suas mãozinhas.”

Um dos dias mais legais foi quando fomos visitar o túmulo do Houdini no Queens. Houdini e a esposa dele, Bess, encomendaram a própria lápide ainda em vida, no cemitério judaico Machpelah. Deixaram tudo pronto, só a data de morte por preencher. Houdini, como sabemos, terminou em Machpelah bem antes do esperado. Foi morto por um fã que acreditou demais no truque. Por alguém que o achava invencível de verdade. Foi morto, de certa forma, pelo próprio talento em iludir. Bess teve mais sorte: morreu 17 anos depois, mas nunca chegou a Machpelah. Sua lápide do Queens encontra-se vazia e com a data de morte ainda por preencher. Em vez disso, a família preferiu enterrá-la em um cemitério católico bem longe dali.

As pessoas acham essa história triste. Nem Houdini, nem Bess davam muita bola pra religião. Eles construíram a própria lápide. Queriam ficar juntos. Ela nunca foi católica de verdade, ele nunca foi realmente judeu.

É difícil discordar que o ato da família tenha sido autoritário, mas triste eu não acho que seja. Lá em Machpelah, Bess continua viva e já completou invejáveis 145 anos. Lá em Machpelah, foi ela quem escapou.

9 comentários sobre “Conselho aos vivos

  1. eu lembro dessa viagem de vocês pra NY porque a)eu tenho uma memória constrangedoramente excelente b)fez parecer possível viajar pra fora, conhecer coisas que eu só lia e assistia, sei lá, lembrei desse relato do túmulo do Houdini (desculpa, é a minha memória) e fiquei comovida com o texto.

    e não comento em um blog desde a época que eu tinha o seu no google reader.

    adorei que você voltou pra cá.
    se der vontade, volta mais.
    um beijo.

  2. Meu bisavô era carpinteiro de caixões no RS. Quando a mulher morreu deixou o túmulo com uma vaga esperando por ele com tudo já escrito e um caixao pronto em cima do armário. Passou o tempo e ele morreu em outra cidade. Nem está no túmulo e nem usou o caixão. Não dá para programar nada que dependa dos outros.

  3. (Cheguei ao final do post procurando um botão de curtir. As redes sociais derreteram meu cérebro)
    Lindo texto. Não poderia concordar mais.

  4. Que felicidade ler você com um pouco mais de frequência, mesmo que seja sobre uma morte que eu estranhamente ainda não processei direito (se é que isso existe).

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