Entre as coisas

Tem um preceito zen que diz que precisamos colocar espaço entre uma coisa e outra. Acredito nisso, espaço entre uma coisa e outra. Espaço físico, por exemplo. Desespero desses projetos arquitetônicos que se gabam de tornar minúsculos cubículos “funcionais”. Viver não é agrupar artefatos de modo funcional. Não é fechar a porta que esconde a cama e abrir a que desdobra uma mesa com cinco minúsculos banquinhos quando as visitas chegam. Me parece que uma casa deveria ser qualquer coisa além disso. Uma casa deve ser mais do que uma cova engenhosa para vivos.

Espaço temporal, também. Colocar meses entre os acontecimentos. Espaço entre as pessoas parece um bem necessário. Espaço entre o trabalho e o outro trabalho. Entre o trabalho e o lazer. Não sair do trabalho direto para o bar. Colocar qualquer coisa entre duas atividades. Viver também não devia ser otimizar o tempo. É importante não otimizar o tempo. O fato de as coisas caberem não significa que elas deveriam estar lá. Agendas e apartamentos estão aí para provar a diferença.

No cinema, a função dos créditos e dos trailers — para além da publicidade, para além de dizer que Rafael fez a fotografia — é colocar um espaço entre a ficção e a realidade. Um espaço entre o sujeito que chegou da rua e o espectador. São dois sujeitos, precisam ser reconhecidos como tal.

Certa vez fiz uma matéria sobre uma câmara de gel em uma academia de ginástica. Uma parafernália futurista onde você entrava, deitava e ficava, com luzes azuis ao redor. Era como dormir por oito horas, explicava o fabricante. Era como renascer, dizia uma frequentadora. Uma neurologista disse: as pessoas precisam não fazer nada. Quem vender isso, vai ficar rico. Aqui em casa, a câmara atende pelo nome de rede e não funciona tão bem, não substitui oito horas de sono. Pelo contrário, exige um sono sem cronômetro e cochilos sem premeditação. Também não renasce ninguém. Basta deitar nela para se sentir velho, muito velho, com um longo passado que vai e volta. Não estamos ricos, mas é importante não funcionalizar a rede.

13 comentários sobre “Entre as coisas

  1. Normalmente gosto muito dos textos daqui, mas discordo da afirmação do 1º parágrafo: “[…] Viver não é agrupar artefatos de modo funcional. […]”.

    * acho que foi erro ao se expressar: no 2º parágrafo, tem a forma verbal que, me parece, deveria ter sido usada: “[…] Viver também não devia ser otimizar o tempo […]”

  2. Que lugar lindo, esse! Num respiro, devorei uns quatro ou cinco textos — e me deparei com Violeta Parra e o Zambra, que me espera para breve.
    E esse texto aqui, como é inspirador! Assemelhado a um respiro, um hiato, uma lacuna. Não sei o porquê, mas ele me pareceu um anverso do texto que me trouxe a imagem da tradutora que talvez morra soterrada em casa, sob os escombros de pratos estourados. Um texto pungente, pela falta de um respiro. Tradução precisa da ideia de um tempo sem descontinuidade, como se há cinco anos fosse o mesmo ano, o mesmo dia há 1826 dias. Tempo escorrendo entre os dedos, indistinto, na ampulheta da existência…
    Perdoe-me o comentário desagregado e um tanto confuso. Queria apenas deixar registrado que gostei demais desse espaço…

  3. “Espaço entre as pessoas parece um bem necessário”. Tá com umas sabedoria boas, ein, Juliana? É a ergonomia natural do vínculo, a razão áurea nas relações e a simetria da pausa nesse mundo nosso cheio de coisas acavaladas… Vou pensar sobre.

  4. Juliana, tu simplesmente leu meu pensamento quando escreveu sobre essa onda/moda/mania de transformar cubículos nos tais “espaços funcionais”. Eu tenho pavor dessa coisa de padronizar e planejar demais os espaços. Fica parecendo casa de revista ou aquelas que a gente vê quando visita o “apartamento decorado” da construtora. Eu resumo assim: não tem vida ali. Simplesmente AMO o fato de a decoração da minha casa ser composta por 90% de móveis de brechó/doação/achados na rua e as pessoas entrarem lá e se surpreenderem como a casa tem “alma” e é a minha cara. Ou eu tenho cara/jeito de mendiga ou a casa é aconchegante mesmo :S

    Ps.: O Já matei por menos, e agora o Nonada são a minha câmara de gel :)

  5. Comecei a meditar quando li uma lição sumária de um iniciado: “Preste atenção no espaço entre um pensamento e outro, permaneça ai o mais que puder. É onde se esconde toda a verdade”. Muito inspirador o texto.

  6. Lindo e muito sensível. Você descreve suspiros e hiatos, Juliana. Entretempos que a gente esquece que precisam existir. Obrigada por nos fazer lembrar e por dividir tanta sabedoria neste pequeno texto.

  7. como Le Corbusier dizia, é o tempo das máquinas de morar, otimizadas pra dar conta de um dia-a-dia em que tudo tem que ser funcional (da comida aos relacionamentos). um jeito de transformar a gente em máquinas também.

  8. Maravilhoso teu texto, Juliana. Aliás, num intervalo (!) entre uma produção e outra flanava ansioso pela gélida e frenética web e acabei por conhecer o seu trabalho, que massa! Pra mim é tudo muito lindo e familiar – e fico feliz que essa forma de pensar e viver encontre eco. Essa idéia de que estamos na era das máquinas não tem vez por aqui. Vou aproveitar pra ler de novo! Precisava disso. Parabéns!

  9. Queria compartilhar que seu texto me incentivou a sair de um trabalho sem ter outro – isso mesmo! E SIM, isso é uma coisa BOA!! hahaha muito obrigada então.

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