Fantasma sai de cena

Talvez História de um casamento (Noah Baumbach, 2019) seja um filme sobre projeção, e talvez a mais importante delas seja aquela que o casal faz nos advogados — mas também na mãe, no filho, um no outro. É o desenlace de um casamento perfeito entre um egocêntrico e uma passivo-agressiva, nenhum deles propriamente má pessoa, porém ambos muito empenhados em terceirizar a agressividade. É uma história cheia de cenas de reconhecimento e estranhamento na qual o casal vai pouco a pouco trocando de papel. Não à toa, o marco temporal do divórcio são duas festas de Halloween. 

O filme começa com sequências nas quais cada um deles descreve o outro com o detalhamento afetuoso de quem parece se gostar. No entanto, estão na sala de um mediador de divórcio e a mulher se recusa a ler o que escreveu sobre o marido. Se cada um lesse seu papel, talvez não houvesse divórcio — exceto que àquela altura a separação já ocorreu, e os motivos estão fora daquelas cartas auto romanceada. O objetivo do mediador é que as pessoas lembrem por que se casaram, para começo de conversa. Ele acredita que, em posse dessa lembrança, serão capazes de passar por aquilo sem passar por cima um do outro. O problema é que, em um divórcio com filho no qual cada parte deseja morar em um estado diferente, um está literalmente no caminho do outro, obstaculizando esse desejo. O casal quer se enxergar como racional e civilizado, como o tipo de gente que respeita o ex mesmo na separação, mas como resolver um impasse desses sem perder o penteado? 

No começo do filme, Nicole é uma pessoa que não consegue bancar os próprios desejos. Ela está sempre triangulando e projetando. Dorme com o filho porque ele está passando por uma transição, não ela. Larga Hollywood pelo teatro e Los Angeles por Nova Iorque para satisfazer o desejo do marido, não o seu próprio (de ser uma atriz respeitada, de se afastar da mãe, de ficar com ele). Combina de não envolver advogados e descumpre o acordo primeiro porque a irmã a fez visitar vários escritórios, depois, porque uma produtora que mal conhece insiste que procure Nora, a advogada dela. Divide a terapeuta com a mãe, embora pareça reprovar a ideia. Desmarca o Halloween coletivo com o ex em cima da hora e põe a culpa na irmã e no cunhado. A própria vilanização do marido, embora não seja de todo descabida — quando é? —, parece antes uma forma de justificar o fato de que ela passou a querer outras coisas, e essas outras coisas não estão disponíveis ali (em Nova Iorque, naquele relacionamento). Ela quer o espaço que a Costa Oeste oferece. Oferece, no caso, para ela. 

O papel da advogada é autorizar Nicole a assumir o próprio desejo. Primeiro, o desejo de morar em Los Angeles. Depois, o desejo de odiar o marido. Em seguida, o desejo de que o filho seja “nosso de verdade, mas ao mesmo tempo só meu”. O processo se completa na cena do tribunal, quando as duas vestem basicamente a mesma roupa e mantém a mesma pose. Diante do juiz, os advogados expressam a agressividade que o casal gosta de imaginar que esteja fora deles. Eles representam seus clientes. Através deles, os clientes podem dizer “eu quero tudo”, enquanto de suas próprias bocas o que sai é “fique com o que quiser” (no fim, é engraçado como o sujeito que mais dizia isso se ressente porque a ex levou o sofá que originalmente já era dela). 

As duas cenas de música — nas quais Nicole canta “You Could Drive a Person Crazy” e Charlie “Being Alive” — são a incursão mais didática do filme, embora de fato sejam boas. Charlie canta que quer alguém que sente em sua cadeira, e acaba encontrando. Em grande parte, o que Nicole quer é assumir a posição do marido: ser diretora, dirigir o casal, dirigir a casa, liderar um pouco. Mas naquela relação só havia uma cadeira de diretor. Aos poucos, Nicole vai repartindo o lugar do marido entre ela mesma e o filho.

Daí vêm as cenas de estranhamento, que geralmente são de Nicole em relação a ela mesma, ou de Charlie em relação a Henry e Nicole. Desde quando ela sabe hackear um e-mail? Desde quando sabe que a locadora não podia instalar a cadeirinha? Se sabia dessa lei, talvez a coisa toda de ir para Los Angeles e só depois entrado com o divórcio tenha sido mais premeditada do que parecia. Desde quando é diretora? Desde quando é vegetariana? Esse cabelo é seu mesmo ou pintou? Desde quando o filho deixou de gostar de matemática? Desde quando quer ser ninja e não Frankenstein? Desde quando prefere sentar?

No fim, a protagonista é Nicole, porque é ela quem passa por uma transformação. O processo do marido é mais de lidar com a aceitação da derrota, com o fato de que terá de ceder o lugar. Aquilo que não cedeu para a mulher — Los Angeles, a secundarização da carreira, a direção — terá de ser cedido ao filho, o que causa uma mistura de ressentimento e admiração por parte da ex. 

Há cenas interessantes de reconhecimento, de momentos em que os personagens ou reconhecem uns aos outros ou têm revelações acerca de sua própria natureza. A mais legal é aquela entre Charlie e a sogra, quando ele chega na casa dela e ainda tem a chave da porta, mas, ao entrar, a sogra já é sogra de outro cara, e mantém com esse cara a mesma relação filial que mantinha com ele. Porque, no fim, o genro — qualquer genro — era apenas um dos meios de exercer uma relação neurótica e competitiva com as filhas. 

A cena dos peixes também é perspicaz, quando Henry entra em um prédio de escritórios com o pai e reconhece primeiro o prédio, mas Charlie diz que todos eles se parecem. Depois, entram na sala do advogado que foram visitar e Henry reconhece os peixes, mas Charlie diz que “muitos peixes se parecem”. Logo fica claro que o menino estava certo: ele já tinha ido ali porque a mãe consultou mais de uma dúzia de advogados, provavelmente para deixar o pai sem boas opções. Os prédios se parecem, os peixes se parecem e as pessoas também podem ser bem parecidas em um processo de divórcio.

Quem autoriza Charlie a cogitar que a ex tenha deliberadamente atrapalhado sua escolha de advogado é a recepcionista do escritório. Antes disso, outro advogado (Bert) já havia chamado Nicole de vaca, assim como a advogada dela chamou Charlie de escroto. Os dois sempre rebate os xingamentos. Ele não é assim, ela não faria isso. Assim como nas descrições romantizadas do começo do filme, trata-se antes de uma romantização de si do que do outro. No entanto, comentários depreciativos mal disfarçados abundam, especialmente na frente do filho. Bert diz que criminalistas vêm pessoas ruins em seus melhores momentos, enquanto advogados de divórcio vêm pessoas boas em seu pior. Mas, como disse Nicole em seu monólogo para Nora, “everything is like everything in a relationship”.

Se no primeiro encontro com Nora Nicole tinha dificuldade de sequer articular o que ela própria queria e admirava a mulher de George Harrison por ao menos ser honesta consigo mesma e admitir que era apenas a esposa, na cena final ela surge não como a mulher ou mesmo como o próprio George Harrison, mas vestida de John Lennon no Halloween de sua consagração. Já Charlie passa de Homem Invisível para ninguém, porém, com não se pode ser ninguém, tome um lençol emprestado e seja fantasma.

8 comentários sobre “Fantasma sai de cena

  1. Achei sua análise interessante e deu vontade de ver o filme aqui em Salvador.

  2. Além das suas observações pertinentes, eu achei que o protagonismo foi dividido. Com excelente atuação de ambos, diga-se de passagem. Na maioria dos casos, a arte imita a vida, não importa o motivo do divórcio, é sempre a mulher que desperta para mudar algo em sua vida que a incomoda ou paralisa, enquanto o marido não faz ideia. Tanto que há um momento no filme que ele, confuso, diz “você queria todas essas coisas”. Enquanto ela vai se reconectando e ganhando confiança em suas escolhas, do outro lado, depois de surtar tentando entender de onde vem aquilo, acaba cedendo, não apenas a mudança de cidade e vida dela, sem ele, mas a enxergá-la como mulher, não apenas mãe e esposa. Ele desce do seu pedestal, da posição de macho alfa, o divórcio o humaniza. Enfim, um filme excelente que transforma o clichê dessas histórias em um reflexão sobre amor, amizade, confiança, medo e mudança. Eu adorei!

  3. A parte que ela conta a história dela pra advogada é muito bom. Especialmente a parte que ela fala como a conversa com o ex era boa, melhor que o sexo, mas o sexo também era a conversa, como tudo numa relação. Enquanto isso ele com os advogados nenhuma história era contada.

  4. Eu queria muito ver o filme e tive até medo de me ver refletida em algumas de suas questões. Tomei coragem quando vi que você tinha publicado uma análise – foi o aval final de que seria mesmo um bom filme se a Juliana quis até escrever sobre.

    Gostei muito do olhar humanizado que o filme trouxe, um relato em que não há lados. O marido é meio babaca? É. Mas até que ponto Nicole não se deixou apagar por um homem que ela mesma admirava muito? Os advogados são frios? Sim, mas eles só reproduzem as falas do casal, são quase como auto falantes desse conflito antes tão civilizado. Eles fazem pelo casal o que a terapia não fez, e aí vem A BRIGA, o momento máximo de catarse que, um dos pontos altos do filme.

  5. juju, acabei o filme em frangalhos e corri aqui para te ler –admiração e orgulho por você, pela sua perspicácia, pelo seu português (não poderia não citar) e articulação. uma alegria acabar um texto seu e me sentir mais inteligente :p beijos, beijos e continue escrevendo pra gente voltar sempre e desfrutar 😉

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