Festa em piscina vazia

Uma família do Morumbi leva uma vida de conflitos apaziguados até que a filha da empregada entre em cena. ​Lançado em 2015, Que Horas Ela Volta? é uma espécie de fábula lulista perfeita. No filme, uma empregada que dorme no serviço e vive à sombra dos patrões começa a questionar a ordem das coisas quando sua filha passa no vestibular.

Val (Regina Casé) parece perfeitamente conformada com a vida numa casa com piscina no Morumbi. Empregada há quase vinte anos, ela viu Fabinho (Michel Joelsas), filho dos patrões Barbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli), crescer enquanto sua própria filha, Jéssica (Camila Márdila), era criada em Pernambuco por uma mulher chamada Sandra, que ninguém sabe se é parente ou babá da menina. O pai, embora mencionado, parece ter uma atuação secundária o bastante para ser desprezada.

A casa é grande e conta com a ajuda de empregados eventuais, como um zelador e uma faxineira. A função de Val é mais do que cuidar da casa, é atender a qualquer mínima demanda dos patrões, incapazes de pegar um copo d’água na geladeira.

A família vive num mundo em que a riqueza independe do trabalho. A renda do casal vem da herança do marido, um pintor precocemente “aposentado”. Segundo ele próprio, foi reconhecido rápido demais, o que lhe estragou o talento. A mulher trabalha com algo relacionado a moda, embora nunca apareça trabalhando e sua atividade seja posta de maneira bastante genérica.

Na única cena relacionada a trabalho, ela aparece dando uma entrevista para a televisão em que o que é ressaltado é seu estilo de vida, não seu trabalho. Na entrevista, pedem que Barbara defina o que é estilo. Ela diz que estilo é ser você mesmo. Esse é um bom resumo para a profissão de Barbara, e dos ricos improdutivos em geral. Algumas vezes são pintores, noutras trabalham com moda, mas sua verdadeira atividade é ser eles mesmos e ganhar algum em cima disso, seja simbolicamente ou fazendo o dinheiro girar entre outros ricos em ciclos relacionais estéreis.

Ainda que se dedique a uma atividade presumivelmente decorativa, Barbara é a única pessoa de ação na casa. A única que precisa ou se sente impelida a fazer algo para manter sua posição, seja através de festas, entrevistas ou corridas na esteira. Já os homens da casa se entregam ao lazer sem disfarces, quando não sucumbem ao tédio.

O esquema doméstico é tão bem estruturado que os conflitos parecem invisíveis. Essa invisibilidade é possibilitada por Val, que parece ter as regras do jogo entranhadas numa espécie de segunda natureza. Para não dizer que ela nunca cruza a linha da hierarquia, sozinha, no banheiro da patroa, experimenta um creme. Passa no braço algo que provavelmente é destinado ao rosto e faz uma cara de prazer e estranhamento.

A paz doméstica depende ainda da ingenuidade infantil de Val. No aniversário da patroa, por exemplo, ela compra um jogo de café para dar de presente a Barbara. A patroa recebe o presente com displicência e cuida para que fique “reservado para uma ocasião especial”. O tom usado é teatral e condescendente, como se falasse a uma criança. Mais do que isso: como se estivesse enganando uma criança na frente de outro adulto e fizesse questão de piscar para o adulto enquanto fala. O outro adulto, no caso, é a jornalista que está na sala, uma pessoa que, embora não pareça ser da mesma classe de Barbara, pelo menos é considerada como igual para os fins desse diálogo.

Qualquer adulto com um mínimo de traquejo teria compreendido a mensagem. A patroa detestou o presente, não considera aquele jogo de café digno de sua casa e espera nunca mais vê-lo. Val, no entanto, cai na conversa da ocasião especial e tenta usar o presente numa festa da casa. É repreendida no ato. Ainda assim, sua reação é antes de incompreensão que de humilhação ou raiva. Na sua generosidade simples, Val é um retrato perfeito da pureza popular que habitava o imaginário intelectual brasileiro até a década de 1980.

Mas a infantilização não é apenas de Val. Os patrões, sobretudo os homens, também são infantilizados. Val trata Fabinho como a um filho, retirados da equação todos os conflitos de uma relação mãe e filho. Sua rotina de adolescente difere muito pouco da rotina de criança. São os mesmos amigos, a mesma piscina como eixo central da vida. Fora uma camiseta de banda de rock, não há em Fabinho nenhum sinal de puberdade, algo que fica mais aparente com o surgimento de Jéssica. Postos lado a lado, os dois jovens da mesma idade parecem ter muitos anos entre eles.

Carlos também recebe, de certo modo, um tratamento de filho, com a empregada indo ao pé de sua cama para acordá-lo, por exemplo. O clima de conflito, ainda que velado, é mais aparente com Barbara. Aos homens cabe uma posição de quem está acima das miudezas domésticas e sequer repara nelas.

Um recurso que o filme explora bastante é o humor do subalterno. Quando Carlos vai à cozinha buscar um guaraná, Val o “repreende” dizendo: “o que o senhor está procurando na minha geladeira?”. O que ela quer dizer é “por que o senhor não me diz o que quer e eu te sirvo?”, mas isso é colocado como uma declaração de posse da geladeira. Ao estilo das piadas em que um homem chama sua mulher de “patroa”, brincamos com o que está longe de ser real.

Algo semelhante aparece na relação entre Val e os amigos de Fabinho, em quem ela finge dar broncas e ordens, sempre com um afeto maternal e um humor de quem reconhece seu lugar mesmo quando está aparentemente impondo autoridade.

A infantilização dos homens da casa culmina numa castração dos mesmo. Não há em Carlos ou em Fabinho uma faísca de pulsão sexual. Essa dessexualização parece ser parte fruto dessa infantilização, parte fruto da segurança modorrenta de gerações de vida ganha.

Mesmo a investida em Jéssica empreendida por Carlos parece assexual e desajeitada, antes uma imitação de como age um homem naquelas circunstâncias do que um movimento real. O que ele sente de fato parece ser uma atração instintiva pelo primeiro sopro de vida que surge naquela casa talvez desde sempre, algo que ele tenta elaborar primeiro numa insinuação cafajeste e adúltera, depois em um pedido de casamento patético e deslocado que cheira a pedido de socorro.

Val não tem vida pessoal. Mesmo os outros empregados —a diarista e o zelador da casa, a empregada da vizinha— parecem ter alguma vida pessoal. Val, não. Quando sai para o forró com a amiga, a outra encontra um par, ela permanece sozinha.

Os conflitos saem do armário quando Jéssica chega ao Morumbi. Do nada, a menina, que não falava com a mãe há três anos, decide se mudar para São Paulo para prestar vestibular na USP. Após um arranjo com a patroa, que sequer lembrava que Val tinha uma filha, Jéssica é recebida na casa. É a própria menina, no caminho do aeroporto, que anuncia que aquilo não vai dar certo.

Aparentemente, Jéssica não estava inteirada sobre condições de trabalho da mãe, e a pintava como mais rica do que ela de fato era. Essa frustração com a condição real da mãe nunca é superada e está na base de boa parte dos conflitos. De certo modo, a revolta de Jéssica é menos com as injustiças da relação patrão/empregado do que com a sua condição de filha da empregada.

Tudo que em Val era ingenuidade, em Jéssica vira cinismo. Ela parte de uma estratégia de literalidade republicana, fingindo não perceber a discrepância entre aquilo que é dito e aquilo que é presumido. Se dizem a Jéssica que ela é hóspede da casa, a resposta dela será “então é aqui no quarto de hóspedes que eu vou ficar?”. Se dizem que ela é igual, que sua mãe é da família, que a casa é também dela, é assim que ela vai agir, forçando a mãe a finalmente demonstrar um entendimento adulto e a patroa a lhe confinar ao espaço delimitado onde Val restringiu-se “por conta própria”.

Ao explicar as regras do jogo à filha, ao explicar, por exemplo, que, quando Eles oferecem algo que é Deles é porque têm certeza de que A Gente não vai aceitar, Val é obrigada a explicitar um esquema de coisas que foi se constituindo “naturalmente”. Essa explicação não é o bastante para que ela se volte contra o que ela própria está dizendo. Pelo contrário, Val defende o esquema de coisas que lhe possibilitou levar a vida, mas a partir daí ela já não tem a chance de tratar como natural um conjunto de regras completamente artificial.

Quando Val diz para Jéssica que ela parece ter vindo de Marte, essa é a melhor definição para a personagem. O problema de Jéssica é que ela parece ter sido criada em Marte. Em que parte de Pernambuco um ser humano de 18 anos precisa ter sido criado para ser tão alheio ao sistema de classes brasileiro? Que lugar de Pernambuco pode dar origem a uma filha de empregada doméstica que não compreende o universo da mãe?

A estratégia de Jéssica não é partir de uma posição de questionamento do poder, mas sim de uma posição de incompreensão do poder. Jéssica age como um elemento externo, uma enviada especial, uma correspondente internacional infiltrada numa casa brasileira.

Não existe um brasileiro vivente com dificuldades em entender Val, seus pensamentos, seu modo de vida, seu esquema de trabalho ou o que a levou a internalizar as regras do jogo. Ao agir como se não entendesse as coisas, Jéssica obriga os personagens ao seu redor a serem despudoradamente claros.

Esse recurso, embora interessante, dá ao filme um tom excessivamente didático, que soa cansativo em cenas como aquela em que Fabinho e Jéssica molham os pés na piscina. Pouco antes, Jéssica havia entrado na piscina, jogada pelos amigos de Fabinho. Logo após o episódio, Barbara decide trocar toda a água da piscina alegando ter visto um rato por ali. Fabinho conta a história do rato para Jéssica, que diz com todas as letras: “eu acho que o rato sou eu”. Fabinho desconversa e segue seu teatro de menino ingênuo.

O embate entre Val e Jéssica dá a entender que tudo que falta a Val é uma postura mais altiva. Fosse ela mais confiante, se impusesse mais e aquele esquema doméstico nunca teria se armado. Falta a Jéssica a consciência de que ela é fruto das vitórias da geração de Val, e de que o patrão ganha poder em contextos em que o trabalho vale menos, como valia na época em que Val entrou naquela casa.

Enquanto a geração de Val elegeu Lula e possibilitou que sua filha não fosse doméstica, Jéssica integra a geração por ora derrotada. A geração que não foi capaz de superar o lulismo, viu o programa de “disputar o governo por dentro” ruir e agora assistirá a política de redistribuição de renda via ação assistencial do Estado ser rapidamente achatada pela crise. No momento em que Que Horas Ela Volta? foi lançado, o trabalho doméstico já tinha voltado a crescer no Brasil, após anos de retração.

A escolha de Regina Casé para o papel de Val parece acertada na medida em que a atriz é uma figura símbolo da conciliação que marca a Era Lula. Lula é uma figura da conciliação, um sujeito que bebia um uísque com os patrões da fábrica e uma cachaça com os operários, um presidente que tentou promover um ganha-ganha, um governo onde os ricos nunca lucraram tanto e os pobres nunca apanharam tão pouco, algo de que ele se orgulha ainda hoje, em discursos recentes.

A diretora do filme, Anna Muylaert, disse que se inspirou em O Som ao Redor para fazer esse filme quando, na verdade, ela fez o caminho oposto. O Som ao Redor é uma crítica do lulismo feita a partir da esquerda. Que Horas Ela Volta? é uma celebração deslocada do lulismo numa época em que ele já ruiu enquanto projeto.

Os conflitos da história se dão apenas entre as mulheres. A posição dos homens é tão garantida que eles não precisam se rebaixar a negociar com a filha da empregada os limites da relação. Quem faz isso é exclusivamente a patroa, assim como é somente ela quem precisa competir com a empregada pelo amor do filho.

Até a disputa pelo “sorvete de Fabinho” é uma disputa entre Jéssica e Barbara. O próprio Fabinho dorme o sono tranquilo dos que sabem que, de um jeito ou de outro, seu sorvete será assegurado.

A escolha de Jéssica pela USP é interessante. Tida como a melhor universidade do país, a USP é das poucas instituições públicas que não trabalha com sistema de cotas nem aceita ENEM, dois fatores que prejudicam, um bocado intencionalmente, o ingresso de pobres e de pessoas de fora do estado de São Paulo.

Se por um lado a escolha da USP rompe com a literalidade da fábula lulista uma vez que cotas e financiamentos estudantis em universidades privadas foram os dois grandes meios pelos quais os governos petistas conseguiram assegurar a entrada de uma massa de pessoas sem nenhum antecedente familiar de estudo universitário no ensino superior, por outro essa escolha enaltece um elemento importante tanto para a personagem quanto para o filme: a ideia do mérito.

O curso que Jéssica escolheu, Arquitetura, é um dos mais elitistas, com aulas em tempo integral e concorrência feroz, ingredientes importantes para o bolo meritocrático.

A possibilidade de Jéssica cursar essa universidade é questionada a todo momento. Tão logo a expectativa é posta, a mãe diz que não vai dar tempo porque já passou o período de inscrição. A menina explica que já se inscreveu pela internet. A cada nova pessoa que é informada sobre o projeto, surgem mais questionamentos. Se a escola dela era boa, por que Arquitetura, se ela sabe desenhar. Mesmo depois do vestibular, quando Jéssica faz uma quantidade impressionante de pontos, Barbara faz questão de lembrar que aquela foi só a primeira fase do processo seletivo. O mundo está constantemente exigindo as credenciais de Jéssica, que são recebidas ora com espanto, ora com descrença.

Parte importante dessas credenciais é mostrar seus conhecimentos arquitetônicos, quase sempre voltados para os marcos modernistas do país, como o edifício Copan, sonho de coabitação entre as classes, e o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, erguidos pelos arquitetos comunistas Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. Só que, no contexto do filme, esses símbolos modernistas são esvaziados de seu sentido original e representam tão somente uma forma pela qual a menina pobre demonstra circular bem pelos assuntos da elite. Desse modo, Copan, FAU e até o prédio da Sudene —única menção ao Estado no filme— viram mero repertório da pobre talentosa rumo ao seu projeto de ascensão individual e meritocrática.

Um diálogo que reforça a impressão de que o interesse de Jéssica em arquitetura é seletivo e instrumentalista é aquele em que, passando de ônibus com sua mãe pelo Largo da Batata, Val lhe fala sobre a reforma recente da praça e como aquilo, em sua opinião, prejudicou o uso popular daquele espaço. Diante desse comentário, nem traço da empolgação que a moça apresenta para comentar prédios famosos e mostrar que “entendeu” a decoração da casa dos ricos.

Já da parte de Fabinho, não sabemos sequer o curso que ele escolheu, assim como, mais tarde, não saberemos que raios ele vai estudar na Austrália. Mesmo diante do fracasso do garoto no vestibular, Val diz: “Ficou nervoso, né? Sabia de tudo.”

Barbara, por sua vez, diz que o filho pode estudar mais no ano seguinte. Essa sutil repreensão é mal recebida. Fabinho compara sua mãe a Val, para quem sua inteligência é um dado a priori e incontestável mesmo diante do baixo rendimento (vale ressaltar que o garoto não foi apenas reprovado em um processo que é de fato concorrido, ele fez uma pontuação notavelmente baixa).

O que Fabinho vai estudar de fato não importa. Seu futuro com uma profissão meramente cosmética ou fortemente baseada em relações pessoais parece assegurado. Sua postura anti-intelectual e alheia ao estudo encarna ainda a cobrança decrescente de que os ricos brasileiros apresentem pelo menos um verniz de erudição.

(Eu diria que hoje as únicas coisas capazes de atrapalhar as credenciais de um rico brasileiro entre seus pares seriam não falar “inglês fluente” e não ter passado seis meses em qualquer país estrangeiro fazendo rigorosamente qualquer coisa, incluindo nada. Para todo o resto há perdão automático. Digamos que a ida de Fabinho à Austrália já cumpre tudo que se espera dele.)

É somente com a notícia de que Jéssica fez muito mais pontos do que Fabinho e, ao contrário dele, passou na primeira fase do vestibular, que Val passa a ver sua filha como algo além de um problema a ser resolvido. A partir daí, ela passa a estar definitivamente do lado da filha, assim como os afetos do público tendem a mudar, migrando de Val para Jéssica. Os laços entre Barbara e Fabinho também parecem subitamente fortalecidos.

É depois dessa notícia que Val tem sua cena de consagração em uma piscina vazia, onde ela entra para molhar os pés. A cena é bastante triste: é noite, a casa está vazia, ela está inteiramente vestida (a camiseta que usa é de um time de futebol americano, presumivelmente uma roupa velha de Fabinho) com uma água que não chega aos joelhos, fazendo um teatro de subversão para agradar a filha.

No fim, Fabinho vai para a Austrália e Val se demite para cuidar de Jéssica e de seu neto, que está em Pernambuco, com a mesma Sandra que criou sua filha, completando um ciclo de maternidades terceirizadas. O plano da ex-doméstica é virar empreendedora: quer ser massagista ou vender potinhos de crochê. A imagem do pobre empreendedor já havia sido sugerida antes: o primeiro apartamento que Jéssica e Val decidem alugar era um salão de beleza doméstico, com cores estranhas e aspecto deslocado.

O filme não idealiza os laços de solidariedade na periferia. Ao contrário de Casa Grande e na esteira de filmes como Branco Sai, Preto Fica, Muylaert fala de uma periferia dominada pelo individualismo e pelos contratos, como fica evidente no diálogo com o proprietário da primeira casa que elas tentam alugar.

O projeto de Jéssica também é individual. Seu incômodo não parece ser com a opressão de classe ou com o trabalho doméstico em si, mas com a falta de meritocracia e com o lugar que ela ocupa na ordem das coisas. Não busca soluções coletivas nem se enxerga como “vanguarda”. Seu modelo não é o das cartilhas da velha esquerda, é exemplar. Eu vou por aqui, se vocês vêm também me é indiferente. Não perde tempo tentando “educar” ou convencer a mãe ou os outros trabalhadores. Quando Val comunica que se demitiu, a pergunta é: “e agora, vai fazer o quê?”, no singular, cada um responsável por si. A resposta: “eu dou meu jeito.”

A conciliação encontrada no fim do filme é afetiva e familiar, com a família como núcleo de suporte e ajuda mútua. Num mundo sem solidariedade de classe, sobram os vínculos regressivos. As personagens se voltam para um projeto de família e tentam construir algum tipo de afetividade a partir daí. Jéssica chama Val de mainha pela primeira vez quando ela se propõe a cuidar do neto. O arranjo familiar parece ser a melhor chance das personagens, sobretudo de Jéssica, conquistarem seu objetivo de realização pessoal.

Na última cena do filme, mãe e filha tomam café pela primeira vez na casa nova. Val exibe seu famoso jogo de xícaras, presente desprezado que ela apresenta à filha como “roubo”. O suposto furto é festejado. Assim como soube agradar os patrões, Val agora sabe como agradar a filha, com entradas em piscinas vazias e roubos do que a patroa não quis. Sobre o jogo de xícaras, a ex-doméstica diz: “é tudo diferente, o preto no branco, o branco no preto. Que nem tu. Moderno”. No segundo seguinte e sem que tenhamos acesso a quem trocou as xícaras e os pires, já está tudo preto no preto, branco no branco.

PS: Fiz esse texto para apresentar no meu grupo de estudos na USP. Depois disso, incorporei alguns comentários dos colegas. O nome do grupo é Formas Culturais e Sociais Contemporâneas.

13 comentários sobre “Festa em piscina vazia

  1. Que análise mais interessante. Uma leitura muito mais crítica e complexa do filme.
    Eu sou da classe rica que você descreve. Morei fora, falo inglês (e francês e alemão) fluente. Trabalho pouco, e trabalho para os muito ricos. Me sinto absolutamente retro-alimentando o sistema opressor. Mas honestamente? Isso não me define.
    Dentro da minha individualidade (e acho que um dos pontos da sua análise é que estão todos protegendo suas questões pessoais), me esforço para participar e melhorar a comunidade. Clichê, mas real. Não trabalho muito, mas também não ganho tanto, não vejo para quê. Não tenho carro, nem muitas roupas. procuro cultivar minhas relações, com àqueles mais próximos: amigos, família, amores. E só…
    Fico pensando se a riqueza/pobreza de fato é vantagem ou desvantagem. É lógico que dentro da lógica do sistema sim. Devemos querer ganhar mais, gastar mais, poder mais. Mas pensando no âmbito humano, das questões humanas (e não sociais) de fato, sabe-se que depois que temos o suficiente para vivermos no “básico” (alimentação, habitação, dignidade e educação básica), a completude, ou felicidade do indivíduo não se altera significativamente. é óbvio que na miséria ninguém é feliz; nem na pobreza extrema. Mas depois disso.. acho que é só vida. Acho que temos as mesmas questões e sensações.
    Aliás, trabalhando com os muito ricos, pude ver que eles têm tantas questões quanto o ”
    normal”; são outros problemas e sentimentos. Mas eles continuam existindo.
    É lógico que isso não justifica a perversidade do sistema e a desigualdade. Longe disso. Mas acho que temos que almejar também outras metas, para além da econômica.

  2. Oi, Juliana.

    Já comentei por aqui em um texto seu sobre o filme Dois dias, uma noite, dos irmãos Dardenne. Na ocasião, procurava alguma crítica sobre o filme. Tinha assistido e achado a temática inusitada, principalmente em tempos de pouca solidariedade de classe, para usar uma expressão que você mesma usa nessa análise do filme da Anna Muylaert. Me lembro também que tive alguma divergência de percepção com relação ao desfecho que as decisões tomadas pela personagem interpretada por Marion Cotillard acabam dando a trama. Desde então costumo dar uma passada nesse espaço para ver o que se passa.
    Decidi comentar novamente não mais por uma possível divergência. Pelo contrário, o seu texto analisou questões interessantes e em poucas linhas se mostrou bem abrangente. Características das classes menos favorecidas que são reais no cotidiano atual, como o individualismo e o empreendedorismo ( um tanto forçado pela falta de oportunidades), fizeram e fazem tão parte do meu cotidiano que não tenho como não ver sua percepção com curiosidade. Sou paulistano, morador de uma das grandes periferias de São Paulo e aluno do curso de economia da USP. Convivo com essa elite representada no filme diariamente, e boa parte deles (não todos), apesar de ter passado no vestibular, encara a graduação apenas como um pré-requisito a ser preenchido em uma pequena lista de obrigações (entre elas, ter inglês fluente e ter morado por algum tempo fora, como você bem observou) para ter seu status garantido. No caso da FEA, isso me parece bem consciente por parte de quem pensa assim. Poucos se interessam por análises mais complexas na área em que escolheram estudar e muito menos em entender os conceitos vitais de uma possível “ciência econômica”. A meritocracia exigida hoje para se ingressar na USP pela Fuvest é mesmo uma questão polêmica, tem prós e contras, mas uma coisa me parece verdade: sem ter um conhecimento básico de áreas fundamentais do curso escolhido as chances de se obter uma formação minimamente sólida é remota. Em qualquer área. Penso que talvez na área de exatas isso seja mais claro, visto que é bem complicado recuperar tempo perdido, por exemplo em matemática, onde praticamente nada do que se aprende é perdido.
    A abordagem que a diretora propõe é até interessante, concordo com sua visão da era Lula ( junto com as questões ligadas ao ajuste econômico que se vislumbra), e fica claro o atraso cronológico do filme em relação ao período em que vivemos. Para mim, ao ler a sua boa crítica e refletir sobre o filme novamente, ficam duas questões: será que ao filmar uma história que aborde temas com grande apelo político e ideológico (mesmo que nas entrelinhas), os diretores e roteiristas não deveriam concentrar suas forças e focar principalmente em contar uma boa história, sem forçar a barra com alguns personagens ( como foi o caso dos homens do filme) para obter o efeito esperado? Acho que isso prejudica filmes brasileiros que tem tudo para realmente marcar época. Quanto a solidariedade de classe mencionada por mim acima e citada por você nessa e em análises anteriores, você realmente acha que ela pode existir de uma maneira sustentável? ( as vezes duvido se ela realmente existiu em algum lugar quando olhada com maior cuidado, inclusive levando em conta essa visão idealizada que alguns tinham das classes populares do Brasil até a década de 80).

    Desculpe o textão. Provavelmente passei da conta!
    Não sei se existe essa modalidade para blogs.

  3. Obrigada pelo textão :c)
    Acho que já existiu solidariedade de classe, sim, quando os trabalhadores se viam antes como coletivo do que como indivíduos competindo. Um filme legal sobre o qual eu não escrevi, mas que trata disso, é o Mia Madre, o mais novo de Nanni Moretti.

  4. A respeito dos anos de estudo e da falta de interesse dos patrões em estudar, lembrei de uma pesquisa que vi há um tempo sobre qualificação de patrões e empregados em alguns países europeus. O desdém pelos estudos não parece ser uma característica exclusiva dos patrões brasileiros: em geral, eles têm menos anos de estudo do que os empregados.

    Em Portugal 10,8% dos patrões têm curso superior, enquanto 18,1% dos empregados o têm. Na Espanha são 29% dos patrões e 36,8% dos empregados.

    Aqui tem uma notícia com parte dos dados (de 2011): http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/soacute_11_dos_empregadores_portugueses_satildeo_licenciados.html

  5. Muito bom o texto. Adorei!
    Quanto aos homens do filme, o que me pareceu é que eles somente conseguem “enxergar” Jéssica, uma menina pobre, porque a consideram sexualmente atraente. O pai se atraindo por ela imediatamente e o filho com o passar dos dias… Se não a tivesse considerado atraente, o pai nem teria se dado ao trabalho de mostrar a casa, conversar, se mostrar simpático, levar pra passear, etc.

  6. Impecável. Gostaria de te ver apresentando suas análises e pensamentos em vídeo também, no YouTube. Você é direta e nada do que fala é irrelevante… Cada linha é interessante. Seria bom ampliar o alcance…

  7. Parabéns pela bela análise Juliana. Tive a mesma impressão em se tratar de um filme lulista, mas as suas colocações foram bem mais além que a minha critica e analise que fiz do filme na época. Acho que existia alguma ação sexuada ( e não assexuada) dos personagens homens , como por exemplo, quando o Lourenço Mutarelli convida Jéssica para conhecer seu antigo ateliê; neste convite percebi que ele queria que Jéssica o conhecesse não superficialmente como ele estaria prevendo por ter a esposa que tinha e dava as rédeas nele devido a sua alma de artista, e por isso, incapaz de encarar a esposa. Como não consegue mais se declarar para Jéssica, faz aquela cena estapafúrdia de pedida de casamento sem pé nem cabeça. é “bacana” ( termo típico dos ricos paulistas né?) sempre ler seus textos, mas suas análises fílmicas são mais bacanas ainda, parabéns mais uma vez.

  8. Eu nunca vi o filme Juliana e eu fico muito incomodada com o uso dele nestes tempos que vivemos, o uso político e panfletário. Vou assistir, mas queria dizer uma coisa antes: Tua análise me deixou especialmente incomodada porque vi tanto da Val em minha mãe e tanto da Jéssica em mim. Tanto que vai ser chato eu ficar falando e me expondo aqui, rs. Eu acho que a Jéssica é da terra brasilis mesmo, porque eu também sou. Sou a primeira geração de filhos nascidos nas cidades que tiveram acesso a quartos individuais, ônibus para levar a escola e refrigerante no domingo, rs. Minha mãe uma das poucas entre 15 filhos foi capaz de sair da zona rural, estudar, trabalhar e dar uma vida que permitiu aos filhos esse deslocamento em relação as suas próprias condições e possibilidade de existência material e simbólica. Trocando a miúdos eu sou a filha de pobre criado como rico, mas sem nenhuma condição de garantia de futuro. Estudei em colégio particular e tive acesso facilitado a um conjunto de elementos que sempre causaram estranheza entre meus primos, tios e parentes mais próximos. Sou aquele tipo de pessoa que “se acha muito descolada quando está em meio a um monte de caipira”. E sim, apesar do verniz que um doutorado em ciências humanas me proporciona existe uma dimensão do individualismo que me foge internamente e que me empurra a um sujeito de interesse que vamos chamar aqui de djabo. Hoje todo esse bolo de problematizações, além de garantir publicações no lattes, também me instrumentalizaram para endereçar algum tipo de entendimento ao lugar que ela ocupou e as respostas que deu aos desafios que encontrou, mas o fosso está tão presente que talvez ele leve mesmo a marte, onde estou.

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