Mais sangue na pele

No ano passado eu tinha 27 anos. É estranho pensar que no ano passado eu tinha 27 anos porque hoje, veja só, eu tenho 28. Aos 27 anos me ocorreu pela primeira vez, em interações sociais com homens, que eles me consideravam uma mulher mais velha. Eu sabia que isso aconteceria um dia, mas confesso que achava que teriam a cortesia de me esperar completar 30, ou 40.

De modo geral, mais velha é uma expressão que só faz sentido em relação a um determinado referencial, mas nesse caso não é preciso referencial algum porque eu senti isso em interações com um homem de 24 e com outro de 42, de modo que mais velha nesse contexto parece ter um sentido absoluto. Talvez o seu parâmetro de mais velha não seja 27, mas qualquer que seja ele, imagino que também seja absoluto. Uma mulher não é mais velha em relação a um homem ou a outra mulher ou mesmo a algo (aprender piano, japonês, competir na Olimpíada, ter filhos), ela é mais velha, ponto.

A primeira dessas interações foi no trabalho. Em conversas com esse colega de 24, ele já tinha mencionado algumas vezes a namorada. Em mais de um contexto, ele ressaltou que ela era mais velha do que ele. Em outros, ressaltou apenas que ela era mais velha. Um dia, eu conheci a moça e soube que ela tinha 27 anos. Eu não lembro de ter namorado ninguém exatamente da mesma idade que eu e sempre achei que depois dos 20 a gente passasse a contar as diferenças por faixas de cinco em cinco. Depois dos 30, de dez em dez. Isso até os 70, quando retomaríamos a contagem de cinco em cinco para então aos 90 voltarmos àquela fase em que é completamente aceitável ignorar uma pessoa seis meses mais velha ou mais nova que a gente.

Eu sempre presto muita atenção a informações descabidas que sei sobre alguém. Por exemplo, ricos simplões que assinam com sobrenomes do meio e adiam o jantar para o dia 20, mas que de algum modo eu sempre sei de quem são filhos, onde estudaram. Ricos que estão sempre escondendo que são ricos enquanto frisam que são ricos. No caso dos ricos, eles são muito transparentes, isso você tem que conceder a eles, mas é só um exemplo de como coisas muito pequenas que você magicamente sabe sobre uma pessoa sem lembrar ao certo como ou por que geralmente dizem bastante sobre ela. No caso desse meu colega, eu não sabia quase nada sobre ele, mas sabia que a namorada era mais velha.

Na segunda interação, eu estava conversando com esse homem de 42 anos que, enquanto dava ligeiramente em cima de mim, ressaltava que não gostava de menininhas. Posteriormente, eu soube que ele teve algo com uma moça de 24 de modo que só posso imaginar que alguns homens queiram um troféu por não ficarem numa porta de buffet esperando o momento exato em que as moças completam 18.

A armadilha deste texto é que eu só posso escrevê-lo enquanto não sou mais velha. Alguns uns anos atrás, uma moça fez um vídeo em que falava sobre ser feia. O vídeo era bastante bom, feminista etc. Mas ela só pôde gravá-lo porque não era nem um pouco feia e porque tinha um namorado igualmente bonito. (Alguém podia, inclusive, estudar essa presença fantasmagórica dos namorados de youtubers mulheres). Do mesmo modo, eu só posso escrever sobre ser mais velha enquanto não sou mais velha. Enquanto comentários do tipo “mas você? velha? kkk” estiverem garantidos para mim. Depois disso, até posso, mas vai significar outra coisa e é provável que não escreva. Espero que escreva, mas é provável que não.

Eu tenho essa teoria de que você sabe que está ficando “mais velha” quando começa a ouvir elogios mais efusivos à sua aparência. Quando as pessoas, homens e mulheres, te elogiam demais, em parte surpresas por você ainda não ter entrado em decomposição, em parte por uma percepção de que te achar bonita é fruto de alguma superioridade moral da parte delas, de um certo refinamento estético e moral inatingível à maioria. Quando algumas mulheres “mais velhas” do meu trabalho são elogiadas eu por vezes tenho o ímpeto de buscar um banquinho para que o elogiador prossiga com o discurso.

Também me parece que as bonitas mais velhas são ainda mais padrão do que as bonitas mais novas. Entre as mulheres mais novas ainda é possível tolerar pequenos desleixos e esquisitices. Moças quase gordas, quase baixas, quase estranhas por vezes são consideradas bonitas. Entre as mais velhas, a tolerância só cai.

O elogio à mulher mais velha tem ainda um tom prescritivo. Quando elogiam uma jovem, eu nem sempre tenho a impressão de que o conteúdo real da conversa seja “e você, querida, devia ser como ela”. Quando elogiam uma mulher mais velha, fica implícito que com um pouco de esforço e dignidade todas deveríamos ser como ela.

Um dos raros benefícios de ser uma mulher heterossexual é justamente que os corpos dos homens são menos regulados pela publicidade, pela higiene, por tudo. E que o meu desejo é menos prescrito. Ele é reprimido, mas quase não é prescrito. Ninguém me ensinou qual o diâmetro exato de uma coxa desejável. As mulheres, quase todas, mesmo as mais inteligentes, estão tentando ser a mesma coisa, ou uma das poucas dez ou vinte coisas que é permitido ser enquanto mulher. Entre os homens, há uma gama bem maior. Há muitas formas diferentes de ser feio e de ser bonito. Sendo mulher e heterossexual, eu perco a liberdade sobre o meu corpo e essa de fato é mais essencial, mas por enquanto eu ainda tenho acesso a uma variedade maior de belezas e feiuras menos disciplinadas.

Algumas bonitas mais velhas têm uma beleza mais voltada para a elegância do que para a sensualidade. Temo que isso não indique coisas boas, não indique que aqui é possível uma redução do domínio do corpo. Acho que não é nada disso. Acho que há um jeito polido de ser bonita mais velha e ele inclui um reconhecimento de que o sexo já não é seu forte e que você está em paz com isso. Talvez o aspecto mais violento do machismo para mim pessoalmente seja como se exige que as mulheres passem pelas coisas em paz. Reconhecer que coisas feitas para te atingir te atinjam é de algum modo humilhante. Parte da nossa aversão por mulheres plastificadas vem daí. É um moralismo. A mulher mais velha que não abre mão de sua sexualidade docilmente cai no ridículo. As que tentam se manter na juventude porque esse parece ser o único caminho para permanecer no sexo, também caem no ridículo.

As pessoas falam bastante sobre como mulheres jovens funcionam como troféus para tantos homens mais velhos. Mas o simples fato de ser casado com uma mulher de sua própria idade confere a um homem de 50 toda uma aura de superioridade, elegância, legalzice, caráter, estabilidade, inteligência, maturidade. Ver o seu marido, da sua idade, ser considerado um cara-tão-bacana somente por permanecer com você não deve ser a coisa mais lisonjeira do mundo. Se a jovem é um troféu, não seja por isso, a velha é uma medalha de escoteiro.

No carnaval, Alessandra Negrini causou comoção nas minhas redes sociais vestida de noiva num bloco da rua Augusta. Os comentários, todos elogiosos até onde vi, eram muito esclarecedores do que se espera de uma mulher mesmo nos círculos brasileiros menos (mas ainda muito) misóginos. Uma moça que eu sigo disse que ela estava maravilhosa, que estava tonificada sem estar malhada, com cara de nova sem estar preenchida, jovem sem estar menina, magra sem estar esquelética. Era uma lista realmente longa de coisas que ela estava assim sem estar assado, mas a própria lista de oposições deixava claro que ao tentar ficar assim aos 45, era quase impossível não ficar assado. Por um segundo, por aquele segundo, Alessandra Negrini estava se equilibrando em um lugar impossível. Um passo a mais e ela teria de escolher se ficava malhada ou se deixava a flacidez sobrevir, se seria velha ou preenchida, isso ou aquilo, para qual polo inevitável e indesejável penderia. Quando isso acontecesse, nós esqueceríamos Alessandra Negrini sem que ninguém pudesse dizer que desprezamos mulheres mais velhas porque naquele carnaval nós achamos Alessandra Negrini lindíssima.

Quando eu era mais nova, na verdade até outro dia, era misterioso para mim que adolescentes e pessoas de vinte e muito poucos fossem consideradas mais bonitas do que as de 30 ou 40. Com trinta me parecia que as pessoas tinham um domínio melhor do corpo, além de melhores maneiras, assuntos e hábitos de higiene. Mas é o tipo de coisa que talvez você só seja capaz de perceber quando perde. Há uns meses, eu estava na fila de espera do médico e tinha esse garoto muito novo e muito bonito. Olhando para ele, eu entendi que a graça das pessoas jovens, ou pelo menos a graça das pessoas jovens para mim, é que elas parecem ter mais sangue na pele. Elas ficam vermelhas espontaneamente, depois desficam, ficam de novo. Um jogo de sangue que sobe e desce com o calor, com a risada, com quase qualquer coisa. Tem um filme só sobre isso: é esse “Os Anarquistas”, com a Adèle Exarchopoulos. O filme é realmente terrível de modo que você terá duas horas para notar o que digo.

17 comentários sobre “Mais sangue na pele

  1. DEMAIS esse texto!

    Eu tenho 1, 65 de altura e, quando adolescente, pesava meus 63 quilos. Gorda? Não, mas me achava gorda, óbvio. Tenho rosto bonito, pele de boneca, autoconfiança, então eu falava do quanto eu era/me achava gorda com a maior tranquilidade do mundo, namorava, ficava com meninos. Aos 17, comecei a estudar loucamente para o vestibular e engordei de verdade. Aos 22, pesava mais de 100 quilos, ou seja, obesa. Não conseguia SEQUER tocar no assunto sobre obesidade, gente gorda, o quanto eu era gorda, tinha engordado, não namorava mais, mal olhava para meninos, etc. Agora, aos 28, com 68 quilos, volto a falar o quanto quero “perder mais 5 quilos, gordurinha na barriga, celulite, rsrs, ai, amo comer, blá blá, blá”.

    Você nos abre os olhos, Juliana. Nunca pare de escrever =)

  2. E então aos 47 cheguei a conclusão que não queria mais pintar o cabelo – por que mulheres escondem os grisalhos para não parecerem mais velhas, é quase default. E a partir de então, já são quatro anos, passei a conviver com as pessoas em dúvida se sou tão velha assim. Gostei muito do seu post!

  3. Seu jeito de lidar com as palavras dá a impressão de que você é (muito) mais velha. Ele contrasta com essa sua beleza esperta, própria das adolescentes.

  4. Não existe a necessidade da idade ser importante na vida adulta. Sempre tive essa ideia, mas tinha esquecido até ler esse texto. É difícil manter essa visão, quando o mundo apresenta um checklist para cada uma de nós nos sentirmos humilhadas, fracassadas, inadequadas. É “relógio biológico”, é casar, é ter sucesso, um bom emprego, mestrado, uma casa, é emagrecer imediatamente após o parto, é nunca engordar, etc. Recentemente percebi que a minha pele já não tem mais a mesma elasticidade de antes (mesmo ainda sendo nova, tendo 27 anos). Com atos sutis, começo a receber os primeiros sinais de que, mais do que envelhecendo, eu estou sendo direcionado para outra categoria de mulher, conforme o catálogo padrão do mundo.

  5. porra, então, um negócio que acho impressionante da juventude (e falo com um afastamento irreal, já que ainda nem tenho trinta) é a potência. por mais estúpido, imaturo e bobão que seja um jovem (e geralmente é em muita coisa), existe um ar de poder fazer tudo (e que tudo pode acontecer), que é realmente incrível. claro, existem questões financeiras, “de classe”, etc. mas em qualquer circunstância, esta ILUSÃO é forte, é foda.

  6. que texto maravilhoso e importante! tenho 28 anos e todos os meus amigos da minha idade namoram atualmente moças “mais novas”.

    não tenho certeza se isso é realmente ruim para eles ou mesmo para elas, mas certamente há algo a se comentar sobre isso. aos 28 anos, já somos consideradas “mais velhas” pelos homens da mesmíssima geração que a nossa.

  7. Que bacana o texto. Ser inteligente te faz parecer mais velha e madura, Ju. Você reúne o melhor dos dois mundos. Beijo!

  8. Gostaria de escrever bem, para descrever as aventuras e desventuras de ter uma idade e aparentar outra. Aos 18, parecia que mal havia entrado no 2º Grau. Aos 27, finalmente eu estava perto dos 18, ou quase. Aos 32/33, finalmente!, os 21 e não me pediam mais o RG em alguns estabelecimentos. Lembro que a coisa foi mudando de foco aos 37/38, pois sou humano e mundano: curtia quando diziam que eu aparentava 26 e exultava quando alguém errava para 24… Semana passada, em férias, numa mesa de bar… já no fim das férias e depois de comer e beber muito e engordar uns quilos pelo Brasil a fora, me deram 31… isto aos 43 e meio, quase 44 do primeiro tempo. Foi legal, mas nem liguei, sei que sou imaturo demais e ainda me irrito com futebol. Aquela data no documento de identificação só me diz que agora a cada cinco anos uma dor nova aparece. =P [e ainda utilizo emoticons, mudando a definição de “imaturo” para “abestalhado”]

  9. existe será este efeito para os homens?
    em algum ponto, um homem fica ‘mais velho’?

    enfim, texto maravilhoso.

  10. Interessante ler seu texto, hoje me lembrei que deixei de chamar homens mais velhos que convivo por aí de “senhor”, como costumava fazer há uns três anos atrás (propositadamente ou não). Me dei conta que, aos 30, qualquer homem de 50 está mais próximo de mim do que alguém de 24. Estou agora tentando conviver e dar o melhor de mim neste papel de “mulher mais velha”

  11. D. Juliana,
    Vou fazer 50 anos em outubro e ainda fico e desfico vermelha muito rápido. Será que sou bonita?
    Hahah… Adorei essa coisa de sangue na pele; melhor definição!
    Beijos!

  12. Incrível seu texto, mas vou fazer-lhe algumas ressalvas. 1. acredite na lei física, tudo cai. 2. Ter trinta ( tenho 38) não é tão bom assim. Sim existem algumas vantagens, como não corar e outras, mas você não consegue mais a disposição que tinha dantes. 3. Estudo Letras e a vasta maioria tem 20 aninhos, de modo que é um baita esforço que faço pra não dar em cima de todas( a juventude é mesmo encantadora). De fato homens mais velho se interessarem por mulheres mais novas não é só um troféu , mas uma necessidade de estar ainda ” em cima” enquanto a lei da gravidade te coloca em baixa, é compreensível..

  13. Que blog bom!
    Também sou Ju, e temos a mesma idade. Engraçado essa mudança para “mulher mais velha”, e como a gente ainda pode falar sobre isso!

  14. que texto bom! :) o envelhecimento da mulher sempre é tratado com surpresa, como se essa fase inevitável da vida (para quem sobrevive até ela, pelo menos) não estivesse anunciada desde que todos os seres humanos nascem…….

  15. texto perspicaz e tão transparente quanto pessoas ricas que camuflam suas origens.

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