One Trick Pony

Tenho muito apego a um filme que o Paul Simon lançou em 1980 chamado One Trick Pony. Era uma época em que ele estava em seu terceiro disco pós rompimento com o Art Garfunkel e tinha se saído claramente melhor do que o coleguinha no campo musical, com Paul Simon (1972), There Goes Rhymin’ Simon (1973) e com o lindíssimo Still Crazy After All These Years (1975).

Mesmo assim, havia uma preocupação com a longevidade do folk que eles faziam, e o Garfunkel vinha se precavendo com uma carreira paralela aparentemente frutífera no cinema. Ele tinha feito Catch-22 (1970) e Carnal Knowledge (1971), enquanto o nosso Paul só era escalado pra ser ridicularizado como nêmesis do Woody Allen em Annie Hall (1977).

Critério de elenco: chama aí qualquer filho da puta mais baixo do que eu.

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Invejosos somos muitos, mas o Paul recolheu-se em sua dor de cotovelo e escreveu um filme inteiro, acompanhado de um álbum homônimo com as letras mais tocantes que se tem notícia. As músicas (até mais do que o filme) contam a história de um cantor cujo único sucesso data de dez anos atrás, mas que continua insistindo na banda, nas viagens, nas novas canções, tudo isso enquanto se apresenta em lugares cada vez menores, para audiências cada vez mais apáticas, e deixa a esposa cada vez mais insatisfeita com suas ausências em casa. 

O filme é uma sequência de perdas para o lado do protagonista, Jonah. A mulher pede o divórcio. A carreira está em situação de abrir shows de bandinhas estilo B-52 e um produtor odiosamente pragmático interpretado pelo Lou Reed tenta desfigurar sua música para transformá-la no roquinho mela cueca da vez. De um lado, a banda de cinco caras com quem ele viaja pelo país representa a totalidade de suas amizades. De outro, Jonah também é patrão desses caras… 

O enredo está longe de ser autobiográfico, mas a personalidade e o jeitinho da criatura são cópia fiel do criador. Jonah é uma espécie de Paul Simon do mundo invertido. De um mundo no qual Paul Simon não tivesse dado certo e saísse por aí sendo adoravelmente loser.  

A atmosfera das cenas com o filhinho, Matty, lembram Kramer vs. Kramer (1979), que havia saído no ano anterior. Só que o roteiro é fragmentário demais. Parece antes uma colagem de momentos significativos da história do protagonista do que uma narrativa hollywoodiana coesa. É claramente um filme escrito por um músico, com longas sequências musicais, partes que mais parecem videoclipes ou gravações de show e cenas de quatro minutos nas quais músicos leem críticas destruindo seu trabalho e elogiando o de bandas que eles desprezam. 

A música é tão importante para entender a história do filme que o disco foi lançado alguns meses antes do longa, para que todo mundo chegasse ao cinema conhecendo as canções. O resultado estético é interessante, mas as pessoas não gostaram da proposta. Em uma entrevista à BBC, o Paul diz que o longa é mais um estudo de personagem do que uma história desenvolvida, e que talvez a coisa não tenha funcionado muito bem pra gente de fora da bolha musical.  

O disco se saiu melhor — ao menos na época do lançamento. Entrou no top 20 americano, vendeu mais de 500 mil cópias. O single “Late in the evening” foi nomeado ao Grammy. Hoje, no entanto, acho que é um disco meio menosprezado, a despeito de ter algumas das letras mais lindas que eu conheço.

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O disco tem “Nobody”, com todas aquelas metáforas telúricas e sensuais. Pelo menos eu acho versos como “when I’m rising like a flood / who feels the pounding in my blood” incrivelmente sensuais. 

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Tem “One-Trick Pony”, sobre um pônei de circo que só sabe fazer um único truque, mas que foi abençoado por essa limitação. De tanto repetir seu único truque, o pônei conseguiu dominá-lo com total perfeição, enquanto o eu-lírico da música precisa de todo um repertório de truques para atingir resultados bem inferiores. “He makes it / Look so easy, it looks so clean / He moves like God’s immaculate machine/ He makes me / Think about, all these extra moves I’ve made / And all this herky-jerky motion / And the bag of tricks it takes / To get me through my working day”. 

No filme, o Jonah é chefe, motorista e empresário da própria banda. Ou seja, está mais para o eu-lírico invejoso do que para o pônei em questão. Mas também há uma autoironia amargurada desse Paul Simon que estava justamente tentando se diversificar, lançando-se a uma carreira cinematográfica totalmente incerta aos 39 anos de idade. Que sentia que já não podia apenas cantar (e compor, e tocar 72 instrumentos, e produzir…)

Pessoalmente, é uma música que ressoa bastante em mim. Nessa impressão de que eu poderia desenvolver melhor o truque único da escrita caso não cedesse tanto ao multitarefismo das contas a pagar.

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Seja como for… O disco tem “God Bless the Absentee”, com aquela metáfora de abandono parental que se traduz em um filho que ainda não precisa do pai por ter “os ossos molinhos”. “My son don’t need me yet / His bones are soft / He flies a silver airplane / He wears a golden cross”. Essa mesma faixa tem uma passagem absurda que consegue ser ao mesmo tempo objetificante, sensual e terna ao dizer: “I miss my woman so / I miss my bed / I miss those soft places I used to lay my head”.

Eu me pergunto de onde ele tira essas imagens, e por que elas funcionam tão lindamente na minha cabeça…

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Tem “That’s Why God Made the Movies”, com a contradição entre a melodia animada e uma letra irônica e triste sobre um recém-nascido que nasce tão pronto quanto Atenas e parte do hospital sozinho, já que a mãe morre no parto. “When I was born / My mother died / She said, ‘Bye bye, baby, bye bye’ / I said, ‘Where you goin? / I’m just born’ / She said, ‘I’ll only be gone for a while’ / My mother loved to leave in style”. 

No filme, a mulher do protagonista insiste para que ele cresça e abandone sonhos juvenis de se tornar um Elvis Presley da vida. Nas músicas, ele se retrata como um órfão delirante que pede para ser alimentado e acarinhado por uma amante que aceite ser substituta daquela figura materna perdida. E a gente acha simpático porque antes ouvir essa proposta arrombada na voz do Paul Simon do que na sala de casa.

“Say you will! Say you will! / Say you’ll take me to your lovin’ breast / Say you’ll nourish me / With your tenderness / The way the ladies sometimes do / Say you won’t! Say you won’t! / Say you won’t leave me for no other man / Say you’ll love me just the way I am”.

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Tem “All Because of You”… “It’s all because of you / It’s all because you wouldn’t say, I do”. 

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E tem “Oh, Marion”, uma nova versão para a mesma melodia, dessa vez com um eu-lírico de hábitos propositadamente impensados e arredio a sentimentos que se pergunta o que, afinal, teria dado errado em seu casamento.

“Oh, Marion / I think I’m in trouble here / I should’ve believed you / When I heard you saying it / The only time / That love is an easy game / Is when two other people / Are playing it”.

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Por fim, o disco tem “Jonah”: a música que une o protagonista do filme ao profeta recalcitrante da Torah. Na narrativa bíblica, Jonas é incumbido por Deus da tarefa de ir até Nínive — capital do Império Assírio — para informar seus habitantes de que a cidade seria destruída caso eles continuassem em pecado. Mas, em vez de cumprir sua tarefa, Jonas simplesmente embarca em uma viagem na direção oposta, ignorando a encomenda divina.

Incapaz de lidar com o ghosting, Yahweh cria uma tempestade tão grande sobre o barco de Jonas que a tripulação começa a rezar para tudo quanto é deus, pedindo clemência. Jonas se faz de desentendido o quanto pode. Só quando não tem mais jeito é que confessa seu pecado aos marinheiros e pede para ser jogado ao mar, na tentativa de se entregar à morte e quem sabe salvar os demais. Yahweh então envia um peixe gigante, capaz de engolir o profeta teimoso e golfá-lo na costa de Nínive, onde ele finalmente divulga sua profecia. 

Paul Simon “corrige” a história bíblica ao dizer que Jonas não foi engolido por baleia alguma, e sim por uma música. “They say, ‘Jonah, he was swallowed by a whale’ / But I say there’s no truth to that tale / I know Jonah / He was swallowed by a song”.

Então seria uma música, e não uma baleia, que assumiria a dupla função de salvar o protagonista e de corrigir sua rota. É justamente essa música que toca na cena final de One Trick Pony, quando Jonah inventa uma mentirinha qualquer pra entrar no estúdio e resgatar sua música dilacerada pelo malvado Lou Reed.

Após tanta insistência, tanta volta pelo vazio, Jonah finalmente consegue desapegar da ideia de encontrar mais uma pepita de ouro, de fazer mais uma música que atinja as paradas de sucesso. “No one gives their dreams away too lightly / They hold them tightly / Warm against cold / One more year of traveling ‘round this circuit / Then you can work it into gold”.

Ele aceita que talvez nunca mais alcance a fama que conheceu brevemente na juventude, mas não se descaracterizará tentando retornar a um topo ilusório. Ele vai atirar o rolo da música feito uma bola de boliche e destruí-la em sua forma física para salvá-la nem que seja na essência, no campo das ideias. 

Jonah começa o filme com um sonho que ele enxerga como único. No entanto, aprende que esse sonho precisava ser resumido à essência. Ele queria 1. voltar a fazer sucesso 2. com sua música. No fim, se contenta só com a parte final do sonho: aquela que não inclui o sucesso, mas que preserva a sua música.

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“Here’s to all the boys who came along / Carrying soft guitars in cardboard cases / All night long / And do you wonder where those boys have gone? / Do you wonder where those boys have gone?”.

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