Fruta Gogoia

Em determinado momento convencionou-se que toda festa dos meus amigos termina tocando “Gal a todo vapor”. É ótimo porque, além de ser um ritual muito humanas.jpg, ajuda gente como eu, que sempre se pergunta se está incomodando, se o dono da casa já quer dormir, a ter paz de espírito. Virou um parabéns fora de época. Fica na sua, pega outra cerveja. Quando Gal berrar que é uma fruta gogoia você começa a agilizar o táxi.

Piano

Essas pessoas que fazem as coisas, que fazem todas as coisas, eu fico pensando se elas não gostam de alguém e ficam distraídas no trabalho, se não mudam de ideias, se não estão em vias de fazer o que iam fazer e daí lembram que piano é tão bonito, a gente devia aprender piano.

Para lá

Outra opção é deixar para lá. Deixar para lá sempre me parece uma boa opção. Não confunda com desistir. Deixar para lá é diferente de desistir. Tem mais a ver com um esvaziamento calculado do desejo. Desiste-se quando há desejo, mas não ânimo, ou condições. Deixar para lá exige um ânimo imenso para apagar o fogo.

Deixar para lá é mais difícil que conseguir, é o caminho inverso do conseguir. É conseguir para dentro. É se transformar na pessoa que não mais quer aquilo. Pense naquilo que você quer: é difícil não querer aquilo. Quem deixou para lá conseguiu, senão a coisa, ao menos ser a pessoa que sacode os ombros para a coisa.

Teto solar

Uma das críticas mais frequentes ao cinema de denúncia social é a de que ele é didático. Em Dois dias, uma noite, no entanto, os irmãos Dardenne se atrevem a fazer um filme quase tão didático quanto as peças didáticas de Brecht e nenhuma crítica ousa acusá-los de didatismo como se isso fosse um defeito em si.

Dois dias, uma noite é didático porque precisa nos explicar muito lentamente o que há tempos esquecemos: que trabalhadores são pessoas; que pessoas são feitas de carne e osso; que por trás das embromações e tucanagens de nossos esquemas de trabalho impessoais e distanciados há vidas humanas e necessidades materiais.

No filme, Marion Cotillard é Sandra, uma operária que acabou de voltar ao trabalho após um período de afastamento por conta de uma depressão. Durante sua ausência, o dono da pequena fábrica de tetos solares onde ela trabalha descobre que os dezesseis funcionários que lhe restaram podem muito bem dar conta do serviço, ainda que todos estejam fazendo hora extra por isso. Ele decide então fazer uma votação para que os funcionários escolham se preferem ganhar um bônus e demitir a colega ou ficar com a colega e sem bônus. Ou seja: o patrão terceiriza para os trabalhadores o fardo da demissão. Não é ele quem demite, são os colegas.

A votação é feita pelas costas de Sandra e o chefe, Jean-Marc, diz a alguns operários que o patrão quer fazer cortes de todo modo e que se não for Sandra depois será um deles. Não surpreendentemente, o abono ganha por quatorze votos a dois e Sandra é demitida. Graças à pressão de uma colega, o patrão concorda em refazer a votação na segunda-feira e Sandra tem um fim de semana — dois dias e uma noite — para tentar reverter sua demissão. De novo, o patrão terceiriza o trabalho sujo: ele se coloca como o conciliador, o sujeito que deixa Sandra refazer sua votação, que respeita a “livre escolha” dos funcionários enquanto Jean-Marc, o chefe, tem que fazer lobbies e ameaças para garantir que o resultado da segunda votação seja o mesmo da primeira.

A estratégia de Sandra é personalizar as coisas, é retirar o véu de impessoalidade que permite que os colegas tomem decisões sem pensar nela. Ela tenta ir à casa de cada um dos dezesseis colegas repetir o mesmo argumento: “Eu sei que um bônus de mil euros é muito dinheiro, mas para mim é o meu emprego. Quero ficar com vocês, não sozinha, no desemprego”. A definição do desemprego como um estado de solidão é a mais tocante e precisa que já ouvi. O que Sandra tenta fazer nada mais é do que recordar os colegas de sua materialidade e de sua humanidade. “Eu não existo” é uma frase que ela repete algumas vezes.

O filme é quase que puramente descritivo — o que vemos é Sandra indo de casa em casa, parando para almoçar, para comprar uma água —, mas Foucault já disse que “a descrição não é reprodução, é decifração”. É através dessa repetição de gestos e falas que vamos problematizando o discurso de Sandra, as respostas dos colegas. Alguns são violentos, agressivos, a tratam como pedinte. Outros sentem culpa, pedem perdão. Uns tentam explicar que precisam do dinheiro, outros dizem que sabem que devem ajudá-la porque Deus disse que devem ajudar o próximo. Ela leva a discórdia por onde passa: causa brigas entre pais e filhos, marido e mulher. Uma das colegas acaba se separando do marido: uma vez que começamos a lutar contra uma opressão, é difícil nos submetermos às outras. Para vários dos colegas, o fim de semana significa um outro período de trabalho. Uns consertam coisas, outros lavam roupas, alguns fazem bicos para complementar a renda. A precarização é evidente na maior parte dos casos.

Ninguém levanta a possibilidade de uma greve. Ninguém ousa propor ter as duas coisa, o bônus e a colega de volta. Mesmo entre as pessoas que decidem ajudá-la, as coisas são colocadas antes como um gesto de solidariedade pessoal do que como um ato político de solidariedade de classe. Diferentemente do que ocorre em As neves do Kilimanjaro — outro filme mais ou menos recente que retrata um grupo de trabalhadores tendo que decidir a demissão de um deles — não há um sindicato, um discurso coletivista, os colegas não criam laços entre si. Os trabalhadores são divididos internamente: há os funcionários de fato e os temporários.

No fim, a votação é refeita numa cena em que todos estão uniformizados e apenas Sandra está apartada, num prenúncio de solidão que assume a forma de uma blusinha cor-de-rosa. O resultado é um empate técnico, mas empate aqui significa vitória do patrão. Jean-Marc pergunta se ela está satisfeita por ter dividido a equipe e causado desconforto. Num último gesto de generosidade, o patrão chama Sandra, parabeniza-a por ter conseguido tantos votos e diz que não quer causar um mal-estar na equipe, por isso decidiu dar o bônus e readmiti-la. A readmissão, no entanto, só será feita dali a dois meses, quando o contrato de um dos temporários vencer. Até lá, ela estará “tecnicamente desempregada”. Sandra se nega a tomar a vaga de um colega. O patrão diz que ele não será demitido, o contrato apenas não será renovado. Ela diz que é a mesma coisa e vai embora, encarar um desemprego que agora talvez seja menos solitário.

O sindicato que me representa se intitula “sindicato dos jornalistas profissionais”, marcando uma divisão artificial entre o que eles chamam de jornalistas profissionais (isto é, graduados em jornalismo), e a massa identificada como o câncer da profissão (isto é, gente como eu, que se formou em outras coisas ou sequer pisou na universidade, mas que ganha a vida como jornalista). Enquanto as grandes redações do país demitem cerca de 20% dos trabalhadores ao ano, enquanto frila, frila fixo, pjotinha, gratificação por fora, contrato temporário, passaralho e terceirização fazem parte do vocabulário de todo repórter, enquanto é cada vez mais difícil encontrar um jornalista com mais de 50 anos numa redação; o sindicato avalia que o alvo de suas campanhas deve ser a obrigatoriedade do diploma. Em vez de, vamos supor, organizar todos os jornalistas que trabalharam como PJ e frila fixo nos últimos cinco anos e entrar com um processo coletivo histórico contra os patrões, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais se limita a imprimir cartazes cafonas com mãozinhas agarradas a diplomas.

Em profissões similares à minha — redatores, revisores, tradutores, publicitários — o trabalho se torna cada vez mais abstrato, cheio de nuances e eufemismos. As pessoas nunca são desempregadas, são frila; nunca são empregadas, são colaboradoras; nunca são demitidas, os contratos é que vencem. Michael Pollan costuma dizer que comida boa é aquela que a sua avó é capaz de entender como comida. Para mim, emprego bom é aquele que a sua avó consegue entender como emprego, sem grande malabarismo retórico para explicar. Acompanhar Sandra por dois dias e uma noite é doloroso porque nos lembra de nossa materialidade em oposição a um mundo do trabalho fantasmagórico, nos lembra que ela existe e que nós existimos.

Entre as coisas

Tem um preceito zen que diz que precisamos colocar espaço entre uma coisa e outra. Acredito nisso, espaço entre uma coisa e outra. Espaço físico, por exemplo. Desespero desses projetos arquitetônicos que se gabam de tornar minúsculos cubículos “funcionais”. Viver não é agrupar artefatos de modo funcional. Não é fechar a porta que esconde a cama e abrir a que desdobra uma mesa com cinco minúsculos banquinhos quando as visitas chegam. Me parece que uma casa deveria ser qualquer coisa além disso. Uma casa deve ser mais do que uma cova engenhosa para vivos.

Espaço temporal, também. Colocar meses entre os acontecimentos. Espaço entre as pessoas parece um bem necessário. Espaço entre o trabalho e o outro trabalho. Entre o trabalho e o lazer. Não sair do trabalho direto para o bar. Colocar qualquer coisa entre duas atividades. Viver também não devia ser otimizar o tempo. É importante não otimizar o tempo. O fato de as coisas caberem não significa que elas deveriam estar lá. Agendas e apartamentos estão aí para provar a diferença.

No cinema, a função dos créditos e dos trailers — para além da publicidade, para além de dizer que Rafael fez a fotografia — é colocar um espaço entre a ficção e a realidade. Um espaço entre o sujeito que chegou da rua e o espectador. São dois sujeitos, precisam ser reconhecidos como tal.

Certa vez fiz uma matéria sobre uma câmara de gel em uma academia de ginástica. Uma parafernália futurista onde você entrava, deitava e ficava, com luzes azuis ao redor. Era como dormir por oito horas, explicava o fabricante. Era como renascer, dizia uma frequentadora. Uma neurologista disse: as pessoas precisam não fazer nada. Quem vender isso, vai ficar rico. Aqui em casa, a câmara atende pelo nome de rede e não funciona tão bem, não substitui oito horas de sono. Pelo contrário, exige um sono sem cronômetro e cochilos sem premeditação. Também não renasce ninguém. Basta deitar nela para se sentir velho, muito velho, com um longo passado que vai e volta. Não estamos ricos, mas é importante não funcionalizar a rede.

Quem escreve o século 21

Acaba de ser lançado no Brasil um livro resenhando 101 autores contemporâneos entre os quais apenas 14 são mulheres. Isso significa que para cada 6,2 homens, os quatro organizadores do livro — dois deles do sexo feminino — só conseguiram pensar em uma mulher que merecesse figurar na coletânea. O livro recebe o título de Por que ler os contemporâneos — Autores que escrevem o século 21, ao que se constata que o século 21 é um seriado com poucas roteiristas mulheres.

Em casos assim, as pessoas geralmente adotam uma posição deixa disso. Há o deixa disso negacionista, para o qual números como esses são apenas uma coincidência e ninguém pode fazer nada se esses homens (e aqueles, e aqueles outros) calharam de escrever melhor; e há o deixa disso esclarecido, que geralmente apela para a base e diz que é tudo um problema de base, que números assim refletem uma realidade, que é preciso combater a realidade, não os sintomas. Dentro dessa lógica, mulheres não foram incentivadas a escrever, não tiveram chances, por isso hoje não temos tantas escritoras boas, mas pode aguardar que na próxima geração será diferente. Para esta geração resta, sei lá, fazer oficinas de escrita criativa para meninas de sete anos e resenhar os livros dos caras.

A questão é que, não, nem todos os problemas estão na base. Mulheres são maioria entre os estudantes universitários, mas não entre os professores. São maioria entre os leitores, mas não entre os escritores. Certos problemas residem justamente no topo. Além disso, há de se usar uma visão mais dialética: alguns problemas de base se acertam mais rapidamente quando ajustamos o topo.

É melancólico o dia em que você descobre que o cânone não é definido por concurso público e que a mão invisível da fama literária é quase tão desastrada quanto a da economia na hora de selecionar quem será estudado, publicado e lido e quem servirá de comida às traças. Questões comezinhas como CEP, quem possui os direitos da obra, nível de amabilidade dos herdeiros, quem levou uma vida fotogênica e o que o autor trazia entre as pernas são critérios de desempate que garantem que escritores talentosos de determinada configuração privilegiada levem a melhor contra seus pares menos hegemônicos. Ignorar as vantagens de um grupo e tentar avaliar o que quer que seja como se não houvesse história não é isenção, é reafirmação do status quo. Tem uma frase do Lotfallah Soliman, se não me engano, que diz “não existe página em branco, nunca existiu”. Ao dizer que uma coletânea assim deveria incluir mais mulheres não estou dizendo que escritores homens deveriam ser “prejudicados” para dar espaço a escritoras medianas; que os editores deveriam “fazer de conta” que a produção feminina é tão boa quanto a masculina. O que estou dizendo é que me recuso a acreditar que tenhamos tão poucas mulheres merecedoras de aparecer numa lista dessas. Para citar apenas alguns exemplos, acredito que escritoras como Veronica Stigger, Valeria Luiselli e Guadalupe Nettel não devam em nada a escritores como Marcelino Freire, Michael Chabon e Bernardo Carvalho. Mas eles figuram na lista. Elas, não.

Eu estava tendo essa discussão com uma moça no Twitter. Segundo ela, seria leviano da minha parte dizer que os organizadores excluíram mulheres. Eles não excluíram, esclareceu minha interlocutora, apenas não usaram gênero como critério. Ela também me informou que várias das resenhistas do livro eram mulheres, o que eliminaria qualquer possibilidade de “má vontade” com o gênero feminino; ao que eu perguntei se a diagramadora e a revisora também eram mulheres porque estou segura de que um livro sobre escritores contemporâneos que contempla uma diagramadora mulher certamente não pode ser acusado de machismo.

Quando você está discutindo com outra mulher e em dado momento ela diz “sou mulher”, como se você não estivesse vendo isso, como se você não tivesse um arcabouço cultural que lhe assegura que sujeitos com aquela configuração sejam mulheres, note que o que ela está fazendo é reiterando que, por incrível que pareça, o sujeito que emite aquele discurso obviamente contrário aos interesses das mulheres é uma mulher!

Não se trata de dizer que essas mulheres (ou negros, ou gays) sejam machistas (ou racistas, ou homofóbicos). Não se pode exercer opressão apenas com palavras, é preciso falar de uma determinada posição que elas não ocupam. O que elas estão fazendo, no entanto, é reproduzir o discurso de um outro gênero de modo tão radical na tentativa de se afiliarem a esse gênero que em determinado momento precisam nos lembrar de que não pertencem a ele. Porque, discursivamente, trabalham duro para pertencer.

Um livro com “escritores que escrevem o século 21” que inclui apenas uma mulher para cada 6,2 homens é um livro bastante realista e conectado ao seu tempo. Acho mesmo que, para cada mulher escrevendo a história hoje, temos ao menos 6,2 homens escrevendo por cima. Ser mais realista que o rei, no entanto, é apenas outra forma de assinar embaixo da ordem estabelecida. De que vale ser realista quando a realidade não nos convém?

Fora das urnas

Alguns dos raciocínios mais obtusos que ouvi durante esse processo eleitoral estavam relacionados à forma como as pessoas se comportam na internet durante as eleições. De listas estilo BuzzFeed com regras de conduta a consultores de etiqueta do Twitter, muitos pareciam concordar que fazer campanha em redes sociais não adianta. Um site de notícias falsas fez uma manchete dizendo: “Convencidos por amigos, eleitores de Dilma votarão em Aécio e de Aécio, em Dilma”. Outro site fez um meme com os dizeres: “Mudei meu voto por conta do seu textão de Facebook, disse ninguém”. Partidários da *vida real* insistiam para que “saíssemos das redes sociais” e fôssemos influenciar “pessoas de verdade”, essa entidade cósmica que vaga pelas ruas, toma sorvetes e faz compras.

Há alguns problemas conceituais por trás dessa lógica de que a militância virtual é inconveniente e ineficaz. O primeiro é a divisão rígida entre mundo virtual e físico, como se a internet já não tivesse vazado, como se não fosse a conexão mais estreita com o real para boa parte de nós, inclusive para aqueles que vagam por ruas, tomam sorvetes e fazem compras. Diz isso quem perdeu o bonde do Zeitgeist e não percebe que — em 2014, em um grande centro urbano brasileiro — a internet é o lugar onde você influencia o voto de mais gente, exceto, talvez, pelo seu local de estudo e trabalho.

O segundo problema é a crença de que devemos ser adequadinhos, devemos levar a vida de modo a causar o mínimo de distúrbio e desconforto para os demais, devemos erguer a existência em torno do nobre objetivo de evitar atrito. A etiqueta, essa tentativa de pasteurização de qualquer atividade humana, diz que é deselegante ser a pessoa que defende demais um candidato. Idealmente, se anule. Se não for possível, coloque suas posições de modo discreto e paumolecente.

O terceiro problema está na ideia de que não é possível influenciar os amigos pois cada um tem sua opinião e ninguém vai mudar por conta do seu “textão de Facebook”. Gosto desse termo que começaram a usar, “textão de Facebook”. O advento da timeline é uma das poucas coisas legais do Facebook porque estimulou pessoas que jamais pensaram em ter um blog a escreverem mais longamente e compartilharem suas análises. O termo, no entanto, deixa claro que isso é uma subversão dos propósitos dessa rede social, feita para divulgação de fotos e relatos concisos sobre como anda o seu umbigo. Se ouvir a opinião de seus conhecidos sobre os candidatos não te influencia, então eu não sei o que mais te influenciaria. Ver transeuntes com adesivos no peito? Assistir propagandas eleitorais em que candidatos seguram as mãos de velhinhas em casebres? Ficar parado no trânsito por conta de uma passeata? Acredito em todas essas velhas táticas da campanha política, mas não vejo nada mais pessoal, profundo e eficiente do que entrar em contato com a opinião de gente que você de fato conhece e respeita (ao menos o suficiente para manter na sua lista) e debater com essas pessoas. Não se trata de convencer — Saramago chama atenção para o fato de que “convencer é uma falta de respeito, uma tentativa de colonização do outro” —, mas de influenciar. No primeiro turno, votei em Luciana Genro amplamente influenciada por textões de Facebook de um amigo. No segundo turno, quase votei nulo por conta de textões de outra amiga (quando a urna me encarou nesta manhã de domingo, no entanto, bateu uma consciência de classe pequeno burguesa e os dedos, quase sozinhos, votaram no 13).

A ideia de que não é possível influenciar o outro está ligada ao quarto problema conceitual: o de que o voto é decidido no vácuo. Para essa concepção, o eleitor ideal é aquele que senta em uma tarde de domingo, analisa friamente as propostas de cada partido, faz um teste virtual que lhe diz qual o candidato mais alinhado às suas ideias, lê um relatório sobre desvios de conduta de cada indivíduo e define sua irrevogável posição. Esse eleitor ideal não se relaciona afetivamente com partidos, candidatos, com o noticiário e com os demais eleitores. Ele é senhor de seu voto, um sujeito sem história que chega de Marte às vésperas da eleição e faz escolhas baseadas em fatos.

Alguém observou no Twitter que durante as manifestações de junho do ano passado, o que mais se ouvia de gente pacata e ordeira era que “o nosso protesto faremos nas urnas”. Durante as manifestações anti-Copa, a mesma ladainha, “o nosso protesto faremos nas urnas”. Agora, nas eleições, o comentário dessas mesmas pessoas era de que não aguentavam mais gente chata falando de eleição. Rs. A pessoa, no caso, observou isso como um movimento contraditório. Eu vejo como uma radicalização do quanto determinados tipos encerram nossa encenação democrática à urna enquanto objeto físico. Para eles, nada de adesivos, panfletos, trânsito parado, nada de textão no Facebook. Democracia se faz com assepsia. E urnas, que curiosamente me lembram da morte.

PS: Sobre passeatas como forma de convencimento, o Alexandre Soares Silva tinha um texto maravilhoso dizendo que não entendia a passeata como argumento. Não encontrei, ele também não encontrou, mas era algo como: “Não compreendo a caminhada como forma de argumento. ‘Você não pensa como eu penso? Mas pô, eu tô andando!'”.

Pinaúna

Uma vez tentei pegar uma concha na praia e era uma água-viva. Minha mão queimou e meu primo teve que fazer xixi nela. Demorei vários minutos para assumir que tinha confundido a água-viva com uma concha e pedir ajuda. Pedir ajuda, no caso, significava consultar os demais, perguntar quem ali estava com a bexiga cheia. Meu problema nunca foi pedir que mijassem em mim, mas assumir que tinha agido como a piá de prédio que de fato era e agarrado a água-viva com a mão espalmada, cheia de intenção. Não contei toda a verdade: disse que a concha que eu procurava estava debaixo da medusa. Ali, parada, com seu pequeno arco-íris formado pelo sol, a água-viva parecia uma resistente bolha de sabão.

Era um verão em Itaparica em que inventamos de encher garrafas pet com conchas e vender entre os veranistas. Nunca fomos crianças empreendedoras, não sei de onde veio essa coisa das conchas. Era quase como vender areia na praia. Naquele ano, as conchas invadiam a orla, formando uma calçada de pequenos paralelepípedos junto à espuma. Com muito cuidado, era possível caminhar sobre elas sem melar o pé de areia. Uma cliente em potencial chamou atenção para o fato. “Se eu quisesse essas conchas, eu mesma catava”. Era uma época em que não se vendia maçãs lavadas em embalagens da Turma da Mônica nem mini-cenouras que na verdade são apenas cenouras em pedaços, pateticamente esculpidas como se fossem cenouras em miniatura. Se fosse hoje, talvez tivéssemos mais sorte com nosso tino comercial. As conchas, afinal, eram lavadas e embaladas. Selecionadas, até, à maneira que tudo na vida é seleção.

Aquele verão teve várias coisas que não se encaixavam. Em contraste com o ímpeto empresarial e adultinho da venda das conchas, houve o episódio em que eu e minhas primas gêmeas partimos em busca do horizonte com uma prancha de pegar jacaré, num horário de maré baixa. Era madrugada e a areia encontrava um sertão de formações rochosas. Só lá no fundo é que dava para ver o mar. Parecia as praias de Aracajú, onde a faixa de areia é tão extensa que dá preguiça de alcançar a água. Fomos andando pelas pedras, andando e andando. No meio do caminho — no que pensávamos ser o meio do caminho — Luana pisou em uma pinaúna. Nem isso faliu a empreitada. Arrastamos a prancha com a doente até a maré subir e nos descobrirmos no meio do mar, muito longe das barracas que começavam a levantar. Se não morremos é porque nadávamos bem.

Em dia de maré brava, meu pai nos levava a alguma praia de mar aberto, como as de Amaralina e Armação. Nos soltava sem uma palavra de precaução. Nunca fui observadora, só percebia o perigo quando vinha o primeiro caldo. Minha irmã reconhecia o truque, se entediava com aquele arremedo de ensinamento e ficava na areia, fingindo falta de vontade. No Porto da Barra o mar era calmo, mas a correnteza e as brincadeiras moviam os pais da gente para a direita, até se perderem de vista. Era bom sair do mar e notar que estava sendo cuidada por outros pais, que aqueles que olhavam em direção ao mar (em direção a mim) eram pais de outras crianças, igualmente perdidas diante de outros pais.

O estilo de criação de meus pais consistia em levar as filhas para a praia às dez horas do sábado, passar uma camada fina de filtro solar e recolhê-las esturricadas às quatro da tarde, quando íamos almoçar no Yemanjá. Caruru, vatapá, comida de dendê. Comíamos de biquíni em um restaurante. Ser banhista era uma condição. Lembro que no meu primeiro ano em São Paulo eu olhava com humor para as garagens dos prédios, sentindo falta da plaquinha que avisava: “Entrada de banhistas”. Depois do almoço — sempre arrastado —, as crianças entravam em um coma induzido por sol e azeite e só se recuperavam na segunda-feira, para ir à escola. Não sei em que momento ter filhos deixou de ser gritar para que ninguém sujasse o carro de areia e passou a ser montar murais de festas artesanais no Pinterest. Esse assunto de filhos me incomoda: nele eu sou a pessoa que lamenta a mudança das sensibilidades. Me ressinto. Talvez isso indique que em muitos assuntos eu seja essa pessoa.

De algum modo, Marina sobreviveu àquele verão. A mais nova, a única loira, a riquinha, a desgarrada, a que era meio carioca, meio gaúcha. A que a mãe ganhava mais que o pai. Um dia, em alto mar, nos revezávamos para subir na única prancha disponível. Eramos sete crianças. Nossos maiôs, originalmente neons, iam ganhando tons pasteis, descoloridos pelo sol e elastecidos pelo uso. Ficávamos todos ao redor da prancha e só um subia nela, para descansar. Era uma prancha feia, com um desenho do Godzilla que destoava do clima tropical. Fazíamos esse rodízio no intuito de irmos cada vez mais para o fundo sem necessariamente morrermos. Uma hora, Marina não aguentava mais de sol e cansaço e começou a reclamar. Em dado momento, Luana explodiu: “Cala a boca, carioca chata”. Virou a heroína instantânea das férias. Anos depois, enquanto assistíamos Titanic, sentadas no chão de um cinema horrível, Marina perguntou por que Jack e Rose não se revezavam na tábua de madeira. Eu ri pra ela e respondi: “Cala a boca, carioca chata”.

Uma derrota que já foi

Dilma já foi derrotada. Estar praticamente empatada com Aécio Neves mesmo tendo a máquina do Estado e o apelo emocional do lulismo ao seu lado é uma derrota e tanto. Há poucos meses eu nem acreditava que era possível um presidente da república perder uma reeleição dada a vantagem desproporcional que esse mecanismo dá a quem já está no poder. A rejeição à Dilma mostra que o projeto petista de distribuição via de renda via assistencialismo estatal se esgotou, o governo falhou em dar um passo seguinte à retirada da miséria. É um esgotamento de projeto, não é falta de carisma, não é incompetência pessoal de Dilma e definitivamente não é porque Aécio Neves é um bom candidato.

O crescimento de Marina forçou uma certa guinada de Dilma à esquerda. O momento em que Marina foi catapultada nas pesquisas foi o momento em que Dilma parecia menos apática, menos zeladora de prédio, menos guarda do museu do lulismo. A estratégia de malhar Marina foi meio calhorda e saiu pela culatra. Marina virou escada para Aécio. A eleição que parecia representar a consolidação do projeto petista para o país — com duas mulheres oriundas do centro, com histórico de luta social, no segundo turno — virou uma representação gráfica da fragilidade desse projeto.

Não acho que o mundo vá acabar se Aécio for eleito. Na verdade, gostava de ver como a esquerda se reorganizaria sem o PT no poder, como os movimentos sociais deixariam de ser aparelhados. Não vou votar na direita para satisfazer essa pequena curiosidade histórica, rs — Até porque a direita vai voltar uma hora ou outra, sei que ainda vou ver isso tudo.

O Brasil é tão atrasado em direitos sociais que qualquer migalha de política social-democrata que os governos petistas concedam ganha ares de revolução; é dessa forma que uma gestão corrupta, aliada e alinhada com a burguesia nacional e que não consegue avançar sequer pautas liberais como casamento gay e aborto é percebida como um grande patrimônio da esquerda, um totem pelo qual vale a pena trocar décadas de esforço para erguer os movimentos sociais do país. Mesmo sendo social-democrata na menor parte do tempo e fazendo concessões éticas e políticas descomunais para viabilizar um projeto recuado, o petismo tende a ser visto como revolucionário por uma elite que ainda digere a lei áurea e seus desdobramentos — como a política de cotas raciais e a paridade de direitos entre trabalhadores domésticos e de empresas.

Dilma já foi derrotada. Ela já entrará em seu segundo mandato em dívida com uma direita fortalecida e com uma base que a considera vagamente menos pior que a oposição. É importante que o PT perceba que, mesmo ganhando, perdeu, e vai continuar perdendo enquanto não avançar a pauta da inclusão de consumidores para a inclusão de cidadãos. O que, é bom lembrar, também não seria revolucionário.

É engraçado — e na verdade me enche de esperanças — ver as pessoas da direita falando sobre sovietização do Brasil, sobre como isso aqui vai virar uma Cuba etc. Não parece um discurso muito conectado com a realidade ou com o noticiário, mas sempre penso “ah, que fofo” porque, lendo os marxistas contemporâneos, o problema é justamente o contrário, não é? O problema é que o horizonte de expectativas da esquerda foi ridiculamente achatado e sequer sonhamos alto, o problema é que nem a gente acredita na viabilidade da revolução (ou mesmo de reformas audaciosas). Enfim, o mundo TINA, da Margaret Thatcher. Quando vejo as pessoas da direita dizendo que há sim alternativa, bem, isso parece bastante meigo da parte delas, passar essa dica e tudo.