Uma derrota que já foi

Dilma já foi derrotada. Estar praticamente empatada com Aécio Neves mesmo tendo a máquina do Estado e o apelo emocional do lulismo ao seu lado é uma derrota e tanto. Há poucos meses eu nem acreditava que era possível um presidente da república perder uma reeleição dada a vantagem desproporcional que esse mecanismo dá a quem já está no poder. A rejeição à Dilma mostra que o projeto petista de distribuição via de renda via assistencialismo estatal se esgotou, o governo falhou em dar um passo seguinte à retirada da miséria. É um esgotamento de projeto, não é falta de carisma, não é incompetência pessoal de Dilma e definitivamente não é porque Aécio Neves é um bom candidato.

O crescimento de Marina forçou uma certa guinada de Dilma à esquerda. O momento em que Marina foi catapultada nas pesquisas foi o momento em que Dilma parecia menos apática, menos zeladora de prédio, menos guarda do museu do lulismo. A estratégia de malhar Marina foi meio calhorda e saiu pela culatra. Marina virou escada para Aécio. A eleição que parecia representar a consolidação do projeto petista para o país — com duas mulheres oriundas do centro, com histórico de luta social, no segundo turno — virou uma representação gráfica da fragilidade desse projeto.

Não acho que o mundo vá acabar se Aécio for eleito. Na verdade, gostava de ver como a esquerda se reorganizaria sem o PT no poder, como os movimentos sociais deixariam de ser aparelhados. Não vou votar na direita para satisfazer essa pequena curiosidade histórica, rs — Até porque a direita vai voltar uma hora ou outra, sei que ainda vou ver isso tudo.

O Brasil é tão atrasado em direitos sociais que qualquer migalha de política social-democrata que os governos petistas concedam ganha ares de revolução; é dessa forma que uma gestão corrupta, aliada e alinhada com a burguesia nacional e que não consegue avançar sequer pautas liberais como casamento gay e aborto é percebida como um grande patrimônio da esquerda, um totem pelo qual vale a pena trocar décadas de esforço para erguer os movimentos sociais do país. Mesmo sendo social-democrata na menor parte do tempo e fazendo concessões éticas e políticas descomunais para viabilizar um projeto recuado, o petismo tende a ser visto como revolucionário por uma elite que ainda digere a lei áurea e seus desdobramentos — como a política de cotas raciais e a paridade de direitos entre trabalhadores domésticos e de empresas.

Dilma já foi derrotada. Ela já entrará em seu segundo mandato em dívida com uma direita fortalecida e com uma base que a considera vagamente menos pior que a oposição. É importante que o PT perceba que, mesmo ganhando, perdeu, e vai continuar perdendo enquanto não avançar a pauta da inclusão de consumidores para a inclusão de cidadãos. O que, é bom lembrar, também não seria revolucionário.

É engraçado — e na verdade me enche de esperanças — ver as pessoas da direita falando sobre sovietização do Brasil, sobre como isso aqui vai virar uma Cuba etc. Não parece um discurso muito conectado com a realidade ou com o noticiário, mas sempre penso “ah, que fofo” porque, lendo os marxistas contemporâneos, o problema é justamente o contrário, não é? O problema é que o horizonte de expectativas da esquerda foi ridiculamente achatado e sequer sonhamos alto, o problema é que nem a gente acredita na viabilidade da revolução (ou mesmo de reformas audaciosas). Enfim, o mundo TINA, da Margaret Thatcher. Quando vejo as pessoas da direita dizendo que há sim alternativa, bem, isso parece bastante meigo da parte delas, passar essa dica e tudo.