Pinaúna

Uma vez tentei pegar uma concha na praia e era uma água-viva. Minha mão queimou e meu primo teve que fazer xixi nela. Demorei vários minutos para assumir que tinha confundido a água-viva com uma concha e pedir ajuda. Pedir ajuda, no caso, significava consultar os demais, perguntar quem ali estava com a bexiga cheia. Meu problema nunca foi pedir que mijassem em mim, mas assumir que tinha agido como a piá de prédio que de fato era e agarrado a água-viva com a mão espalmada, cheia de intenção. Não contei toda a verdade: disse que a concha que eu procurava estava debaixo da medusa. Ali, parada, com seu pequeno arco-íris formado pelo sol, a água-viva parecia uma resistente bolha de sabão.

Era um verão em Itaparica em que inventamos de encher garrafas pet com conchas e vender entre os veranistas. Nunca fomos crianças empreendedoras, não sei de onde veio essa coisa das conchas. Era quase como vender areia na praia. Naquele ano, as conchas invadiam a orla, formando uma calçada de pequenos paralelepípedos junto à espuma. Com muito cuidado, era possível caminhar sobre elas sem melar o pé de areia. Uma cliente em potencial chamou atenção para o fato. “Se eu quisesse essas conchas, eu mesma catava”. Era uma época em que não se vendia maçãs lavadas em embalagens da Turma da Mônica nem mini-cenouras que na verdade são apenas cenouras em pedaços, pateticamente esculpidas como se fossem cenouras em miniatura. Se fosse hoje, talvez tivéssemos mais sorte com nosso tino comercial. As conchas, afinal, eram lavadas e embaladas. Selecionadas, até, à maneira que tudo na vida é seleção.

Aquele verão teve várias coisas que não se encaixavam. Em contraste com o ímpeto empresarial e adultinho da venda das conchas, houve o episódio em que eu e minhas primas gêmeas partimos em busca do horizonte com uma prancha de pegar jacaré, num horário de maré baixa. Era madrugada e a areia encontrava um sertão de formações rochosas. Só lá no fundo é que dava para ver o mar. Parecia as praias de Aracajú, onde a faixa de areia é tão extensa que dá preguiça de alcançar a água. Fomos andando pelas pedras, andando e andando. No meio do caminho — no que pensávamos ser o meio do caminho — Luana pisou em uma pinaúna. Nem isso faliu a empreitada. Arrastamos a prancha com a doente até a maré subir e nos descobrirmos no meio do mar, muito longe das barracas que começavam a levantar. Se não morremos é porque nadávamos bem.

Em dia de maré brava, meu pai nos levava a alguma praia de mar aberto, como as de Amaralina e Armação. Nos soltava sem uma palavra de precaução. Nunca fui observadora, só percebia o perigo quando vinha o primeiro caldo. Minha irmã reconhecia o truque, se entediava com aquele arremedo de ensinamento e ficava na areia, fingindo falta de vontade. No Porto da Barra o mar era calmo, mas a correnteza e as brincadeiras moviam os pais da gente para a direita, até se perderem de vista. Era bom sair do mar e notar que estava sendo cuidada por outros pais, que aqueles que olhavam em direção ao mar (em direção a mim) eram pais de outras crianças, igualmente perdidas diante de outros pais.

O estilo de criação de meus pais consistia em levar as filhas para a praia às dez horas do sábado, passar uma camada fina de filtro solar e recolhê-las esturricadas às quatro da tarde, quando íamos almoçar no Yemanjá. Caruru, vatapá, comida de dendê. Comíamos de biquíni em um restaurante. Ser banhista era uma condição. Lembro que no meu primeiro ano em São Paulo eu olhava com humor para as garagens dos prédios, sentindo falta da plaquinha que avisava: “Entrada de banhistas”. Depois do almoço — sempre arrastado —, as crianças entravam em um coma induzido por sol e azeite e só se recuperavam na segunda-feira, para ir à escola. Não sei em que momento ter filhos deixou de ser gritar para que ninguém sujasse o carro de areia e passou a ser montar murais de festas artesanais no Pinterest. Esse assunto de filhos me incomoda: nele eu sou a pessoa que lamenta a mudança das sensibilidades. Me ressinto. Talvez isso indique que em muitos assuntos eu seja essa pessoa.

De algum modo, Marina sobreviveu àquele verão. A mais nova, a única loira, a riquinha, a desgarrada, a que era meio carioca, meio gaúcha. A que a mãe ganhava mais que o pai. Um dia, em alto mar, nos revezávamos para subir na única prancha disponível. Eramos sete crianças. Nossos maiôs, originalmente neons, iam ganhando tons pasteis, descoloridos pelo sol e elastecidos pelo uso. Ficávamos todos ao redor da prancha e só um subia nela, para descansar. Era uma prancha feia, com um desenho do Godzilla que destoava do clima tropical. Fazíamos esse rodízio no intuito de irmos cada vez mais para o fundo sem necessariamente morrermos. Uma hora, Marina não aguentava mais de sol e cansaço e começou a reclamar. Em dado momento, Luana explodiu: “Cala a boca, carioca chata”. Virou a heroína instantânea das férias. Anos depois, enquanto assistíamos Titanic, sentadas no chão de um cinema horrível, Marina perguntou por que Jack e Rose não se revezavam na tábua de madeira. Eu ri pra ela e respondi: “Cala a boca, carioca chata”.

Uma derrota que já foi

Dilma já foi derrotada. Estar praticamente empatada com Aécio Neves mesmo tendo a máquina do Estado e o apelo emocional do lulismo ao seu lado é uma derrota e tanto. Há poucos meses eu nem acreditava que era possível um presidente da república perder uma reeleição dada a vantagem desproporcional que esse mecanismo dá a quem já está no poder. A rejeição à Dilma mostra que o projeto petista de distribuição via de renda via assistencialismo estatal se esgotou, o governo falhou em dar um passo seguinte à retirada da miséria. É um esgotamento de projeto, não é falta de carisma, não é incompetência pessoal de Dilma e definitivamente não é porque Aécio Neves é um bom candidato.

O crescimento de Marina forçou uma certa guinada de Dilma à esquerda. O momento em que Marina foi catapultada nas pesquisas foi o momento em que Dilma parecia menos apática, menos zeladora de prédio, menos guarda do museu do lulismo. A estratégia de malhar Marina foi meio calhorda e saiu pela culatra. Marina virou escada para Aécio. A eleição que parecia representar a consolidação do projeto petista para o país — com duas mulheres oriundas do centro, com histórico de luta social, no segundo turno — virou uma representação gráfica da fragilidade desse projeto.

Não acho que o mundo vá acabar se Aécio for eleito. Na verdade, gostava de ver como a esquerda se reorganizaria sem o PT no poder, como os movimentos sociais deixariam de ser aparelhados. Não vou votar na direita para satisfazer essa pequena curiosidade histórica, rs — Até porque a direita vai voltar uma hora ou outra, sei que ainda vou ver isso tudo.

O Brasil é tão atrasado em direitos sociais que qualquer migalha de política social-democrata que os governos petistas concedam ganha ares de revolução; é dessa forma que uma gestão corrupta, aliada e alinhada com a burguesia nacional e que não consegue avançar sequer pautas liberais como casamento gay e aborto é percebida como um grande patrimônio da esquerda, um totem pelo qual vale a pena trocar décadas de esforço para erguer os movimentos sociais do país. Mesmo sendo social-democrata na menor parte do tempo e fazendo concessões éticas e políticas descomunais para viabilizar um projeto recuado, o petismo tende a ser visto como revolucionário por uma elite que ainda digere a lei áurea e seus desdobramentos — como a política de cotas raciais e a paridade de direitos entre trabalhadores domésticos e de empresas.

Dilma já foi derrotada. Ela já entrará em seu segundo mandato em dívida com uma direita fortalecida e com uma base que a considera vagamente menos pior que a oposição. É importante que o PT perceba que, mesmo ganhando, perdeu, e vai continuar perdendo enquanto não avançar a pauta da inclusão de consumidores para a inclusão de cidadãos. O que, é bom lembrar, também não seria revolucionário.

É engraçado — e na verdade me enche de esperanças — ver as pessoas da direita falando sobre sovietização do Brasil, sobre como isso aqui vai virar uma Cuba etc. Não parece um discurso muito conectado com a realidade ou com o noticiário, mas sempre penso “ah, que fofo” porque, lendo os marxistas contemporâneos, o problema é justamente o contrário, não é? O problema é que o horizonte de expectativas da esquerda foi ridiculamente achatado e sequer sonhamos alto, o problema é que nem a gente acredita na viabilidade da revolução (ou mesmo de reformas audaciosas). Enfim, o mundo TINA, da Margaret Thatcher. Quando vejo as pessoas da direita dizendo que há sim alternativa, bem, isso parece bastante meigo da parte delas, passar essa dica e tudo.