Pedagogia da contracepção

Meu namorado tinha dez anos quando lhe deram um saco de farinha e a orientação de que andasse com aquele peso para cima e para baixo por uma semana. Era uma atividade escolar para que as crianças soubessem o quão terrível seria ter um filho e carregar um peso daqueles por aí. Um saco de farinha. Algumas meninas enfeitaram seus sacos, traçaram rostinhos, puseram sainhas. Meu namorado jogou o dele no chão consecutivas vezes. O saco rompeu. Lhe deram outro.

Minha irmã tinha 11 quando a pedagoga do SOE começou a passar vídeos da série “Confissões de Adolescente” na turma dela. Ela achava aquelas mulheres todas muito adultas e distantes. Se tinham 17 ou 35, jamais poderia distinguir.

Na escola de minha prima, a professora de ciências ensinava a vestir frutas com camisinhas — era uma escola católica que uma vez por ano promovia uma semana vocacional onde crianças e adolescentes eram questionados sobre a possibilidade de se tornarem padres e freiras. O resultado mais concreto da iniciativa foi que as bananas que os meninos costumavam desenhar nos assentos das cadeiras para humilhar quem ali sentasse passaram a vir envoltas numa cúpula fantasmagórica de precaução.

Eu tinha 13 anos quando uma professora resolveu explicar o fenômeno da menstruação: era o choro do útero. Todo mês, o útero preparava um berço fofinho para a vinda do bebê. Se o bebê não vinha, ele chorava. Menstruação. No fundo da sala, Sofia soluçava. “Não quero que meu útero chore”. Meu útero era um bravo, chorava por dois, três dias no máximo. Aline tinha um útero mais sentimental, chorava e se debatia a semana inteira.

Marcelo e Lara tinham um acerto protofeminista no qual Marcelo ligaria todos os dias para Lara para lembrá-la da pílula. Certa vez, Marcelo esqueceu de ligar por três dias seguidos —um feriado na ilha. Eles terminaram, Lara pôs um DIU​ e começou a namorar Carlos. Marcelo achou injusto. ​

Fernando e ​Bruna rachavam o preço do anticoncepcional. Era um cinema a menos pra cada. Exceto quando precisavam de dinheiro para imprimir o fanzine, nesse caso a pílula rodava.

Rebeca estocava pílulas do dia seguinte na gaveta de calcinhas. Cristina chegou a pedir essas pílulas como presente de aniversário às amigas. A festa foi uma espécie de chá de pílula. Tinha 16. ​

Paloma engravidou aos 18. ​Ela pensava: muito nova, se fosse com vinte, estava bom.

4 comentários sobre “Pedagogia da contracepção

  1. Eu tinha onze quando ganhei, ao mesmo tempo, os clássicos americanos setentistas De Onde Viemos? e O Que Está Acontecendo Comigo?, e resolvi levar pra escola. Causou um certo rebuliço na quinta série (turma 502) em 1986, mas as professoras aprovaram porque eram bem didáticos na explanação da sexualidade. Sem querer, consegui um consenso entre docentes e discentes. Hoje soube que o atual prefeito mandou extinguir as linhas 511 e 512, que me levavam e traziam da escola. Estou arrasado e agora é mais pessoal do que com qualquer personagem oitentista do Stallone.

  2. Eu tinha sete anos quando meu pai me mostrou um livro chamado “de onde vem os bebês”. Minha irmã mais velha tinha acabado de menstruar, acho que ele pensou que seria melhor explicar logo (pelo menos uma parte) como funcionam “as coisas”. Eu escutei ele dizendo a minha irmã que ela era virgem. Eu disse que eu não era virgem, mas sim de sagitário. Depois, com uns 11 anos, ganhamos esses livros De Onde Viemos?, O Que Está Acontecendo Comigo. Eu adorava, mas fiquei triste porque meus seios só nasceram dois anos depois do que ele previa.
    Minha escola era a mais “pra frentex” da cidade. Enquanto uma amiga que estudou em colégio religioso chegou à faculdade achando que as pessoas faziam sexo de roupa (e a outra com 15 anos achava que podia engravidar sentando na cama do irmão), eu tinha 13 anos quando a professora passou um vídeo com uma cena de aborto numa clínica americana, muitas (muitas mesmo) fotos de órgãos reprodutores com DST’s, quais eram os métodos contraceptivos existentes, os efeitos que cada droga fazia no corpo e por aí vai. Era uma disciplina semanal chamada “formação”. Pelo menos o que os pais não tinham coragem ou conhecimento de explicar aos filhos, eu aprendi na escola. O triste foi perceber depois que meu colégio era uma exceção nesse caso.

  3. Eu tinha 11 anos quando meu pai, um piadista, me deu uma caixa de camisinhas Olla de presente de aniversário. Fiquei constrangido. Enchi todas de água e, da janela do apartamento, tentava acertas as pessoas que passavam lá embaixo. Não acertei ninguém.

  4. Rimbaud dizia que ninguém é sério aos 17, diria que nem aos 18 e 19. Aos 20, podemos conversar. Mas convenhamos, ninguém é sério nunca.

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