Perto da ação

Hoje eu mandei um email para um ex-professor tirando uma dúvida sobre parâmetro pro-drop. Parâmetro pro-drop: em algumas línguas, você tem como suprimir um pronome quando ele pode ser inferido no contexto, em outras não. No português: sim. Inglês: não. Inglês: cada vez mais sim, por conta de aloprações dos falantes. Português: cada vez mais não, também por conta de aloprações dos falantes, que vão abandonando o uso de casos verbais inteiros.

Discutimos um pouco por email, ele foi mais simpático do que eu me lembrava em sala de aula, encerrou frases com kkk. Ele estava certo, eu errada, mas ele encerrava com kkk.

Um mês antes, mandei um email para um outro professor, tentando lembrar o nome do linguista que falou sobre como, antes de abrir a boca, o falante precisa esquecer que tudo já foi dito. Tudo já foi dito: você esquece, por isso fala. O conhecimento pleno encerraria qualquer possibilidade de diálogo. Ele não me respondeu, nem consegui lembrar sozinha.

Outro dia um amigo postou uma citação que dizia: “não saber do que se fala é uma grande vantagem, da qual não se deve abusar”, ao que eu respondi que éramos jornalistas justamente para ampliarmos nossa cota disso aí. É uma das coisas que vou sentir falta no jornalismo, quando ele terminar pra mim, mas hoje não saberia dizer se isso realmente me importa ou se é apenas um ambiente viciante para mim.

Aquilo que Seinfeld diz sobre homens em volta de um sujeito consertando o carro, fazendo algum trabalho manual. Eles querem ajudar? Querem fazer? Não, eles só querem estar ali, perto da ação. Por muito tempo eu olhei com incompreensão para jornalistas que faziam carreira em atividades francamente abestalhadas. Não podiam fazer algo menos estressante? Mais bem pago? Menos inseguro? Sem plantão? Eles não estavam fazendo nada que valesse a pindaíba dessa atividade, por que continuar? Porque querem estar perto da ação, seria minha resposta atual.

3 comentários sobre “Perto da ação

  1. Adorei. E o parágrafo do linguista e do esquecimento já é ótimo rs, mas queria saber também quem é esse linguista… Lembrei só de “Funes, o Memorioso”, que parecia não pensar, exatamente porque não podia esquecer, se não me engano. (Acho que não tem como falar dessas coisas sem parecer fazer um jogo de palavras). Mas se já tiver lembrado, diz aqui, por favor.

  2. Esse linguista em questão…não seria o Saussure? Ou o Jakobson? Talvez o Bakhtin, mas tergiverso. Adorei o blog, boa semana.

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