Salvar maridos

“Tudo que eu quero é salvar maridos, me traz uns maridos para eu salvar”, diz o meu amigo Marcos, soltando Fanta pelo nariz.

Em nossos almoços, pelo menos uma pauta é repetida: Casablanca. Marcos é psicólogo e acha que gostar de Casablanca é meio caminho andado para diagnosticar um neurótico. O filme, na nossa leitura de almoço, é sobre um sujeito que prefere não viver um amor para preservar sua autoimagem.

No fim da história, Rick tem duas escolhas: pode ficar com Ilsa e conviver com o fantasma do marido perfeito, herói da Resistência, ou pode virar o joguinho e ser ele o herói, salvando a ela e o ao marido e se transformando num abnegado, num sujeito que sabe que a História é mais importante do que os afetos de três pessoinhas jogadas nesse mundo louco.

Ilsa diz: mas e você? E a gente? Rick responde com uma esperteza sem sabedoria: se você ficar comigo, vai se arrepender. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas na semana que vem e para o resto da vida.

O que ele faz é entregar a mulher que ele ama a um marido subitamente desprovido de qualquer graça. É assim que ele, um comerciante, um dono de bar, se projeta acima de um herói de guerra. Eu vejo e revejo Casablanca como um treinamento para que quando chegar minha vez — se um dia chegar minha vez — eu escolha sempre Casablanca a Paris.

Em Manhattan, Woody Allen rebaixa tudo isso quando Isaac diz “we’ll always have Paris” para a namoradinha Tracy (aquela, que nunca sabe os nomes das atrizes) em um contexto em que eles sequer tiveram Paris, sequer tiveram uma semana de pura aventura e amor romântico seguida de uma separação teatral por motivos que envolvem a chegada dos alemães e o bem do povo tcheco. Em Manhattan não há guerra, Paris, Casablanca, aliados, Resistência, tráfico de armas, música de casal ou Humphrey Bogart e Paul Henreid disputando Ingrid Bergman. Tudo que há é muito mundano, lanchonetes, supermercados, televisão, dever de casa, um Woody Allen calvo insistindo para que a namorada vá para Londres ou fique com o “little Tommy”, casais que se bagunçam apenas porque não têm nada além de seus problemas pessoais para entretê-los. Como diz o protagonista no final, “a story about people in Manhattan who are constantly creating these unnecessary, neurotic problems for themselves because it keeps them from dealing with more unsolvable, terrifying problems”. Aqui, os suspeitos de sempre são o tédio, a gratuidade da vida, as pequenas vaidades (meu livrinho, minha privacidade, se gostei ou não daquela exposição).

Eu sei exatamente o que eu queria fazer em Casablanca. Se me soltarem, como em A Rosa Púrpura do Cairo, no meio de Casablanca, eu sei exatamente o que quero fazer. Já em Manhattan, tão mais próximo, meio que tanto faz. Entre o professor desleal, a jornalista pedante, o roteirista cujo grande ato de heroísmo consiste em pedir demissão, a mulher largada — levemente superior por falar baixo e aparecer tão pouco —, e a colegial, ironicamente a única adulta do filme, praticamente tanto faz.

Se me soltarem em Manhattan, eu toco aquela gaita da Tracy e talvez procure o “little Tommy” só porque sempre quis saber que cara ele teria.

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