Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó

Submeta-se, infiel. O prazo das submissões está se encerrando. Você precisa realizar que feminismo não é sobre odiar homens. O ponto deste lide um pouco randômico é que estamos falando um português de merda, repleto de uma nova leva de anglicismos pedestres que ninguém sabe ao certo de onde veio, mas aqui vão alguns palpites leigos.

Palpites… Eles não costumam prestar nenhum serviço aos estudos linguísticos. A teoria de que o “gerundismo” teria sido uma contribuição do telemarketing, por exemplo, provavelmente veio de uma coluna do jornalista Ricardo Freire no Jornal da Tarde, em 2001. Tão difundida quanto equivocada, a tese era que o treinamento dos atendentes teria usado manuais mal traduzidos, transpondo um gerúndio excessivo — essa forma nominal é muito mais frequente na língua inglesa — para o português.

Apesar das horas que cada um de nós já passou pendurado num telemarketing e da propensão a assimilar novos aprendizados durante o sono — o sujeito te liga às 7h, você atende em estado de sonambulismo e logo pega a mania de gerúndio, tal qual um curso de línguas noturno — a maior parte dos linguistas considera improvável que o telemarketing seja o pai da criança.

“Essas construções já existiam no português, a gente sempre pôde falar que ia ‘estar fazendo’ algo. O que houve no fim do século passado foi um aumento significativo do uso, principalmente nos estratos menos letrados da sociedade. O porquê desse aumento não sabemos, mas parece que havia uma tendência geral da língua puxando para isso, e que esse era um movimento anterior à generalização dos telemarketings”, explica Marcello Modesto, professor de linguística da USP.

Se os palpites não ajudam, eles talvez divirtam. O palpite deste texto é que, nos últimos anos, o leitor brasileiro se viu cercado de más traduções. Na década passada, o mercado editorial sofreu uma rápida expansão muito mais baseada em importações do que em produção própria e que teria resultado em uma perda de qualidade nas traduções. As editoras passaram a lançar mais títulos e a toque de caixa. Paralelamente, sites como BuzzFeed e Huffington Post passaram a traduzir muitos artigos do inglês, em geral porcamente (parte das traduções é declaradamente amadora) e com um conteúdo repleto de expressões idiomáticas. A legendagem caseira de filmes e seriados virou regra, assim como a tradução de verbetes da Wikipedia, com uma qualidade que varia do excelente ao amplamente lamentável.

Isso pode ter gerado uma nova e significativa leva de anglicismos. Pessoas que nem sequer leem em inglês estão falando e escrevendo coisas como “realizar” (no sentido de perceber). Mesmo os jornais têm usado “assumir” como se fosse sinônimo de “supor”. Uma campanha recente do filme Cinquenta tons de cinza trazia uma série de cartazes dizendo “sem mais segredos”, “sem mais regras”, traduções literais que seriam mais bem transpostas como “chega de segredos”, “basta de regras”. Tem aquela franquia de casas de depilação, a “Não+Pelo”.

Ouve-se ainda endereçar (no sentido de “tratar de”). Submeter (inscrever-se. É um quinto ou sexto sentido possível da palavra em português, mas remoto). Meu ponto é que (o que estou querendo dizer é que). Você tem um ponto (o que você disse faz sentido). Icônico (significa que o sujeito é pictórico?). Acurácia (precisão. Também existe em português, mas é pouco usual). Randômico (também conhecido como aleatório). Suportar (no sentido de financiar, de aceitar ou de ser compatível. Um clássico dos aparelhos eletrônicos: de repente o celular grita que não suporta aquele carregador). Dedicado a (no sentido de função). Discutir sobre (não podemos só discutir?). Mais cedo (como em “hoje mais cedo o caboclo de Policarpo Quaresma baixou em mim”). Virtualmente (no sentido de quase sempre, quase tudo). Disputar (no sentido de discutir ou contestar). Clarificar (esclarecer). Agenda gay (reivindicações do movimento gay). Introduzir (um assunto ou pessoa). Entregar (no sentido de render no trabalho). Tipicamente (onde a frase implora por um “geralmente”). Mandatório (um obrigatório especialmente mandão). Regências como “busca por”, “pede por” (as pessoas estão pedindo).

“Hoje ouvi um aluno dizer ‘eu não pertenço a este lugar’. Estou à espera do ‘nós pertencemos juntos’”, conta Caetano Galindo, tradutor e professor de linguística da Universidade Federal do Paraná.

Erros de tradução não são nenhuma novidade, mas não se trata aqui de erros causados por um mau entendimento do inglês, e sim por uma falta de familiaridade com o português. Pressupõem um leitor com pouca leitura de textos originalmente escritos em português e que está cercado de más traduções, ou que traduz mal ao ler sozinho textos estrangeiros.

“É interessante pensar que o que possibilita essa pobreza das traduções não é necessariamente a pobreza do inglês dessas pessoas, mas sua pouca alfabetização em termos mais sofisticados, de repertório. Vejo cada vez mais casos de gente que não leu lhufas em português e que tem a sensação de que as coisas foram inventadas em inglês”, afirma Galindo.

A impressão é de que o pessoal que cumpre a função sintática de elite cultural nesta louca oração chamada Brasil está se alimentando exclusivamente de textos gringos ou de tradução porca. A maior parte das pessoas nem sabe que está usando expressões transpostas literalmente. Elas leem essas coisas no jornal, em sites profissionais, na legenda do filme baixado legalmente e assumem que isso seja português. Nesse sentido, o leitor que de fato fala inglês talvez esteja mais protegido da adesão involuntária do que quem não percebe o eco ensurdecedor da tradução. Se você lê uma frase em português e o correspondente em inglês logo se materializa na sua cabeça, as chances de ser transposição literal ou malfeita são grandes.

André Conti, editor da Todavia, acha razoável supor que o ganho de volume do mercado tenha baixado o nível médio das traduções. “O inglês não é um idioma tão difícil, e muita gente que fala bem dá de barato que a migração para a tradução será tranquila quando a questão é justamente o português, esse sim um idioma bem filho da puta e enjoado”, diz. “Há uma massificação da cultura pop via séries, memes etc. que faz com que a gente queira usar essas expressões que vemos todos os dias. Não chega a ser ruim, só um pouco caipira e afetado. Hoje em dia, no ambiente empresarial, usa-se, por exemplo, ‘performar’, no sentido de ‘esse livro performou bem’, o que me soa como a morte lenta e dolorida de tudo o que é belo, mas o que fazer?”, conclui.

Paulo Henriques Britto, poeta e professor de tradução da PUC-Rio, concorda que há uma nova leva de anglicismos no ar, mas não vê com maus olhos. “Pessoalmente, não tenho nada contra estrangeirismos, mas tendo a preferir os que realmente preenchem uma lacuna no léxico, como ‘privacidade’, ‘bullying’ e talvez ‘empoderamento’, embora seja uma palavra quase tão feia quanto ‘seborreia’, eleita pelo Luis Fernando Veríssimo como a mais feia”.

Há os estrangeirismos lexicais e os sintáticos. Os lexicais são mais comuns porque “o vocabulário é como que a pele da língua”, explica Galindo. Nessa categoria há os casos em que uma palavra estrangeira é adaptada, obedecendo inclusive às regras de formação de palavras do português (como em frilar e tuitar); aqueles em que uma palavra estrangeira é integralmente transposta sem sofrer aportuguesamento (como em download e upgrade); e aqueles em que uma palavra que já existia num mesmo campo semântico recebe um sentido diferente (como no caso de “eventualmente”, que passou a ser usada como sinônimo de “finalmente” ou de “em algum momento”). “Esse terceiro caso é o que mais incomoda, porque parece que a língua não está ganhando absolutamente nada”, opina Britto.  

Bem mais raros, os estrangeirismos sintáticos são quando estruturas gramaticais de outro idioma passam a ser incorporadas, como no uso que a preposição “sobre” vem assumindo em frases como “liderar não é sobre mandar nas pessoas”, “conviver não é sobre estar certo”, tão comum que está nos versos de “Trem-Bala”, sucesso imediato da cantora Ana Vilela. Essa estrutura simplesmente não existe no português e dói nos ouvidos só de pensar, mas vai negar que seja útil? Em português tout court teríamos que dizer algo como “liderar não é simplesmente mandar nas pessoas” e “para conviver às vezes é preciso abrir mão de estar certo”. Ou seja, teríamos que dizer algo completamente diferente. Nesse sentido, a incorporação de “é sobre” só pode ser vista como um enriquecimento da língua. O problema é que enriquecimento de língua nem sempre vem ao gosto estético do freguês.

Britto observa a adoção de outro estrangeirismo sintático: o uso de sintagmas nominais com pré-modificação complexa de uma maneira próxima ao inglês. “No português, isso me parece inaceitável, mas as pessoas têm feito mesmo em textos originalmente escritos no nosso idioma, formando coisas do tipo ‘um não muito inteligente, porém bastante simpático rapaz’”, diz.

A língua muda constantemente, eis uma verdade,  mas não seja a mudança que você não quer ver no mundo. Tão natural quanto a língua mudar é os falantes oferecerem algum tipo de resistência a essas mudanças. Grosso modo, quem impulsiona alterações linguísticas são as camadas menos escolarizadas e os jovens, enquanto as camadas mais escolarizadas só adotam as mudanças no último buraco do cinto, fazendo com que sua adesão prove a consolidação da nova regra. No caso desses anglicismos, no entanto, a mudança parece vir de cima.

“De um lado, há que reconhecer a naturalidade, a desejabilidade até, dessa flexibilidade na aceitação dos estrangeirismos. Ninguém quer ser o islandês, com sua política de barrar novas palavras importadas. Ou os franceses, com sua esquizofrenia estrangeirista. De outro lado, há que se reconhecer a gratuidade de alguns desses empréstimos, bem como sua ligação inquestionável com operações de tradução mal realizadas”, opina Galindo.

Já Britto acha que resistir é um tanto inútil. “Se um uso se generaliza, em princípio não há o que fazer. Morrerei sem dizer ‘vou estar lhe telefonando’ e, a cada vez que leio que um livro está fazendo sucesso ‘ao redor do mundo’ tenho vontade de replicar: ‘Ué, tem gente lendo nos satélites artificiais?’. Mas para a próxima geração é possível que essas formas se tornem normais; nada a fazer”, diz.

Para Modesto, coisas como ‘aplicar’ para o mestrado ou ‘fazer um ponto’ na hora de discutir talvez estejam mesmo entrando para a língua, mas e daí? Outras, como ‘compreensivo’ no sentido de ‘abrangente’, viriam do latim e importa muito pouco se estão ficando mais comuns por via do inglês. Para ele, esses empréstimos limitam-se a um grupo reduzido de falantes e se dividem entre aqueles que são realmente estranhos ao português e os que são português mesmo, embora talvez não sejam a melhor opção. Entre os estranhos estaria o uso de “em adição” no sentido de “além do mais”. Já entre os nativos estaria “baseado em Londres” no sentido de que mora ou tem sede em Londres, por exemplo. “Os que são português podem se alastrar rapidamente pela língua se os estratos menos letrados de falantes se espelharem nos estratos mais letrados, embora isso raramente aconteça. Já os amalucados provavelmente são modismos passageiros”, explica.

PS: Escrevi este artigo como uma espécie de matéria de tese no ano passado, mas acabei ficando sem lugar para publicá-lo, então, perguntei aos entrevistados se eles se incomodariam caso eu postasse aqui.

42 comentários sobre “Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó

  1. 3 coisinhas:

    O que é uma matéria de tese?

    Tenho impressão que a pior fase do gerundismo passou. Os neologismos vão e voltam rapidamente, a norma culta fica, a língua se muda, lentamente.

    Algumas dessas palavras são neologismos em inglês também. A necessidade de termos novos existia.

  2. Foi um termo inventado, matéria de tese. Quis dizer que é uma espécie de matéria porque entrevistei pessoas, mas já parti de uma tese pronta e fui consultar as fontes. E é muito opinativo para ser uma matéria-matéria. De tanto que não consegui publicar, rs.

  3. E os jornais realmente entraram nessa onda. Lembro de ter lido coisas como “fulano foi nominado ao Oscar” na FSP, entre outros.

  4. A autora “está baseada” em que cidade?

    Brincadeira à parte, excelente texto.

  5. Esdes dias mesmo eu estava pensando ” sem dor, sem progresso” seria uma tradução melhor, prum leigo enteder o que querem dizer com o no pain, no gain do que “sem dor, sem ganho”. Pior que eu vejo relação disso com toda essas discussoes sobre o discurso das militancias não chegando ao “povão”, hora esse pprtugues que eles usam só faz sentido pro jovem da minha geração, que vive em contato em redes socias e consumindo cultura pop.

  6. Muito bom, Juliana. A gente teve uma conversa bem nesses termos outro dia no fb, que prosperou bastante. Estou convencida disso aí. Inclusive da teses que vc descartou quanto ao gerundismo de telemarketing…. :)))

  7. Ai, Ju. Minha sina é falar desse jeito misturado. Quando visito família no Brasil meus tios dizem que eu falo com “sotaque”, mas na verdade são os vários neologismos que escapam na tradução ao vivo da minha própria vida.

    Dai quando encontro os amigos brasileiros aqui, a gente fala um idioma completamente diferente, um portunglês com expressões tipo “ontem eu tive um frango”, “me introduza ao teu colega”, “comida vietnamesa” e “prejudício”.

    Uma tristeza, haha.

  8. Ótimo texto.

    O discurso corporativo também está coalhado desses usos, as reuniões de divulgação de resultados da empresa em que trabalho é uma das ocasiões em que mais dói o ouvido.

    Lembro de um “conselho” do Galindo para futuros tradutores, não lembro em que texto – sempre ler muito boa literatura produzida na própria língua. Não tinha parado pra pensar que talvez haja uma bolha que consome predominantemente textos mal-traduzidos (em relação a bons textos produzidos em português), e essas traduções ruins formam o seu repertório.

  9. Sinto-me à esquerda de toda a discussão do texto. Mais próximo ao PHB, mas sem o desdém por fórmulas novas. Um bom exemplo de fato é “sobre”, uma mão na roda. Lendo os gramáticos do começo do século passado – Napoleão, Said Ali – ou até mesmo o Bechara, vejo quanta coisa era e é proibida. É malvisto, por exemplo, “de modo a”, galicismo, o certo seria sempre “de modo que”. Também é malvisto construções do tipo “montanhas levantando no horizonte”, porque só seria possível usar oração adjetiva reduzida de gerúndio em ações passageiras, com limite definido de tempo, e ainda assim há quem faça ressalva a frases como “vi um menino cantando”. Essa distinção está na gramática, moderna, do Celso Cunha. O Lima Barreto escrevia português-francês, por provavelmente ler mais franceses que brasileiros. Nossa contaminação sintática pela gramática francesa é gigantesca, anuída certamente pela elite literária. Alguns gramáticos tentaram barrar, mas passou. É que o inglês parece mais brega nos dias de hoje. Na minha opinião, a má tradução é fenômeno de sempre. Acho que até melhoramos. Os linguistas ou os gramáticos mais abertos de que gosto usam a expressão “empréstimo sintático”, em vez do sufixo “ismo” para galicismo, anglicismo etc. Prefiro pensar assim. Um bom texto sobre o gerúndio -http://www.letras.ufscar.br/linguasagem/edicao04/04_006.php

  10. engraçada essa expressão “toque de caixa”, todo mundo sabe que tradutor ganha mal.

  11. “É sobre” piora o PT-Br. Só serve pra quem não sabe exatamente o que quer dizer mas tem preguiça de pensar e não faz o favor de ficar calada.

  12. Que texto bonito, Juliana. Obrigado por compartilhar.
    Eu e minha professora de tradução vimos conversando sobre isso há bastante tempo. (Na verdade ela vem tentando fazer com que eu me desamarre do anglicismo à base de boas chicotadas e canetadas. (Oi, Cris!)).
    Verdade é que hoje em dia é muito complicado para a maior parte da população – não apenas os mais letrados – de até mesmo conseguirem distinguir esses neologismos cagados daqueles que vêm para enriquecer a língua.

  13. Ótimo texto. Sou tradutora jurídica, advogada por duas décadas, e tenho horror aos anglicismos cada vez mais comuns na advocacia. Minha impressão é exatamente essa: as pessoas “cometem” anglicismos porque não conhecem quer o português, quer o direito brasileiro.

  14. Ótimo texto e tema. Me entristece especialmente o uso de termos de redes sociais para dizer coisas que não estão relacionadas à rede social e que normalmente soariam muito melhor no português, mesmo na versão mais ~povão~. Tipo: “Preciso compartilhar uma coisa”, “Tem um evento nesse final de semana”.

  15. Thiago, é isso mesmo. tmj, PHB. vale a indignação, pois soa feio e afetado, sim. mas isso é hoje, amanhã daqui a pouco nem é mais. de td modo, que texto legal, Juliana.

  16. O randômico ali do primeiro parágrafo foi aleatório ou sobre propósito mesmo?

  17. Excelentíssimo artigo. Uma pena que não conseguiu lugar para publicar. Será que a revista Piauí não se interessava? Me lembrou o estilo deles.

  18. Tenho até receio de dizer “paquera”. Parece que ninguém vai entender esta palavra.

    Tenho a impressão de que são os intelectuais de militâncias (feminismo, movimento negro) dos que mais fazem uso de estrangeirismos desnecessários.

  19. Juliana,
    Parabéns pelo excelente artigo!
    Sou revisora e aproveito para convidá-la a conhecer o blog Português sem Mistério, em que publico dicas de português com base nos erros frequentes que vejo ao revisar. https://portuguessemmisterio.wordpress.com/

    Gostaria de publicar este artigo, com os devidos créditos, na seção “Artigos” no meu blog. Você concorda?

    Obrigada e parabéns!
    Betty

  20. “Britto observa a adoção de outro estrangeirismo sintático: o uso de sintagmas nominais com pré-modificação complexa de uma maneira próxima ao inglês. ”

    Não entendi.

  21. No inglês, é mais comum que o sintagma nominal sofra pré-mofidicação. No português, pós-modificação. O PHB acha que a gente está usando pré-modificadores de forma a imitar a estrutura do inglês.

    Por exemplo, em inglês, o mais comum seria falar algo como “a very beautiful dog”. Nessa frase, “a” é um determinante, “very beautiful” é um pré-modificador e “dog” é o núcleo do sintagma nominal. Pré-modificador, no caso, porque fica antes do núcleo do sintagma nominal.

    Em português, a forma mais comum de dizer a mesma frase seria “um cachorro muito bonito”. “Um” é o determinante, “cachorro” é o núcleo, “muito bonito” é o pós-modificador. Se eu falar “um muito bonito cachorro”, daí vira pré-modificador. E a frase fica amalucada.

  22. Juliana, adorei seu texto.

    Sou médica e professora, e sofro muito com as obras traduzidas na minha área de estudo. Por exemplo, em um livro sobre contracepção, um método anticoncepcional é identificado como “retirada”. De chorar! (Traduzindo corretamente, seria do inglês ‘withdrawal’ para o bom e velho ‘coito interrompido’). A editora não é de fundo de quintal, e ainda teve revisão técnica(!).

    Principalmente na área acadêmica há uma tendência a usar os termos originais do inglês para que não haja confusão. Um exemplo clássico é ‘effective’: eficaz ou eficiente? Ou efetivo? (Tratando de quanto um tratamento tem resultado favorável)
    Dá o maior nó…

    Agora, dos termos listados no texto o que mais me dá urticária é “eventualmente”. Simplesmente não consigo atribuir o sentido de ‘finalmente’, ‘ao final’, ‘em algum momento’. Certamente porque não sou mais menina… Será que os jovens que estão lendo essa palavra já vão entender dessa forma e sofrer menos? Assim espero…

    Abraços.

  23. Trabalhei durante alguns anos em agências de notícias, traduzindo matérias das agências estrangeiras, e comprovei o que está dito no texto: que a má tradução muitas vezes vem do mau conhecimento de português. Tenho a impressão de que a situação piorou nos últimos anos e o enxugamento das redações pode ter contribuído para isso. Recentemente li no G1 que uma agência de classificação de risco rebaixou a nota do Brasil por causa da “derrapagem” fiscal.
    Parabéns pelo texto! Você tentou publicar na Revista Língua?

  24. Belíssimo texto. Equilibrado.

    Vc acertou em cheio quando disse que os anglicismos de mau gosto vêm da “elite” que nunca leu muito em português.

    Toda essa confusão é questão de estilo, não de gramática. E estilo linguístico é como estilo na moda: algumas pessoas se vestem com muito mau gosto, mas não podem ser proibidas de fazê-lo.

    Meus dois centavos 😉

    “It’s not about X” fica mais natural como “não é questão de X”.

    “Assumir” no sentido de “supor” é usado pelo pessoal de Filosofia em português há muuuuito tempo.

  25. Ah, e “no pain, no gain” segue a tendência telegráfica de orações condicionais em inglês, onde “if”, “then” e cia. são omitidos.

    Aqui, em terras latinas, somos mais verbosos e empolgados. O mais natural (!) seria “Não há progresso sem dor”.

  26. Ju, história da minha vida lidar com esses tenebrosos anglicismos, principalmente quando preparo originais traduzidos. Quando eu revisava legendagem aí é que a situação era de chorar no cantinho mesmo.

    Percebi que a coisa não está pra brincadeira dia destes quando ouvi um “rulear”. Como diria Erasmo, é preciso dar um tempo, meu amigo. Tá puxado.

    Com inglês, claro, a situação é mais evidente, fruto de um deslumbramento meio acaipirado: rapaziada quer parecer meio viajada, meio descolada, meio internacional. Mas tem também o caso similar e bem diferente (?) daqueles que adoram colocar uma palavrinha francesa no meio da coisa, mas aí já é lance do sujeito que não quer pertencer, quer se isolar num troninho.

    Texto maravilhoso de ler, adoro acompanhar sua lógica, sempre. Sabe se tem trabalhos stricto sobre esse tema, Ju?

    Beijos, saudades de você.

  27. Obrigada, Lu, saudades de você e vontade de ver o pequeno. Eu cheguei a perguntar aos professores que entrevistei e dei uma busca no banco de teses de algumas universidades. Não achei nada, mas deve ter, pelo menos sobre o sobre deve ter.

  28. Acho bastante irônico a pessoa escrever um texto grandão defendendo normas do Português supostamente culto e ter a pachorra de usar “esquizofrênico” como adjetivo. A crítica sobre vocabulário pobre só vale pro uso alheio? Esquizofrênico, retardado, mongol… NÃO SÃO ADJETIVOS! Se vai criticar tradução -usando seu próprio raciocínio- consulte tradutores(bj). Os pitacos foram longe do correto conforme o Julian escreveu. Acho cafona quem sabe um pouquinho a mais do que a maioria sair criticando quem sabe menos ainda.

  29. Me animei pra ler um texto escrito por outra mulher, sobre um assunto que sou leiga mas tenho enorme interesse. A primeira grande decepção: todos os entrevistados são homens. Preciso seguir dizendo: esquizofrênico não pode servir como adjetivo pra qualquer coisa. E qual foi o objetivo em dizer que ”empoderamento” é uma palavra tão feia quanto seborreia? Português é uma língua filha da puta? Só consigo enxergar sexismo atrás de sexismo. E não, inglês não é fácil de aprender. Talvez pra quem passe a vida fazendo cursinho, viajando pra fora e fazendo intercâmbio pago pelos pais. E fiquei sem entender o ”e muita gente que fala bem dá de barato” do Conti (é uma gíria?).
    Comecei animada e acabei triste. Palpite de homem é sempre ruim.

  30. Adorei o texto.
    Mas e o que dizer do “pense fora da caixa”?
    Me incomoda tanto ou mais do que o “x coisa não é sobre y”.

  31. “Acho cafona quem sabe um pouquinho a mais do que a maioria sair criticando quem sabe menos ainda.” eita, depois de ler o texto da Juliana, lendo a Nicole eu é que me senti tão ignorante… por que será que esquizofrênico não pode? não seria um uso da língua é, como chama?, conotativo? A língua costumava permitir muitos usos, diferentes registros, figuras de linguagem, essas coisas. Por exemplo, aqui “Palpite de homem é sempre ruim” temos um exemplo de uma figura que é a burrice.

  32. Aprender sobre essas expressões mal adaptadas ao português foi muito bom, mas já não sei se faço parte da galera menos letrada alheia aos anglicismos ou se integro o grupo dos que se acham letrados não só em português como também em inglês, mas na verdade não sabem nenhum dos dois e não percebem os erros.

  33. Aff, sou “total culpado” de tudo isso aí, porque se lia algo em inglês e explicava para meus alunos, a tradução simultânea na cabeça criava várias formas assim. Pior é que passei a me achar super criativo, e quando notei outras pessoas usando também, pensei: Oops. Enfim, tudo isso claramente começou comigo, só queria dizer.

    Que saudade que eu estava de ler seus textos. Ri tanto com vários trechos, mas o meu favorito foi “no último buraco do cinto”. Que expressão maravilhosa, anotei para usar. “Não seja a mudança que você não quer ver no mundo” me obrigou a parar de ler para rir. Amo. ^^

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