Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó

Submeta-se, infiel. O prazo das submissões está se encerrando. Você precisa realizar que feminismo não é sobre odiar homens. O ponto deste lide um pouco randômico é que estamos falando um português de merda, repleto de uma nova leva de anglicismos pedestres que ninguém sabe ao certo de onde veio, mas aqui vão alguns palpites leigos.

Palpites… Eles não costumam prestar nenhum serviço aos estudos linguísticos. A teoria de que o “gerundismo” teria sido uma contribuição do telemarketing, por exemplo, provavelmente veio de uma coluna do jornalista Ricardo Freire no Jornal da Tarde, em 2001. Tão difundida quanto equivocada, a tese era que o treinamento dos atendentes teria usado manuais mal traduzidos, transpondo um gerúndio excessivo — essa forma nominal é muito mais frequente na língua inglesa — para o português.

Apesar das horas que cada um de nós já passou pendurado num telemarketing e da propensão a assimilar novos aprendizados durante o sono — o sujeito te liga às 7h, você atende em estado de sonambulismo e logo pega a mania de gerúndio, tal qual um curso de línguas noturno — a maior parte dos linguistas considera improvável que o telemarketing seja o pai da criança.

“Essas construções já existiam no português, a gente sempre pôde falar que ia ‘estar fazendo’ algo. O que houve no fim do século passado foi um aumento significativo do uso, principalmente nos estratos menos letrados da sociedade. O porquê desse aumento não sabemos, mas parece que havia uma tendência geral da língua puxando para isso, e que esse era um movimento anterior à generalização dos telemarketings”, explica Marcello Modesto, professor de linguística da USP.

Se os palpites não ajudam, eles talvez divirtam. O palpite deste texto é que, nos últimos anos, o leitor brasileiro se viu cercado de más traduções. Na década passada, o mercado editorial sofreu uma rápida expansão muito mais baseada em importações do que em produção própria e que teria resultado em uma perda de qualidade nas traduções. As editoras passaram a lançar mais títulos e a toque de caixa. Paralelamente, sites como BuzzFeed e Huffington Post passaram a traduzir muitos artigos do inglês, em geral porcamente (parte das traduções é declaradamente amadora) e com um conteúdo repleto de expressões idiomáticas. A legendagem caseira de filmes e seriados virou regra, assim como a tradução de verbetes da Wikipedia, com uma qualidade que varia do excelente ao amplamente lamentável.

Isso pode ter gerado uma nova e significativa leva de anglicismos. Pessoas que nem sequer leem em inglês estão falando e escrevendo coisas como “realizar” (no sentido de perceber). Mesmo os jornais têm usado “assumir” como se fosse sinônimo de “supor”. Uma campanha recente do filme Cinquenta tons de cinza trazia uma série de cartazes dizendo “sem mais segredos”, “sem mais regras”, traduções literais que seriam mais bem transpostas como “chega de segredos”, “basta de regras”. Tem aquela franquia de casas de depilação, a “Não+Pelo”.

Ouve-se ainda endereçar (no sentido de “tratar de”). Submeter (inscrever-se. É um quinto ou sexto sentido possível da palavra em português, mas remoto). Meu ponto é que (o que estou querendo dizer é que). Você tem um ponto (o que você disse faz sentido). Icônico (significa que o sujeito é pictórico?). Acurácia (precisão. Também existe em português, mas é pouco usual). Randômico (também conhecido como aleatório). Suportar (no sentido de financiar, de aceitar ou de ser compatível. Um clássico dos aparelhos eletrônicos: de repente o celular grita que não suporta aquele carregador). Dedicado a (no sentido de função). Discutir sobre (não podemos só discutir?). Mais cedo (como em “hoje mais cedo o caboclo de Policarpo Quaresma baixou em mim”). Virtualmente (no sentido de quase sempre, quase tudo). Disputar (no sentido de discutir ou contestar). Clarificar (esclarecer). Agenda gay (reivindicações do movimento gay). Introduzir (um assunto ou pessoa). Entregar (no sentido de render no trabalho). Tipicamente (onde a frase implora por um “geralmente”). Mandatório (um obrigatório especialmente mandão). Regências como “busca por”, “pede por” (as pessoas estão pedindo).

“Hoje ouvi um aluno dizer ‘eu não pertenço a este lugar’. Estou à espera do ‘nós pertencemos juntos’”, conta Caetano Galindo, tradutor e professor de linguística da Universidade Federal do Paraná.

Erros de tradução não são nenhuma novidade, mas não se trata aqui de erros causados por um mau entendimento do inglês, e sim por uma falta de familiaridade com o português. Pressupõem um leitor com pouca leitura de textos originalmente escritos em português e que está cercado de más traduções, ou que traduz mal ao ler sozinho textos estrangeiros.

“É interessante pensar que o que possibilita essa pobreza das traduções não é necessariamente a pobreza do inglês dessas pessoas, mas sua pouca alfabetização em termos mais sofisticados, de repertório. Vejo cada vez mais casos de gente que não leu lhufas em português e que tem a sensação de que as coisas foram inventadas em inglês”, afirma Galindo.

A impressão é de que o pessoal que cumpre a função sintática de elite cultural nesta louca oração chamada Brasil está se alimentando exclusivamente de textos gringos ou de tradução porca. A maior parte das pessoas nem sabe que está usando expressões transpostas literalmente. Elas leem essas coisas no jornal, em sites profissionais, na legenda do filme baixado legalmente e assumem que isso seja português. Nesse sentido, o leitor que de fato fala inglês talvez esteja mais protegido da adesão involuntária do que quem não percebe o eco ensurdecedor da tradução. Se você lê uma frase em português e o correspondente em inglês logo se materializa na sua cabeça, as chances de ser transposição literal ou malfeita são grandes.

André Conti, editor da Todavia, acha razoável supor que o ganho de volume do mercado tenha baixado o nível médio das traduções. “O inglês não é um idioma tão difícil, e muita gente que fala bem dá de barato que a migração para a tradução será tranquila quando a questão é justamente o português, esse sim um idioma bem filho da puta e enjoado”, diz. “Há uma massificação da cultura pop via séries, memes etc. que faz com que a gente queira usar essas expressões que vemos todos os dias. Não chega a ser ruim, só um pouco caipira e afetado. Hoje em dia, no ambiente empresarial, usa-se, por exemplo, ‘performar’, no sentido de ‘esse livro performou bem’, o que me soa como a morte lenta e dolorida de tudo o que é belo, mas o que fazer?”, conclui.

Paulo Henriques Britto, poeta e professor de tradução da PUC-Rio, concorda que há uma nova leva de anglicismos no ar, mas não vê com maus olhos. “Pessoalmente, não tenho nada contra estrangeirismos, mas tendo a preferir os que realmente preenchem uma lacuna no léxico, como ‘privacidade’, ‘bullying’ e talvez ‘empoderamento’, embora seja uma palavra quase tão feia quanto ‘seborreia’, eleita pelo Luis Fernando Veríssimo como a mais feia”.

Há os estrangeirismos lexicais e os sintáticos. Os lexicais são mais comuns porque “o vocabulário é como que a pele da língua”, explica Galindo. Nessa categoria há os casos em que uma palavra estrangeira é adaptada, obedecendo inclusive às regras de formação de palavras do português (como em frilar e tuitar); aqueles em que uma palavra estrangeira é integralmente transposta sem sofrer aportuguesamento (como em download e upgrade); e aqueles em que uma palavra que já existia num mesmo campo semântico recebe um sentido diferente (como no caso de “eventualmente”, que passou a ser usada como sinônimo de “finalmente” ou de “em algum momento”). “Esse terceiro caso é o que mais incomoda, porque parece que a língua não está ganhando absolutamente nada”, opina Britto.  

Bem mais raros, os estrangeirismos sintáticos são quando estruturas gramaticais de outro idioma passam a ser incorporadas, como no uso que a preposição “sobre” vem assumindo em frases como “liderar não é sobre mandar nas pessoas”, “conviver não é sobre estar certo”, tão comum que está nos versos de “Trem-Bala”, sucesso imediato da cantora Ana Vilela. Essa estrutura simplesmente não existe no português e dói nos ouvidos só de pensar, mas vai negar que seja útil? Em português tout court teríamos que dizer algo como “liderar não é simplesmente mandar nas pessoas” e “para conviver às vezes é preciso abrir mão de estar certo”. Ou seja, teríamos que dizer algo completamente diferente. Nesse sentido, a incorporação de “é sobre” só pode ser vista como um enriquecimento da língua. O problema é que enriquecimento de língua nem sempre vem ao gosto estético do freguês.

Britto observa a adoção de outro estrangeirismo sintático: o uso de sintagmas nominais com pré-modificação complexa de uma maneira próxima ao inglês. “No português, isso me parece inaceitável, mas as pessoas têm feito mesmo em textos originalmente escritos no nosso idioma, formando coisas do tipo ‘um não muito inteligente, porém bastante simpático rapaz’”, diz.

A língua muda constantemente, eis uma verdade,  mas não seja a mudança que você não quer ver no mundo. Tão natural quanto a língua mudar é os falantes oferecerem algum tipo de resistência a essas mudanças. Grosso modo, quem impulsiona alterações linguísticas são as camadas menos escolarizadas e os jovens, enquanto as camadas mais escolarizadas só adotam as mudanças no último buraco do cinto, fazendo com que sua adesão prove a consolidação da nova regra. No caso desses anglicismos, no entanto, a mudança parece vir de cima.

“De um lado, há que reconhecer a naturalidade, a desejabilidade até, dessa flexibilidade na aceitação dos estrangeirismos. Ninguém quer ser o islandês, com sua política de barrar novas palavras importadas. Ou os franceses, com sua esquizofrenia estrangeirista. De outro lado, há que se reconhecer a gratuidade de alguns desses empréstimos, bem como sua ligação inquestionável com operações de tradução mal realizadas”, opina Galindo.

Já Britto acha que resistir é um tanto inútil. “Se um uso se generaliza, em princípio não há o que fazer. Morrerei sem dizer ‘vou estar lhe telefonando’ e, a cada vez que leio que um livro está fazendo sucesso ‘ao redor do mundo’ tenho vontade de replicar: ‘Ué, tem gente lendo nos satélites artificiais?’. Mas para a próxima geração é possível que essas formas se tornem normais; nada a fazer”, diz.

Para Modesto, coisas como ‘aplicar’ para o mestrado ou ‘fazer um ponto’ na hora de discutir talvez estejam mesmo entrando para a língua, mas e daí? Outras, como ‘compreensivo’ no sentido de ‘abrangente’, viriam do latim e importa muito pouco se estão ficando mais comuns por via do inglês. Para ele, esses empréstimos limitam-se a um grupo reduzido de falantes e se dividem entre aqueles que são realmente estranhos ao português e os que são português mesmo, embora talvez não sejam a melhor opção. Entre os estranhos estaria o uso de “em adição” no sentido de “além do mais”. Já entre os nativos estaria “baseado em Londres” no sentido de que mora ou tem sede em Londres, por exemplo. “Os que são português podem se alastrar rapidamente pela língua se os estratos menos letrados de falantes se espelharem nos estratos mais letrados, embora isso raramente aconteça. Já os amalucados provavelmente são modismos passageiros”, explica.

PS: Escrevi este artigo como uma espécie de matéria de tese no ano passado, mas acabei ficando sem lugar para publicá-lo, então, perguntei aos entrevistados se eles se incomodariam caso eu postasse aqui.

51 comentários sobre “Sem mais regras: a nova leva de anglicismos que é feia de dar dó

  1. Procurei desesperadamente por alguém que tivesse escrito “a respeito” do termo “é sobre”, pois não suportava mais ver meu lindo idioma ser brutalmente espancado. E para meu alívio encontrei este artigo, que trata de resgatar este e outros – a meu ver – erros crassos de tradução, travestidos de modismo linguístico, me arrisco a dizer, a exemplo de “aplicação” no lugar de inscrição (confesso que com isso poupei algum dinheiro, porque desses cursos eu declino). Obrigada pelo apoio (não suporte, rsrs)!

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