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Quem escreve o século 21

Acaba de ser lançado no Brasil um livro resenhando 101 autores contemporâneos entre os quais apenas 14 são mulheres. Isso significa que para cada 6,2 homens, os quatro organizadores do livro — dois deles do sexo feminino — só conseguiram pensar em uma mulher que merecesse figurar na coletânea. O livro recebe o título de Por que ler os contemporâneos — Autores que escrevem o século 21, ao que se constata que o século 21 é um seriado com poucas roteiristas mulheres.

Em casos assim, as pessoas geralmente adotam uma posição deixa disso. Há o deixa disso negacionista, para o qual números como esses são apenas uma coincidência e ninguém pode fazer nada se esses homens (e aqueles, e aqueles outros) calharam de escrever melhor; e há o deixa disso esclarecido, que geralmente apela para a base e diz que é tudo um problema de base, que números assim refletem uma realidade, que é preciso combater a realidade, não os sintomas. Dentro dessa lógica, mulheres não foram incentivadas a escrever, não tiveram chances, por isso hoje não temos tantas escritoras boas, mas pode aguardar que na próxima geração será diferente. Para esta geração resta, sei lá, fazer oficinas de escrita criativa para meninas de sete anos e resenhar os livros dos caras.

A questão é que, não, nem todos os problemas estão na base. Mulheres são maioria entre os estudantes universitários, mas não entre os professores. São maioria entre os leitores, mas não entre os escritores. Certos problemas residem justamente no topo. Além disso, há de se usar uma visão mais dialética: alguns problemas de base se acertam mais rapidamente quando ajustamos o topo.

É melancólico o dia em que você descobre que o cânone não é definido por concurso público e que a mão invisível da fama literária é quase tão desastrada quanto a da economia na hora de selecionar quem será estudado, publicado e lido e quem servirá de comida às traças. Questões comezinhas como CEP, quem possui os direitos da obra, nível de amabilidade dos herdeiros, quem levou uma vida fotogênica e o que o autor trazia entre as pernas são critérios de desempate que garantem que escritores talentosos de determinada configuração privilegiada levem a melhor contra seus pares menos hegemônicos. Ignorar as vantagens de um grupo e tentar avaliar o que quer que seja como se não houvesse história não é isenção, é reafirmação do status quo. Tem uma frase do Lotfallah Soliman, se não me engano, que diz “não existe página em branco, nunca existiu”. Ao dizer que uma coletânea assim deveria incluir mais mulheres não estou dizendo que escritores homens deveriam ser “prejudicados” para dar espaço a escritoras medianas; que os editores deveriam “fazer de conta” que a produção feminina é tão boa quanto a masculina. O que estou dizendo é que me recuso a acreditar que tenhamos tão poucas mulheres merecedoras de aparecer numa lista dessas. Para citar apenas alguns exemplos, acredito que escritoras como Veronica Stigger, Valeria Luiselli e Guadalupe Nettel não devam em nada a escritores como Marcelino Freire, Michael Chabon e Bernardo Carvalho. Mas eles figuram na lista. Elas, não.

Eu estava tendo essa discussão com uma moça no Twitter. Segundo ela, seria leviano da minha parte dizer que os organizadores excluíram mulheres. Eles não excluíram, esclareceu minha interlocutora, apenas não usaram gênero como critério. Ela também me informou que várias das resenhistas do livro eram mulheres, o que eliminaria qualquer possibilidade de “má vontade” com o gênero feminino; ao que eu perguntei se a diagramadora e a revisora também eram mulheres porque estou segura de que um livro sobre escritores contemporâneos que contempla uma diagramadora mulher certamente não pode ser acusado de machismo.

Quando você está discutindo com outra mulher e em dado momento ela diz “sou mulher”, como se você não estivesse vendo isso, como se você não tivesse um arcabouço cultural que lhe assegura que sujeitos com aquela configuração sejam mulheres, note que o que ela está fazendo é reiterando que, por incrível que pareça, o sujeito que emite aquele discurso obviamente contrário aos interesses das mulheres é uma mulher!

Não se trata de dizer que essas mulheres (ou negros, ou gays) sejam machistas (ou racistas, ou homofóbicos). Não se pode exercer opressão apenas com palavras, é preciso falar de uma determinada posição que elas não ocupam. O que elas estão fazendo, no entanto, é reproduzir o discurso de um outro gênero de modo tão radical na tentativa de se afiliarem a esse gênero que em determinado momento precisam nos lembrar de que não pertencem a ele. Porque, discursivamente, trabalham duro para pertencer.

Um livro com “escritores que escrevem o século 21” que inclui apenas uma mulher para cada 6,2 homens é um livro bastante realista e conectado ao seu tempo. Acho mesmo que, para cada mulher escrevendo a história hoje, temos ao menos 6,2 homens escrevendo por cima. Ser mais realista que o rei, no entanto, é apenas outra forma de assinar embaixo da ordem estabelecida. De que vale ser realista quando a realidade não nos convém?

Fora das urnas

Alguns dos raciocínios mais obtusos que ouvi durante esse processo eleitoral estavam relacionados à forma como as pessoas se comportam na internet durante as eleições. De listas estilo BuzzFeed com regras de conduta a consultores de etiqueta do Twitter, muitos pareciam concordar que fazer campanha em redes sociais não adianta. Um site de notícias falsas fez uma manchete dizendo: “Convencidos por amigos, eleitores de Dilma votarão em Aécio e de Aécio, em Dilma”. Outro site fez um meme com os dizeres: “Mudei meu voto por conta do seu textão de Facebook, disse ninguém”. Partidários da *vida real* insistiam para que “saíssemos das redes sociais” e fôssemos influenciar “pessoas de verdade”, essa entidade cósmica que vaga pelas ruas, toma sorvetes e faz compras.

Há alguns problemas conceituais por trás dessa lógica de que a militância virtual é inconveniente e ineficaz. O primeiro é a divisão rígida entre mundo virtual e físico, como se a internet já não tivesse vazado, como se não fosse a conexão mais estreita com o real para boa parte de nós, inclusive para aqueles que vagam por ruas, tomam sorvetes e fazem compras. Diz isso quem perdeu o bonde do Zeitgeist e não percebe que — em 2014, em um grande centro urbano brasileiro — a internet é o lugar onde você influencia o voto de mais gente, exceto, talvez, pelo seu local de estudo e trabalho.

O segundo problema é a crença de que devemos ser adequadinhos, devemos levar a vida de modo a causar o mínimo de distúrbio e desconforto para os demais, devemos erguer a existência em torno do nobre objetivo de evitar atrito. A etiqueta, essa tentativa de pasteurização de qualquer atividade humana, diz que é deselegante ser a pessoa que defende demais um candidato. Idealmente, se anule. Se não for possível, coloque suas posições de modo discreto e paumolecente.

O terceiro problema está na ideia de que não é possível influenciar os amigos pois cada um tem sua opinião e ninguém vai mudar por conta do seu “textão de Facebook”. Gosto desse termo que começaram a usar, “textão de Facebook”. O advento da timeline é uma das poucas coisas legais do Facebook porque estimulou pessoas que jamais pensaram em ter um blog a escreverem mais longamente e compartilharem suas análises. O termo, no entanto, deixa claro que isso é uma subversão dos propósitos dessa rede social, feita para divulgação de fotos e relatos concisos sobre como anda o seu umbigo. Se ouvir a opinião de seus conhecidos sobre os candidatos não te influencia, então eu não sei o que mais te influenciaria. Ver transeuntes com adesivos no peito? Assistir propagandas eleitorais em que candidatos seguram as mãos de velhinhas em casebres? Ficar parado no trânsito por conta de uma passeata? Acredito em todas essas velhas táticas da campanha política, mas não vejo nada mais pessoal, profundo e eficiente do que entrar em contato com a opinião de gente que você de fato conhece e respeita (ao menos o suficiente para manter na sua lista) e debater com essas pessoas. Não se trata de convencer — Saramago chama atenção para o fato de que “convencer é uma falta de respeito, uma tentativa de colonização do outro” —, mas de influenciar. No primeiro turno, votei em Luciana Genro amplamente influenciada por textões de Facebook de um amigo. No segundo turno, quase votei nulo por conta de textões de outra amiga (quando a urna me encarou nesta manhã de domingo, no entanto, bateu uma consciência de classe pequeno burguesa e os dedos, quase sozinhos, votaram no 13).

A ideia de que não é possível influenciar o outro está ligada ao quarto problema conceitual: o de que o voto é decidido no vácuo. Para essa concepção, o eleitor ideal é aquele que senta em uma tarde de domingo, analisa friamente as propostas de cada partido, faz um teste virtual que lhe diz qual o candidato mais alinhado às suas ideias, lê um relatório sobre desvios de conduta de cada indivíduo e define sua irrevogável posição. Esse eleitor ideal não se relaciona afetivamente com partidos, candidatos, com o noticiário e com os demais eleitores. Ele é senhor de seu voto, um sujeito sem história que chega de Marte às vésperas da eleição e faz escolhas baseadas em fatos.

Alguém observou no Twitter que durante as manifestações de junho do ano passado, o que mais se ouvia de gente pacata e ordeira era que “o nosso protesto faremos nas urnas”. Durante as manifestações anti-Copa, a mesma ladainha, “o nosso protesto faremos nas urnas”. Agora, nas eleições, o comentário dessas mesmas pessoas era de que não aguentavam mais gente chata falando de eleição. Rs. A pessoa, no caso, observou isso como um movimento contraditório. Eu vejo como uma radicalização do quanto determinados tipos encerram nossa encenação democrática à urna enquanto objeto físico. Para eles, nada de adesivos, panfletos, trânsito parado, nada de textão no Facebook. Democracia se faz com assepsia. E urnas, que curiosamente me lembram da morte.

PS: Sobre passeatas como forma de convencimento, o Alexandre Soares Silva tinha um texto maravilhoso dizendo que não entendia a passeata como argumento. Não encontrei, ele também não encontrou, mas era algo como: “Não compreendo a caminhada como forma de argumento. ‘Você não pensa como eu penso? Mas pô, eu tô andando!'”.