Teto solar

Uma das críticas mais frequentes ao cinema de denúncia social é a de que ele é didático. Em Dois dias, uma noite, no entanto, os irmãos Dardenne se atrevem a fazer um filme quase tão didático quanto as peças didáticas de Brecht e nenhuma crítica ousa acusá-los de didatismo como se isso fosse um defeito em si.

Dois dias, uma noite é didático porque precisa nos explicar muito lentamente o que há tempos esquecemos: que trabalhadores são pessoas; que pessoas são feitas de carne e osso; que por trás das embromações e tucanagens de nossos esquemas de trabalho impessoais e distanciados há vidas humanas e necessidades materiais.

No filme, Marion Cotillard é Sandra, uma operária que acabou de voltar ao trabalho após um período de afastamento por conta de uma depressão. Durante sua ausência, o dono da pequena fábrica de tetos solares onde ela trabalha descobre que os dezesseis funcionários que lhe restaram podem muito bem dar conta do serviço, ainda que todos estejam fazendo hora extra por isso. Ele decide então fazer uma votação para que os funcionários escolham se preferem ganhar um bônus e demitir a colega ou ficar com a colega e sem bônus. Ou seja: o patrão terceiriza para os trabalhadores o fardo da demissão. Não é ele quem demite, são os colegas.

A votação é feita pelas costas de Sandra e o chefe, Jean-Marc, diz a alguns operários que o patrão quer fazer cortes de todo modo e que se não for Sandra depois será um deles. Não surpreendentemente, o abono ganha por quatorze votos a dois e Sandra é demitida. Graças à pressão de uma colega, o patrão concorda em refazer a votação na segunda-feira e Sandra tem um fim de semana — dois dias e uma noite — para tentar reverter sua demissão. De novo, o patrão terceiriza o trabalho sujo: ele se coloca como o conciliador, o sujeito que deixa Sandra refazer sua votação, que respeita a “livre escolha” dos funcionários enquanto Jean-Marc, o chefe, tem que fazer lobbies e ameaças para garantir que o resultado da segunda votação seja o mesmo da primeira.

A estratégia de Sandra é personalizar as coisas, é retirar o véu de impessoalidade que permite que os colegas tomem decisões sem pensar nela. Ela tenta ir à casa de cada um dos dezesseis colegas repetir o mesmo argumento: “Eu sei que um bônus de mil euros é muito dinheiro, mas para mim é o meu emprego. Quero ficar com vocês, não sozinha, no desemprego”. A definição do desemprego como um estado de solidão é a mais tocante e precisa que já ouvi. O que Sandra tenta fazer nada mais é do que recordar os colegas de sua materialidade e de sua humanidade. “Eu não existo” é uma frase que ela repete algumas vezes.

O filme é quase que puramente descritivo — o que vemos é Sandra indo de casa em casa, parando para almoçar, para comprar uma água —, mas Foucault já disse que “a descrição não é reprodução, é decifração”. É através dessa repetição de gestos e falas que vamos problematizando o discurso de Sandra, as respostas dos colegas. Alguns são violentos, agressivos, a tratam como pedinte. Outros sentem culpa, pedem perdão. Uns tentam explicar que precisam do dinheiro, outros dizem que sabem que devem ajudá-la porque Deus disse que devem ajudar o próximo. Ela leva a discórdia por onde passa: causa brigas entre pais e filhos, marido e mulher. Uma das colegas acaba se separando do marido: uma vez que começamos a lutar contra uma opressão, é difícil nos submetermos às outras. Para vários dos colegas, o fim de semana significa um outro período de trabalho. Uns consertam coisas, outros lavam roupas, alguns fazem bicos para complementar a renda. A precarização é evidente na maior parte dos casos.

Ninguém levanta a possibilidade de uma greve. Ninguém ousa propor ter as duas coisa, o bônus e a colega de volta. Mesmo entre as pessoas que decidem ajudá-la, as coisas são colocadas antes como um gesto de solidariedade pessoal do que como um ato político de solidariedade de classe. Diferentemente do que ocorre em As neves do Kilimanjaro — outro filme mais ou menos recente que retrata um grupo de trabalhadores tendo que decidir a demissão de um deles — não há um sindicato, um discurso coletivista, os colegas não criam laços entre si. Os trabalhadores são divididos internamente: há os funcionários de fato e os temporários.

No fim, a votação é refeita numa cena em que todos estão uniformizados e apenas Sandra está apartada, num prenúncio de solidão que assume a forma de uma blusinha cor-de-rosa. O resultado é um empate técnico, mas empate aqui significa vitória do patrão. Jean-Marc pergunta se ela está satisfeita por ter dividido a equipe e causado desconforto. Num último gesto de generosidade, o patrão chama Sandra, parabeniza-a por ter conseguido tantos votos e diz que não quer causar um mal-estar na equipe, por isso decidiu dar o bônus e readmiti-la. A readmissão, no entanto, só será feita dali a dois meses, quando o contrato de um dos temporários vencer. Até lá, ela estará “tecnicamente desempregada”. Sandra se nega a tomar a vaga de um colega. O patrão diz que ele não será demitido, o contrato apenas não será renovado. Ela diz que é a mesma coisa e vai embora, encarar um desemprego que agora talvez seja menos solitário.

O sindicato que me representa se intitula “sindicato dos jornalistas profissionais”, marcando uma divisão artificial entre o que eles chamam de jornalistas profissionais (isto é, graduados em jornalismo), e a massa identificada como o câncer da profissão (isto é, gente como eu, que se formou em outras coisas ou sequer pisou na universidade, mas que ganha a vida como jornalista). Enquanto as grandes redações do país demitem cerca de 20% dos trabalhadores ao ano, enquanto frila, frila fixo, pjotinha, gratificação por fora, contrato temporário, passaralho e terceirização fazem parte do vocabulário de todo repórter, enquanto é cada vez mais difícil encontrar um jornalista com mais de 50 anos numa redação; o sindicato avalia que o alvo de suas campanhas deve ser a obrigatoriedade do diploma. Em vez de, vamos supor, organizar todos os jornalistas que trabalharam como PJ e frila fixo nos últimos cinco anos e entrar com um processo coletivo histórico contra os patrões, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais se limita a imprimir cartazes cafonas com mãozinhas agarradas a diplomas.

Em profissões similares à minha — redatores, revisores, tradutores, publicitários — o trabalho se torna cada vez mais abstrato, cheio de nuances e eufemismos. As pessoas nunca são desempregadas, são frila; nunca são empregadas, são colaboradoras; nunca são demitidas, os contratos é que vencem. Michael Pollan costuma dizer que comida boa é aquela que a sua avó é capaz de entender como comida. Para mim, emprego bom é aquele que a sua avó consegue entender como emprego, sem grande malabarismo retórico para explicar. Acompanhar Sandra por dois dias e uma noite é doloroso porque nos lembra de nossa materialidade em oposição a um mundo do trabalho fantasmagórico, nos lembra que ela existe e que nós existimos.

17 comentários sobre “Teto solar

  1. Boa análise, bom link final.
    Não sabia – e sou cinéfila de carteirinha – que existe um filme recente chamado As Neves do Klimanjaro, de temática similar.
    As Neves do Klimanjaro que conheço é um água-com-açúcar de 1952.

  2. Ainda que a personagem Sandra demonstre uma esperança neste mundo selvagem, uma luz no fim do túnel, o que se nota, seja na Europa, seja no universo dos jornalistas, é o famoso salve-se quem puder, o barco está afundando.

  3. É isso aí. O filme é bem pé-no-chão, e acho que essa é a sua maior qualidade. O máximo a que a Sandra podia apelar era a uma espécie de solidariedade cristã (depois de comparar quem precisava mais, acabava o papo), pois solidariedade de classe, nem pensar. Estava-se (e estamos) muito aquém disso.

    Só acrescentaria que no final pareceu-me que ela recusou a oferta do patrão porque aprendeu alguma coisa naquele final de semana. Se foi isso mesmo, gostaria que isso tivesse ficado mais claro. Isso faria dele um filme melhor. Afinal, seria o máximo de final feliz que o seu pé-no-chãonismo permitiria: um pequeno avanço na consciência individual.

  4. Ainda não ao filme, então vou comentar sobre o que conheço melhor – o Sindicato dos Jornalistas de SP.
    Uma das situações em que me senti mais envergonhada de ser jornalista sindicalizada foi quando um repórter e dono de jornal foi assassinado em Porto Feliz (não me lembro muito bem dos detalhes) por denunciar uma rede de prostituição local que envolvia crianças e poderosos da cidade, e o Sindicato soltou uma nota pública repudiando o ato, mas lembrando também que não podia fazer muita coisa pelo morto, pois ele não era sindicalizado e, portanto, exercia a profissão ilegalmente. Juro, eu tenho isso guardado no meu email.
    Enfim, longe de mim querer fazer campanha na sua caixa de comentários, mas acompanho essa entidade já faz um tempo e sei que tem gente tentando mudar um pouco o rumo das coisas mas próximas eleições. Pelo menos é um grupo que pretende debater e enfrentar as questões reais/ relevantes que envolvem ser jornalista hoje.

  5. A autora desconsidera o link existente entre a excessiva profusão de “direitos trabalhistas” e poder sindical com essa despersonalização dos trabalhadores?

    Me parece que o coletivismo presente em qualquer “consciência de classe”, por si anula a importância (das personalidades) dos indivíduos que formam determinado grupo. Logo após sua descrição da história, você aponta seu exemplo pessoal com o sindicato dos jornalistas, como exceção e não regra ao distinguir os “profissionais” do “câncer”, que provavelmente são câncer por incorrerem em “concorrência desleal” com estes primeiros… ou qualquer outro ato egoísta, individualista, mesquinho, de quem quis ganhar a vida atuando no mesmo mercado que eles mas, por qualquer razão, não seguiu antes o laborioso caminho das que os pares “profissionais” seguiram.

    No tempo das nossas avós, sem tantas barreiras de “proteção” profissional, que tornam hoje a contratação uma atividade especializadíssima e impessoal de RH, pessoas eram introduzidas no mercado de trabalho de modo muito mais direto. Conheço histórias com exemplos de gente que começou a trabalhar em industrias sem nem mesmo completar a educação básica. Isso é impensável hoje. Se tiver interesse sobre outras realidades de relação de trabalho, sugiro pesquisar Suíça e Hong Kong.

  6. Sobre o filme não posso comentar, que eu não vi. Mas sobre a precarização do trabalho é bem isso mesmo. Também não me sinto representado pelo meu sindicato (dos professores), que se preocupa com tudo, menos com as coisas importantes.
    Tem um documentário do Milton Santos sobre globalização em que ele mostra como hoje em dia se discute a economia (mias ou menos inflação, etc) mas não se discute a sociedade que queremos formar, fazer parte. A terceirização é sempre defendida como a saída viável para as empresas, mas nem sempre é assim. No mesmo documentário que citei, ele mostra que a Nike, na Indonésia, controla o horário de seus funcionário em décimos de segundo. Esse e tantos outros exemplos mostram mesmo que a questão da precarização do trabalho deveria ser discutida em sociedade.

  7. Olá, Juliana.
    É curiosa a observação logo no início de sua análise, atentando para o didatismo que os diretores decidiram imprimir a narrativa. Mais curioso ainda é que mesmo levando em conta esse detalhe e somando isso ao fato de que as situações retratadas têm a intenção de se relacionar com o que ocorre na realidade, o filme acaba muitas vezes se distanciando de situações que de fato nos pareçam reais. Em minha opinião, isso decepciona. Eduardo Escorel, colaborador do site e da revista Piauí, ao analisar o filme observa isso, e pergunta logo no início da crítica: “A Bélgica está neste planeta? E os irmãos Dardenne, são deste mundo?”. Tendo a concordar com a opinião apresentada por ele, apesar de encontrar pontos positivos além da atuação da Marion Cotillard no filme. O melhor do que li aqui está sem dúvida ligado ao seu comentário oportuno sobre a situação de falta de representatividade por parte das pessoas que ganham a vida como jornalistas. Isso sim é bem concreto.

  8. Hum, aparentemente o Eduardo Scorel chama de “demonstração de altruísmo inconcebível” aquilo que eu chamo de “solidariedade de classe”.

  9. Sim, você apontou um aspecto da crítica do Escorel que com certeza se choca com um dos pilares da sua argumentação. Mas o que me chamou a atenção no texto dele foi a percepção de que várias situações a que Sandra é submetida para sustentar a história, podem levar o filme a perder um pouco do brilho que teria se fosse um pouco mais, digamos, realista. De qualquer forma, gostei de encontrar uma análise que foi além do que se viu na tela, e por isso, mesmo não tendo me empolgado muito com o filme, resolvi comentar aqui.

  10. Juro que só li o texto do Escorel agora, então fico feliz de ver que ele destacou os mesmos dois pontos que eu apontei no meu comentário acima (“solidariedade cristã” e aprendizado final mal explicado). Só que discordo do que ele fala sobre o primeiro ponto (sobre o segundo, não).

    Falei em “solidariedade cristã” como ironia, ele como deboche. O meu alvo era a religião cristã, o dele o filme. Na superfície, acho que o paralelo que nos motivou pode ter sido o mesmo: o cristão faz o bem porque isso é um valor em si, não que haja um motivo racional para isso. Eu ainda coloquei uma ressalva: não há sacrifício, ajuda-se se for possível (perceba que exceto o rapaz que o faz por gratidão – aquele que chora no campo de futebol – todos os outros mudam o seu voto porque não têm muito a perder – ou até têm a ganhar, como a mulher que se separa do marido).

    E o filme reconhece isso. Basicamente, não há esperanças para a Sandra. Ela diz isso em vários momentos. O filme assume isso. Há, talvez, as exceções do marido dela e da amiga que começa tudo, mas acho que é possível dizer que “o filme” assume que é uma busca sem esperança. E esse é, literalmente, o drama dele (acho que eu só concordaria que o filme é inverossímil se ela conseguisse reverter a votação).

    De qualquer forma, na real, não acho que a solidariedade cristã possa ser um argumento sério para se analisar a história, pois em nenhum momento o filme envolve na questão argumentos religiosos. Objetivamente falando, não creio que seja possível indicar um momento em que se fale de religião (se há, é tão secundário, que não me lembro).

    Por outro lado, admito que a questão de classes também não está explicitamente colocada. No máximo isso ocorre nos momentos em que Sandra diz que não foi ela quem criou a situação, ao que os colegas respondem que também não foram eles. E fica nisso. Uma classe só se reconhece em oposição a outra, e isso não aparece na história. Talvez se resvale no tema, mas não passa disso.

    Mas concordo com a Juliana, quando ela diz que chama de “solidariedade de classe” o que o Escorel chama de “altruísmo inconcebível”. Um não faz sentido mesmo, estão no máximo no campo religioso, mas o outro é talvez a única solução possível para o drama da Sandra. Taí: talvez essa seja a porta de entrada da questão de classes no filme, como solução possível para um problema que se apresenta como insolúvel.

    Enfim. Não quero, depois do “textão de Facebook”, inaugurar a modalidade “textão da caixa de comentários do Nonada”. Só acrescento que esse texto do Escorel me lembrou aquela frase que diz que a arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados. Parece-me que o Escorel se perturbou por alguém sugerir que o individualismo e a concorrência que ele parece dar como naturais, não só podem como devem ser combatidas.

  11. Um dos personagens fala em Deus, sim, aquele temporário que ela encontra na lavanderia. Alguns outros não falam, mas agem com essa visão cristã, como aquele que pede perdão no campo de futebol.

    Acho que o filme aponta para a falta de organização e de consciência de classe dos personagens. Quando, por exemplo, ela diz que não é culpa dela e eles dizem que não é culpa deles, a gente é convidado a pensar de quem é a culpa.

    No mais, podemos instituir o textão de caixa de comentários.

  12. É verdade, tem o rapaz da lavanderia. O do futebol não sei, teria que ver de novo (acho que sua motivação foi que ela já havia mentido por ele).

    Mas acho muito pouco. Dois personagens (secundários) em vinte. É como os diálogos do “não é minha culpa”, “nem minha”. Tem o mesmo peso do momento em que o chefe diz que a culpa é da concorrência chinesa. Pode-se apoiar em cada um desses pontos, com o mesmo peso, dependendo das crenças prévias do espectador. O filme, mesmo, não assume nada. A chave, creio, estaria no aprendizado final dela, que não foi explicitado. Ela aprendeu que se deve ter Deus no coração? Que se deve ter solidariedade de classe? Que a livre concorrência meritocrática seleciona os mais aptos?

    Acho que descrição como decifração pode valer para textos acadêmicos, mas prefiro que a arte, por meio da reprodução da vida, indique o sentido do que reproduz. Senti falta disso no filme: tomar partido. Achei que faltou didática, se me permite.

    Mas ainda é um filme muito bom, considerando a média do que temos por aí. Na mesma época assisti Relatos Selvagens e Birdman, e isso ficou chocantemente claro.

  13. Só completando: como o filme não indica o motivo pelo qual seus colegas deveriam ajudar Sandra, abre espaço para a piadinha preconceituosa da solidariedade cristã. O Escorel também vai nessa: que mundo é esse em que se espera que as pessoas se sacrifiquem a troco de nada? Nenhum. Acho que nem o do filme. Mas concordo que ele não diz qual é o seu mundo.

  14. Nossa, fiquei pensando no terror que deve ser declarar imposto de renda sendo jornalista. Eu tenho só uma fonte pagadora, vou parar de reclamar para declarar meu IR.

  15. O texto me lembrou de Deleuze & Guatarri, fomos transformados em corpos com órgãos, maquinizados, com os desejos canalizados à produção.
    A ideia do filme é semelhante a resposta dada por Deleuze e Guatarri, de sermos corpos sem(!) órgãos, buscando intensidade, humanidade, contra a instrumentalização do corpo.
    Ótima análise!

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